Jornal da Universidade
O sofrimento em flashback
LAIS CHAFFE Jornalista

Todos enfrentam, em maior ou menor grau, experiências traumáticas ao longo da vida. O problema é quando o trauma desencadeia uma doença: o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT)
Uma série de sintomas se mani- festa por tempo prolongado nas pessoas com TEPT, demonstrando que a experiência traumática não foi superada. É a relação entre a intensidade do evento e a resistência individual que vai determinar se a pessoa adoece ou não. Assim, quando alguém enfrenta a morte de perto, seja por guerra, tortura, violência urbana, acidentes, catástrofes naturais, o resultado pode ser o TEPT. O mesmo vale para violência sexual, doenças graves, morte de pessoas próximas. Mas não se pode caracterizar a doença levando em conta apenas a intensidade dos eventos, até porque nenhum deles é necessariamente traumatizante. Há quem passe até mesmo por uma guerra sem adoecer.
O principal sintoma de quem sofre de TEPT é a rememoração constante do trauma, por meio de imagens, pensamentos e/ou percepções. As imagens costumam aparecer como um flashback de cinema, descrevem as vítimas. Essas recordações aflitivas são acompanhadas por sensações de estresse como sudorese, taquicardia, tremores e grande sofrimento psicológico. Nem na hora de dormir é possível escapar: sonhos recorrentes com a experiência traumática perturbam o sono.
Outro indício de TEPT é a fuga de eventos ou estímulos associados com o trauma. Alguém que foi seqüestrado enquanto estava no trânsito, por exemplo, pode deixar de dirigir. Quem foi vítima de assalto em uma lotação, pode deixar de usar o transporte coletivo. Paralelamente, aparecem sintomas persistentes de aumento da excitabilidade. A pessoa tem dificuldade de se concentrar, se irrita mais facilmente e chega a ter surtos de raiva. Hipervígil, apresenta respostas exageradas de sobressalto: o simples aparecimento inesperado de alguém pode resultar num susto. Manter o sono fica difícil. Além disso, é bastante comum o aparecimento de sentimentos de culpa, rejeição e humilhação.
É natural que as vítimas de traumas muito fortes apresentem esses sintomas no período imediatamente posterior ao evento, explica o psiquiatra e professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da UFRGS Flávio Kapczinski. O caso torna-se patológico quando eles se prolongam por mais de um mês. Se não for tratado, o TEPT tende a se manter por longos períodos, que variam de três a dez anos. Em alguns casos, pode durar uma vida inteira, mas isso é raro quando a pessoa busca tratamento.

DEFESA
No Brasil, não há dados epidemiológicos sobre o TEPT. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos indicam que 8% a 12% da população já desenvolveram ou vão desenvolver os sintomas de forma patológica. Entre as pessoas que sobreviveram a algum trauma severo, 10% a 50% adoecem. As mulheres são mais vulneráveis: cerca de 18% delas desenvolvem TEPT em algum momento de suas vidas, enquanto entre os homens o índice é de 9%, informa a pesquisadora Rachel Yehuda, uma das convidadas da XXI Jornada Sul-rio-grandense de Psiquiatria Dinâmica (ver matéria nesta página), em Biological psychiatry (1998). Crianças e idosos também são mais atingidos.
A maior fragilidade emocional decorrente do TEPT deixa a pessoa mais propensa a apresentar outros distúrbios emocionais, como depressão, pânico, fobias. Entre os indivíduos com o transtorno, 80% desenvolvem alguma co-morbidade. A mais freqüente é a depressão. Sabe-se que o transtorno bipolar, assim como os quadros depressivos, são comuns em pessoas que sofreram traumas na infância.
Embora rara, a persistência dos sintomas por toda a vida pode ocorrer em casos de co-morbidade, de vulnerabilidade muito grande ou motivados por um fator desencadeante extremamente intenso. “Os piores deflagradores são aqueles em que a pessoa perde totalmente o controle da situação e, sobretudo, quando o trauma é repetitivo, além de intenso”, afirma Kapczinski. Há vítimas de tortura e de campos de concentração que permaneceram com TEPT pelo resto da vida. Devido à sua maior vulnerabilidade, crianças vítimas de violência, violência sexual ou que perderam os pais podem levar marcas para sempre. Isso porque a pessoa é atingida quando o sistema nervoso está em fase de desenvolvimento, explica o psiquiatra. A maior vulnerabilidade dos idosos se deve aos seus mecanismos mais rígidos de enfrentamento, à menor capacidade de lidarem com os efeitos do trauma de forma mais flexível.
Não se sabe ao certo o que determina a resiliência do indivíduo – o quanto ele tem de defesa psicológica para se recuperar das agressões do ambiente –, mas acredita-se que ela esteja relacionada a fatores genéticos. A visão psicanalítica é de que o trauma reativaria um conflito psicológico já existente, mas não resolvido. A revivência de um trauma de infância, por exemplo, resultaria em regressão e no uso de mecanismos de defesa como repressão e negação.
De qualquer modo, é possível apontar algumas características ambientais que tornam a pessoa mais resistente. “Uma infância tranqüila, em um ambiente familiar estável, compreensivo, afetuoso e estimulante pode deixar o indivíduo mais estruturado”, diz Kapczinski. Entre os adultos, um ambiente tranqüilo também conta. “Ligações emocionais estáveis, suporte familiar e social são bons protetores”, acrescenta o professor da UFRGS. Ele destaca que pessoas solitárias ficam mais expostas, bem como aquelas que se encontram longe de casa.
Quando o assunto é TEPT, não costuma ser válido o dito de que aquilo que não nos mata nos faz mais fortes. “O que sabemos é que um trauma intenso muito mais freqüentemente desestrutura do que ajuda”, afirma Kapczinski. Ele destaca a importância de se buscar tratamento o quanto antes em caso de problemas. “Parece que a vida do indivíduo se desorganiza toda depois de um evento forte.” Por isso, é fundamental que a pessoa tenha apoio logo após o trauma, sendo oferecida a oportunidade de falar, organizando vivências muito dolorosas. A possibilidade de dividir experiências com pessoas que passaram por situações semelhantes beneficia muito as vítimas da doença.

 

O que acontece no cérebro

O tratamento para o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) pode ser feito com psicoterapia, medicamentos ou com os dois. Somente após avaliação do paciente é possível determinar o procedimento adequado, informa o psiquiatra Flávio Kapczinski. Quando o caso é para remédios, eles geralmente são administrados por um período de um ano. O tempo de psicoterapia é variável.
Em situações de perigo, normalmente o organismo passa por uma série de alterações que têm o objetivo de preparar para a fuga ou o ataque (entre elas taquicardia, tensão muscular, hipervigilância). O problema do TEPT é que o organismo fica funcionando permanentemente como se estivesse estressado. É como uma armadilha da natureza: para se “proteger”, o indivíduo perpetua o estresse, prejudicando suas funções vitais.
Kapczinski explica que o estresse é regulado por um conjunto de estruturas chamadas de eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Após a exposição ao estresse, o hipotálamo libera o CRF (hormônio liberador da corticotropina). O CRF, por sua vez, promove a secreção do hormônio adrenocorticotrofina (ACTH) na glândula hipófise. O ACTH age na glândula supra-renal estimulando a produção de cortisol. Níveis elevados do cortisol podem reduzir o tamanho de estruturas cerebrais como o hipocampo, o centro regulador da memória. Além disso, diminuem as defesas do organismo.
Para interromper esse processo, são utilizados medicamentos antidepressivos que agem modulando a ação da serotonina, um neurotransmissor que atua no hipotálamo. O remédio aumenta os níveis de serotonina, que por sua vez restaura o funcionamento do hipotálamo.

 

Jornada de Psiquiatria discute o trauma

Jornada de Psiquiatria
discute o trauma
De 19 a 22 de junho, psiquiatras, psicólogos, es-
tudantes e profissionais de áreas afins se reúnem no Centro de Eventos do Hotel Plaza São Rafael para discutir o trauma psíquico, tema da XXI Jornada Sul-rio-grandense de Psiquiatria Dinâmica. Cerca de 800 pessoas devem participar do encontro, promovido pelo Centro de Estudos Luis Guedes (CELG), Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da UFRGS, Serviço de Psiquiatria e Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Neste ano, a jornada contará com quatro convidados internacionais: os norte-americanos Rachel Yehuda e John Sargent e os argentinos Norberto Carlos Marucco e Luis Kancyper. Rachel e Sargent vão compartilhar experiências sobre o tema a partir de suas áreas específicas de pesquisa, que incluem componentes biológicos e abordagem da infância, adolescência e família. Marucco e Kancyper são destacados psicanalistas que vão abordar o trauma sob esse enfoque.
Uma das maiores autoridades mundiais em transtorno de estresse pós-traumático, Rachel é autora de mais de 150 publicações. A pesquisadora fundou e dirige organizações de tratamento de familiares e sobreviventes do holocausto e de veteranos de guerra. Estuda os componentes biológicos do trauma psíquico, também desenvolvendo trabalhos na área de repercussão de eventos traumáticos em famílias. É consultora científica de organizações como a National Anxiety Foundation e a Anxiety Disorder Association of America.
Psiquiatra de crianças e adolescentes e pediatra, John Sargent vem estudando o trauma e a violência nas famílias e comunidades. Uma de suas idéias a serem discutidas durante a XXI Jornada é a de que uma narrativa coerente dos eventos traumáticos pode ser cicatrizante em si. Sargent deve abordar a forma como a terapia pode ajudar na criação dessa narrativa coerente por crianças, adolescentes e famílias. É professor da Universidade de Baylor e diretor do Serviço de Psiquiatria para Crianças e Adolescentes do Ben Tomb Hospital, de Houston, Texas.

CELG
Fundado em 1959, o CELG é uma associação sem fins lucrativos que congrega psiquiatras, professores, alunos e ex-alunos do curso de especialização em Psiquiatria da UFRGS, da residência médica em Psiquiatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e egressos dos cursos de extensão universitária em Psicoterapia. O objetivo do centro é estimular o aprimoramento de seus associados e da comunidade científica ligada à saúde mental, por meio de cursos e eventos.
O CELG começou a funcionar no Hospital Psiquiátrico São Pedro, sendo transferido para o HCPA há cerca de 15 anos. Em julho do ano passado, um protocolo de intenções firmado com a Faculdade de Medicina da UFRGS oficializou uma ligação já existente, prevendo a atuação conjunta em programas de desenvolvimento científico envolvendo ensino, atendimento e pesquisa na área psiquiátrica.
Uma biblioteca com acervo de mais de 3 mil livros, 230 fitas de vídeo e 77 títulos de periódicos está aberta ao público para consulta local, sendo que somente os sócios podem retirar publicações e fitas. Qualquer pessoa pode se tornar sócio leitor. Já os sócios efetivos, com direito a voto e a serem eleitos para a diretoria do CELG, devem ser psiquiatras com especialização pela UFRGS ou pelo próprio centro.
O presidente do CELG, Flávio Kapczinski, afirma que a XXI Jornada Sul-rio-grandense de Psiquiatria Dinâmica vai permitir o desenvolvimento de recursos humanos para atender às pessoas com transtorno de estresse pós-traumático. “A Jornada certamente vai produzir uma reflexão local sobre o trauma e o TEPT, criando uma consciência de que essas pessoas desenvolvem doenças associadas ao trauma que são tratáveis.” A idéia de realizar esse encontro em Porto Alegre, quebrando uma longa tradição de jornadas em Gramado, visa a possibilitar uma maior participação de profissionais que atuam na área de saúde mental.
As inscrições já estão abertas e podem ser feitas até o dia 14 de junho no CELG (rua Ramiro Barcelos, 2350, sala 2218 - fone 51 3316.8416), na Sociedade de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (av. Ipiranga, 5311 - fone 51 3336.4846), na Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (rua Andrade Neves, 14, sala 802 - fone 51 3224.3340) e na Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul (rua Felipe Neri, 414, 2º andar - fone 51 3331.8586). Após essa data, só serão aceitas inscrições no local do evento. As taxas variam de R$ 100,00 a R$ 260,00, conforme a categoria. Maiores informações no site do CELG (www.ufrgs.br/psiq/celg.html)

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