O Taquaryense com seus 122 anos 

É o segundo jornal mais antigo do Rio Grande do Sul em circulação e o único da América Latina a ser produzido de forma artesanal e utilizar tipos móveis

Anna Liza Precht & Gabriela Antunes
Pesquisa realizada em 2009

A pesquisa a seguir apresentará o peculiar semanário da cidade de Taquari, O Taquaryense, que, com seus 122 anos, é o segundo jornal mais antigo do estado ainda em circulação - o primeiro é a Gazeta do Alegrete que circula desde 1882. Produzido de forma artesanal, o periódico utiliza-se de tipos móveis, sendo o único da América Latina que ainda o faz. Trazendo ao conhecimento um breve relato da história de Plínio Saraiva, filho do fundador Albertino Saraiva, e detalhes da estrutura do jornal, visamos esclarecer essa parte da história da imprensa do Rio Grande do Sul que é ignorada pela grande maioria dos livros que aborda esse assunto.

 

Nas páginas desse jornal foram contados episódios marcantes da história do Brasil e do mundo, mas em especial da cidade da qual deriva seu nome. Iniciando sua trajetória em fins do século XIX, O Taquaryense atravessou o século XX e adentra o XXI sem alterar seus moldes, conservando em suas páginas a simplicidade e a seriedade das quais jamais se distanciou.

 

Visitar as instalações de O Taquaryense é praticamente fazer uma viagem no tempo; entra-se pela modesta porta do pequeno prédio e perde-se nos cento e poucos anos de história do jornal.

 

Acreditar que hoje ainda há um jornal que continua fazendo seus impressos nos moldes gutenberguianos já é difícil, mas ver o processo, acompanhar a montagem do texto (cada letrinha, minúscula que é, sendo alinhada com a anterior), ver o jornal sendo impresso, como um “bolo recém saído do forno”, é simplesmente incrível. Tivemos a sorte de acompanhar o tipógrafo João da Rosa Rodrigues no término dessa tarefa; quando a antiga e barulhenta máquina começou a “trazer à luz” os jornais daquele sábado era possível perceber o quão queridas eram aquelas páginas: o fruto do amor incondicional das gerações da família Saraiva agregado ao esforço e ao comprometimento dos poucos, mas aplicados, funcionários e colaboradores. “Filho” de Albertino e o “irmão mais velho” de Plínio, O Taquaryense é o resultado da coragem e da persistência de ambos.

 

Enquanto o tipógrafo João Rodrigues terminava de montar a página de sábado, nós aproveitamos para olhar a coleção das edições anteriores do jornal. Nossos olhos, maravilhados, varriam as páginas antigas que registraram a abolição da escravatura, a proclamação da República, as grandes guerras, o início dos governos militares, os Atos Institucionais... Uma infinidade de acontecimentos que só havíamos tido contato através de livros, documentários, histórias contadas pelos mais velhos, e que estavam ali, registrados nos originais do jornal da cidade de Taquari.

 

É fácil perceber que, se depender de Flávia saraiva Dias, neta do fundador, o jornal nunca deixará de existir. Apesar de esquecido pelas bibliografias que tratam da história da imprensa do Rio Grande de Sul, o jornal conserva sua importância histórica; pode não ser citado nos livros, mas está lá, “vivo”, todos os sábados, trazendo as notícias da cidade, as lembranças e as saudades.

 

Quinze de julho de 1887

Taquari, primeira cidade gaúcha de povoamento planejado pelo governo português, está localizada a 96 quilômetros de Porto Alegre/RS. Em fins do século XIX, o Vale do Taquari era capitaneado pelo município que lhe deu o nome, sendo este, naquela época, pólo comercial, agrícola e cultural da região, cuja população era composta por açorianos, seus descendentes e escravos.

 

Hoje, começo do século XXI, Taquari é considerada berço da colonização da Região, preservando em sua arquitetura, em suas tradições e em sua memória, um patrimônio cultural que vai muito além dos limites físicos e territoriais. A construção de toda a história desse município e dessa região pode ser encontrada nas páginas, muitas delas já amareladas pelo tempo, do jornal O Taquaryense.

 

O referido jornal foi fundado em 15 de julho de 1887, por Albertino Saraiva e teve sua primeira edição publicada em um domingo, dia 31 de julho daquele ano. O Taquaryense era impresso na oficina gráfica de Tristão de Azevedo Vianna, que teve seu nome publicado no cabeçalho do jornal nas primeiras edições, até que Albertino conseguisse comprar a oficina tipográfica e colocasse, definitivamente, seu próprio nome como o de fundador do jornal O Taquaryense.

 

Em um Estado de poucos jornais, O Taquaryense surgiu como um meio de comunicação num pequeno município do interior, mostrando o quão idealista e atrevido era o então jovem de 22 anos, Albertino Saraiva, que veio de São Jerônimo para Taquari, para nesta cidade consolidar seu maior sonho.

 

Impresso inicialmente a partir de um prelo, o jornal era confeccionado em um trabalho conjunto, realizado por Albertino e Joanna, sua esposa. Tal processo era muito trabalhoso e bastante demorado, já que era impresso apenas um exemplar por vez. Albertino Saraiva, assim como a maioria dos proprietários de jornal daquela época, reunia em si praticamente todas as funções que são necessárias para a feitura de um periódico: era redator, tipógrafo, paginador, impressor e revisor, além de fazer o trabalho “pesado” de prensar as páginas. Cabia a sua esposa a tarefa de cortar e dobrar as folhas do jornal na forma determinada.

 

Desde o princípio, o jornal O Taquaryense se empenhou em campanhas em prol da cidade de Taquari, e também em causas nacionais como a abolição da escravatura e a implantação da República, nunca escondendo sua posição em relação a esses assuntos. Sempre procurou destacar os principais acontecimentos da sociedade taquariense, assim como registrar os fatos nacionais e internacionais dos descendentes de sua terra. Foi um veículo de comunicação que sempre lutou pelo progresso e pelo bem-estar de seus conterrâneos. Com seus importantes registros históricos, o jornal sempre buscou documentar a vida cotidiana em suas páginas: alegrias, tristezas, emoções de qualquer tipo, desde que a verdade da informação fosse sempre preservada, relatando com responsabilidade e respeito os fatos do dia-a-dia da comunidade, posição editorial mantida até hoje.

 

1910: uma rotativa importada

O ano de 1910 chegou com uma boa novidade: uma rotativa importada, a Marinoni, fora adquirida por Albertino Saraiva. A máquina, fabricada em Paris e importada, em 1909, por Caldas Júnior, fundador do Correio do Povo, foi vendida, e não doada (como algumas fontes, erroneamente, indicam) ao proprietário d’O Taquaryense pela quantia de quatro contos de réis. O Correio do Povo, posteriormente, até tentou resgatá-la para fazer parte do seu acervo, mas não obteve sucesso. A Marinoni, até o ano de 1930, aproximadamente, era movida por um motor a querosene, uma vez que em Taquari a luz elétrica ainda não havia chegado. O referido motor, que se encontra na Casa Costa e Silva, em Taquari, foi o primeiro do Estado, feito especialmente para a Marinoni d’O Taquaryense, por encomenda de Albertino Saraiva, conforme depoimento do atual tipógrafo, João da Rosa Rodrigues.

 

Passado algum tempo, os filhos de Albertino e Joanna foram iniciados e familiarizados com o jornal. Palemon, Mário, Lélio, Gontran, Nelson, Décio, Plínio e Nilo começaram a participar da composição do jornal e contaram, também, com a colaboração de suas irmãs e esposas no trabalho de dobrar e colar os sobrescritos no jornal. Esta tarefa era realizada em encontros às sextas-feiras na residência da família Saraiva por longos anos.

 

No ano de 1928 faleceu o fundador do jornal, Albertino Saraiva, deixando sob a responsabilidade da sua família e dos amigos próximos a tarefa de levar adiante o trabalho de sua vida. Assume, então, a direção do jornal, Mário Saraiva, filho de Albertino. A redação fica a cargo do competente jornalista Leonel Theodorico Alvim, antigo colaborador que desempenhou, com absoluta destreza, a tarefa que lhe foi designada até o ano de 1945. A partir de 1947, o jornal passou à direção de Plínio Saraiva, João Carlos Bizarro Teixeira, Nardy de Farias Alvim e Pery Saraiva.

 

Entre os anos de 1959 e 1962 houve uma paralisação na publicação do periódico, pois o diretor do jornal, Mário Saraiva, irmão de Plínio Saraiva, tornou-se deficiente visual e não pôde dar continuidade à tarefa que lhe fora confiada. Em 1961 foi construído o prédio que até hoje abriga a oficina d’O Taquaryense, com o incentivo e auxílio de amigos e do então prefeito da cidade, Sr. João Eduardo Bizarro.

 

O tempo transcorreu naturalmente. Assume o comando do tradicional semanário, o “pequeno gigante”, idealista e sonhador como o pai. Surge o mito... Uma pequena e acomodada cidade vê surgir um aguerrido, crente e virtuoso homem focado num objetivo familiar. A partir daí, seus dias serão para servir à “joia” criada por seu progenitor.  

 

Foi essa preocupação de Plínio Saraiva em levar adiante, da maneira original, o jornal fundado por seu pai que interessou a Universidade Integrada Vale do Taquari de Ensino Superior - Univates, localizada em Lajeado/RS, a criar o Museu-Vivo de Comunicação. O Centro Universitário propôs ao audaz “jornaleiro” uma parceria, que envolveria a recuperação e manutenção do jornal. A Univates se comprometeu em manter o estilo e a forma como o semanário sempre fora impresso, garantindo que nada seria modificado. O projeto foi aprovado pela LIC (Lei de Incentivo à Cultura), que liberou um valor de 75 mil reais para a recuperação do prédio, dos móveis e do acervo do jornal, que seria restaurado, microfilmado e digitalizado.  Constava no projeto que a Universidade ficaria responsável pela parte de logística e a família continuaria como proprietária, mas sem as obrigações burocráticas inerentes à função. No acordo firmado o prazo seria de dez anos, mas, no entanto, a reitoria da Universidade rompeu o contrato que tinha apenas um ano e dez meses de vigência. Em setembro de 2006, alegando não haver mais interesse de sua parte, que o jornal “só dava prejuízos” e que a comunidade de Lajeado questionava o porquê da Univates “financiar” um jornal de Taquari ao invés de disponibilizar bolsas gratuitas para estudantes carentes da cidade, o reitor quis romper o tratado intempestivamente. Tal decisão não foi aceita pela família Saraiva e pelos colaboradores do jornal que conseguiram adiá-la, pelo menos, até o final daquele ano. Segundo Flávia Saraiva Dias, devido a esta inesperada decisão o jornal ficou como “um barco à deriva”.

 

O Taquaryense há muito tempo deficitário, foi diversas vezes “salvo” pelos aportes financeiros de Plínio Saraiva, que nunca se importou em contabilizar os valores subtraídos de sua aposentadoria para sanar as despesas. Mas como o rompimento do contrato aconteceu após o seu falecimento, os familiares não possuíam recursos disponíveis para aplicar no jornal.

 

Agravamento da crise

Em dezembro de 2006, com o agravamento da situação financeira, devido a uma queda brusca no número já reduzido de assinantes, foi realizada uma reunião, em um clube da cidade, com um grupo de colaboradores e familiares ligados ao jornal e inúmeras pessoas da comunidade. Nesse decisivo encontro, ficou decidida a formação de uma comissão com a finalidade de angariar fundos, através de anunciantes e novos assinantes, e tentar resgatar os antigos assinantes que se afastaram do jornal quando da parceria realizada entre a Univates e O Taquaryense. Muitos assinantes, na época, não aceitaram o fato do jornal ter sido “vendido” para a cidade de Lajeado.

 

Mesmo movida pela vontade de manter o semanário em circulação, a comissão não conseguiu reunir, naquele momento, as condições necessárias para atingir seu objetivo principal, e O Taquaryense deixou de circular em janeiro de 2007. Um início de ano que marcou tristemente todos aqueles que, durante muitos e muitos anos, fizeram d’O Taquaryense um companheiro indispensável das tardes de sábado. Foi um primeiro semestre de muita batalha e de muitos encontros e reuniões na busca de uma maneira para colocar O Taquaryense novamente nas ruas. Foi nesse período que se descobriu que existiam mais colaboradores à disposição da meritória causa do que dificuldades e, no dia 28 de julho de 2007, um jornal revitalizado retorna à circulação pelas hábeis mãos da equipe gráfica que voltou para dar vida à oficina da Rua Sete de Setembro. Os assinantes ficaram muito satisfeitos e eufóricos com o retorno do “seu querido semanário: O Taquaryense” que, agora revigorado, voltava a ser taquariense na sua essência.

 

A partir dessa data, O Taquaryense, embora pertencendo à mesma família desde a sua fundação, fato inédito na história da imprensa nacional, conforme Flávia Saraiva Dias, neta do fundador, não é mais de uma família, de uma comissão ou de seus colaboradores, ele passava a ser de uma comunidade, do povo de Taquari.

 

Período de transição

Foi nesse período de transição, de muitas dificuldades, que algumas pessoas, não ligadas à família do fundador, tiveram uma atuação destacada, conforme ressalta Dona Flávia. Como ela própria diz, surgiu um “anjo” chamado Lauro Pereira Guimarães, taquariense, residente em Porto Alegre, que, mesmo extremamente ocupado, encontrou tempo disponível em sua atribulada agenda para dedicar-se à solução de problemas burocráticos do jornal: jurídicos e, em alguns casos, financeiros de grande monta.

 

Outra figura destacada como “anjo protetor”, é a dedicada colaboradora e redatora Maria Ermi Bastos Praia, responsável pela revisão ortográfica, pela seleção de artigos publicados e, especialmente, pela criação da seção “Perfil”, na qual pessoas comuns da comunidade são entrevistadas, fato muito bem aceito pelos leitores que tirou a “aura elitista” do jornal, tornando-o mais popular.

 

Atuando como colaborador apaixonado pelas letras, conforme sua própria definição, Davi Saraiva Schäffer – tetraneto de Albertino - é o único representante da família a ter uma coluna fixa no jornal atualmente. Intitulada “Remexendo o Passado”, a coluna semanal traz notícias marcantes veiculadas durante os 122 anos do jornal e reflexões do autor a respeito das mesmas.

 

Em relação à parte gráfica, João da Rosa Rodrigues, o Joãozinho – atual tipógrafo, diagramador e impressor do jornal, considerado um heroi por Dona Flávia, não mede esforços e se dedica quase que exclusivamente na montagem, tipo a tipo, do jornal que só se torna real através de suas mãos. São 16 anos de dedicação a um sonho que, a princípio, não era dele, mas que hoje considera seu também. É na figura do idealista Plínio Saraiva que Joãozinho tem seu maior exemplo e deposita suprema admiração.

 

Edson Claiton Lopes, outro empregado da oficina, enquanto seu Plínio era vivo, foi entregador do jornal por 28 anos, ficando afastado dessa função durante o convênio com a Univates. Aos sábados, antes de fazer as entregas para os assinantes, em sua bicicleta, ele dobra, um a um, os jornais já impressos, fazendo as marcações com um pedaço de madeira.

 

O Taquaryense tem um valor histórico inenarrável. É o segundo jornal mais antigo, ainda em circulação, do Estado. É muito representativo para a identidade cultural da região do Vale do Taquari, do Rio Grande do Sul, do Brasil e do mundo, uma vez que, segundo dados coletados, seria o único jornal da América Latina ainda produzido no modo gutenberguiano de impressão.

 

Todos os fatos citados até aqui nos demonstram a maneira simples e carinhosa, porém séria, com que este jornal é feito e levado às ruas. Isso o torna um veículo singular que tem como principais atrativos a singeleza e o charme de sua montagem, pois em pleno século XXI, numa era de explosão tecnológica e de instantaneidade, é quase inacreditável que ainda sobreviva o ideal do jovem sonhador, Albertino Saraiva, que viveu sua juventude no final do século XIX.

 

 “O Taquaryense é amor, acima de tudo amor, amor integral de uma família à sua comunidade. Ler suas páginas é um voltar no tempo, através de uma edição ‘bordada’ por seus tipos gutenberguianos que sobrevivem até hoje e testemunham uma história de 122 anos. É uma luta diária compor, imprimir e manter esse jornal, mas nós vamos lutando e vamos conseguindo”, conclui a descendente do fundador, e atual representante da família na direção do periódico, Flávia Saraiva Dias.

 

Impressão artesanal

Preservando o seu formato artesanal de impressão e sendo feito através da utilização de tipos móveis (símbolos soltos, produzidos a partir de ligas metálicas que, um a um, tipo a tipo, formam as palavras, frases, enfim, o corpo do texto), O Taquaryense utiliza até hoje o processo de produção elaborado, em 1456, por Gutenberg, considerado o “pai da imprensa”. Os tipos são de tamanhos variados: dos pequeninos, utilizados para a composição do texto do jornal; até os maiores, utilizados nos títulos, para dar maior destaque aos artigos. Para o tipógrafo, é necessário conhecimento, muita paciência e concentração na hora de compor as páginas. Para as pessoas que não são acostumadas, pode até parecer complicado, mas a montagem das frases é normal, como se fosse um carimbo, a letra é espelhada. Na oficina, existem tipos que, segundo João da Rosa Rodrigues, o tipógrafo, datam da Primeira Guerra Mundial. A maioria dos tipos dura em torno de 10 a 20 anos. Ainda segundo Rodrigues, apenas uma empresa no Brasil fabrica esses tipos, o que torna seu custo muito elevado. Valor que gira em torno de cento e quarenta reais o quilo.

 

A caixa francesa, na qual são guardados os tipos, é organizada da seguinte forma: para que as letras fiquem separadas ela é subdividida em quadros; nos superiores ficam as letras maiúsculas, os números e as letras acentuadas, nos inferiores encontram-se as minúsculas, as pontuações e os símbolos. As letras mais usadas situam-se mais perto da mão, assim como se apresenta o teclado do computador.

 

O Taquaryense possui estilos variados de tipos, clichês, espaços, ornamentos e demais elementos necessários para que o jornal seja composto.

 

O clichê é uma imagem reproduzida numa placa de metal padronizada, utilizada para a reprodução de fotos, ilustrações, anúncios de publicidade, etc. É feito em empresas especializadas e somente sob encomenda; custa relativamente caro (em torno de duzentos a trezentos reais cada um) e demora a ser feito. Uma vez utilizado o clichê basicamente perde o propósito, a menos que venha a ser usado novamente, como nas publicidades e fotos de pessoas importantes. Não é como hoje, quando as fotos têm vida efêmera e raramente são repetidas nos diversos jornais, são baratas e podem reproduzir o acontecimento imediatamente.

 

No começo, os papéis utilizados no jornal vinham da Alemanha, de navio. A partir de 1930 passou a utilizar o mesmo tipo de papel, mas fabricado no Brasil. Os papéis são mantidos em resmas e cortados na guilhotina (a mesma utilizada desde 1887) já no formato do jornal.

 

Segundo Flávia Saraiva Dias, neta do fundador d’O Taquaryense, o jornal por ser feito de forma tão artesanal, pode ser comparado a um bordado, onde o tipógrafo é o artista e seu bordado é impresso nas páginas do jornal.

 

A composição textual hoje é diferente da dos primórdios: antigamente, o jornal era composto por quatro páginas, divididas em cinco colunas em cada página e as notícias eram separadas por pequenos títulos de identificação. Hoje, o número de páginas ainda é mantido, assim como a separação das notícias, porém, as páginas são dividas em três colunas. Desde o princípio não havia manchetes destacadas; o que se achava era pequenos títulos, sem subtítulos, que indicavam de forma superficial o conteúdo da matéria. Depois de um curto período em que as notícias ganharam títulos mais destacados, como no período militar, o jornal voltou ao modelo inicial, sem muito destaque nos títulos e sem manchetes.

 

Num primeiro momento, pode-se dizer que O Taquaryense não possui capa, mas ao determo-nos a uma análise mais detalhada, verificamos que a afirmação não é verdadeira. Comparado aos principais jornais da atualidade, verificamos que os mesmos não apresentam textos na sua capa. No jornal O Taquaryense, capa e primeira página confundem-se. O que verificamos é a presença de um cabeçalho que contém o nome do jornal, o nome do fundador, a data de fundação, entre outras informações adicionais sobre o próprio jornal. Os assuntos considerados relevantes para a comunidade são dispostos na “capa”. Nas páginas centrais ficam informações e artigos diversificados e a publicidade. A contracapa é destinada à parte social da cidade, sendo elaborada atualmente pela colaboradora Maria Ermi Bastos Praia.

 

A centenária máquina rotativa Marinoni imprime cerca de dezoito exemplares por minuto, logo, leva em torno de vinte e cinco minutos para que os jornais dos atuais 450 assinantes fiquem prontos, geralmente, na manhã de sábado. Segundo Davi Saraiva Schäffer, por volta dos anos 70, o jornal contava com mais de dois mil assinantes. “Mas passou. Hoje os tempos são outros. A modernidade dos outros jornais – que não consideramos e nem eles se consideram – concorrentes, é grande...”, conclui.

 

Na atualidade, não se encontra O Taquaryense em bancas. Ele só é vendido por assinatura. Muitos taquarienses mantêm seu vínculo com a terra natal através das poucas páginas do querido e tradicional periódico. Por esse motivo, o jornal possui assinantes em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Uruguai. Chegou a ter assinante até na França. O envio para os assinantes residentes em outras cidades é feito pelos Correios. A essas pessoas não importa a temporalidade da notícia, e sim o prazer de desfrutar de um “pedaço” da pequena Taquari.

 

Com grande frequência o jornal recebe a visita de pessoas interessadas
em conhecer e ver como funciona o segundo mais antigo órgão da
imprensa do Estado. São elas que garantem a divulgação do trabalho da família Saraiva. No decorrer de sua longa caminhada, esse semanário sempre contou com o apoio de um seleto e devotado grupo de colaboradores. Foram essas pessoas que sempre demonstraram um carinho e um amor muito grande pelo jornal e acreditaram e, com sua dedicação, valorizaram esse maravilhoso meio de comunicação com mais de cem anos de história.

 

Plínio Saraiva, o mantenedor do sonho

 

O ano era 1903, o dia, 1° de abril. Nesta data nascia Plínio Saraiva, o nono dos onze filhos de Albertino Saraiva e Joanna Gomes Saraiva. Seu
Plínio, como era carinhosamente chamado, foi uma figura lendária na região do Vale do Taquari. Ele entrou no jornal com apenas 14 anos, tendo de abandonar mais tarde em virtude dos estudos. Em 1922, voltou a exercer suas atividades no jornal, trabalhando como tipógrafo. Simultaneamente ele trabalhava na Estação Termopluviométrica de Taquari. No ano de 1927, foi nomeado Escrivão da Exatoria Estadual de Taquari, onde trabalhou até 1959, quando se aposentou. Em 1929, se casou com Consuelo de Farias Alvim e teve dois filhos: Flávia Therezinha e José Carlos Alvim Saraiva.

 

No ano de 1947, tornou-se gerente de O Taquaryense, função que exerceu até 1990, quando passou a ser editor e diretor do jornal, assumindo a totalidade de suas responsabilidades. Ele esteve à frente do jornal por mais de cinco décadas e fazia questão de conservar as características originais do veículo que, sempre que necessário, e quase sempre era necessário, ajudava a manter com os recursos de seu próprio salário de aposentado. Mas ele nunca se importou com isso, pois, como ele sempre repetia, o jornal era sua vida, seu hobby.

 

Plínio Saraiva completou seus 100 anos em de abril de 2003, com
uma saúde invejável, dirigindo e editando seu querido jornal. Na comemoração desta data tão especial, foi-lhe oferecido um almoço pela comunidade do Vale do Taquari, um modo simples para demonstrar o reconhecimento a tudo que ele representava para a região.

 

Plínio Saraiva costumava enfatizar que seu jornal era apartidário, e que
ele não admitia qualquer conotação política. Apesar de todas as honras recebidas, Plínio costumava dizer, de maneira muito humilde, que era 'jornaleiro' e não jornalista, uma vez que não possuía um diploma.

 

Visando preservar seu rico patrimônio cultural, Seu Plínio tinha por hábito coletar e encadernar os exemplares de seu jornal de dois em dois anos.  Este serviço era realizado em Porto Alegre, uma vez que na região não havia lugar que o fizesse, fato esse que aumentava ainda mais suas despesas. Segundo João da Rosa Rodrigues, atual tipógrafo do jornal, esta série de arquivos é a única coleção do estado que está completa, visto que a de A Gazeta do Alegrete foi em parte perdida, quando do incêndio nas suas instalações. O material que compõe a coleção é extremamente precioso para estudantes das mais diversas áreas, mas principalmente os futuros jornalistas ou atuantes no campo da comunicação, pois traz nas suas páginas mais de cem anos de história.

 

Seu Plínio não se mostrava muito confiante com relação ao futuro do Brasil, e para embasar isso dizia que "não temos mais líderes, os Estados Unidos estão tomando conta da Amazônia e o Brasil está tornando-se um país de republiquetas". Quando era perguntado sobre a continuação do seu jornal depois de sua partida, Plínio acreditava que Flávia Saraiva Dias, sua filha, deveria mantê-lo. E completava: "Talvez ela não consiga mantê-lo assim como eu, por isso, deverá fazer uma parceria, ou algo nesse sentido". Já sabendo da falta de apoio financeiro, comentava que o jornal não tinha esse apoio e era melhor assim. Dizia que era "um jornal pobre, mas sério".

 

Aos 101 anos, Seu Plínio ouvia pouco, enxergava pouco, mas continuava a escrever com facilidade. Seguia sua rotina diária de ir para o
jornal bem cedo da manhã, sempre engravatado. Essa era uma
das suas principais características. Maria Ermi Bastos Praia, colaboradora do jornal, conta que se comovia, muitas vezes, quando chegava às oficinas da Rua Sete de Setembro  e se deparava com “aquela simpática figura: camisa  de mangas arregaçadas, sem paletó, suspensórios  e os dedos sujos de tinta preta, na lida de impressão do seu querido semanário. E com que orgulho e satisfação ele o fazia!”

 

Plínio Saraiva faleceu no dia 9 de agosto de 2004. Segundo sua filha, Flávia Saraiva Dias, “ele dizia que já devia pro ‘mutúrio’ muitos anos; e viveu, viveu muito, e partiu sem sofrer”. Estava feliz e trabalhou no jornal até a última semana de vida.

 

Nas palavras de Davi Shaffer, atual colaborador do jornal, seu Plínio costumava dizer que “Taquari era sua ‘Pátria’ e o jornal, o ‘Seu Irmão mais Velho’. O Plínio honrou – assim como os demais irmãos – o sonho de seu pai e fez dessa batalha, a sua vida. A história dele é linda e se mescla com O Taquaryense”.


 

Referências

RÜDIGUER, Francisco R. Tendências do Jornalismo. Ed. UFRGS, 3º edição, Porto Alegre, 2003.

http://www.redealcar.jornalismo.ufsc.br/cd4/ppropaganda/Elizete%20de%20Azevedo%20Kreutz.pdf – Rede Alcar