Jornal da Universidade

Doutorandos da UFRGS pesquisam
produção de plástico biodegradável

ADEMAR VARGAS DE FREITAS Jornalista

Dois biólogos que fazem doutorado na UFRGS realizam pesquisa básica para a produção de plástico biodegradável a partir de bactérias que se alimentam de resíduos agro-industriais existentes no Brasil.

O biólogo Diego Bonatto e a bióloga Heique Bogdawa esperam desenvolver uma tecnologia brasileira, aproveitando a grande biodioversidade que o país tem. Eles estão sendo orientados pelo professor João Antônio Pegas Henriques, do Laboratório de Radiobiologia Molecular do Centro de Biotecnologia da UFRGS. Esse trabalho vem sendo desenvolvido há quatro anos e faz parte de um projeto da Comunidade Européia, que patrocina a pesquisa juntamente com a Fapergs (Fundação de Apoio à Pesquisa do Rio Grande do Sul). O CNPq e a Capes entraram com bolsas de doutorado, e a Copersucar dá apoio.
Segundo Heique Bogdawa, a pesquisa requer investimento, porque é uma área de ponta, que trabalha desde a microbiologia, uma ciência centenária, até a biologia molecular, relativamente mais nova e bem mais custosa. Mas depois que se entra na parte molecular do organismo, a pesquisa fica muito mais dispendiosa do que no começo, quando se trabalha para caracterizar quem é ela, como ela cresce. “Com a análise de DNA, a pesquisa fica mais cara. Praticamente todos os reagentes são importados.”
Diego Bonatto explica que bioplástico é um polímero conhecido desde o início do século XX, mas ao qual não se deu muita importância, na época, devido à grande quantidade de petróleo existente e ao preço desse petróleo, que ainda é baixo. As indústrias preferem utilizar plástico de origem petroquímica em vez de investir no poliéster biológico, que exige investimento tecnológico muito alto. Além disso, ainda não se tem tecnologia para suprir a demanda do mercado em termos de produção de plástico biológico, que requer mais investimentos e mais pesquisa na área para, talvez, num futuro próximo, colocar esse produto no mercado.
“Começamos a pesquisar em 1998, mas esses polímeros foram descobertos em 1926, na França. Eram usados apenas para classificar bactérias de um determinado gênero e não se pensava ainda em utilizá-los com o objetivo de, talvez, substituir o plástico petroquímico. Não tinham ainda essa visão. Era uma pesquisa mais acadêmica do que industrial.”
Em 1998, o professor Henriques foi convidado a participar no projeto da Comunidade Européia, que na época estava começando e teve a associação de laboratórios da América do Sul (Argentina e Brasil) e da Europa (Espanha e Alemanha). Ele convidou alguns alunos a fazer parte do projeto. Além de Bonatto e Heique, participam dois bolsistas de iniciação científica: Fernanda Matias, que faz Ciências Biológicas na UFRGS, e Márcia Pagno Lisboa, que faz Ciências Biológicas na PUCRS.

PESQUISA BÁSICA
A pesquisa básica é diferente da pesquisa aplicada, informa Bonatto. Neste caso, consiste em isolar um organismo que possa produzir bioplástico e estudar tudo a respeito dele: como cresce, em que condições cresce, o que é necessário oferecer a ele para que produza bioplástico. São parâmetros básicos antes de aplicar em um processo industrial. “Então, a gente faz a pesquisa básica, analisa, vê se o organismo pode entrar na parte industrial. Como na indústria, é preciso fazer uma pesquisa para saber se o produto é viável economicamente. Extrapolando para a parte científica, é preciso estudar bem a biologia do organismo, como ele se comporta em determinados ambientes, o que é necessário para que produza o polímero.”
Nesse trabalho, Diego e Heique já chegaram ao plástico biodegradável. O objetivo é, primeiro, explorar o máximo possível da biodiversidade microbiana de solos. Depois, pesquisar organismos que naturalmente não produzem o plástico e por meio de engenharia genética fazê-los produzir. Isso vai introduzir novos conceitos e alternativas para a pesquisa, desde que novos grupos se interessem em pesquisar. Bonatto esclarece: “Nós, sozinhos, não vamos conseguir muita coisa. Esperamos que as indústrias se interessem e venham a financiar esse tipo de projeto.”
A Copersucar, por exemplo, já tem um projeto piloto para a produção de um polímero desse bioplástico, utilizando a sacarose, que é derivada da cana-de-açúcar, explica Heique. “Eles montaram uma planta-piloto e pretendem produzir 60 toneladas por ano. Isso não é suficiente para suprir o mercado, mas a intenção não é substituir totalmente o plástico petroquímico, o que seria muito complicado. Terá que ser introduzido aos poucos. O bioplástico ainda é muito caro, é 100 vezes mais caro que o plástico petroquímico.”

BIOPROSPECÇÃO
“Uma das linhas de pesquisa é a bioprospecção. Pega-se uma amostra de solo e por diferentes meios de cultura – substâncias onde se desenvolvem as colônias de bactérias – isolam-se essas bactérias. Então, usando corantes específicos, determina-se qual das colônias acumulam poliéster, ou bioplástico. As bactérias acumulam bioplástico na forma de grânulos. Promovemos o crescimento das células que acumulam bioplástico em meios de cultura específicos para este fim e fazemos uma extração dos grânulos usando determinados solventes orgânicos. No final temos o polímero pronto.” (Diego Bonatto)

Bioplastico
O bioplástico é um material polimérico extremamente biodegradável no momento que é exposto ao solo ou à água. Pode ser reciclado ou biodegradado por bactérias e fungos de solo. Diferente do plástico petroquímico que não é biodegradável e não degrada com facilidade e requer outras tecnologias de reciclagem. Tudo é uma questão de estrutura química dos monômeros que compõem o polímero petroquímico. Esses polímeros dificilmente são reconhecidos por bactérias e por fungos, que não desenvolveram uma bioquímica voltada para a degradação desses compostos. É por isso que, no ambiente, esses compostos não são tão facilmente degradados. Ao contrário do bioplástico, que é uma substância naturalmente produzida por bactérias. Além de produzir, as bactérias que se encontram no meio ambiente também degradam.

TRANSGENIA
“Temos outra área, que se chama engenharia metabólica, em que se usam organismos conhecidos e bem caracterizados geneticamente e se introduzem os genes que são responsáveis pela síntese de bioplástico. Um exemplo desses organismos é a Escherichia coli, bactéria já amplamente estudada e conhecida genética e bioquimicamente. Então, tenta-se engenheirar a bactéria para produção de bioplástico, ou seja, colocar nela os genes de outra bactéria que produz naturalmente o polímero. Isso já é transgenia.”(Heique Bogdawa)

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Bioplástico a partir da cana-de-açúcar

Segundo os pesquisadores, além da utilização de bactérias, também se pode produzir bioplástico a partir da fermentação, utilizando levedura. Foram feitas, ainda, experiências com o milho, o algodão e outras plantas-modelo, como o tabaco e Arabidopsis thaliana, que é uma planta daninha. Mas, muito mais na parte experimental, nada industrial. E existe uma terceira linha de pesquisa, à qual Heique está mais diretamente ligada, que é a produção do bioplástico em cana-de-açúcar.
“Meu objetivo é utilizar os genes responsáveis por essa rota metabólica e introduzi-los na cana-de-açúcar. Porque a cana-de-açúcar produz biomassa muito grande e o Brasil é o maior produtor mundial. A planta utilizaria o CO2 e a luz solar como fonte de carbono e energia para a produção desse polímero. Não necessitaria colocar um substrato, como a glicose ou a sacarose, na cultura. E isso baratearia bastante.”
Quase todos os procedimentos são feitos em laboratório. A exceção é o cultivo da cana-de-açúcar não-transgênica, que é feito no herbário do Campus do Vale. São 23 potes com três cultivares (variedades de uma mesma espécie). Duas foram desenvolvidos no Brasil, pela Copersucar (as cultivares 185 e 3280) e já foram transformados geneticamente. A outra (a cultivar Q117) foi desenvolvida na Austrália.
Heique usa essa cultivar australiana porque ela já foi muito bem estudada. “Retira-se um pedaço da planta, que é colocado num meio chamado de indução de calos, onde as células que são diferenciadas se desdiferenciam. Esse aglomerado de células será transformado geneticamente por metodologias de laboratório; e a massa desdiferenciada volta ao estado diferenciado quando colocado em outro meio de cultura.”
Ela explica que o resultado obtido num laboratório nem sempre é obtido em outro, porque as condições, os aparelhos e o manuseio podem ser diferentes. “Então, o que estou tentando neste momento é melhorar as condições para a transformação genética. Eu já consegui transformar a cana-de-açúcar em laboratório, só que num nível ainda muito baixo.”
TEMPO E DINHEIRO
Entre outras qualificações humanas, o trabalho que Heique e Diego estão realizando exige paciência. Diego compara o que está sendo feito com a construção de um avião. “Antes de construir um avião, é preciso conhecer a mecânica do vôo e todas as lei que a regem. A mesma coisa se faz nesse tipo de pesquisa: é preciso conhecer todos os parâmetros biológicos antes de começar a produção de bioplástico em escala industrial.”
Heique sabe que as coisas andam devagar e não mede o tempo em dias e sim em anos: “Vamos continuar na pesquisa básica durante mais alguns anos. Esperamos que as indústria se interessem e venham a financiar esse tipo de projeto.”
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QUEM SÃO OS PESQUISADORES
Diego Bonatto, 26 anos, biólogo formado pela UFRGS, trabalha com o professor Henriques desde 1995 em outras áreas do laboratório. É mestre pelo Programa de Pós-graduação em Biologia Celular e Molecular do Centro de Biotecnologia e aluno de pós-graduação em nível de doutorado pelo mesmo programa. “Começamos mais ou menos juntos, Heique e eu, nesse projeto da Comunidade Européia, que foi a base da minha dissertação de mestrado aqui pelo programa, ou seja, a descoberta de bactérias que possam utilizar resíduos agro-industriais aqui do Brasil para a produção de bioplástico.”
Heique Bogdawa, 31 anos, bióloga formada pela PUC, com mestrado em Genética e Biologia Molecular, no Departamento de Genética da UFRGS, em 1997, iniciou o doutorado em Ciências Biológicas, em 2001, no Departamento de Bioquímica. Trabalha com o professor Henriques desde 1998, no projeto da Comunidade Européia. “Trabalho com o professor Henriques, que é o meu orientador, e tenho um co-orientador, que é o professor Giancarlo Pasquali, do Laboratório de Biologia Molecular Vegetal. Ele está sendo o meu coordenador na área de transformação genética da cana-de-açúcar.”

 

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