Perdidos no Espaço no FSM 2003

Entrevista com Alexandre Moreira

por Cláudia Zanatta,
Artista Plástica, mestranda no PPGAV - IA - UFRGS
vicaricz@yahoo.com

“Apócrifo constitui-se de cartazes tipo lambe-lambe, sem identificação alguma, reproduzindo o retrato reticulado de alguém. São colados aproximadamente dez cartazes por vez, que serão repostos somente quando todos anteriores desaparecerem. Esse procedimento não é rígido, tendo sempre variações. Pode acontecer da cidade ficar vários dias sem reposição, ou porque estou viajando ou fico muitos dias sem sair de casa ou simplesmente porque esqueço. Há também locais em que os cartazes já foram colados, mas nunca cheguei a ver. Essa disperssão, esse aparente descompromisso com o trabalho é que dá força ao Apócrifo, é o que lhe dá certa autonomia. Apócrifo tem esse formato ( cartazes de rua) porque ele só pode existir misturado à paisagem e às pessoas que aí vivem, de outro modo perde sua função. Em uma cidade como São Paulo seu formato seria outro, lá também existem muros de cartazes, mas a cidade é imensa, a percepção espacial muda completamente. Lá os retratos de Apócrifo desapareceriam. Os muros de cartazes em Porto Alegre estão mais próximos, por assim dizer, das pessoas. Envolve mais a cidade e ao mesmo tempo sua presença é pouco percebida.”

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imagem de Apócrifo

Durante o fórum, a intervenção “Apócrifo”, do artista Alexandre Moreira, estará nas ruas de Porto Alegre. É uma experiência que já tem quase dois anos de duração e consiste na colagem de cartazes tipo lambe-lambe em diversos locais públicos da cidade. Nesta entrevista a Cláudia Zanatta, Alexandre Moreira nos fala um pouco sobre este trabalho e sobre a experiência de uma exposição intitulada “X”, realizada no Instituto Goethe de Porto Alegre, em 2002, onde apresentou cartazes lambe-lambe diretamente colados nas paredes da galeria.

Cláudia Zanatta:
Em “Apócrifo” é a primeira vez que você trabalha na rua. A que se deve esta escolha?

Alexandre Moreira:
O trabalho foi para a rua porque era o terreno mais apropriado ao que “Apócrifo” se propõe. Apesar da apresentação formal agressiva, por tratar-se de um cartaz de grandes dimensões (130 x 95cm) reproduzindo a imagem de uma face humana, “Apócrifo” mistura-se ao ambiente; a sua percepção é sutil. E essa presença manifesta-se em diferentes níveis, tendo relação direta com o procedimento de quem vê o cartaz, podendo suscitar leituras, desde a mais imediata, como entrever, até a mais inteira, como ver - para ser bem didático. A rua me proporciona a liberdade de tempo e espaço necessários para a experimentação e um eventual entendimento (qualquer entendimento).
Parte das minhas referências são propriamente urbanas. Elas sempre estiveram presentes no meu trabalho, embora não sejam o centro do que investigo. Mas é importante na construção de uma metáfora, por assim dizer, da realidade humana. A simbiose – que é como entendo essa relação – do indivíduo e o ambiente. Portanto uma pessoa vivendo numa praia deserta ou em uma metrópole me interessam do mesmo modo. A arte urbana é uma das possíveis configurações dessa estrutura de pensamento.

CZ:
Poderias falar um pouco mais desta relação que te interessa investigar?
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AM:
O ser humano constrói a cidade, ele é o agente, mas em determinado momento, passa a ser apenas mais um elemento da estrutura que iniciou. O indivíduo passa a ser moldado por essa outra entidade. Então, ele destrói e reconstrói sucessivamente, tentando manter sua identidade já comprometida. Agora, não é só ele o agente. Isso se converte em medo, mediocridade, preconceito, em isolamento. Tudo, como e onde vivemos é uma coisa só, um organismo vivo. Só muda o lugar. O entendimento tem que ser interno. Por isso me interessam a pessoa da metrópole e a da praia deserta do mesmo modo.

CZ:
Após quase um ano e meio dos cartazes na rua, como avalias esta experiência?

AM:
“Apócrifo” iniciou em final de maio de 2001 e ainda não sei quando vai parar. Talvez a experiência mais marcante até aqui seja esse convívio de ano e meio. Uma ética que se apresenta a mim, mas que por vezes não passa de suposição, fazendo “Apócrifo” parecer ter vida própria - para usar um clichê.

CZ:
Poderias explicar melhor?

AM:
Não busco de modo algum algo definitivo em Apócrifo. Entendo Apócrifo como um caminho que vou abrindo aos poucos, mas que, às vezes, ele próprio indica por onde ir. Procuro manter uma coerência de pensamento e ação entre meu movimento como artista e como indivíduo, a fim de não haver mais a diferença entre uma coisa e outra. Exatamente por não acreditar que deva existir essa diferença; mas o ser humano tende ao dualismo. Muitas vezes isso é inconsciente, não é proposital, mas somos tão cheios de tarefas, comprometimentos e formalidades que fica difícil encontrar o caminho. As instituições, Estado, Religião, sociedade tornaram-se aberrações por conta do medo e mediocridade de que falei anteriormente. E não passam de conceitos que devem ser revistos. Não acho que deva-se destruir tudo e começar novamente. Já tentou-se isso antes. Só estaríamos trocando uma angústia por outra. A vida está evoluindo para algo além do que podemos entender hoje. Não que tenhamos entendido algo até aqui, mas até aqui acreditou-se nisso, fosse pela religião, fosse pela ciência. Esse entendimento é interno e individual.

CZ:
cz_alexmor1 (21K) Quais as repercussões que achas que tuas ações têm sobre a cidade?

AM:
São mínimas. Aí está o paradoxo, apesar da excessiva exposição, do formato, de estar em uma cidade grande, “Apócrifo” é intimista demais. É interessante que os poucos depoimentos que tenho a esse respeito, são sempre bem pessoais, quer dizer, não vejo muitas especulações em torno de questões sociológicas ou políticas que o formato de “Apócrifo” poderia suscitar. A experiência se dá em outra instância, podendo passar por reflexões imediatistas, mas o que me interessa são esses pequenos acontecimentos internos nas pessoas. Nada é mais abrangente e transformador que vislumbrar outra possibilidade.

CZ:
Possibilidade de?

AM:
Falo de possibilidade no sentido lato.

CZ:
O Apócrifo, de alguma maneira, volta para “casa”, para o atelier? Além dos registros fotográficos, algum resíduo do material que foi exposto na rua é recolhido?

AM:
Recolho três ou quatro cartazes por tiragem depois de um tempo na rua. Costumo guardar muita coisa que será utilizada a longo prazo; portanto, quando mexer novamente nesses cartazes, provavelmente serão outro trabalho. Repito imagens, elementos em diferentes trabalhos e os cartazes são apenas isso: parte de um trabalho. De fato o cartaz é o elemento aglutinador de “Apócrifo”, mas só é o “Apócrifo” quando está misturado aos outros cartazes de rua.

CZ:
Qual o vínculo da exposição “X” realizada no Instituto Goethe com “Apócrifo”?.

AM:
A exposição foi decorrência natural de “Apócrifo”, mas não uma segunda parte. São coisas e situações distintas que se encontram. De fato, foi um desafio propor uma experiência desobrigada como em “Apócrifo”, onde não havia referências claras intitulando-o como trabalho de arte. Enquanto na galeria essa referência é explícita. Quando entramos num espaço de arte deduz-se que veremos arte . Portanto, a percepção, por vezes é prejudicada por conta disso. Foi muito bom trabalhar com essa limitação, e ver como as pessoas lidam com isso. Por exemplo: quase ninguém percebeu que os cartazes na galeria eram atualizados regularmente como na rua. Em alguns casos limitaram-se a reduzir “X” a um mero ato de rebeldia, por tratar-se de um muro de cartazes de rua dentro de uma galeria de arte, quando essa é das discussões mais rasas que “X” pode suscitar.

CZ:
Queres dizer que a percepção da “intenção” da proposta é prejudicada? Qual era a proposta para o Goethe?

AM:
Não falo da percepção da “intenção”. Falo da percepção em si. As pessoas não se permitem andar por um território desconhecido nesse campo. Não se dão o tempo necessário. Na rua, com Apócrifo, não sentem-se agredidas. Às vezes, nem mesmo percebem os cartazes. Quando percebem acostumam-se aos poucos com sua presença, criam hipóteses. Na galeria poucos se dão essa chance. E eu não estou falando em “entender” o trabalho. A proposta? Era essa. Era se dar essa chance. Pra ser bem piegas: cada um poderia achar o que quisesse. Era a rua. Não porque a rua é suja e radical, mas porque está aí e ninguém vê. Como disse antes, é só uma metáfora.

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imagem de X, exposição realizada no Instituto Goethe de Porto Alegre

CZ:
Achas, então, que, na rua, o artista se depara com menos “limites” do que no espaço institucional da galeria?

AM:
Sim. Como disse antes, dependendo do que estiver proposto, tem-se a percepção prejudicada numa galeria de arte. Mas, tecnicamente isso não afeta o que faço , porque eu vou continuar meu trabalho de qualquer modo. O que me incomoda são todas essas limitações do pensamento e da percepção que desde sempre afligem o ser humano, e mesmo assim ele ainda acredita possuir o afamado livre arbítrio. Eu falei dessa relação da rua e da galeria só para ilustrar o que se observa diariamente, desde as relações mais banais até as mais importantes de todos. Aliás, quando falo em “todos” isso me inclui também. Como eu li em algum lugar uma vez, “o julgamento nos derrota”.

CZ:
Há estabelecimento de alguma “conversa” entre teu trabalho em galeria e as intervenções urbanas?

AM:
Sem dúvida, há esse comprometimento do olhar do qual falei antes, de quando se está em uma galeria, e que remete imediatamente ao movimento de “Apócrifo” que está na rua sem identificação alguma, nem mesmo um “período de exposição”. Lidar com essa limitação do espaço institucional pode ser tão compensador e, por vezes, mais desafiador ainda que estar sem limite algum. Por isso houve diálogo, e como eu simplesmente reproduzia o que estava acontecendo na rua, havia a possibilidade de colar o cartaz de “Apócrifo” na galeria também. Portanto, mais que conversa, houve um momento em que “Apócrifo” estava fisicamente junto a “X” na galeria.

CZ:
Você tem algum patrocínio para a realização dos trabalhos?

AM:
Não. Mas conto com alguns apoios, essenciais para a realização do trabalho, como o registro fotográfico de Patrícia Schreiner, o Luis Cerutti da ”Tirage Serigrafia” e o Ricardo Gaieski da “Grude”.

CZ:
Apócrifo ficará ainda por quanto tempo nas ruas de Porto Alegre?

AM:
Não há previsão para o fim de Apócrifo, até porque futuramente, se considerar apropriado, pretendo levar Apócrifo para outras cidades. Mas aqui Apócrifo ainda tem algum tempo.

Fotos:
Patrícia Schreiner

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