O Rio Grande do Sul em um cenário de mudanças climáticas

Caroline Leivas Borges & Jacqueline Pontes Parini
Reportagem realizada em Novembro de 2007

 

Furacões, chuvas torrenciais, estiagens. Acontecimentos climáticos e meteorológicos como esses nunca seriam imaginados há algumas décadas atrás por qualquer pessoa habituada à rotina climática do Rio Grande do Sul. Não só em nosso estado, mas em todo o mundo, muitos alertas como esses têm se manifestado mostrando que algo de errado está acontecendo. E o homem, causador dos problemas que têm acontecido com uma freqüência cada vez maior, é o único que pode ajudar a resolver suas próprias questões. A fúria da mãe natureza, manifestada em cada novo desastre, é o alerta de uma mãe que chama a atenção de seus filhos por suas más atitudes e os quer advertir, mostrando a eles sinais de como serão as conseqüências de suas atitudes caso continuem agindo de forma errada.

A grande causa, conhecida como vilã de todas as mudanças climáticas recorrentes, é o aquecimento global. Este aquecimento tem se mostrado significativo a partir da segunda metade do século XX, fora da normalidade. De acordo com Moacir Antonio Berlato, agrometeorologista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 90% desse fenômeno se deve a ação do ser humano. O aquecimento caracteriza-se pela modificação, gerada pelo homem, da composição química da atmosfera terrestre através da liberação de gases do efeito estufa, sendo o principal deles o gás carbônico, CO2. Esses gases sempre existiram na natureza, mas a ação humana aumenta a concentração deles na atmosfera e isso leva à intensificação desse aquecimento.

O efeito estufa é um fenômeno benéfico, natural. Ele é o responsável por manter o calor recebido pelo sol na superfície, permitindo que haja possibilidade de vida. Se não fosse o efeito estufa natural a Terra seria um planeta congelado com menos de 18º graus centígrados.

O principal fator de aceleração do aquecimento é a queima de combustíveis fósseis. Petróleo, carvão, gás natural. Além disso o desmatamento e a queimada são contribuintes importantes para a elevar a temperatura do planeta . Os gases que resultam dessas atividades se espalham na atmosfera e têm uma vida útil de muitos anos (dezenas, centenas). No ar, eles se alastram com a circulação geral dos ventos e se distribuem por todo o globo. Dessa forma, mesmo que o Brasil, por exemplo, pare com a emissão desses gases intensificadores do efeito estufa, se não houver uma redução de todos os contribuidores para esse quadro,o esforço será insuficiente.

O grande problema que surge a partir desse efeito são as reações indesejadas, fruto de conflitos meteorológicos que começam a aparecer por conseqüência das novas alterações.

O tempo mudou

As alterações climáticas já não são mais uma hipótese científica; elas já estão no quintal dos moradores da região Sul do Brasil. Os gaúchos das grandes cidades e do interior já podem perceber que o clima no nosso Estado não é mais o mesmo. Eventos extremos, como o furacão Catarina, estiagens severas, noites mais quentes e o aumento na freqüência e na intensidade das pancadas de chuva podem ser apenas a ponta de um iceberg de mudanças climáticas que ainda estão por vir.

Segundo Berlato, já foi constatado um aumento de 1,4ºC na temperatura mínima anual entre 1913 e 1998, no Rio Grande do Sul. A temperatura mínima é aquela temperatura que é conseqüência do resfriamento que acontece de manhã. Dessa forma as temperaturas mínimas absolutas não estão sendo tão baixas. Isso indica que os invernos não são mais tão rigorosos (por um aumento da temperatura) e o verão é cada vez mais intenso. Os dados mostram ainda aumento das ondas de calor, noites quentes e redução de dias com geadas severas. O pesquisador diz que o número de dias seguidos sem chuva está diminuindo e o número de dias com precipitação consecutiva está aumentando em todas as estações do ano. A freqüência de chuvas cresce, mas os estudos mostram que, nos últimos anos, o Estado vem sofrendo com as piores estiagens da história. Conclui-se que temos mais chuvas, entretanto, estas se apresentam de forma intensa e concentrada o que prejudica diretamente a agricultura.

Picos de temperaturas extremas são observados com freqüência. Faz muito calor e muito frio em um curto espaço de tempo. As estações do ano estão cada vez mais misturadas e afastadas de suas características. Essas alterações bruscas de temperatura prejudicam a qualidade de vida dos habitantes em geral, mas principalmente dos idosos e das crianças que lotam as emergências dos hospitais, vítimas de problemas respiratórios.

O desmatamento da Amazônia

O aquecimento global é um dos responsáveis por mudanças, mas não é o único. O desmatamento da Amazônia também influencia as alterações climáticas do Rio Grande do Sul. Uma parte significativa do vapor de água formado sobre a floresta desloca-se para o sul do continente, formando chuvas que se precipitam no centro-sul do Brasil e no norte da Argentina. Tais chuvas são importantes para o estado.

As secas dos últimos anos estão associadas também à falta de entrada de umidade vinda da Amazônia. Um desmatamento aqui no estado, em si, não provocaria o efeito que um desmatamento na floresta amazônica causaria. As chuvas do Rio Grande do Sul são ocasionadas pelos ventos alísios que vem da Amazônia e devido às frentes frias, que vem do Pólo Sul e que quando chegam aqui, chove dependendo da frente. Um desmatamento no Rio Grande do Sul, por exemplo, não alteraria as chuvas dentro do próprio estado.

O furacão Catarina

Em 2004, cenas que os gaúchos só haviam visto na televisão, aconteceram diante de seus olhos. O Brasil que sempre foi caracterizado como um país sem grandes desastres naturais teve no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina palco de um violento furacão, o Catarina. O furacão de categoria 1 na escala, teve ventos de 150 km/h, matou 11 pessoas e causou um rastro de destruição em inúmeros municípios entre Laguna (SC) e Torres (RS).

“Na madrugada, quando o furacão chegou, ficamos em casa e confiamos em Deus. Depois do vento, veio a chuva. Pela manhã encontramos casas quebradas, vidros por todo o lado, móveis no chão, árvores caídas, o mar levantou, foi horrível. Muitas pessoas ficaram traumatizadas. Os pescadores passaram horrores” relata a pescadora Maria Santana, moradora de Torres (RS), uma das cidades atingidas pelo Catarina. “Cinco barcos estavam em alto mar quando chegou o furacão Catarina. Em função do atraso nas informações em terra a maioria das casas foi atingida”, conta Adriano Joaquim pescador também de Torres.

O aquecimento da costa brasileira pode fazer do litoral gaúcho ao do Rio de Janeiro, uma região com condições favoráveis para o desenvolvimento de ciclones extratropicais. O aumento do nível do mar, também decorrente do aquecimento, põem em risco o vida de milhões de brasileiros que vivem na costa do país e ameaçam a destruição de cidades inteiras.

As secas que castigam a população rural

Os produtores são os que mais sofrem com os períodos de estiagem. As mudanças climáticas têm um peso enorme para o equilíbrio ambiental e impacta diretamente na agricultura, única fonte de renda para milhares de famílias gaúchas. A agricultura gaúcha enfrentou em 2004/2005 a estiagem mais intensa dos últimos 50 anos. A quebra da safra chegou a 8,5 milhões de toneladas de grãos (soja, milho e feijão), com um prejuízo recorde de R$ 3,64 bilhões e 451 municípios em situação de emergência ou estado de calamidade. Nas duas últimas décadas, para cada dez safras, os agricultores do Rio Grande do Sul tiveram quatro delas frustradas pela ocorrência de estiagens, segundo dados do agrometeorologista Berlato.

Quando chove é de forma concentrada o que faz com que o nível dos rios aumente num primeiro momento e diminua drasticamente nos dias seguintes, as plantas cultivadas não resistem a tantas mudanças. Para o cientista Berlato são necessárias estratégias de adaptação às novas condições climáticas, com cultivo de plantas mais resistentes ao calor, irrigação, e manejo de fertilizantes: “Temos que estar preparados. Não podemos ser otimistas a ponto de sermos ingênuos. É preciso pensar no futuro”, diz.

O gelo da Antártica que esfria o Rio Grande

Nos últimos 50 anos o aumento da temperatura média na superfície da Antártica foi de 3ºC. Além disso, a região também sofreu mudanças no padrão de circulação do vento, precipitação de neve e inversão de padrões de temperatura. Essas alterações provocam efeitos importantes em outras partes do planeta, principalmente no extremo sul do Brasil. As massas de ar frias, explicam os pesquisadores, que chegavam ao Rio Grande do Sul, eram provenientes do sudeste do Pacífico ou do sul da América do Sul.

Nos últimos anos, as frentes frias que atingem o Estado se formam na Antártica, uma região que originalmente não tem ligação com a América do Sul. Isso faz com que a temperatura do RS fique entre 0,5ºC e 1,5ºC mais baixa. Quando essas massas polares não nos atingem a temperatura fica mais alta. E é assim que se ocorrem os extremos climáticos tão fáceis de perceber na rotina dos gaúchos: alternância de dias muito frios e dias muito quentes.

El Niño e La Niña

O El Niño é um fenômeno natural de aquecimento das águas do Pacífico, nas cotas de Equador e Peru, e que atinge o Brasil intensamente e de formas variadas, dependendo da região. Ao passar pelo nordeste brasileiro ele provoca estiagem e seca. Aqui no sul provoca chuvas, e até enchentes.

A La Niña é o fenômeno contrário, é o resfriamento. Quando ela acontece temos estiagem aqui. E aí há chuva um pouco acima da média no norte e nordeste do Brasil.

O El Niño é um fenômeno de uma escala de tempo de cerca de um a dois anos. Seu pico geralmente é perto de dezembro. Uma corrente de água quente acontece em uma região que é de água fria. Acontece o fenômeno da ressurgência em que a água do fundo do mar sobe e traz alimento para os peixes, que alimentam o homem. Os locais onde nascem El Niño e La Niña são beneficiados porque ambos eventos ajudam a pesca local. Para o Brasil é que ele se mostra de forma devassadora.

O aquecimento do globo, porém pode aumentar a intensidade e a freqüência dos El Niño. Coincidência ou não, na segunda metade do século passado, especialmente a década de 80 e 90, tiveram alta concentração de El Niño.

O que precisa ser feito

Diante de tantas mudanças e de um quadro não muito animador para o futuro, cabe pensarmos nas conseqüências de tudo isso e o que podemos fazer para evitá-las, minimizá-las ou nos adaptarmos a elas.

No caso do Rio Grande do Sul, a freqüência e a intensidade das secas tende a piorar, aumentando o êxodo rural e inviabilizando o plantio de uma série de produtos especialmente grãos. Segundo Berlato : “Na agricultura da região sul o aumento da temperatura mínima vai certamente ocasionar redução de rendimento de culturas como o milho e o trigo. O aumento da temperatura também vai prejudicar ou reduzir as áreas aptas para as culturas ditas de clima temperado que exigem frio como é o caso de algumas frutíferas (macieira, pessegueira)”.

As chuvas cada vez mais intensas e concentradas podem castigar as cidades, especialmente os bairros mais pobres que sofrem com falta de saneamento básico e infra-estrutura. Extremos de temperatura podem se intensificar tanto no verão quanto no inverno.

Além disso, temperaturas mais altas aumentam a incidência de doenças e a mortalidade de idosos. Jefferson Cárdia Simões, glaciólogo, professor do Instituto de Geociências da UFRGS e pesquisador do Programa Antártico Brasileiro, afirma que doenças endêmicas, e seus transmissores, têm aumentado significativamente no Rio Grande do Sul, como é o caso do mosquito da dengue. “Estimativas de que um aumento da temperatura média de 1,5ºC no Rio Grande do Sul, algo que pode ocorrer nos próximos 50 anos, já seria suficiente para tornar o Rio Grande do Sul e Santa Catarina áreas endêmicas do dengue.”, diz.

Formas de minimizar esses efeitos seriam adaptar o calendário agrícola as alterações climáticas já observadas e incentivar a diversificação de culturas. Realizar o reflorestamento de mata nativa para preservar as nascentes dos rios e aumentar a retenção de água. Além de investir em pesquisas que garantam previsões e prognósticos mais completos da situação do clima no Estado.

De acordo ainda com Jefferson Simões “as soluções para um problema dessa escala não são simplistas. Implicam em mudanças mais profundas de sistemas econômicos, mudanças em escalas de valores, mudança nas relações sócio-econômicas e mesmo entre os indivíduos. E é isto que nós temos que aprender e conviver nas próximas décadas.”

Além de buscar prevenir e diminuir os impactos de tantas alterações do clima, é preciso que a sociedade esteja preparada para adaptar-se a uma provável mudança na rotina de vida. Para isso, é necessário que se comece a pensar em políticas públicas que estabeleção uma infra-estrutura capaz de acolher e proteger toda população em casos de emergência.