O Universo do Santo Daime

A primeira religião genuinamente brasileira

Ismael Cardoso & Paula Bianca Bianchi
Reportagem realizada em Junho de 2007

Santo Daime. Religião da Amazônia. Chá.

Isso era tudo que sabíamos quando definimos a pauta da segunda reportagem da cadeira de redação II. A tal religião tinha uma igreja em algum lugar de Porto Alegre. Afastado, pelo visto. Ir a campo era um dos atrativos. Jornalismo "on the road", afinal.

"Off road" cairia melhor.

Como se começa uma matéria sobre um assunto sobre o qual você não domina absolutamente nada? As estatísticas não são precisas, mas especula-se que nove entre dez estudantes responderiam: Google. A soma dos verbetes Santo + Daime encontrou meros 124.000 resultados. Felizmente não precisamos passar do primeiro.

Na página oficial da religião (www.santodaime.org) não foi difícil achar o contato para todos os centros do Santo Daime no país. Wilton, Cristina e um telefone. Essas eram as informações que o site dava para entrarmos em contato com o Chave de São Pedro, a igreja da doutrina em Porto Alegre. Um telefonema, entrevista marcada. Destino: altos do morro Santa Teresa. Logo no início da conversa, Wilton Jorge Souza, administrador do Daime em Porto Alegre, foi claro: "É inevitável falar do chá antes de se falar do Daime".

A ayahuasca

Vinho dos mortos, vinho das almas, chicote das almas, avuela, professor dos professores, madrecita de todas as plantas, yagé, vegetal, a pequena morte, ayahuasca. Esses foram alguns dos nomes que encontramos para a bebida que os seguidores da religião que estávamos pesquisando chamam de Santo Daime. Existem mais de 42.

Quando se trata da origem dessa bebida, o que não falta são hipóteses. A mais aceita é a de que o chá tenha sido utilizado pelos incas por milhares de anos e espalhado pela América do Sul com as invasões espanholas no continente. Fugindo do massacre perpetuado pelos europeus, os sacerdotes receberam a missão de preservar seu bem mais precioso: a ayahuasca.

Floresta Amazônica adentro, eles passaram de tribo em tribo ensinando o feitio da bebida. O chá era utilizado pelos índios em rituais chamados vegetalistas, e provado eventualmente por caboclos, que o chamavam jocosamente de "cinema de índio". Isso porque, sob seu efeito, a pessoa fica acordada, mas, ao mesmo tempo, em um estado semelhante ao do sonho. Há registros de que pelo menos 72 tribos amazônicas detenham o conhecimento para produção da ayahuasca.

Nós poderíamos dar dois rumos à matéria. Nós seríamos apenas observadores ou entraríamos a fundo na mística do Santo Daime? A segunda alternativa nos obrigaria a experimentar o tal chá. Na conversa com Wilton, ainda não havíamos decidido. Por isso, achamos melhor começar a investigar ali mesmo, por via das dúvidas, o que afinal é a ayahuasca e que efeitos a bebida poderia causar em duas pessoas nascidas e criadas a quilômetros de distância da Floresta Amazônica.

Em primeiro lugar, trata-se de uma cocção e não de um chá, apesar de até mesmo os seguidores da doutrina do Daime o chamarem por esse nome. No preparo da ayahuasca são utilizadas duas plantas naturais da Amazônia: o cipó jagube e o arbusto chamado de chacrona ou folha-rainha. O cipó é macerado e fervido junto com as folhas, formando uma bebida de cor ocre esverdeado e de sabor muito amargo.

Os alcalóides do cipó inibem uma enzima em nosso organismo permitindo que o DMT (dimetil-triptamina) do arbusto chegue ao sistema nervoso central. O DMT é um potente psicoativo, com função semelhante a seratonina – um dos neurotransmissores presentes no cérebro e que tem a função de "ligar" um neurônio ao outro. Após a experiência, a ayahuasca causa uma sensação análoga a de um antidepressivo. De acordo com o biólogo Rafael Guimarães dos Santos, doutorando em farmacologia pela UAB (Universitat Autònoma de Barcelona) "de maneira geral, a ayahuasca produz efeitos similares ao LSD, à psilocibina, e à mescalina. Os comportamentos são moldados pelas expectativas e motivações das pessoas que tomam a ayahuasca. Se está em um ritual do Santo Daime, por exemplo, o comportamento pode ser o de cantar e de dançar. Em um sentido mais psicológico e fisiológico, pode-se dizer que o indivíduo, entre outras coisas, pode vomitar, ter diarréia ou ter visões".

Estima-se que existam cerca de 10 mil seguidores do Santo Daime no mundo. O uso religioso da ayahuasca é permitido no Brasil, na Espanha, na Holanda e, recentemente, no estado norte-americano do Novo México. Há também grupos que celebram os cultos da doutrina no Japão, Argentina, Chile, Uruguai, Venezuela  e Portugal.   Não há nenhuma comprovação de que o chá crie dependência física ou psicológica, já que o organismo tem baixa tolerância à bebida. É interessante notar que a dose letal de ayahuasca é de 7,8 litros para um adulto, quantidade semelhante à do suco de maracujá, que é de 8 litros. Já a dose letal de água é de 10 litros, enquanto 1 litro de álcool é suficiente para causar overdose.

"Jornalista tem mania de chamar o Daime de alucinógeno", brinca Wilton ao comentar que a ayahuasca é, na verdade, um enteógeno. Ele explicou que os dois são expansores da consciência, mas enquanto o alucinógeno distorce a percepção, o enteógeno aguça. Descrença. O hábito de confiar desconfiando foi mais forte. Ou alguém já ouviu falar de enteógeno?

Ao contrário do que imaginávamos, existem, sim, enteógenos. Entre tantas definições, a que ficou foi a do biólogo Rafael dos Santos. "Enteógeno é um termo que quer dizer algo como proporcionar a experiência interior do divino, e foi criada por alguns pesquisadores para ser utilizada no lugar de alucinógeno, psicotomimético ou psicodélico, que seriam, segundo eles, termos errados. Alucinógeno é o termo mais utilizado no meio acadêmico, médico e farmacológico. Em uma de suas definições, 'alucinar' quer dizer 'navegar pela mente'. Em outra, quer dizer ver coisas que não existem na realidade, como um sonho", explica.

Já sabíamos onde surgiu o chá, quais seus efeitos e como age no organismo. Faltava descobrir como a ayahuasca virou Santo Daime e como essa doutrina se expandiu a ponto de sair da Amazônia e chegar em lugares tão distantes como a Espanha e Porto Alegre.

Um pouco de história

Tudo começou com um "negrão de mais de dois metros de altura que calçava 52". É assim que a maioria dos daimistas descreve o filho de escravos Raimundo Irineu Serra. Ele era um entre tantos migrantes nordestinos que partiram para o meio da floresta para se juntar ao exército da borracha. De seringueiro, Irineu passou a cabo do Exército, atuando como guarda de fronteira. Foi numa missão na divisa com o Peru que ele entrou em contato pela primeira vez com a ayahuasca.

Sob efeito da bebida, Irineu teve uma visão. Nossa Senhora da Conceição se apresentou a ele como a Rainha da Floresta e lhe deu as bases para iniciar uma nova forma de evangelização em Cristo. O chá, conhecido entre os incas como ayahuasca, que significa "chicote das almas" no idioma quéchua, foi rebatizado por Irineu, ganhando o nome de Santo Daime, significando, com isso, a invocação espiritual que deveria ser feita pelo fiel ao comungar com a bebida: dai-me paz, dai-me amor, dai-me força, dai-me luz. Foi assim que, por volta de 1910, no seio da Floresta Amazônica, nasceu a primeira religião genuinamente brasileira.

Católico fervoroso, Raimundo Irineu Serra, que passou a ser conhecido como Mestre Irineu, cristianizou as tradições caboclas e xamânicas da bebida sacramental ayahuasca, inicialmente realizando cerimônias de cura baseadas na ingestão do chá. A década de 1930 foi marcada por dois fatos importantes para a consolidação da doutrina. Foi nessa época que o Mestre Irineu começou a receber os hinários, cânticos com forte ênfase nos ensinamentos cristãos que propõem uma nova leitura dos Evangelhos. A maior parte do conhecimento da doutrina é baseado nesses hinos. Também na década de 30, o Santo Daime foi registrado oficialmente como religião, com o nome de Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal.

O Santo Daime é uma religião cosmocentrista. Para os seus seguidores, Deus está presente em todas as coisas, inclusive dentro das pessoas. O chá seria o responsável por nos apresentar a nós mesmos. Segundo Wilton, o primeiro contato com o Daime pode ser assustador: "Ele mostra que Deus está dentro da gente". Ele explica ainda que nos trabalhos não há sacerdotes nem nada do gênero. "Quem controla tudo é o chá, o chá é o mestre, a figura central".

Até a década de 1970 a doutrina ficou restrita à região Norte do país. Foi depois da morte do Mestre Irineu, em 6 de julho de 1971, que o Daime iniciou a sua expansão pelo mundo. O principal responsável por essa mudança foi Sebastião Mota de Melo. Caboclo simples, sem instrução, nascido na mata e com fortes convicções espíritas, tornou-se seguidor da doutrina após a cura de uma doença grave. Padrinho Sebastião recebeu um chamado para voltar para floresta a fim de fundar uma "nova Jerusalém". Em 1980, junto com um grupo de seguidores, criou uma pequena comunidade em uma área virgem da mata conhecida como Seringal Rio do Ouro. Dois anos depois, tendo que abandonar a área, o grupo foi mais fundo na floresta, fundando a vila do Céu do Mapiá, uma sociedade alheia ao resto do mundo cuja base principal são os ensinamentos do Daime.

Esse movimento chamou a atenção do governo, que em 1982 criou uma comissão multidisciplinar para averiguar a situação. Um grupo de médicos, antropólogos e psicólogos acompanhados de representantes do Ministério da Justiça, da Polícia Federal e do Exército visitou o Seringal do Rio do Ouro e o Céu do Mapiá. Diversos testes e entrevistas foram realizados com amostragens significativas da população local. Os estudos chegaram a conclusão de que o uso da ayahuasca não trazia prejuízos à vida social dessas populações, até que, em 1991, o Confen (Conselho Federal de Entorpecentes), atual Conad (Conselho Nacional Antidrogas), liberou o uso da ayahuasca no Brasil em rituais religiosos. As pesquisas em torno do Santo Daime acabaram dando uma visibilidade muito grande à religião, contribuindo para a expansão da doutrina.

O feitio

Uma parada de ônibus errada e trinta pessoas que nunca tinham ouvido falar do Daime depois, vimos o resultado da expansão dessa religião. A mais de 4 mil quilômetros do Acre e a menos de meia hora de carro do centro da capital gaúcha fica o representante porto-alegrense do Santo Daime.

Descemos do ônibus na avenida Oscar Pereira perto das 15h e caminhamos por cerca de 15 minutos por uma estrada de chão até a chácara onde está localizada a igreja Chave de São Pedro. Após passarmos por um túnel que só depois descobrimos ser feito de cipó jagube e folha-rainha, demos de cara com um prédio simples em forma de estrela de seis pontas com as janelas cobertas por folhas de plástico e duas portas. Em meio às montanhas, o lugar não se parece nada com a Floresta Amazônica, tampouco com Porto Alegre.

De dentro da igreja, vinham sons de cantoria. Do lado de fora, uma placa com os dizeres "acesso restrito" indicava a principal ocupação dos integrantes do Chave naquele feriadão de Corpus Christi e o motivo de nossa ida até lá: o feitio.

O processo de produção do chá é um ritual seguido a risca pelos daimistas. Para o dirigente do Chave, Wilton Souza, a diferença entre a ayahuasca e o Santo Daime está no preparo. "Tu podes encontrar o chá pra vender na internet, isso existe. Mas o que tu encontras é a ayahuasca, não o Daime", explica. Há todo um dualismo entre masculino e feminino, que pode ser entendido através da lenda que dá origem à bebida. "Um rei e uma rainha se amavam muito. Quando o rei morreu, a rainha chorou em cima do túmulo dele até morrer de tristeza e foi enterrada ao seu lado. Do túmulo dele nasceu o jagube, do dela, a folha-rainha", conta Wilton.

Talvez seja por isso que no feitio do Daime somente as mulheres mexam com as folhas e os homens com o jagube. Enquanto as mulheres separam e limpam a folha-rainha dentro da igreja, os homens maceram o cipó em um lugar reservado da chácara. Esse processo de maceramento leva horas e exige um grande esforço, e só termina depois que todo o cipó seja reduzido a uma espécie de fibra muito fina. Mas isso não é visto como um sacrifício. "É muito bom bater no cipó. Tu descarrega toda a tua raiva ali", afirma o estudante de administração Lucas Ribeiro, 23 anos, integrante do Chave há dois anos. Nesse feriado foi produzido Daime suficiente para suprir as necessidades do centro pelos próximos seis meses.

Essa foi a segunda vez que o Chave realizou o feitio. Ter a oportunidade de produzir o chá na própria igreja é visto como uma conquista. Antes, ou os integrantes do Chave iam para outros centros do país produzi-lo ou ele vinha de outros estados. O principal fornecedor de Daime é o Acre, sobretudo para os centros que ficam fora do país. No entanto, por causa do alto custo e de todos os trâmites legais envolvidos no transporte, o Chave optava por trazer o chá de estados mais próximos, como Santa Catarina e o Paraná. No Rio Grande do Sul existem outras três igrejas do Santo Daime. O Céu do Cruzeiro do Sul, em Viamão, o Mensageiros da Luz, em Caxias do Sul e o Céu de São Miguel, em Sapiranga.

O trabalho

Tomar ou não tomar o chá, eis a questão.

Os depoimentos dos conhecidos que haviam passado pela experiência não eram lá muito animadores: vômitos, desconforto e "bad trips" eram alguns deles. Foi quando pedimos permissão para assistir a uma das missas que decidimos. "Se vocês quiserem assistir à cerimônia pode, desde que tomem o chá", afirmou Wilton. Pelo bem da matéria e da nossa curiosidade, aceitamos.

Os trabalhos da doutrina do Santo Daime são realizados de acordo com um calendário oficial, que define os dias santos e festejos do ano daimístico. As igrejas e centros em todo o mundo devem seguir as datas estipuladas. Existem três tipos de rituais. Os rituais de concentração, os de cura e os hinários. Os de cura são realizados todo dia 27, enquanto os de concentração acontecem duas vezes por mês, nos dias 15 e 30. Já os hinários são celebrações especiais, que duram cerca de 12 horas e correspondem a alguns dias santos da igreja Católica e a aniversários de nascimento e morte de pessoas importantes para a doutrina, como o Mestre Irineu e Padrinho Sebastião.

Foi na sexta-feira, 15 de junho de 2007, de carona com o estudante de pedagogia Tiago de Paula, 29 anos, fardado há cinco, que fomos ao Chave participar de uma cerimônia de concentração. "O fardamento é uma iniciativa pessoal, livre", explica Tiago. Não existe nenhuma regra, mas após alguém participar de três rituais do Daime é convidado a se fardar. O objetivo é igualar as pessoas, formar uma irmandade. O nome fardamento vem da origem militar do Mestre Irineu e refere-se à idéia de que os daimistas formam o "Exército da Rainha da Floresta". Há dois tipos de farda: azul para os trabalhos rotineiros de concentração e cura e branca para os hinários e datas especiais. Uma uruguaia a caminho do Céu do Mapiá, um coronel da Brigada Militar, um piloto de avião, um DJ de raves, uma paulista em visita a Porto Alegre. Essa foram algumas das pessoas que encontramos ao chegar lá. Entre freqüentadores assíduos do Chave e de outras igrejas da religião e pessoas que tomavam o chá esporadicamente, éramos os únicos que iriam ter o primeiro contato com o Daime naquela noite.

Antes do início da missa pagamos uma contribuição à igreja e assinamos um termo de compromisso, procedimento padrão para quem toma o chá pela primeira vez, no qual afirmamos que estávamos tomando o Daime por livre e espontânea vontade e que iríamos participar da cerimônia até o fim. O sustento dos centros é baseado nessas contribuições e em doações. As taxas variam de acordo com o envolvimento com a igreja. Fardados pagam menos que os visitantes, e podem escolher se fazem uma contribuição mensal ou por trabalho. "O Daime não tem um valor, mas tem um custo", justifica Wilton. Parte do dinheiro vai para o Céu do Mapiá, parte para a produção do Daime e o que sobra é destinado às melhorias da igreja.

Como todos os que tomam o chá pela primeira vez, tivemos uma conversa com Wilton, que nos orientou sobre como iria acontecer a cerimônia, as implicações de se tomar o Daime e como lidar com a experiência. Segundo ele, não havia motivo para medo ou ansiedade. "O Daime respeita quem respeita ele."

Para participar da cerimônia existem certo detalhes que devem ser observados. As mulheres devem usar saias e os homens calças, obrigatoriamente. A igreja é divida entre o batalhão feminino e o batalhão masculino, que ocupam áreas opostas, sendo que homens e mulheres entram por portas diferentes. Tradições mantidas desde o início da religião.

Um pouco antes do começo do encontro, o sino toca, chamando todos para dentro da igreja. As pessoas são organizadas ao redor de uma mesa em forma de estrela com uma Cruz do Cruzeiro do Sul em cima. Os integrantes são distribuídos de acordo com o sexo, o vínculo com o Daime, o tempo de fardamento e o estado civil. Os fardados sentam mais próximos à mesa, enquanto os visitantes ficam mais distantes.

Entramos, cada um por uma porta como manda o ritual. Foi a primeira vez que nos separamos, e ficamos assim até o fim da cerimônia. Passamos as quatro horas seguintes em lados opostos da igreja. Tentar não se preocupar um com o outro foi uma das recomendações de Wilton na nossa conversa.

Pontualmente às 21h, o dirigente inicia os trabalhos. Três Pais-Nossos, três Ave-Marias, e uma Chave da Harmonia (oração da Comunhão do Pensamento) depois, finalmente, o primeiro despacho de Daime. Seguindo a mesma lógica de distribuição ao redor da mesa, duas filas se formaram, uma de homens, outra de mulheres, sendo que os fardados bebem o chá primeiro.

Cor de café-com-leite levemente esverdeado, cheiro de mato, denso e amargo, o Daime não é uma bebida fácil de engolir. "Remédio bom, gosto ruim", nos avisaram. Era verdade. Copo vazio, foi difícil não fazer cara feia. Tomamos o chá do último feitio. Demos sorte. "Esse não fermentou, está bem docinho", dizia Tiago. Imagina se estivesse fermentado.

De volta aos nossos lugares, começam os hinários. Tratam-se de cânticos recebidos pelos padrinhos com versos repetitivos e acento do norte, o que tornou difícil acompanhar a cantoria. Segundo Tiago, "o Daime é uma doutrina musical, todo o conhecimento está nos hinos". Cada ritual pede hinários diferentes, que são cantados por todos e sempre acompanhados pelo som do maracá, uma espécie de chocalho indígena, e, às vezes, pelo violão.

Foram aproximadamente vinte minutos até o chá começar a fazer efeito. Tomar o Daime, como pudemos perceber, é uma experiência muito particular. Tanto que não há como definir um padrão de comportamento ou de reação à bebida, tão pouco o que sentimos foi parecido. "É sempre uma experiência diferente", relata Lú Rosa, fardada desde o fim de 2006.

De início foi difícil sair da posição de jornalista observador. O teto da igreja, redondo e sem nenhuma viga de sustentação, cheio de banderinhas de São João, as camisas brancas, saias e calças azuis, a mesa com velas, sinos e incensos. Sem a companhia do bloquinho ou do gravador, havia o medo de esquecer, não abarcar tudo isso. Mas o Daime foi mais forte. Apagaram as luzes. Alguém gritou "Concentração!" e o silêncio tomou conta do lugar. Essa uma hora em que ficamos sentados passou de forma bem diferente para nós dois.

Chão e sombras em três dimensões, o tempo patinando nos segundos enquanto as imagens mais diversas apareciam a um mero fechar de olhos, justificando o tal "cinema de índio". Nenhum desconforto, nenhum mal-estar. A única sensação física era a impressão de não ser mais um corpo inteiro. Pulsação, respiração, tudo estava presente, mas o corpo não passava de cabeça e mãos. Talvez fosse a preocupação jornalística, talvez não fosse pra ser, mas a tão esperada experiência de autoconhecimento não veio.

Do outro lado da igreja, impaciência. "Isso não vai fazer efeito, isso não vai fazer efeito. Tá, o que eu vou fazer nas próximas horas?" Os pensamentos foram aos poucos dando lugar a uma sensação de entorpecimento, de ser envolvido por padrões multicoloridos. A vontade de permanecer e continuar sentindo tudo aquilo perdeu para a ânsia de vômito crescente. Lá fora, a fiscal repetia: "Respira fundo e segura a força", mas o estômago discordava. Conforme nos disseram, o Daime é um agente de mudança muito forte, ele realiza um processo de limpeza no organismo, física e psicológica. "A gente chama isso de cura", explicou a fiscal. De volta à cadeira, lembranças começaram a emergir. Punk meditação define bem a sensação. Memórias, decisões, resoluções, tudo passava pela cabeça. Desse lado da igreja o autoconhecimento aconteceu.

Com as luzes acesas, volta a cantoria, que dura até o fim da cerimônia. É ao som dela que o dirigente chama para o próximo despacho de Daime. Mais meio copo do chá e começa tudo de novo. Em nenhum momento há perda de consciência. Na verdade, a única sensação que foi comum a nós dois foi uma clareza de pensamento imensurável. "Já sentiu a força?" era a pergunta recorrente aos "novatos". Força ou não, não havia como negar que alguma coisa estava acontecendo.

A terceira rodada de Daime foi opcional. Nossos olhares se cruzaram. "Vamos? Vamos." Mais encorpado, com uma concentração semelhante ao mel, essa dose era mais forte que a dos primeiros despachos. Tanto que recebemos apenas um gole.

Em seguida Wilton propõe: "Vamos bailar um pouco?". No bailado, as pessoas acompanham os chefes dos batalhões feminino e masculino em passos ritmados, para um lado e para o outro, de acordo com os hinos e a batida do maracá. Enquanto nos hinários passa-se todo o tempo bailando, nos trabalhos de concentração o normal é permanecer sentado.

O ritual vai se encaminhando para o fim. Rezam-se mais alguns Pais-Nossos, Ave-Marias e uma Salve Rainha e, à 1h, exatas quatro horas depois do início, termina a cerimônia. O que se seguiu nos pegou de um pouco de surpresa. Mesmo sendo desconhecidos para a maioria das pessoas ali dentro, nos sentimos integrantes daquele grupo. Todos pareciam estar muito felizes e em paz. Havia sinceridade na preocupação e no interesse de dividir a experiência da noite uns com os outros. Interesse e preocupação que foi estendido a nós.

Depois do Daime

Procuramos, pesquisamos, conversamos com muita gente e não encontramos nada contra o Santo Daime. Os relatos mais comuns são de pessoas que, ao entrar para a doutrina, "encontraram um rumo". É como afirma Tiago: "O Daime me trouxe consciência". Não nos tornamos seguidores, não aderimos à religião, mas nosso ceticismo inicial foi aos poucos perdendo espaço para um crescente respeito pela doutrina do Santo Daime e pelos que nela acreditam.

À primeira vista, é fácil pensar: "O que esse pessoal faz no meio do mato tomando um chá da Amazônia para encontrar Deus?". E, acredite, foi difícil não pensar isso. Mais do que Deus, o Daime é visto como um espelho da alma e uma forma de autoconhecimento. Apesar das coisas serem muito diferentes, elas não eram nada contraditórias.

Com quanto mais pessoas nós conversávamos, mais confusa ficava a doutrina do Santo Daime. "Daime é Deus", dizia Wilton, nos dando a impressão de que a religião era catolicismo com a ingestão do chá. Já para Tiago, "é muito mais um caminho espiritual que uma religião", e ficava no ar um quê de budismo. Mas, afinal, o que é o Daime? Apenas após participar de um trabalho e tomar o Daime conseguimos entender um pouco mais a dimensão dessa doutrina. Talvez a expressão que melhor defina esse culto que nasceu no começo do século no meio da floresta amazônica e foi disseminado por caboclos simples e sem instrução seja a que também mais escutamos durante toda a reportagem: sincretismo religioso. Catolicismo, cardecismo, umbanda, caminho vermelho, judaísmo, xamanismo, comunhão do pensamento. Todas essas crenças estão presentes, de uma forma ou de outra, na doutrina do Santo Daime.

Cada pessoa que entra para o Daime tem a liberdade de agregar a ele suas crenças anteriores, e assim vai se construindo um caleidoscópio gigante cuja imagem depende do observador. Uma forma de encontrar Deus ou de se encontrar. Seja o que for, o Daime permanece um mistério. Nas palavras de Sócrates: "Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo".

 

Cozimento do Santo DaimeCipó Jagube colhidoJagube maceradoEntrada da área de feitioIgreja do Chave de São PedroSanto DaimeIgreja do Chave de São Pedro - mesa e Cruz do Cruzeiro do SulIgreja do Chave de São Pedro - mulheres limpando a folha-rainhaCipó JagubeFolha Rainha ou ChacronaIgreja do Chave de São PedroChácara do Chave de São Pedro