O emprego que vem do lixo

Moradores da Vila Planetário vendem o lixo e ganham o sustento das famílias

Ângela Both Chagas

 

Uma pequena Vila, junto ao planetário da UFRGS, é retrato de uma realidade presente nos últimos anos: o trabalho com o lixo. São dezenas de famílias que recuperam a dignidade, encontram forma de renda e ainda contribuem para a preservação do ambiente, através da coleta dos resíduos.

Papel, plástico, alumínio, vidro. Esses são as matérias-primas utilizadas pela Dona Maria Ilda Pereira, uma senhora de 55 anos, que há 15 trabalha com a reciclagem de lixo. Sentava em frente a sua casa, junto com o marido, Francisco Pereira, 58 anos, separa o material que encontra nas ruas do bairro próximo à Vila Planetário. Assim tem sido a vida do casal, separar o lixo enquanto cuidam dos netos, quatro crianças que ficam com eles enquanto os filhos trabalham.

- O lixo é o meu sustento. Não faço isso porque gosto, mas por precisar. Se tivesse emprego, não estaria aqui, ressalta Dona Maria Ilda enquanto amontoa os jornais entregues por um vizinho.

O rendimento, cerca de um salário mínimo mensal, ajuda no sustento da casa. Seu Francisco é aposentado por invalidez, recebe um salário desde 1999, quando teve sérios problemas de saúde, devido a uma lesão na coluna. Hoje caminha com dificuldade, mas nada que o impeça de trabalhar com a reciclagem.

O instrumento de trabalho, dois carrinhos de supermercado doados por um amigo do filho, voltam cheio todas as noites, quando Dona Maria chega da ronda pelo bairro para juntar o material. Pela manhã, em torno das sete horas, o casal já está em frente a casa trabalhando na separação dos materiais.

- A gente se vira. O lixo é a nossa riqueza. É o que põe comida na mesa todos os dias, resume seu Francisco.

Na mesma Vila, na mesma rua, três casas de distância, vê-se um ônibus velho, uma sucata repleta de material reciclável dentro. Um senhor na porta do veículo dobra papelões. É mais um exemplo do trabalho com o lixo na Vila Planetário. Luiz Carlos Gross, 40 anos, solteiro, sem filhos, sem família. Mora há oito anos na casa de uma amiga, para qual trabalha juntando o lixo em troca de alimento e abrigo.

- Se não fosse o lixo, eu estaria na rua. Agora pelo menos tenho um abrigo, tenho comida. E ainda ganho um dinheiro para comprar minhas coisas, destaca Luiz Carlos.

Todo o lixo juntado nas ruas é separado na calçada em frente a casa, depois o material é guardado dentro do ônibus. O veículo, de propriedade da patroa de Luiz, funciona como uma espécie de armazém para o material, que é recolhido todos os sábados pelos intermediários.

- A maioria das pessoas aqui da Vila guarda o material dentro, ou na frente das casas. Com o ônibus a gente não precisa ocupar o espaço da casa com o lixo.

Luiz trabalhava numa empresa de eletrônicos, mas ficou desempregado. A falta de estudo e de experiência em outras áreas o trouxeram para a Vila. Além da renda recebida com a separação do material, Luiz ainda tem consciência da importância do seu trabalho para o meio ambiente.

- É menos lixo na rua e mais emprego para as pessoas.

Melhorando o ambiente urbano

O benefício da reciclagem ultrapassa o limite de tirar o lixo das ruas. São milhares de resíduos que, ao invés de ficarem anos na natureza até se decomporem, são aproveitados na transformação em outros materiais.

A bióloga e coordenadora do programa de Educação Ambiental da Secretaria Estadual de Educação, Estela Gayer, afirma que promover a coleta de lixo, além de trazer renda, proporciona um benefício imenso ao ambiente.

- Na Secretaria de Educação, desenvolvemos projetos para as escolas da rede pública que incentivem a separação do lixo. O trabalho dos catadores é indispensável para a proteção do ambiente e de uma cidade limpa.

Porto Alegre gera, diariamente, mais de 1.600 toneladas de lixo e desde 1989 realiza a coleta seletiva dos materiais. Pela falta de capacidade dos aterros na da capital, boa parte dos resíduos são encaminhados ao município vizinho de Gravataí. A destinação do lixo é um problema enfrentado por Porto Alegre, e pela maioria das grandes cidades do país. A solução: trabalhar pela redução do volume de lixo, tanto na origem (evitando o desperdício), quanto na destinação final (com a reciclagem dos materiais).

- Os professores têm desenvolvido projetos para controlar o consumo, para que cada criança saiba o lixo que será produzido. Isso se chama consumo responsável. Também incentivamos campanhas que estimulam a separação dos materiais, facilitando o trabalho dos catadores e diminuindo o volume de resíduos nos aterros – destaca a bióloga.

E assim como lembrou seu Luiz Carlos Gross, o trabalho dos catadores ajuda a limpar o ambiente urbano.

- As pessoas jogam muito lixo na rua. Sempre encontro muita coisa no chão que pode ser aproveitado. Eu limpo a cidade e ainda ganho dinheiro.

O capital social e econômico do lixo

Não é só o ambiente que ganha com o trabalho de reciclagem. As famílias dos catadores também são beneficiadas, através da geração de renda e de uma forma de trabalho.

A Vila Planetário tornou-se um exemplo da importância do lixo na recuperação da dignidade dos moradores com a geração de empregos. Segundo o presidente da Associação dos Moradores da Vila, Antônio Maciel, 57 anos, das 93 famílias da Vila Planetário, cerca de 20% trabalham com o lixo, assim como ele. Seu Antônio compra e vende latinhas e garrafas especiais (embalagens em vidro de bebidas).

- O trabalho lá fora está escasso. As latinhas me dão dinheiro. Para mim é uma profissão.

Olhando para as moradias, percebe-se a importância assumida pelo lixo na Vila. A frente das casas é tomada por papelões, jornais, garrafas pet. O lixo constitui, para essas pessoas, a matéria-prima para o seu trabalho. É o lixo que coloca a comida na mesa de muitas das famílias, que paga as contas, que recupera a dignidade das pessoas.

Apesar da importância econômica para os moradores, eles enfrentam um problema: entregam os materiais aos intermediários, reduzindo, assim, o lucro. Por não estarem organizados em cooperativas, os catadores da Vila Planetário repassam o lixo para um grupo de intermediários, que todos os sábados recolhe os resíduos já separados e revendem para as empresas de reciclagem.

A empresa de reciclagem, localizada na Rua Voluntários da Pátria, recolhe o material dos catadores (já separados), pesa, paga o valor correspondente ao tipo de material (R$ 0,06 o quilo do jornal, R$ 0,18 o quilo do papelão, R$ 2,30 para o quilo das latinhas) e recolhe num caminhão. Os resíduos são encaminhados à sede da empresa, na Rua Voluntários da Pátria, e prensados em máquinas especiais. Os fardos são levados às indústrias de reciclagem, em Torres e nos estados de Santa Catarina e Paraná.

A realidade de dois jovens

Dois jovens trabalhando com os resíduos em frente a uma residência na Vila chama a atenção. Vitor Joaquim Nunes, 23 anos, e Roberto dos Santos Fogaça, 24, trabalham juntos há dois anos. O dinheiro que ganham, cerca de trinta reais por semana, é dividido.

- Não conseguimos mais emprego. Trabalhar com o lixo foi a única forma de ganhar um dinheiro, conforma-se Vitor.

Roberto estudou até a quarta série, tem dois filhos e mora com a mãe em Viamão. A casa que utilizam para trabalhar é de um tio, que também cata lixo.

Vitor estudou até a terceira série, também tem dois filhos, que não vê há dois meses, não conhece o pai e mora na rua desde os sete anos.

Os dois afirmam que já usaram todos os tipos de drogas. Mas sentem-se orgulhosos por não entrarem para a criminalidade.

- Eu poderia estar vendendo droga agora, estar morando numa casa, com meus filhos. Mas ainda prefiro a rua, o frio, do que o crime, justifica Vitor.

Roberto tem consciência da sua exclusão social:

- Sem trabalho e sem estudo a gente não é ninguém. Antes do lixo, eu vivia na rua, fazendo bobagem. Pelo menos agora ganho um dinheiro. É pouco, mas ajuda.

E Vitor complementa:

- Se pintasse alguma coisa melhor, eu pegaria. Mas não tem. Quem vai dar emprego? Moro na rua, não tenho conhecimento, nem experiência. O lixo vai continuar sendo minha profissão.

Quando questionados sobre o futuro dos filhos, a esperança é pequena:

- Quase não vejo meus filhos, eles moram com a mãe e não tenho dinheiro para dar nada a eles. Não sei o que eles vão ser, só não quero que sejam iguais a mim, ressalta Vitor.

Mas os jovens têm um sonho: formar uma dupla de pagode. Os dois estão inscritos num sorteio para participar do Programa Raul Gil, da Rede Bandeirantes, de São Paulo.

- Eu já cantei no programa quanto tinha sete anos. Não deu certo, mas pude viajar. Agora eu acredito que a gente vai conseguir, ressalta Roberto, que toca na bateria da escola de samba Imperatriz Dona Leopoldina.

O sonho de cantar, ficar famosos, sair da vida na rua, ter seu dinheiro, tem motivado os dois rapazes. Se não der certo, eles são cientes da sua situação:

- Se não conseguirmos, vou continuar com o lixo. Sei que não consigo outro emprego, lamenta Vitor.

Sobre a importância do lixo, Roberto conclui:

- Ainda prefiro trabalhar com o lixo a ficar pedindo dinheiro na rua, ou roubando.

Pela inclusão social

A atividade da coleta de lixo constitui uma técnica alternativa de trabalho que garante a sobrevivência de vários indivíduos fora dos moldes tradicionais de trabalho (vínculo empregatício, relação patrão-empregado) e que representa a inclusão de milhares de pessoas à sociedade.

O exemplo da Vila Planetário pode ser estendido para todo o Brasil. Pessoas sem estudo, que não conseguem inserir-se no mercado de trabalho e que encontram no lixo a única forma de sobrevivência. Esse fenômeno social proporciona a inclusão destas pessoas a condições mais dignas de sobrevivência.

Os catadores da Vila Planetário não trabalham com o lixo por prazer, por paixão, e sim por necessidade. Necessidade de pôr comida na mesa, de pagar as contas, de ter um lar, de sustentar um filho, um pai. Essa nova profissão, crescente nos últimos anos, antes de ser fruto do enorme fluxo de resíduos das grandes cidades, é resultado da falta de oportunidades para aqueles que estão excluídos da sociedade.

 

Dona Maria Ilza separa os materiais enquanto cuida dos netos (foto por Ângela Both Chagas)O ônibus é utilizado para separar o lixo (foto por Ângela Both Chagas)Seu Luiz tem consciência da importância ambiental do seu trabalho(foto por Ângela Both Chagas)Os materiais são depositados nas ruas da Vila (foto por Ângela Both Chagas)Caminhão recolhe os materiais todos os sábados(foto por Ângela Both Chagas)Jovens encontram no lixo a sobrevivência (foto por Ângela Both Chagas)