CIDADE E CIDADANIA

Herança que veio do pampa

Os índios charrua, primeiros habitantes dos pampas, contribuíram para a formação do tradicional gaúcho sul-riograndense

Bruna Linhares & Letícia Garcia
Reportagem realizada em abril e maio de 2011

 

Passados 180 anos da batalha de Salsipuedes, que exterminou os índios charrua* como grupo social, pouco ainda se sabe sobre esses que foram os primeiros habitantes do pampa gaúcho. Mais do que simples pioneiros no Estado, os charrua podem ser apontados como um dos povos que contribuiu para a formação da cultura gaúcha. Guerreiros, criadores do fogo de chão, do churrasco e excelentes montadores, a herança pode ser vista nas esparsas pesquisas existentes sobre a etnia, que apontam traços típicos charrua presentes na figura do gaúcho tradicional. 

 

GAÚCHO DO RIO GRANDE ― O termo gaúcho não serve só para designar o nascido no Rio Grande do Sul. Dividimos o termo “gaucho” com nossos vizinhos platinos, gaucho como homem do campo aberto, mas para os sul-riograndenses, a palavra traz consigo o imaginário de um povo guerreiro, indomável, com valores como liberdade, força e coragem, e tradições fixadas ao longo de anos. A figura do gaúcho cresceu e tornou-se determinante para a identidade dos nascidos no Estado. Tanto é assim que pensar a origem das tradições do sul levanta diversas questões, como confirma Marcos Ivan Bassi, historiador e professor de História do Instituto Federal Sul-Riograndense (IFSul), Campus Sapucaia do Sul:

    ― Historiadores têm certa reserva quando falam de Rio Grande do Sul, porque esse gaúcho que anda de bombacha, ele foi construído, e não era uma coisa assim que realmente acontecia no cotidiano.

    A construção da figura do gaúcho começou a ser pensada por volta de 1870, pela elite do Estado, como conta Luiz Cláudio Knierim, historiador e diretor-técnico do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF), da Secretaria Estadual da Cultura:

    ― Nós éramos chamados de sul-riograndenses, ninguém nos chamava de gaúchos. Entre os Farroupilhas, tu não vais encontrar nenhum documento do Bento Gonçalves, do Neto, do David Canabarro se referindo ao outro como gaúcho. Eles chamavam o outro de camarada. Gaúchos naquela época eram marginais na sociedade.

    A afirmação do tradicionalismo se deu nas décadas de 60 e 70, com as pesquisas de Paixão Cortes e Barbosa Lessa sobre o folclore do Estado, e a figura do gaúcho saiu da margem e se institucionalizou, através  da música, literatura e historiografia. Então se estabeleceram os valores, trajes típicos e símbolos, como o chimarrão, a boleadeira, o laço, o chiripá e o churrasco.

    Este gaúcho tradicionalista se construiu com contribuições de diferentes culturas, mas o reconhecimento não é igual para todas.

    ― A elite começa a construir essa questão de identidade gaúcha e o que ela faz? Ela faz escolhas. E ela dá mais importância aos lusitanos, aos portugueses, depois aos castelhanos. E depois fala dos guaranis. Deixa de fora os negros e os charrua, explica Knierim. Os charrua, que habitaram a região do Prata por séculos, não são reconhecidos como parte do gaúcho:

― Tem essa contribuição, mas o gaúcho rio-grandense não reivindica publicamente. Não há um gesto, uma pintura, uma escultura. No Uruguai, isso é reivindicado pelo povo, diz Knierim.

    Mas há muito do povo charrua no gaúcho que simboliza as tradições do Rio Grande. A começar pela região habitada por eles no Estado, emblemática para o gaúcho: o pampa. 

 

UMA SAGA INCERTA ― Estudiosos estimam que os charrua tenham chegado aos pampas do Uruguai, da Argentina e do Brasil, no Rio Grande do Sul, em 10 mil a.C., no final da chamada Era do Gelo. Os relatos sobre a etnia Charrua começam, no entanto, a partir do início da colonização dos europeus na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, mas de fato nunca houve preocupação por parte da maioria dos brancos, especialmente portugueses, em registrar a cultura dos nativos. 

    — Os relatos são genéricos, são curtinhos, não têm muitas coisas especiais, específicas sobre o modo de vida deles, porque um copiava do outro, explica Klaus Hilbert, arqueólogo especialista em arqueologia pré-histórica e povoamento do Rio da Prata, e professor do Departamento de Pós-Graduação em História da PUCRS.

    Ainda assim, parte das informações conhecidas sobre os charrua vem dos relatos de viajantes e cronistas que passavam pela fronteira.

    — São altivos, soberbos e ferozes; levam a cabeça reta, a fronte erguida e a fisionomia clara, descreve o viajante espanhol Félix de Azara, em um texto escrito em 1781.

    O espanhol Teodoro Miguel Vilardebó relata, em 1825, alguns hábitos dos charrua:

    — As mulheres cortam as articulações dos dedos de sua mão quando seu marido morre. Elas são as que tiram a pele dos animais, as que fazem os laços, etc. Os homens são os que fazem as correrias, os que boleiam, etc. E não fazem mais do que tomar mate e jogar quando estão desocupados.

    A outra parte conhecida da história dos charrua vem de estudos históricos e arqueológicos, mas a movimentação dos nativos pelos campos impede que a autoria dos artefatos encontrados no Estado e em outros países seja precisada.  Os charrua eram nômades e se deslocavam pelos campos e para o litoral constantemente. Eles viviam basicamente da caça, da coleta e da pesca, motivo pelo qual, quando acampavam, esses nativos escolhiam áreas próximas a rios. O Rio da Prata foi um dos seus principais redutos. Eram nesses locais que os charrua montavam suas tendas, feitas inicialmente com esteiras de palha e couro e sustentadas por hastes de madeira. A mobilidade, assim como o fato de serem caçadores e coletores, é o que sugere que os charrua tenham se originado de antigas tribos patagônicas, que possuíam as mesmas características. 

    As vestes charrua lembram trajes utilizados até os dias de hoje pelos gaúchos. Nos períodos de frio, esses índios usavam uma pala primitiva.

    — Eles faziam uso do que a gente chama de Toropi, que é usar um pelego, uma manta sobre o corpo quando está frio. Eles não tinham muitas roupas, não tinham tecido. Eles pegavam o couro e usavam com a pele para dentro e se enrolavam, explica Knierim, do IGTF.

    Grande parte dos estudos realizados acerca das etnias pioneiras dos pampas contém poucas especificações sobre os charrua. Em geral, eles aparecem sempre agrupados com a etnia Minuano, que também habitava os campos gaúchos. O motivo principal para isso, conforme a professora Sílvia Copé, historiadora especialista em história contemporânea e coordenadora do Núcleo de Pesquisa Arqueológica (Nuparq) da Ufrgs, é o fato de charrua e minuano terem se unido, em 1730, para enfrentar os colonizadores.

    — É por isso que nós temos o hábito de achar que eles são parecidos. Na verdade, são dois grupos bem diferentes, até geneticamente diferentes, com culturas diferentes, mas são homens de campo, com culturas de campo, explica Silvia Copé.

 

AS BOLEADEIRAS ― Viviane Vidal, da PUCRS, fez um estudo sobre as boleadeiras, chamado "Os artefatos de arremesso dos campos da América Meridional: um estudo de caso das boleadeiras". A arma de arremesso de origem charrua é considerada a herança material-simbólica mais direta do grupo para o gaúcho. A professora Silvia Copé explica o uso das boleadeiras:

    ― Eles usavam duas bolas num laço de 2,5 metro, aí seguravam de um lado e o outro giravam. Ou atiravam como arma, ou atiravam para quebrar a cabeça dos outros, o "rompe cabezas", como dizem os uruguaios. Então as pontiagudas eram uma arma de defesa, e os outros eram pra derrubar os animais e para caçá-los, diz.

    ― Quando introduzem o cavalo aqui na América, eles acabam usando também para a caça do gado. Mas isso nós assumimos por um período histórico, as boleadeiras, depois vêm o laço, que era mais eficiente que a boleadeira, completa Knierim. 

 

ÍNDIOS MONTADORES ― A cultura campeira destes nativos se tornou mais forte com inserção do cavalo nos territórios pampeanos pelos espanhóis. Os primeiros equinos teriam chegado aos pampas em uma grande expedição espanhola, capitaneada por Pedro Mendonza, por volta de 1534, e foram logo absorvidos para a cultura dos índios pampeanos.

― Nessa expedição chegaram 2.200 espanhóis, não só espanhóis, mas alemães. Homens, mulheres, trouxeram vaca, trouxeram cavalo e, provavelmente, os cavalos escaparam. Depois, com os cavalos soltos, eles faziam parte dos charrua. Eles, e não só eles, outros grupos pampeanos, incorporaram isso. Eles eram grandes cavaleiros, diz Hilbert.

— Eles seguravam as lanças e deitavam do lado do cavalo para não serem vistos. Passavam como se fosse uma correria de cavalos só, e estavam todos os guerreiros prontos ali, aí eles se aproximavam e lutavam, explica a professora Sílvia Copé.

    Knierim detalha a lida dos charrua com os cavalos:

    — Eles faziam a doma racional, não é aquela doma que quebrava o queixo do animal, é uma doma de convencer o animal a ser dominado, explica.

    O cavalo, além de render o título de exímios cavaleiros aos charrua, também se tornou parte da alimentação do grupo. Os índios espetavam a carne do animal em um espeto de madeira e assavam em um buraco feito no chão. Essas são as possíveis origens de dois símbolos da cultura gaúcha: o churrasco e o fogo de chão.  

 

A GARRA CHARRUA ― Gonzalo Abella, historiador uruguaio, diz que a idéia de o gaúcho ser guerreiro, indomável, de não se entregar, vem do espírito guerreiro dos charrua. Pode até ser romantismo, mas é comprovada historicamente a resistência do povo charrua ao domínio europeu.

Inicialmente, quando Espanha e Portugal guerreavam pelas fronteiras do sul, os charrua lutavam ora por um país ora por outro, em troca de produtos, como a erva-mate. Esse é um dos motivos que acabou tornando os nativos um "incômodo" para os colonizadores. O fato de essa etnia não plantar, e, portanto, não poder fornecer alimentos aos europeus também acabou gerando batalhas entre índios e brancos. Soma-se a todas essas características o idioma falado por esses nativos, que dificultava relações com os colonizadores. De acordo com estudiosos, os charrua, ao contrário da maioria das tribos do período, falavam um idioma diferente do tupi-guarani, ainda que tivessem absorvido algumas palavras dos índios missioneiros.

― O que os cronistas falavam é que eles tinham uma língua completamente diferente das outras línguas, tirando a vantagem dos conquistadores do litoral atlântico. Do Maranhão, Ilha do Marajó, até a região do Prata, ao longo do litoral, todos falavam a mesma língua. Então isso facilitou. Quando eles chegaram aqui a região do Prata, mais ao sul, eles sempre constatavam: essa gente é diferente, conta o professor Hilbert.

Ainda que os hábitos naturais dos indígenas tenham mudado, os colonizadores nunca conseguiram ter domínio sobre os charrua. Eles não se submeteram a portugueses ou espanhóis, como fizeram os guaranis. Não aceitavam trabalhar em suas colônias, e nem a catequização dos jesuítas. Eram "hostis":

― Todos os que não aceitavam a colonização ou que não faziam alianças logo eram considerados hostis. Na verdade, eles não queriam ser subservientes, explica Silvia Copé.

Os charrua foram gradualmente perdendo a liberdade do pampa, e sua condição de nômade caçador-coletor, aliada a resistência à dominação, fez com que ficassem à margem da economia colonial, que expandia e tomava territórios do sul. A convivência não amistosa com os europeus acabou eclodindo em 11 de abril de 1831, segundo pesquisadores como Eduardo Picerno.

― Eles resistiram à dominação até o ponto de serem exterminados pelos uruguaios em 1831, no famoso episódio de genocídio dos charrua, quando o presidente Rivera, do Uruguai, montou uma brigada militar e cercou os charrua em Salsipuedes. Os poucos que sobraram foram distribuídos pelas estâncias, entre as famílias ricas de Montevidéu, explica Knierim.

O episódio, conhecido como Batalha de Salsipuedes, exterminou os charrua como grupo social, e fez parte de uma série de ações do recém estabelecido governo constitucional de Fructuoso Rivera para eliminar a etnia. Os charrua foram chamados para ajudar na defesa do novo país, e foram massacrados pelas tropas de Rivera. Isso marcou profundamente os uruguaios.

― No Uruguai, criaram o 11 de abril como "Dia da vergonha nacional", para pensar "o que nós fizemos? nós matamos a nossa população indígena, eliminamos os nativos daqui", diz Silvia Copé.

As pesquisas dizem que quatro sobreviventes de Salsipuedes foram levados à França para serem expostos, como animais exóticos. Todos morreram na Europa. Os uruguaios construíram um monumento em homenagem a eles, como conta Silvia Copé:

― Eles ficaram conhecidos como os últimos charrua, e foi feito este monumento, na Praça del Prado, no Uruguai, em 1930.

Os uruguaios, atualmente, fazem uma busca por esta identidade charrua perdida. Pesquisadores como Eduardo Picerno e Rodolfo Maruca Sosa procuram resgatar a história charrua através dos escassos relatos de viajantes e do que foi registrado por colonos espanhóis.

― Depois da vergonha, eles se deram conta, "nós vamos ter que resgatar os nossos antepassados". E foram atrás. Então tem muita gente pesquisando lá, diz Silvia Copé.

O professor Bassi completa:

― No Uruguai eles têm um respeito maior do que nós temos aqui. Eles têm inclusive um monumento em homenagem aos charrua, que aqui no Rio Grande do Sul nós não temos. Nós temos muita imigração italiana, imigração alemã, aqueles monumentos todos para os imigrantes, mas aos nativos nós não temos. O respeito devido aos nativos nós não temos.

 

CHARRUA ATUAIS ― O espaço de tempo que separa a carnificina de Salsipuedes dos dias de hoje contribuiu para o esclarecimento de fatos da etnia Charrua, mas também trouxe novas questões à tona.  A principal está ligada às tribos que se afirmam charrua e lutam para serem reconhecidas como descendentes dos guerreiros do pampa. No Estado, conforme a cacique-geral dos índios charrua no Rio Grande do Sul, Acuab, há integrantes da etnia nas cidades de São Borja, São Miguel das Missões e Iraí. A Fundação Nacional do Índio (Funai) do Rio Grande do Sul, com sede em Passo Fundo, não confirma as informações e classifica a questão dos charrua contemporâneos como “nova”, devido ao reconhecimento da etnia ter se dado em 2007.

     Na Capital está localizada a principal aldeia charrua do Estado, a Aldeia Polidoro. O reduto, uma área de aproximadamente 8,5 hectares cedida pelo município, fica no bairro Lomba do Pinheiro, zona leste da Capital, e abriga os indígenas desde junho de 2008, conforme dados do Núcleo de Políticas Públicas Para os Povos Indígenas (NPPPI) da prefeitura da Capital. Na aldeia, Acuab também exerce a função de cacique e xamã. A líder charrua e outros representantes da tribo vão todos os domingos para o Brique da Redenção, na zona central de Porto Alegre, onde comercializam pulseiras, colares e outros produtos artesanais confeccionados por eles com materiais da própria aldeia. Acuab, muito receptiva com os visitantes, explica sobre as sementes usadas para confecção dos produtos. Ela faz questão mostrar também os recortes de jornais e fotos que traz em uma pasta, que são, na sua maioria, sobre eventos que participou como representante charrua. Na Aldeia Polidoro, os costumes dos charrua pré-histórico são passados aos mais novos, como forma de manter tradições seculares.

   As pesquisas sobre os charrua são poucas e esparsas. Ítala Basile Becker, em “Os índios charrua e minuano na antiga banda oriental do Uruguai”, é um dos nomes de referência na reconstituição histórica da etnia. Os professores Klaus Hilbert (PUCRS) e Arno Kern (PUCRS) se destacam na pesquisa arqueológica. O professor Sérgio Baptista (UFRGS) trata da questão antropológica.  Aproximar as origens da tradição gaúcha à história dos charrua ainda é um campo pouco explorado pelos pesquisadores do Estado. Knierim, do IGTF, explica:

     ― Nós trabalhamos com a identidade gaúcha. É uma fundação ligada à Secretaria da Cultura, uma fundação cultural. Foi criada para fazer pesquisas na área do folclore gaúcho. Muitas pesquisas foram feitas com relação ao folclore italiano, alemão, mas nunca o IGTF se debruçou sobre essa questão. É uma questão nova, a dos charrua.
        As relações dos charrua com o gaúcho tradicional abre um campo amplo de pesquisa. Pesquisar suas contribuições à cultura gaúcha é um modo de valorizar esta etnia nativa, dizimada como tantas outras etnias indígenas pela chegada dos europeus. E resgatar as origens nativas da tradição também é uma forma de demonstrar orgulho por ser gaúcho.


 

* observação: “os charrua”, seguindo concordância de número recorrente em trabalhos de estudiosos como Ítala Basile Becker, autora de “Os índios charrua e minuano na antiga banda oriental do Uruguai”.