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Daniela de Lemos, Fernanda Palhares, João Paulo Pinheiro e Thaís Landenberger

 

 

Velhice

O envelhecimento populacional é um fenômeno novo na humanidade. Devido ao declínio da mortalidade, diminuição da natalidade, vacinações sistemáticas, saneamento básico e, principalmente, aos avanços da medicina as pessoas estão vivendo cada vez mais.
Através de todo o mundo, hoje, os velhos são a parcela da população que mais cresce. No Brasil, a década de 70 caracterizou-se pelo “boom” da velhice. A população com mais de 60 anos passou de 4,7 milhões (5% do total) em 1970 para 19 milhoes (10%) hoje. E a ONU estima  que esses número continue aumentando consideravelmente nos próximos 50 anos. Em 2050, um em cada quatro brasileiros será idoso. (Ver gráficos 1 e 2)
Enquanto atingir a terceira idade era proeza, até meio século atrás, quando a expectativa de vida beirava os 50 anos, hoje é cada vez maior o número de pessoas com 80, 90, 100 anos. Os centenários quase dobraram no Brasil em uma dácada. E já se fala de uma Quarta Idade! (Ver gráfico 3)

Mas quem é o velho?

Idoso, em termos estritos, é aquele que tem “muita idade”.
Uma das consequências do uso da idade para a definição de idoso é o poder prescritivo contido nessa definição. A sociedade cria expectativas em relação aos papéis sociais daqueles com status de idoso e exerce diversas formas de coerção para que este papéis se cumpram, independente de características particulares do indivíduos.
Novas terminologias e novos conceitos vêm surgindo para classificar os indivíduos em idade mais avançada. A distinção, por exemplo, entre terceira e quarta idades é uma tentativa de ajustar esquemas classificatórios a circunstâncias culturais, psicológicas e ideológicas particulares das sociedades ocidentais hoje.
Alguns elementos, como uma cultura da saúde apoiada por desenvolvimentos tecnológicos na medicina preventiva e curativa e nos hábitos de vida da população, mecanismos de assistência do estado de bem-estar e modificação nos processos de produção que permitem a incorporação de determinados tipos de trabalhador, criaram as condições de surgimento e expansão de uma terceira idade que não tem uma saúde debilitada nem sofre um processo de pauperização característicos da idade.
Esse fenômeno, com a inclusão de indivíduos considerados idosos em diversas esferas da vida social, provocou verdadeira revolução no curso de vida das pessoas redefinindo relações de gênero, arranjos e responsabilidades familiares e alterando o perfil das políticas públicas.
Esta nova realidade tem afetado a sociedade de uma maneira jamais vista antes. Sem dúvida, um dos maiores feitos da humanidade foi a ampliação do tempo de vida, que se fez acompanhar de uma melhora substancial dos parâmetros de saúde das populações, ainda que estas conquistas estejam longe de se distribuir de forma eqüitativa nos diferentes países e contextos sócio-econômicos. O que era antes o privilégio de poucos, chegar à velhice, hoje passa a ser a norma mesmo nos países mais pobres. Esta conquista maior do século XX se transforma, no entanto, em um grande desafio para o século que se inicia.

A História da Velhice

            A velhice sempre tem acompanhado a humanidade como uma etapa inevitável de decadência, declinação e antecessora da morte. A palavra velhice é carregada de significados como inquietude, fragilidade, angústia. O envelhecimento é um processo que está rodeado de muitas concepções  falsas, temores, crenças e mitos. A imagem que se tem da velhice mediante diversas fontes históricas, varia de cultura em cultura, de tempo em tempo e de lugar em lugar. Esta imagem reafirma que não existe uma concepção única ou definitiva da velhice mas sim concepções incertas, opostas e variadas através da história.
            O estudo da visão que a sociedade tem das pessoas velhas remonta aos tempos dos Babilônios, Hebreus e da Grécia Antiga. Ao longo da história há grande importância dada para problemas básicos inerentes à velhice, vantagens e inconvenientes inerentes a mesma e como fazer para impedir o processo de envelhecimento.  Para os Babilônios a imortalidade e formas de como conservar a juventude estiveram muito  presentes. A Grécia Clássica relegava os velhos a um lugar subalterno e a beleza, a força e a juventude eram enaltecidas como se evidenciava para alguns filósofos gregos. Porém, Platão trouxe uma nova visão onde a velhice conduziria a uma melhor harmonia, prudência, sensatez, astúcia e juízo.
            Na sociedade romana os anciões tinham uma posição privilegiada. O direito romano concedia a autoridade de pater familias aos anciões. Quanto mais poderes lhes eram concedidos, mais a ira de novas gerações se voltava contra os velhos. A República Romana também conferia cargos importantes no senado aos anciões como “patrícios”. A imagem negativa da velhice foi combatida por Sêneca mas foi em Cícero,  com sua obra "A Senectude" que a velhice encontrou seu maior defensor.
            Em sociedades antigas o ancião era visto com uma aura de privilégio sobrenatural que lhe concedia uma vida longeva e como resultado, este ocupava um lugar primordial, onde a longevidade se associava com a sabedoria e a experiência. Assim era nas sociedades orientais, principalmente na China e Japão.
            Nas culturas Incas e Aztecas, a população anciã era tratada com muita consideração. A atenção a esta população era vista como responsabilidade pública.
            Os antigos Hebreus também se destacavam pela importância que davam a seus anciões, que, em épocas de nomadismo eram considerados os chefes naturais dos povos que eram consultados quando necessário. Na cultura hebraica encontramos Matusalém que era considerado como se tivesse vivido 969 anos.
            Uma vida longa era vista mais como uma benção do que como uma carga, e esta benção é vista nos patriarcas bíblicos.
            Com a queda do Império Romano os anciões também foram perdendo seu lugar de destaque na sociedade, mais uma vez se tornaram vítimas da superioridade juvenil. No sistema de estratificação por idade de cada sociedade estava implícito o fato de que a idade era um determinante básico do que os indivíduos podiam e deviam fazer.
            Em termos gerais, a etapa do Cristianismo expôs uma visão negativa da velhice. Este tema deixou de interessar aos escritores cristãos que mencionavam a velhice com relação a moral e a associavam com decrepitude, feiúra e pecado. (ver Santo Agostinho).
            O século VI identificou a velhice com a cessação da atividade, iniciando ali a concepção moderna de isolamento dos velhos em retiros. Por outro lado, o homem medieval temia e buscava os meios de escapar da velhice, seja por meio da fantasia, seja por meio da ciência. Nos períodos do Renascimento e do Barroco persistiu a idéia da inevitável decrepitude e do caráter melancólico da velhice. A crença de que o diabo movia a fantasia por humores  justificou a perseguição e execução de milhares de mulheres anciãs, conhecida como a caça às bruxas. A Idade Média se caracterizou também pela época dos mais fortes e dos poderios militares, o que colocava os anciões como submetidos aos mais fortes e formavam parte da população escrava e servil.
            Durante os séculos XIV e XV, a peste e a cólera foram seletivas deixando um saldo de milhares de mortos e uma grande população velha que havia sobrevivido às pestes. Este fato trouxe como conseqüência o fortalecimento do poder das pessoas de mais idade e um aumento do conflito entre as gerações que havia diminuído ao final do Império Romano. As pessoas velhas começaram a ser ridicularizadas em ambientes públicos. A literatura e a arte se uniram para ridicularizar os anciões a despeito de grandes expoentes de idade avançada que realizaram suas obras neste período como Leonardo Da Vinci e Michelângelo. Apesar da presença artística o velho continuava tendo pouca importância social e se encontrava em uma situação precária e ambígua.
            O século XVI se caracterizou por uma violência e um ataque contra a velhice, como conseqüência da adoração e culto da beleza e juventude. Willian Shakespeare personificou vários aspectos da velhice, como em “Rei Lear”. Erasmo de Roterdâ, em sua obra “Elogio da Loucura” concebia  a velhice como uma carga e a morte como necessária. Ele considerava que a loucura era o único remédio contra a velhice.
            O pensamento científico que caracterizou os séculos XVI e XVII introduziu novas formas de pensar que enfatizavam a observação, experimentação e verificação, podendo-se então, descobrir as causas da velhice mediante um estudo sintomático. Ainda assim prevalecia a ambivalência em relação à velhice.
            Durante os séculos XVII e XVIII foram feitos muitos avanços no campo da fisiologia, anatomia, patologia. As transformações que ocorreram na Europa nos séculos XVIII e XIX refletiram em uma mudança na população anciã. O número de pessoas em idade avançada aumentou e os avanços da ciência permitiram descartar vários mitos acerca da velhice. Contudo, a situação dos velhos não melhorou. O surgimento da Revolução Industrial e do urbanismo foram derradeiros para os anciões que, sem poder trabalhar, foram reduzidos à miséria.
            No final do século XIX os avanços da medicina propiciaram a divisão de velhice e enfermidade e no século XX surgem a gerontologia e a geriatria como disciplinas formais.
Os mitos que permanecem a respeito da velhice, prejudicam o bom envelhecimento e dificultam uma inserção dos velhos na sociedade.
            O que se percebe são ciclos que ocorrem ao longo da história. Períodos em que os  idosos são valorizados são seguidos por crises entre jovens e velhos e posterior desvalorização do ancião. Hoje, para uma parcela economicamente ativa da população idosa, existe um movimento de valorização, pois esta população está impulsionando mercados como o de turismo e serviços para a terceira idade.
            Os meios de comunicação, da forma como estão hoje inseridos em nossa vida, também têm um papel importante na construção desta terceira idade. A televisão e o cinema, particularmente, possuem um grande potencial para influenciar nos conceitos acerca da velhice. As parcelas da população mais influenciáveis são as crianças e jovens. Estes meios funcionam como um espelho da sociedade e contribuem para estabelecer ou validar modelos de comportamento. Porém o número de pessoas idosas que aparecem nos programas ou filmes não corresponde a realidade encontrada na sociedade. Neste caso a mensagem que pode estar sendo passada é de que o velho não é importante. Os estereótipos negativos também são muito explorados.
            No início da década de 90 ocorreu uma leve mudança na visão negativa da velhice em programas e filmes como “Assassinato por escrito”, “Cocoon” e “Conduzindo miss Daisy” e o surgimento de idosos como mercado consumidor pode ainda alterar mais este quadro.
            A imagem passada pelos meios de comunicação afeta também a auto-estima dos idosos. A validação social é crucial para o desenvolvimento de todas as pessoas e os anciões não são diferentes. Faz-se necessário uma conscientização da importância desses meios na constituição da velhice. Assim podemos começar a mudar a visão que nossa sociedade possui do que é ser velho hoje em dia.

Os Mitos Sobre a Velhice

            Vários mitos até hoje cercam a condição da velhice. Dentre eles:

          O Mito da Senilidade"

          O Mito do Isolamento Social,

          O Mito da Inutilidade

          O Mito da Pouca Criatividade e da Capacidade Para Aprender.

          O Mito da Assexualidade

 

Inserção do Idoso na Família

Parte do cuidado com os idosos recai sobre a família, principalmente, se se leva em consideração o quadro de diminuição dos recursos do Estado, da desmontagem do sistema de proteção social e das dificuldades de emprego. Esta carga é reforçada pela queda da fecundidade e a maior participação das mulheres no mercado de trabalho.
         A transformação das famílias patriarcais em famílias nucleares provocou alterações consideráveis na vida do idoso. Além disso, as mudanças havidas nas gerações de jovens e adultos, principalmente em termos de educação, renda, estrutura ocupacional, estilo e qualidade de vida se traduzem em modelos diferentes de velhice.
Além do número cada vez menor de filhos que possam ampará-los nos anos de debilidade (ver gráfico 4), grande parte das pessoas dessa família nuclear trabalha e/ou estuda fora de casa, tornando-se impossível “cuidar” de um velho que não seja independente. Diante dessa realidade, o idoso cada vez mais se vê na posição de buscar não ser um “fardo” na vida da família. Muitos optam por si mesmos a mudar para clinicas e lares geriátricos. Amparar esses idosos é um dos desafios da nova sociedade.
Por outro lado, vê-se, desde os anos 80, um despertar do velho brasileiro para seu o seu valor como pessoa. Há milhares engajado socialmente, participando de programas de políticas publicas ou privadas, seja em grupos de convivência, Universidades da Terceira Idade, centros sociais, obras filantrópicas, atividades artísticas, sócias, religiosas, congressos, seminários, debates, etc. Demonstram segurança pessoal, cuidam do seu corpo e de sua mente. Buscam o equilíbrio afetivo e emocional; namoram, casam de novo, trocam de parceiros. Vivem intensamente o seu hoje.

Aposentadoria

É crescente a proporção de famílias que têm idosos como chefes e filhos morando junto, o que pode ser efeito da crise econômica que leva os filhos a saírem de casa mais tarde e/ou retornarem depois de casados, estejam separados ou não. Há indicações de que, em média, o idoso está em melhor condição financeira do que o jovem. A renda média dos maiores de 60 anos é maior que a daqueles com menos de 30 anos. Além disso, a proporção de chefes idosos que moram em casa própria é mais elevada do que a dos jovens.
Segundo dados de 2005, 65,4% dos idosos brasileiros são chefes e sustentam as famílias. Embora, as pensões de aposentadoria pagas pelo INSS na sua grande maioria são insuficientes para cobrir as necessidades básicas do aposentado, essa renda regular concedida a quem nunca teve isso está mantendo o núcleo familiar do idoso. O salário mínimo mensal concede poder econômico e respeito familiar inéditos a idosos que atravessaram a vida sem saber o que é estabilidade.
No Brasil o pagamento de aposentadorias e pensões para o setor público e privado absorve 12% do PIB nacional, segundo estudo do IPEA.
Muitos aposentados no entanto, não se conformam com a simples “aposentadoria-lazer”. Por disposição ou necessidade tem crescido a participação ativa do idoso no mercado de trabalho e   investimentos   do    capital   previdenciário.
Alcançar a aposentadoria, pode significar algo ruim e gerar impactos negativos para muitas pessoas:
• Há uma ruptura com seu ambiente de trabalho;
• Dependência em relação ao sistema previdenciário;
• Ausência de papéis sociais significativos;
• Ociosidade;
• Marginalização Social
 A chamada “Aposentadoria Ativa” evita que os aposentados se marginalizem e lhes permite participarem plenamente do universo social, de retomarem algo útil socialmente, de assumirem responsabilidades nas estruturas existentes, ou criarem novas estruturas.
         “O momento da aposentadoria não se restringe, portanto, ao encerramento de um ciclo, mas pode apontar para possibilidades fecundas de transformação” (Adler, 1999)

Sexualidade

Com o atual ritmo de crescimento do envelhecimento da população - tanto mundial quanto nacional - temas relacionados ao estudo da velhice estão cada vez mais sendo pesquisados. O tema sobre a sexualidade na velhice ainda é um assunto polêmico , pouco debatido, envolto em muitos mitos - um deles é o de que os idosos seriam “assexuados”-, mas que ,cada vez mais,vêm sendo desmistificado pelos estudos feitos sobre sexualidade e terceira idade. Na maioria dos casos, a relação sexual entre as pessoas acima de 60 anos, está intrinsecamente ligada ao processo de intimidade que há entre o casal.Principalmente nesta idade, a intimidade e o sexo se tornam um o complemento do outro. A sexualidade pode ser vivenciada pelos idosos das mais diversas maneiras, mas, em grande parte, acontece como forma de expressão verdadeira de carinho. O velho constrói outras formas de expressar sua sexualidade, porém, não abandona o ato sexual propriamente dito. Este fato está sendo cada vez mais evidenciado pelo aumento constatado na taxa de pessoas da terceira idade sendo diagnosticadas como HIV positivo. A ocorrência de HIV nesta faixa etária deve-se, principalmente, à revolução sexual que acontece  nas pessoas de terceira idade e à falta de campanhas de prevenção às DSTs na velhice.Graças ao aumento do uso do Viagra pelos homens e pelas reposições hormonais feitas pelas mulheres, as pessoas acima de 65 anos estão mais ativas sexualmente. Porém, há desinformação das pessoas dessa faixa etária a respeito dos cuidados que se devem ter quando se tem uma vida sexualmente ativa na velhice.
A velhice é o somatório da trajetória de vida do ser humano - somatório das experiências vividas, dos valores, da compreensão e das interpretações pessoais que cada um tem do mundo em que vive. A velhice - tal como as outras etapas da vida - é um período de mudanças, de transformações operadas em cada pessoa - e estas transformações se dão tanto no nível biológico, quanto no emocional e psicosocial. A forma como cada pessoa envelhece está determinada por suas condições subjetivas, incluindo-se a forma como foi vivida sua história pessoal em todos os períodos de sua existência. Sendo assim, a sexualidade na velhice  geralmente só pode ser expressa se, durante a adolescência ,a juventude e a vida adulta, tais sentimentos foram vivenciados de forma a dar prazer, alegria e satisfação às pessoas; nada mais é do que a continuação de toda uma vida sexual já existente, mas que porém, exerce-se com todas as limitações físicas e/ou emocionais que foram sendo adquiridas no processo de envelhecimento de cada um. Continuar exercendo a sexualidade aos 60 anos ou mais é um desejo pessoal de cada um e, se desejado, é um exercício que estimula o cotidiano das pessoas.
O lugar destinado ao velho está condicionado pela atitude prática e ideológica da sociedade em relação a ele.Há muito tempo ,vêm sendo atribuído ao velho o lugar de aposentado, o lugar de excluído da sociedade em quase todos os seus aspectos. Felizmente ,muitos dos preconceitos que levaram a sociedade a excluir seus velhinhos da vida ativa está sendo reconfigurado atualmente. Os velhos estão se mostrando cada vez mais ativos na sociedade em vários aspectos - econômicos, sociais, culturais - e ,como não se poderia deixar de ser, no aspecto sexual também.
O preconceito a respeito do tema da sexualidade na velhice ainda é um tabu que deve ser eliminado ao longo das gerações. Os idosos relatam que as principais fontes de preconceito relativos a esse tema vêm da própria família e da igreja.  A família como um todo pode influenciar nos aspectos referentes à autonomia dos idosos.
        
Os netos acham que não está bom, os filhos também não aceitam que a gente tenha um novo companheiro, então a gente não tem...às vezes dá vontade...é muitas pessoas na casa, mas eu me sinto sozinha. Sair para passear sozinha é ruim, então eu fico em casa... Mas se eu pudesse escolher, eu queria ter alguém para me fazer companhia... (Revista Virtual Textos & Contextos. Nº 4, ano IV, dez. 2005)

As igrejas contribuíram consideravelmente para a desvalorização da sexualidade e do erotismo, considerando tal assunto ser algo de que o velho deveria se envergonhar ou se calar.Esse preconceito tende, em alguns casos, a reprimir as expressões da sexualidade na velhice, como se o interesse sexual ou amoroso causasse um certo horror, como algo que não pode ser revelado ou aceito.      
           Não se pode, porém, afirmar que o velho perca a capacidade de amar, ou de ter uma vida sexual. A sexualidade na terceira idade - assim como nas demais faixas etárias- não se refere somente ao ato sexual em si, mas à troca de afeto ,carinho,companheirismo, vaidade e cuidado corporal. Amor e sexo podem significar muitas coisas para as pessoas de terceira idade, como: oportunidade de expressar afeto, amor, admiração; afirmação do corpo e seu funcionamento - o sexo ativo prova como os corpos ainda são capazes de funcionar bem e causar prazer; segurança, pois a intimidade e a proximidade trazem significado para a vida das pessoas, principalmente nesta idade em que o mundo ameaça com riscos e perdas; o prazer de ser tocado ou acariciado. Na idade mais avançada, o amor da paixão torna-se mais sensual do que genital.
Porém, o sexo genital continua sendo praticado.São os preconceitos que fazem pensar que a andropausa no homem e a menopausa na mulher são responsáveis pelas dificuldades sexuais. Apesar de a perda dos hormônios modificar o mecanismo e a freqüência da ereção, assim como alterar a lubrificação vaginal dificultando a realização do coito, hoje em dia, com o advento de medicamentos como o Viagra e a popularização de métodos de reposição hormonal, o envelhecimento orgânico não está mais sendo tão importante como fator de inativação da vida sexual na terceira idade. Estas questões que colaboravam para manter a visão das pessoas sobre a inexistência de uma vida sexual ativa entre os velhos estão cada vez mais sendo desmistificada na sociedade. A falta de campanhas preventivas e o preconceito são elementos responsáveis pela propagação da doença nesta faixa etária.
            'Os próprios médicos, muitas vezes por pudor e desinformação, deixam de pedir o teste de HIV a um paciente idoso'', diz o especialista Moraes de Sá (professor e coordenador do Programa de Pesquisa em Aids do Gaffrée e Guinle- RJ)

            Os programas de prevenção do HIV devem considerar também os aspectos psicológicos, socioeconômicos e culturais que interferem na vulnerabilidade deste grupo etário. Pois há que se considerar que, as pessoas que hoje estão na faixa dos 65 aos 80 ou mais aos de idade, vieram de uma geração que pregavam o amor livre, e a Aids ainda não estava tão fortemente assombrando a sexualidade deles. O preservativo não faz parte da realidade deles e que, atualmente, as campanhas de prevenção são destinadas ao público jovem.
O que interfere na vida sexual do velho é mais de ordem psicológica e social do que da ordem das limitações orgânicas. Ao pensarmos na velhice temos que considerar que ela é uma das possibilidades da condição humana. Há vida na velhice como em qualquer outro momento da existência das pessoas. E o sexo, como as outras instâncias da vida, não deixa de se fazer presente na  vida dos idosos. Ele se reinventa, toma novas formas e expressões, não tem mais a exuberância e turbulência de quando se é jovem, mas mantém toda a carga emotiva e afetiva que, em todo e qualquer relacionamento sexual saudável, se faz presente, independentemente da idade, da raça ou da opção sexual.

Política Nacional do Idoso - Origem

A partir dos anos 60, o olhar da sociedade sobre o idoso começa a ser transformado de forma mais efetiva no país, podendo-se dizer que, nesse momento, já começava a se esboçar as transformações culturais e sociais acerca da velhice que, décadas depois, dariam origem a dispositivos legais como a Política Nacional do Idoso, implementada através da Lei 8842. Antes dessa lei, contudo, o idoso já havia recebido enfoque especial em alguns artigos do Código Civil (1916), do Código Penal (1940), do Código Eleitoral (1965) e de inúmeros decretos, leis e portarias, merecendo destaque a Lei 6179 (1974), que cria a Renda Mensal Vitalícia e a Constituição Federal de 1988, nos artigos 14, 40, 201, 203, 229 e 230.
         A trajetória para a Política Nacional do Idoso tem início com a atividade dos gerontólogos no país, que inauguram um novo campo de saber sobre a velhice junto à sociedade. A PNI, portanto, tem raízes tanto no campo governamental como privado.
         Já em 1961, era fundada a sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), que reunia quarenta médicos no Rio de Janeiro e que, em 68, descentralizou-se, alcançando hoje quase todos os estados brasileiros. Em 63, o Departamento Regional do SESC de São Paulo inicia um trabalho de implantação de novos modelos de atendimento a idosos, com a sensibilização da comunidade e educação na área de Gerontologia Social.
         Na década de 70, a questão social do idoso se faz sentir pelo aumento da população de idosos, preocupando não só o setor privado como o governo. Então, em 75, já surgia o primeiro programa em nível nacional, implantado través do INPS, o PAI (Programa de Assistência ao Idoso), que consistia na implementação de grupos de convivência para idosos previdenciários. Em 77, a LBA (Legião Brasileira de Assistência) assume o programa.
È importante observar que, na década de 70, as práticas de atendimento ao idoso pensadas pelo governo ainda guardavam caráter assistencialista, o que se entende como resultado da visão de velhice que ainda se tinha naquela época. A visão da Gerontologia Social acerca do fenômeno do envelhecimento e toda a produção científica que surge   acerca do tema será absorvida pelo poder público a partir da década de 80.
Dessa forma, o trabalho dos técnicos da LBA era o de coordenar grupos de convivência e, de forma individualizada, distribuir aos idosos próteses, órteses, documentos, ranchos, etc. Essas duas modalidades consistiam no atendimento direto, sendo que a LBA também realizava convênios com asilos, pagando per capita para atendimento semelhante de idosos por ela selecionados (atendimento indireto). As associações de idosos começam a surgir em no final da década de 70, espalhando-se pelo país na década de 80. A primeira delas foi a ACEPI (Associação Cearense pró-idosos).
Na década de 80, as intervenções acerca da velhice rumam para a conscientização do idoso de seus direitos e do auto-cuidado, na tentativa de se criar a perspectiva de um idoso ativo, integrado socialmente e saudável. O clube da Maior Idade, programa da Embratur, auxilia os idosos nos custos com viagens. O Programa Realidade, da fundação Roquete Pinto, instrui sobre aspectos legais, culturais, da saúde e do lazer da velhice. Surgem os Conselhos Estaduais e Municipais do idoso e programas de preparação para a aposentadoria (iniciativa de empresas públicas e privadas).
Inclusive a LBA sofre uma reestruturação, e o PAI se torna PAPI, que visava não só a manutenção de grupos de convivência, mas a integração social do idoso através da conscientização de sua cidadania e de seus direitos. A LBA aumenta o atendimento indireto aos idosos e, através de trabalho voluntário em alguns pontos de país, congrega novos centros de convivência com creches, estimulando a convivência intergeracional. De 87 a 90, o Programa do ministério da Saúde intitulado "Viva bem a idade que você tem" se beneficiou da estrutura dos centros de convivência,  veiculando através desses um jornalzinho que tratava da temática do auto-cuidado e da promoção de saúde.
A ANG (Associação Nacional de Gerontologia) surge em 85 e se mostra um expoente da problematização da velhice na década de 80. Essa associação promove, em 89, três seminários regionais que culminam no seminário "O Idoso na Sociedade Atual", de âmbito nacional, realizado em Brasília. A partir desse seminário, é elaborado o documento "Políticas para a 3ª Idade", entregue em maio de 90 para a então ministra da Ação Social do governo Collor. O documento gerou o Projeto Vivência, do presidente Collor, que envolvia vários de seus ministérios na elaboração de ações para o idoso. Com esse projeto, em 91, Collor e seus ministros chegam ao "Plano Preliminar para a Política Nacional do Idoso". O plano tinha o seguinte objetivo geral: "Promover a autonomia, integração e participação efetiva dos idosos na sociedade, para que sejam co-participes da consecução dos objetivos e princípios fundamentais da Nação". Previa ações referentes à formação da opinião pública, ao trabalho, previdência social, educação, saúde, habitação, assistência social, esportes e lazer e à cultura. Contudo, a minuta do decreto-lei que dá origem a Lei n° 8.842 propriamente dita é redigido mais tarde, por funcionários da LBA, SENPROS e ANG.
Essa lei, que dá origem à PNI e ao Conselho Nacional do Idoso, é promulgada em 94  e regulamentada em 96, já no governo FHC, através do Decreto n° 1948. Nesse momento, cria-se o "Plano integrado de ação governamental para o desenvolvimento da política nacional do idoso". Esse plano incluía 9 ministérios e se valia de fóruns permanentes estaduais e regionais e fóruns nacionais esporádicos para a sua implantação.
Como ficou claro, a implantação de uma política nacional específica para o idoso está, em boa parte, relacionada com a movimentação de gerontólogos, que impulsionam o interesse governamental e a produção de uma série de conhecimentos acerca de uma velhice marginalizada e carente de atenção. Contudo, partindo de uma análise proposta pela Profa. Dra. Regina Duarte Benevides de Barros e pela psicóloga Adriana Miranda de Castro, através do artigo "TERCEIRA IDADE: o discurso dos experts e a produção do 'novo velho'", podemos pensar em outros aspectos desse novo olhar acerca dos idosos.
         À luz de Guattari, Deleuze e Foucault, podemos enxergar a instituição de uma Terceira Idade, enquanto ideal de idoso ativo e saudável, como um modo de subjetivação implementado através de um dispositivo saber-poder, onde geriatras e gerontólogos, ao vender o seu discurso, prescrevem um modo de existir para o idoso. Passa a existir uma velhice equivocada, aquela que é doente, que não acompanha metas de grupo etário, que tem déficits cognitivos e de sociabilidade e que não se adapta às inovações, e uma velhice correta, que mimetiza o ideal de juventude.
         Ao mesmo tempo em que o discurso de prevenir o envelhecimento "patológico" de certa forma atribui poder ao idoso, rompendo com o estereotipo de um idoso totalmente indefeso e marginalizado, também individualiza o problema, como se cada idoso fosse o único responsável pela própria saúde.
         Certamente há um interesse político e mercadológico acerca do "novo velho" que justifica alguns movimentos na história do país e a própria criação da PNI. Porém, ao passo que o velho se tornou consumidor de um discurso que gera preconceito contra aspectos muito comuns na velhice, ele também ganhou certa proteção e visibilidade social. Além disso, de fato, o conhecimento científico, ainda que determinista, pode trazer um envelhecimento biologicamente mais saudável. Parece necessário questionarmos até que ponto desejamos nos submeter  a certos discursos e até que ponto questioná-los radicalmente se torna pouco prático. Imprescindível é que saibamos diferenciar um conhecimento, como esse dos geriatras e gerontólogos, do discurso a ele vinculado, e que saibamos enxergar esse conhecimento como uma generalização, e não uma certeza aplicável a todo e qualquer indivíduo.

Referências

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