Cidade Afora

O cotidiano do bairro Restinga, zona sul de Porto Alegre

Carolina Maia de Aguiar
Reportagem realizada em Setembro de 2007

 

“Uma cidade dentro de Porto Alegre”. É assim que a Restinga, um dos bairros mais populosos da capital gaúcha – se não o mais populoso – é comumente adjetivada. Com população comparável a algumas cidades da região metropolitana de Porto Alegre e cultura, identidade e história marcantes, a Tinga muitas vezes faz jus a esse título – e a outros, como o de bairro pobre e violento.

A origem do bairro está nas vilas Ilhota, Theodora e dos Marítimos, formadas nas décadas de 1940 e 1950 por migrantes do interior do Estado. De acordo com Marion Kruse Nunes, historiógrafa da cidade, o êxodo rural foi responsável por 70% do aumento da população da capital, gerando grandes contingentes de trabalhadores pobres e em subhabitação. Em 1966, o recém-criado Departamento Municipal de Habitação (Demhab) começa a remover à força os casebres dessas três vilas para uma área despovoada, na zona sul da cidade, distante do centro, sem a mínima estrutura de moradias. Só o que havia lá era mato e um arroio – uma restinga.

Os primeiros tempos foram difíceis: os caminhões-pipa vinham apenas de quinze em quinze dias, não havia iluminação nem estradas. Picadas foram abertas no mato pelos novos moradores, que também cavaram poços e organizaram abaixo-assinados para exigir da Prefeitura linhas de ônibus, rede de água e esgoto, escola primária, postos de saúde. Talvez venha daí o caráter de união e luta que é atribuído à Restinga.

“Aqui, se alguém fica doente, todo mundo ajuda, tem muito companheirismo e amizade”, diz Jussara Fátima Pinheiro, 54 anos, moradora da Restinga há 35 – ou seja, praticamente desde sua fundação. Jussara não esconde a tristeza com a falta de infra-estrutura do bairro: “precisa de segurança, saúde e emprego”. Mesmo assim, os laços criados entre a moradora e sua comunidade falam mais alto: “Não pretendo sair daqui, adoro a Restinga”.

Irma de Souza, 48 anos, compartilha o amor pelo bairro: “Pretendo ficar aqui pra sempre”. Irma tem três filhos, que estudaram, moram e trabalham na Restinga e é dona de uma lancheria há três meses. Antes disso, trabalhou no SuperKan, uma rede de supermercados local, onde hoje trabalham seus dois filhos homens. Sua outra filha, Fabiana, trabalha com ela na lancheria.

A família de Irma retrata um dos tipos de trabalhador da região. O estabelecimento comercial típico da Restinga é pequeno, tem poucos funcionários e está instalado em uma sala simples, semelhante a uma garagem – o que, combinado às casas pequenas e baixas e às ruas vazias, dá ao bairro o aspecto de uma cidade pobre do interior. Outro perfil de empregado de lá é o daquele que trabalha em outro bairro, enfrentando os 22km e mais de uma hora de ônibus para chegar ao centro. Fora esses, há os desempregados – que, de acordo com o IBGE, chegam a 10% dos responsáveis pelos domicílios – e os informais.

Dados complexos

“A Restinga não é auto-sustentável para emprego”, admite o Coordenador do Centro Administrativo Regional da Restinga, Pingo Vilar. “Hoje a Restinga é considerada uma cidade-dormitório, as pessoas moram aqui mas se deslocam para trabalhar.” O Parque Industrial da Restinga, criado nos anos 80 para fomentar o desenvolvimento da região e absorver sua enorme disponibilidade de mão-de-obra, não teve a expansão imaginada logo no início. Hoje, com a inauguração de três novas empresas – uma delas em prédio cedido pela Prefeitura – o Parque Industrial gera cerca de duzentos empregos diretos, o que é pouco para a população local.

Não se sabe ao certo quantos habitantes a Restinga tem. O IBGE fala em 50.020 habitantes em 2000, época do último censo. Caso esse número esteja correto, a Restinga não é o maior bairro da cidade, como se autoproclama – fica atrás de Rubem Berta, com 78.624, e do Sarandi, com 60.403. A Caixa Econômica Federal, há 15 anos no bairro, trabalha com a estimativa de 130 mil habitantes. E o Centro Administrativo Regional (CAR), espécie de subprefeitura para gestionar a Restinga, defende o dado de surpreendentes 157 mil habitantes, estimados a partir do trabalho dos profissionais de saúde da família do município.

Segundo a Prefeitura, 13% dos domicílios da Região Restinga encontram-se em vilas irregulares, em terrenos particulares loteados ou invadidos, o que explicaria o fato de seus moradores não terem sido contados pelas estatísticas oficiais. Se o CAR estiver correto em sua estimativa, a Restinga não só é quase uma cidade dentro de Porto Alegre como é maior do que 24 dos 31 municípios da região metropolitana. Mas mesmo considerando-se os dados “modestos” do IBGE pode-se perceber o tamanho do bairro: a Restinga é mais populosa que metade desses municípios.

Outros dados estatísticos da Restinga não são nada animadores. Apesar de densamente povoado (1.349, 29 hab/km²), o bairro não conta com saneamento básico em toda a sua extensão: 12,8% dos domicílios não possuem esgoto sanitário adequado, e 5,3% deles não têm nem mesmo água encanada. A média de anos de estudo do responsável pelo domicílio é de 6,1 anos, ou seja, nem o Ensino Fundamental concluído, e a taxa de analfabetismo é de 6%. Isso talvez explique o motivo para que 49% dos responsáveis pelos domicílios ganhem no máximo dois salários mínimos por mês.

Na média

A combinação de distância do centro, baixas taxas de escolaridade e renda, altos níveis de desemprego e uma grande quantidade de população tem uma conseqüência grave: um aumento na violência. Quanto menores os investimentos públicos para remediar essa situação, piores ficam as estatísticas: não é à toa que na chamada Restinga Velha, onde ficaram os primeiros casebres construídos na região, haja mais incidência de violência e a concentração de todas as bocas de fumo do bairro. Para a delegada Vivian Calmeiéri do Nascimento, do 16º Distrito da Polícia Civil, a Restinga é de fato um bairro violento, mas “na média da cidade”, inserindo-se entre os mais violentos – que apresentam o mesmo perfil de comunidade populosa e carente. Os crimes mais comuns são o furto, o roubo, a lesão corporal e as ameaças.

O número de ocorrências para cada policial civil, ali, triplicou em seis anos. Em 2001, o total de ocorrências criminais foi de 5.389. Em 2006, esse número sobe para 6.851. Em 2001, quando existia a Área Judiciária da Restinga, o 16º Distrito da Civil tinha 52 funcionários, com quatro equipes de plantão, cada uma liderada por um delegado. Hoje, há somente dois plantonistas e uma delegada no total de vinte e cinco funcionários da delegacia, insuficientes para a quantidade de ocorrências. A Brigada Militar, responsável pelo policiamento das ruas, não quis divulgar os dados de seu efetivo.

Jussara, a que mora há 35 anos na Restinga, acredita que a violência diminuiu, se comparada com os dados de um passado mais distante. Ainda assim, acredita que a comunidade não está segura. “Me preocupo muito com a droga. Existe muita violência por causa disso”. Funcionária do CAR da Restinga há 24 anos, ela já trabalhou com menores infratores – “Guardo na lembrança um que não conseguiu sair dessa vida e foi morto” – e conhece bem a comunidade. As drogas são apontadas por vários moradores como um dos problemas do bairro, sendo a maconha e o crack as drogas mais consumidas.

Integração, cultura e luta

“Mas a atmosfera da comunidade não é de medo”, ressalta Tharcus Aguillar Alves. “A gente até ouve coisas sobre assalto, mas não vive com medo. Morte mesmo, só nos bailes funk.” Tharcus é um dos militantes da Resistência Popular, movimento social da Região Metropolitana de Porto Alegre, que mantém o Ponto de Cultura Na Quebrada,na Restinga. As metas desse espaço são a produção de cultura e a luta pelos direitos da comunidade. “Não recebemos dinheiro de nenhum partido ou empresa, e por isso podemos organizar qualquer luta”, diz Tharcus.

O NaQuebrada oferece uma oficina de aprendizagem, espécie de reforço escolar, para 15 a 20 crianças, e o Curso Pré-Vestibular Esperança Popular, numa parceria da UFRGS e da Associação de Moradores Núcleo Esperança I (ASCOMNES), de que participam cerca de 20 alunos. Além disso, também há uma oficina permanente de serigrafia e oficinas de saúde, hip hop, software livre e comunicação. Comunicação, por sinal, é o forte desse Ponto de Cultura, que mantém a rádio comunitária da Restinga, a Rádio Quilombo, FM 101,6, cuja programação traz músicas e discussões sobre educação, saúde, sexo seguro e demandas dos movimentos populares.

Mais do que por seu tamanho – que pode ser contestado, como provam os dados do IBGE –, a Restinga é famosa por suas características culturais e cultura, no bairro, é da alçada da S.R.B Estado Maior da Restinga. Fundada em três de março de 1976, a escola já foi campeã em sete carnavais. Além de ser um expoente do samba no Estado, a Tinga também tem um forte envolvimento com a comunidade, organizando eventos beneficentes, como uma campanha de arrecadação de alimentos, que são distribuídos dentro da própria comunidade. Mesmo assim, a participação da comunidade na escola tem diminuído.

Em 93, a bateria tinha 500 ritmistas, dos quais 350 eram destacados para desfilar no carnaval. Hoje, não se conseguem 250 ritmistas para ensaiar. “O jovem da comunidade prefere o pagode”, diz José Augusto, o Guto, 30 anos, mestre da bateria da escola. Guto não acredita que essa diminuição da participação da comunidade na escola de samba traga algum prejuízo para a integração das pessoas que moram na Restinga. Acredita que, mesmo que os estilos sejam diferentes, a música sempre forma laços. “Se tu andar aí pelos becos, tu vai ver um monte de gente tocando cavaquinho, pandeiro, fazendo pagode. Isso é integração também.”

Integração, luta, cultura – as palavras-chave dessa comunidade – aparecem juntas na história da biblioteca pública da Restinga, um ramal da Biblioteca Municipal Josué Guimarães implantado no bairro em 2001. “A Restinga é uma comunidade que reivindica muito, que se mobiliza”, pensa Marta, bibliotecária responsável por esse ramal. “Foi a própria comunidade que pediu essa biblioteca aqui, foi uma decisão deles no Orçamento Participativo”. Cristiano, 20 anos, um dos 703 usuários cadastrados na biblioteca, concorda: “O pessoal, sempre que precisa, se organiza”.

Carências

Andando pelo bairro, pode-se constatar que a comunidade realmente aproveita os espaços públicos a que tem acesso. Nos bancos do CAR, moradores discutem sobre os rumos das associações de bairro. Na Esplanada, praça no centro da Restinga onde ocorre a Feira Modelo todos os sábados, mulheres sentam-se com seus filhos para conversar. Nas canchas públicas, adolescentes jogam futebol e basquete.

Mas espaços bem-ocupados não são garantia de que todos os espaços necessários serão disponibilizados. A saúde, por exemplo, é um dos pontos fracos do bairro. A população da Restinga – seja qual o número considerado – excede a capacidade de atendimento dos três Postos de Saúde da Família e das duas Unidades de Saúde. Para tratamentos mais complexos, há um hospital administrado, atualmente, pelo grupo Moinhos de Vento, mas conhecido ainda como “Hospital da Ulbra”, devido à administração anterior. Tharcus, da Resistência Popular, é taxativo: “se tu quebrar um braço, tem que sair daqui, procurar hospital em outro lugar... o raio X do hospital da Ulbra tá sempre quebrado!” Transporte também é um tema delicado por lá. Mesmo freqüentes, as linhas de ônibus não dão conta do volume de passageiros – seriam necessários mais horários. Tharcus reclama do desconforto: “o trabalhador pega o ônibus e vai em pé, se amontoando com os outros, até chegar ao centro. Chega no trabalho já com uma hora de cansaço”.

Se, no que diz respeito aos investimentos públicos, a Restinga ainda não pode se considerar independente de Porto Alegre, para muitos outros serviços é possível pensar nesse bairro como efetivamente em uma cidade. A Tinga tem uma semana própria (comemorada sempre entre 18 e 26 de novembro), associações de bairro fortes que solucionam alguns dos problemas da comunidade (administração de creches, por exemplo), bancos, escolas, supermercados, empresas de financiamento, telecentros, academias, pizzarias, oficinas.... Mesmo um Site de Serviços do bairro, com fotos, notícias e classificados, já existe, e é possível fazer documentos sem sair da Restinga – no CAR existe um Departamento de Identificação. Tharcus conta que o pai de um amigo seu diz não ir ao Centro há mais de dois anos. “Não sei se é verdade, acho possível, mas me parece muito difícil alguém ficar tanto tempo sem ir ao Centro”.

De fato, é difícil escapar ao centro da Capital – afinal, ali se concentram serviços básicos e essenciais à manutenção do município. E dois anos longe dele é possível, mas muito – seja para quem vive no entorno de Porto Alegre, seja para quem vive em outra cidade dentro dela.

 

 

Foto por Carolina Maia de AguiarFoto por Carolina Maia de AguiarFoto por Carolina Maia de AguiarFoto por Carolina Maia de AguiarFoto por Carolina Maia de AguiarFoto por Carolina Maia de AguiarFoto por Carolina Maia de AguiarFoto por Carolina Maia de AguiarFoto por Carolina Maia de AguiarFoto por Carolina Maia de Aguiar