“O acesso à cultura ainda é muito elitizado”, afirma Valiati

Valiati

Prof. Leandro Valiati fala sobre cultura

A Economia da Cultura foi o tema da entrevista concedida pelo professor Leandro Valiati ao programa Entrevista Coletiva, da Rádio da Universidade. O programa foi ao ar nesta quinta-feira, às 11h. Leandro Valiati é professor da Especialização em Economia da Cultura da Faculdade de Ciências Econômicas.

As políticas públicas voltadas à cultura foram o eixo da entrevista. Para Valiati, as atuais leis de incentivo à cultura possuem algumas distorções, pois colocam no mesmo patamar bens culturais que já têm mercado com outros que ainda não têm. O professor também destaca que “dos projetos aprovados pelos conselhos culturais [das leis de incentivo], apenas 10% conseguem captar recursos de fato no mercado”.

Confira outros trechos da entrevista abaixo:

Acesso à cultura no Brasil

“O acesso ainda é muito elitizado. (…) Temos um consumo cultural muito concentrado, a cultura dita erudita é elitizada e a cultura popular é objeto de crítica por reproduzir manifestações que também são concentradas. Precisamos de um mercado que contemple diversidade cultural.”

Vale-Cultura

“Se o objetivo do Vale-Cultura é aumentar quantitativamente o consumo de bens culturais, ele cumpre o seu papel. No entanto, se o objetivo for gerar diversidade cultural, acho que o vale-cultura precisa de mais marcos regulatórios associados a ele. Da maneira como está, ele apenas faz as pessoas consumirem mais daquilo que elas já estão consumindo. Ele tem que ser um instrumento para gerar diversidade e diminuir a concentração.”

Leis de incentivo

“Há muita liberalidade na decisão do empresário privado – que vai lançar mão de recursos públicos, ou seja, o imposto não arrecadado – pra decidir os projetos que serão viabilizados.”

“Dos projetos aprovados pelos conselhos culturais [das leis de incentivo], apenas 10% conseguem captar recursos de fato no mercado. Quem são os grupos que captam esses recursos? Historicamente, são sempre os mesmos. Então, se faz política cultural no Brasil para poucos.”

“A regulação social sobre a lei acaba no momento em que o projeto recebe esse selo de valor cultural. Só que deveria continuar no encontro desse projeto com o mercado financiador. O pequeno grupo que consegue captar recursos oferece um incentivo muito forte para o mecenas – “mecenas” entre aspas, já que ele financia com recurso público –, que é o marketing. Quem está decidindo esses investimentos chama-se diretor de marketing. E eu não estou aqui criticando o posicionamento das empresas; elas estão fazendo o lógico. Esse modelo é válido, o problema é quando ele se torna protagonista do incentivo à cultura no Brasil.”

“Shows que têm alto poder de atração de público e de propaganda são subsidiados pela sociedade. O apoio público precisa auxiliar na formação de mercado, inserindo aqueles que não têm mercado.”

Funproarte

“O modelo de fundos e de editais públicos dá mais controle social ao processo. O mercado segue seus próprios interesses e a sociedade precisa fazer valer os seus interesses, que, às vezes, converge com o do mercado. Esse modelo de fundos me parece mais adequado que o de renúncias fiscais.”

Áreas da cultura

“As áreas mais beneficiadas são música e cinema, então as outras áreas carecem de ações específicas para fomentar o mercado.”

“Precisamos criar sistemas que resolvam gargalos estruturais de cada setor. Atualmente, estamos muito focados no produto.”

“Existem editais muito representativos da Petrobras, por exemplo, que financiam o cinema, só que esses filmes não chegam ao mercado. As janelas de exibição estão concentradas nos shoppings e nós não temos canais alternativos, como os cinemas de rua. Então, essas grandes distribuidoras determinam o que vai ser exibido. É fundamental que se crie por ação pública novos canais de exibição para permitir que essa produção escoe.”

Para ouvir a entrevista completa, clique aqui.

 

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