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Desnaturalizando o conceito de Juventude através dos tempos

Débora Augustin, Gabriela Geara, Helena Kessler e Rosane Castro

 

De início, é importante se entender a diferença entre adolescência e juventude; já que ambas são freqüentemente confundidas, quando não são usadas erroneamente como sinônimos. Segundo Coimbra (2005), “a noção de adolescência emerge vinculada à lógica desenvolvimentista, sendo uma etapa do desenvolvimento que todos passariam obrigatório e similarmente.” A adolescência é uma fase que se caracteriza por apresentar questões que lhes são típicas e pelas quais a maioria dos indivíduos se vê refletindo sobre como, por exemplo, a formação de uma identidade que lhe seja própria e estável, a escolha da sua carreira profissional, o seu posicionamento diante de sua sexualidade e os conflitos naturais que surgem com os pais diante dos desejos de independência – tanto financeira como em relação a poder ter suas próprias idéias. Logo, podemos perceber que “a adolescência surge como um objeto exacerbado por uma série de atributos psicologizantes e biologizantes” (Coimbra, 2005). Isso acontece porque as mudanças que surgem nesse período estão diretamente relacionadas à chegada da puberdade e às suas conseqüências; o que desencadeia processos de construção de uma nova auto-imagem e identidade.
O mesmo autor nos faz pensar na juventude como um conceito que pode ser visto como uma construção social, assim como pode também ser capturado e instituído. Dessa forma, ele introduz que “o conceito de juventude nos faz pensar no sujeito como um ser constituído e atravessado por fluxos, devires, multiplicidades e diferenças” (Coimbra, 2005).
Relacionando-se adolescência e juventude, as diferenças ficam bem claras. Segundo Janice Sousa (2006), “o jovem se dimensiona individualmente e sob a influência de aspectos psicossociais, num percurso de (in)definições: busca identitária, tendência de estar em grupo, deslocamento constante de situações e vínculos, atitude  de contestação e insatisfações sociais, intelectualização dos fatos, mudanças de humor, separação do universo familiar, questionamento dos valores sociais, fatores que se desenvolvem em pleno vigor na adolescência.” Dessa maneira, entende-se que as características da juventude são exatamente as indefinições que quem está passando por ela vivencia. À medida que alguns desses fatores vão sendo superados, “a continuidade das (in)definições se mantém como crise e conflitualidades provocadas na debilidade dos rituais de passagem, no descrédito dos lugares institucionais tradicionais que tornam mais difíceis as escolhas e definições dos jovens diante dos papéis a serem assumidos como projeto de vida adulta; diante das desigualdades sociais e das violências que, para muitos, estão presentes em suas próprias vidas; nas dificuldades no ingresso no mercado de trabalho”(Sousa, 2006). Neste segundo momento, já se percebe que as indefinições da adolescência vão ficando, cada vez mais, atravessadas por questões sociais; perdendo, gradativamente, o seu caráter mais individualista e pessoal. Porém, vale ressaltar que, se esses aspectos conceituam as juventudes, por outro lado, eles não permitem homogeneizá-las. Já que tudo deve ser analisado considerando-se um contexto social e um momento histórico.
De maneira resumida, pode-se considerar que “ser jovem é viver um ‘contato original’ com a herança social e cultural, constituído não apenas por uma mudança social, mas por fatores biológicos” (Sousa, 2006). Sendo assim, a experiência dos jovens é o fator propulsor da dinâmica da sociedade. E, muitas vezes, é o canal de introdução de mudanças na sociedade. As pessoas que se encontram vivendo a sua juventude são aquelas que movimentam novas idéias no meio em que vivem. São os jovens que, por terem acesso às experiências dos seus antecessores e por terem a disponibilidade de uma vida inteira pela frente, podem aproveitar o conhecimento que existe sem o peso da responsabilidade sobre a construção que foi feita do mesmo e, a partir dele, introduzir novidades no seu ambiente.
Como tema de interesse dos grupos de universitários de diferentes áreas, o estudo da juventude adquiriu fôlego após o final dos anos 80. No Brasil, somente no final dos anos 90, os jovens passaram a ser um alvo importante das políticas públicas. E é através do histórico das políticas públicas para a juventude que podemos perceber como esse conceito foi mudando prática e teoricamente.
É, no final do século XIX, que surgem as primeiras ações públicas destinadas a crianças e adolescentes, com foco no atendimento de órfãos. Em seguida, a atenção foi dada a crianças desamparadas, para que se integrassem ao mercado de trabalho evitando a sua desocupação. Se, até os anos 30, a abordagem predominante – ou mesmo exclusiva –voltava-se à infância e à adolescência, na década de 40, os jovens passaram a ser objeto de atenção, como resultado das exigências do mercado quanto à formação e qualificação da força de trabalho. É nessa época que se cria o Serviço de Assistência ao Menor (SAM), o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), o Serviço Social da Indústria (Sesi) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). O objetivo era então o de capacitar os jovens para o seu ingresso no mercado de trabalho. Com o fim da II Guerra Mundial, surgiu a necessidade de Direitos Humanos. A partir de então, iniciou-se um processo de reconhecimento dos direitos de crianças e adolescentes, que permaneceu interrompido durante a ditadura militar brasileira. Com o fim desse regime, voltou-se a pensar na situação do menor. Na década de 90, a criança e o adolescente passaram a ser vistos como sujeitos de direito – o que levou a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Atualmente, as políticas públicas se dividem entre as que visam encaminhar os jovens para o mercado de trabalho e as que visam recuperá-los (defasagem de conduta e da educação) para inseri-los no mercado de trabalho.
É interessante se pensar que “as juventudes não são suscetíveis de comparação, pois, ao viverem em épocas históricas diferentes, têm definidos seus conflitos e vivência social de maneira também diferente” (Sousa, 2006). Porém, ao contrário do que comumente se pensa, a falta de experiência dos jovens significa um alívio do fardo para os jovens; pois facilita a vida deles no momento de transformação. É no período da juventude que as forças formativas estão começando a existir e, por isso mesmo, se pode aproveitar mais facilmente o poder modelador de situações novas. Sendo assim, o jovem é aquele que pode aproveitar o conhecimento já adquirido pelos seus antecessores sem as marcas que essas aquisição e construção de saber trouxeram. Dessa forma, o jovem fica mais livre para ter idéias novas e melhores que as anteriores. Por isso, que o jovem é considerado o fator de introdução de mudanças na sociedade.
A juventude no Brasil está dividida em duas fatias: a fatia em condição social de extrema carência (os excluídos) e a fatia em condição social favorável (os incluídos). O referencial normatizador da juventude é o consumo. Esse é o critério que determina se a pessoa vai se enquadrar no grupo dos excluídos ou dos incluídos. Embora o jovem seja considerado, pela publicidade, um alvo em potencial para o consumo, o Estado não consegue fazer com que essa posição de consumidor se concretize. Como conseqüência disso, vemos a marginalização e a criminalidade. E para os que não fazem mais parte da juventude, resta o olhar nostálgico sobre ela. É então que, através da lógica de mercado, busca-se recuperar a juventude num processo de identificação com os valores dos jovens.
Comumente, surge um conflito entre as diferentes gerações. Afinal, da mesma maneira que os velhos têm interesse em remeter os jovens a sua juventude, os jovens também têm interesse em remeter os velhos a sua velhice. Há períodos em que se intensifica a procura do "novo", pela qual os "recém-chegados" (que são também, quase sempre, os mais jovens biologicamente) empurram os "já chegados" para o passado, para o ultrapassado, para a morte social ("ele está acabado"). Estamos aqui, no auge da luta entre as gerações; pois, é nesse momento que as trajetórias de ambos se chocam: quando os jovens aspiram "cedo demais" à sucessão. Essa fronteira entre juventude e velhice é muito relativa, sendo construída socialmente na luta entre jovens e velhos; já que as relações entre idade social e idade biológica são complexas e o número de anos que uma pessoa já viveu tem um significado que lhe é próprio.
No campo de trabalho, é comum encontrar dois estados do sistema escolar em confronto no mercado de trabalho. Enquanto os velhos têm mais experiência, os jovens estão chegando com mais títulos. Essa tensão cria, freqüentemente, uma situação desfavorável ao jovem que, mesmo bem qualificado, sente que não é bem-vindo no seu local de trabalho ou até mesmo quando está buscando um emprego.
Outra questão sobre a inserção do jovem no mercado de trabalho é o status que isso lhe traz. “Ainda hoje uma das razões pelas quais os adolescentes das classes populares querem abandonar a escola e começar a trabalhar muito cedo, é o desejo de ascender o mais rapidamente possível ao estatuto de adulto e às capacidades econômicas que lhes são associadas: ter dinheiro é muito importante para se afirmar em relação aos colegas, em relação às meninas, para poder sair com os colegas e com as meninas, portanto para ser reconhecido e se reconhecer como um ‘homem’.” (Bourdieu, 1983). Isso só vem confirmar o que já foi dito anteriormente: o referencial normatizador dos jovens é, realmente, o consumo.

Para finalizar, vale aprofundar a questão da idade; pois, vista como um dado biológico, ela é socialmente manipulada e manipulável. Isso acontece de maneira discreta, mas “o fato de falar dos jovens como se fossem uma unidade social, um grupo constituído, dotado de interesses comuns, e relacionar estes interesses a uma idade definida biologicamente já constitui uma manipulação evidente.” (Bourdieu, 1983). Hoje é um grande elogio ouvir que ‘você tem 80 anos, mas tem um corpinho de 65 anos’. Porém, o que importa, na verdade, é que se viva bem a idade que se tem. Como Jonathan Swif diz: “Todo mundo quer viver muito tempo, mas ninguém quer ser velho”. A sutileza com que a manipulação da idade é feita socialmente não diminui a sua força e é preciso se estar atento a ela [a manipulação].

Referências:

BELLUZZO, L.; VICTORINO, R. (2004). A juventude nos caminhos da ação pública. São Paulo Perspec., São Paulo: vol. 18, n. 4 (pp. 8-19).

BOURDIEU, P.(1983) A “juventude” é apenas uma palavra! Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero. (pp. 112-121).

COIMBRA, C.; BOCCO, F.; NASCIMENTO, M. (2005). Subvertendo o conceito de adolescência. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 57, n. 1,(pp. 2-11).

Consumo. (2007, Novembro 5). Wikipédia, a enciclopédia livre.http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Consumo&oldid=8182281.

GOUVEIA, V., SINGELIS, T. e COELHO, J. (2002). Escala de Auto-Imagem: comprovação da sua estrutura fatorial. Aval. psicol. vol.1, n.1, (pp.49-59)

SOUSA, J. (2006) Apresentação do Dossiê: A sociedade vista pelas gerações. Política & Sociedade: Revista de Sociologia Política, Florianópolis: v. 5 n. 8. (pp. 9-30).

Zourabichvili, F. (2004). O Vocabulário de Deleuze. Versão eletrônica. Rio de Janeiro. (pp. 24).