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Uma
série de sintomas se mani- festa por tempo prolongado nas pessoas
com TEPT, demonstrando que a experiência traumática não
foi superada. É a relação entre a intensidade do evento
e a resistência individual que vai determinar se a pessoa adoece ou
não. Assim, quando alguém enfrenta a morte de perto, seja
por guerra, tortura, violência urbana, acidentes, catástrofes
naturais, o resultado pode ser o TEPT. O mesmo vale para violência
sexual, doenças graves, morte de pessoas próximas. Mas não
se pode caracterizar a doença levando em conta apenas a intensidade
dos eventos, até porque nenhum deles é necessariamente traumatizante.
Há quem passe até mesmo por uma guerra sem adoecer.
O principal sintoma de quem sofre de TEPT é a rememoração
constante do trauma, por meio de imagens, pensamentos e/ou percepções.
As imagens costumam aparecer como um flashback de cinema, descrevem as vítimas.
Essas recordações aflitivas são acompanhadas por sensações
de estresse como sudorese, taquicardia, tremores e grande sofrimento psicológico.
Nem na hora de dormir é possível escapar: sonhos recorrentes
com a experiência traumática perturbam o sono.
Outro indício de TEPT é a fuga de eventos ou estímulos
associados com o trauma. Alguém que foi seqüestrado enquanto
estava no trânsito, por exemplo, pode deixar de dirigir. Quem foi
vítima de assalto em uma lotação, pode deixar de usar
o transporte coletivo. Paralelamente, aparecem sintomas persistentes de
aumento da excitabilidade. A pessoa tem dificuldade de se concentrar, se
irrita mais facilmente e chega a ter surtos de raiva. Hipervígil,
apresenta respostas exageradas de sobressalto: o simples aparecimento inesperado
de alguém pode resultar num susto. Manter o sono fica difícil.
Além disso, é bastante comum o aparecimento de sentimentos
de culpa, rejeição e humilhação.
É natural que as vítimas de traumas muito fortes apresentem
esses sintomas no período imediatamente posterior ao evento, explica
o psiquiatra e professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de
Medicina da UFRGS Flávio Kapczinski. O caso torna-se patológico
quando eles se prolongam por mais de um mês. Se não for tratado,
o TEPT tende a se manter por longos períodos, que variam de três
a dez anos. Em alguns casos, pode durar uma vida inteira, mas isso é
raro quando a pessoa busca tratamento.
DEFESA
No Brasil, não há dados epidemiológicos sobre o TEPT.
Pesquisas realizadas nos Estados Unidos indicam que 8% a 12% da população
já desenvolveram ou vão desenvolver os sintomas de forma
patológica. Entre as pessoas que sobreviveram a algum trauma severo,
10% a 50% adoecem. As mulheres são mais vulneráveis: cerca
de 18% delas desenvolvem TEPT em algum momento de suas vidas, enquanto
entre os homens o índice é de 9%, informa a pesquisadora
Rachel Yehuda, uma das convidadas da XXI Jornada Sul-rio-grandense de
Psiquiatria Dinâmica (ver matéria nesta página), em
Biological psychiatry (1998). Crianças e idosos também são
mais atingidos.
A maior fragilidade emocional decorrente do TEPT deixa a pessoa mais propensa
a apresentar outros distúrbios emocionais, como depressão,
pânico, fobias. Entre os indivíduos com o transtorno, 80%
desenvolvem alguma co-morbidade. A mais freqüente é a depressão.
Sabe-se que o transtorno bipolar, assim como os quadros depressivos, são
comuns em pessoas que sofreram traumas na infância.
Embora rara, a persistência dos sintomas por toda a vida pode ocorrer
em casos de co-morbidade, de vulnerabilidade muito grande ou motivados
por um fator desencadeante extremamente intenso. “Os piores deflagradores
são aqueles em que a pessoa perde totalmente o controle da situação
e, sobretudo, quando o trauma é repetitivo, além de intenso”,
afirma Kapczinski. Há vítimas de tortura e de campos de
concentração que permaneceram com TEPT pelo resto da vida.
Devido à sua maior vulnerabilidade, crianças vítimas
de violência, violência sexual ou que perderam os pais podem
levar marcas para sempre. Isso porque a pessoa é atingida quando
o sistema nervoso está em fase de desenvolvimento, explica o psiquiatra.
A maior vulnerabilidade dos idosos se deve aos seus mecanismos mais rígidos
de enfrentamento, à menor capacidade de lidarem com os efeitos
do trauma de forma mais flexível.
Não se sabe ao certo o que determina a resiliência do indivíduo
– o quanto ele tem de defesa psicológica para se recuperar das
agressões do ambiente –, mas acredita-se que ela esteja relacionada
a fatores genéticos. A visão psicanalítica é
de que o trauma reativaria um conflito psicológico já existente,
mas não resolvido. A revivência de um trauma de infância,
por exemplo, resultaria em regressão e no uso de mecanismos de
defesa como repressão e negação.
De qualquer modo, é possível apontar algumas características
ambientais que tornam a pessoa mais resistente. “Uma infância tranqüila,
em um ambiente familiar estável, compreensivo, afetuoso e estimulante
pode deixar o indivíduo mais estruturado”, diz Kapczinski. Entre
os adultos, um ambiente tranqüilo também conta. “Ligações
emocionais estáveis, suporte familiar e social são bons
protetores”, acrescenta o professor da UFRGS. Ele destaca que pessoas
solitárias ficam mais expostas, bem como aquelas que se encontram
longe de casa.
Quando o assunto é TEPT, não costuma ser válido o
dito de que aquilo que não nos mata nos faz mais fortes. “O que
sabemos é que um trauma intenso muito mais freqüentemente
desestrutura do que ajuda”, afirma Kapczinski. Ele destaca a importância
de se buscar tratamento o quanto antes em caso de problemas. “Parece que
a vida do indivíduo se desorganiza toda depois de um evento forte.”
Por isso, é fundamental que a pessoa tenha apoio logo após
o trauma, sendo oferecida a oportunidade de falar, organizando vivências
muito dolorosas. A possibilidade de dividir experiências com pessoas
que passaram por situações semelhantes beneficia muito as
vítimas da doença.
O
que acontece no cérebro
O tratamento para o transtorno de estresse pós-traumático
(TEPT) pode ser feito com psicoterapia, medicamentos ou com os dois. Somente
após avaliação do paciente é possível
determinar o procedimento adequado, informa o psiquiatra Flávio
Kapczinski. Quando o caso é para remédios, eles geralmente
são administrados por um período de um ano. O tempo de psicoterapia
é variável.
Em situações de perigo, normalmente o organismo passa por
uma série de alterações que têm o objetivo
de preparar para a fuga ou o ataque (entre elas taquicardia, tensão
muscular, hipervigilância). O problema do TEPT é que o organismo
fica funcionando permanentemente como se estivesse estressado. É
como uma armadilha da natureza: para se “proteger”, o indivíduo
perpetua o estresse, prejudicando suas funções vitais.
Kapczinski explica que o estresse é regulado por um conjunto de
estruturas chamadas de eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.
Após a exposição ao estresse, o hipotálamo
libera o CRF (hormônio liberador da corticotropina). O CRF, por
sua vez, promove a secreção do hormônio adrenocorticotrofina
(ACTH) na glândula hipófise. O ACTH age na glândula
supra-renal estimulando a produção de cortisol. Níveis
elevados do cortisol podem reduzir o tamanho de estruturas cerebrais como
o hipocampo, o centro regulador da memória. Além disso,
diminuem as defesas do organismo.
Para interromper esse processo, são utilizados medicamentos antidepressivos
que agem modulando a ação da serotonina, um neurotransmissor
que atua no hipotálamo. O remédio aumenta os níveis
de serotonina, que por sua vez restaura o funcionamento do hipotálamo.
Jornada de Psiquiatria discute o trauma
Jornada de Psiquiatria
discute o trauma
De 19 a 22 de junho, psiquiatras, psicólogos, es-
tudantes e profissionais de áreas afins se reúnem no Centro
de Eventos do Hotel Plaza São Rafael para discutir o trauma psíquico,
tema da XXI Jornada Sul-rio-grandense de Psiquiatria Dinâmica. Cerca
de 800 pessoas devem participar do encontro, promovido pelo Centro de
Estudos Luis Guedes (CELG), Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal
da UFRGS, Serviço de Psiquiatria e Serviço de Psiquiatria
da Infância e Adolescência do Hospital de Clínicas
de Porto Alegre. Neste ano, a jornada contará com quatro convidados
internacionais: os norte-americanos Rachel Yehuda e John Sargent e os
argentinos Norberto Carlos Marucco e Luis Kancyper. Rachel e Sargent vão
compartilhar experiências sobre o tema a partir de suas áreas
específicas de pesquisa, que incluem componentes biológicos
e abordagem da infância, adolescência e família. Marucco
e Kancyper são destacados psicanalistas que vão abordar
o trauma sob esse enfoque.
Uma das maiores autoridades mundiais em transtorno de estresse pós-traumático,
Rachel é autora de mais de 150 publicações. A pesquisadora
fundou e dirige organizações de tratamento de familiares
e sobreviventes do holocausto e de veteranos de guerra. Estuda os componentes
biológicos do trauma psíquico, também desenvolvendo
trabalhos na área de repercussão de eventos traumáticos
em famílias. É consultora científica de organizações
como a National Anxiety Foundation e a Anxiety Disorder Association of
America.
Psiquiatra de crianças e adolescentes e pediatra, John Sargent
vem estudando o trauma e a violência nas famílias e comunidades.
Uma de suas idéias a serem discutidas durante a XXI Jornada é
a de que uma narrativa coerente dos eventos traumáticos pode ser
cicatrizante em si. Sargent deve abordar a forma como a terapia pode ajudar
na criação dessa narrativa coerente por crianças,
adolescentes e famílias. É professor da Universidade de
Baylor e diretor do Serviço de Psiquiatria para Crianças
e Adolescentes do Ben Tomb Hospital, de Houston, Texas.
CELG
Fundado em 1959, o CELG é uma associação sem fins
lucrativos que congrega psiquiatras, professores, alunos e ex-alunos do
curso de especialização em Psiquiatria da UFRGS, da residência
médica em Psiquiatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
e egressos dos cursos de extensão universitária em Psicoterapia.
O objetivo do centro é estimular o aprimoramento de seus associados
e da comunidade científica ligada à saúde mental,
por meio de cursos e eventos.
O CELG começou a funcionar no Hospital Psiquiátrico São
Pedro, sendo transferido para o HCPA há cerca de 15 anos. Em julho
do ano passado, um protocolo de intenções firmado com a
Faculdade de Medicina da UFRGS oficializou uma ligação já
existente, prevendo a atuação conjunta em programas de desenvolvimento
científico envolvendo ensino, atendimento e pesquisa na área
psiquiátrica.
Uma biblioteca com acervo de mais de 3 mil livros, 230 fitas de vídeo
e 77 títulos de periódicos está aberta ao público
para consulta local, sendo que somente os sócios podem retirar
publicações e fitas. Qualquer pessoa pode se tornar sócio
leitor. Já os sócios efetivos, com direito a voto e a serem
eleitos para a diretoria do CELG, devem ser psiquiatras com especialização
pela UFRGS ou pelo próprio centro.
O presidente do CELG, Flávio Kapczinski, afirma que a XXI Jornada
Sul-rio-grandense de Psiquiatria Dinâmica vai permitir o desenvolvimento
de recursos humanos para atender às pessoas com transtorno de estresse
pós-traumático. “A Jornada certamente vai produzir uma reflexão
local sobre o trauma e o TEPT, criando uma consciência de que essas
pessoas desenvolvem doenças associadas ao trauma que são
tratáveis.” A idéia de realizar esse encontro em Porto Alegre,
quebrando uma longa tradição de jornadas em Gramado, visa
a possibilitar uma maior participação de profissionais que
atuam na área de saúde mental.
As inscrições já estão abertas e podem ser
feitas até o dia 14 de junho no CELG (rua Ramiro Barcelos, 2350,
sala 2218 - fone 51 3316.8416), na Sociedade de Psiquiatria do Rio Grande
do Sul (av. Ipiranga, 5311 - fone 51 3336.4846), na Sociedade Psicanalítica
de Porto Alegre (rua Andrade Neves, 14, sala 802 - fone 51 3224.3340)
e na Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul (rua Felipe Neri, 414,
2º andar - fone 51 3331.8586). Após essa data, só serão
aceitas inscrições no local do evento. As taxas variam de
R$ 100,00 a R$ 260,00, conforme a categoria. Maiores informações
no site do CELG (www.ufrgs.br/psiq/celg.html)
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