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O
currículo do jornalista, pesquisador
e produtor musical Zuza Homem de Mello é provavelmente o mais vasto
e qualificado entre os profissionais da área no Brasil. Paulistano
de 1933, no início dos anos 50 estudou musicologia na Juilliard
School of Music, de Nova York. Também nos EUA, foi aluno de contrabaixo
de um dos mestres do jazz, Ray Brown. Em 1956, iniciou-se como jornalista
escrevendo sobre jazz. Desde lá, seu nome é presença
constante em grandes publicações nacionais e internacionais
e em programas de rádio e TV. A lista de atividades extra-jornalísticas
também impressiona. Dirigiu e produziu dezenas de shows, discos
e festivais, coordenou uma obra definitiva como a Enciclopédia
da Música Brasileira e é, desde o início (1985),
curador do Free Jazz Festival. Sua maior paixão ao lado da música
brasileira, o jazz o tem levado, nesses anos todos, para festivais ao
redor do mundo. E ainda encontrou tempo para escrever vários livros.
Os mais recentes são os dois volumes de A Canção
no Tempo e a biografia João Gilberto. No momento, Zuza está
mergulhado na redação de A Era dos Festivais, que será
lançado em 2003 pela Editora 34. Como técnico de som da
TV Record, Zuza viveu os festivais dos anos 60 pelo lado de dentro. Foi
sobre este livro que Clóvis Ott e Juarez Fonseca, do Jornal da
Universidade, conversaram com ele, quando esteve em Porto Alegre recentemente,
a convite da UFRGS. Nesta página, os principais tópicos
da entrevista.
ELIS:
DE ARRASTÃO
PARA O FINO DA BOSSA
Decidi abrir o livro lembrando tudo o que aconteceu em São Paulo
no início dos anos 60, na área musical, que acabou desaguando
nos festivais. Então, será um trabalho mais amplo que simplesmente
o relato sobre eles. Exemplo: o início da carreira de Elis Regina.
O que se passou com ela antes do primeiro festival, o da TV Excelsior,
em 1965, com a música Arrastão (Edu Lobo/Vinicius de Moraes),
passa ao largo na biografia de Elis escrita por Regina Echeverria. E isso
é fundamental, porque naquele aquele mês entre a vitória
no festival da Excelsior, e sua contratação pela TV Record,
a vida de Elis dá uma virada total, em uma sucessão de episódios.
A primeira aparição dela em São Paulo foi num show
na boate Djalma. Depois do festival de Arrastão, ela faz com Jair
Rodrigues, no Teatro Paramount, o show que se transformaria no disco Dois
na Bossa, de sucesso instantâneo. Aí vai para o Peru e assim
que retorna começa a apresentar o programa O Fino da Bossa na Record.
O festival da Excelsior acontece no meio de abril e O Fino da Bossa estréia
em 17 de maio. É uma escadinha que deslancha a carreira da Elis.
Considero muito importante esse preâmbulo.
A HISTÓRIA
COMEÇA
EM 65 E VAI ATÉ 72
O real ciclo dos festivais, que mudou a música brasileira, começa
em 1965 e vai até 1972. Em São Paulo, foram duas edições
do festival da TV Excelsior e quatro do da TV Record (que também
realizou a Bienal do Samba, em 1968). No Rio, o Festival Internacional
da Canção, FIC, teve sete edições a partir
de 1966. O FIC tinha duas fases, a nacional e a internacional. No livro,
não vou entrar na fase internacional. E os festivais realizados
posteriormente pela TV Tupi e pela TV Globo (os MPB Shell e tal) também
não entram no livro. Porque o que houve depois ou era festival
esporádico, ou tentativa de voltar a uma situação
que já tinha se passado.
TODOS
ESTAVAM LÁ,
NO MOMENTO CERTO
A primeira grande importância dos festivais foi terem levado às
casas das pessoas, pela TV, em primeira mão, a música de
uma geração privilegiada, formada por ídolos que
permanecem até hoje, incontestáveis: Roberto Carlos, Chico
Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Milton
Nascimento. Sem falar de Elis, claro, que se estivesse viva não
tenhamos dúvida de que ainda seria a estrela maior. E de Nara Leão,
Gal Costa, Nana Caymmi, enfim, uma geração fantástica.
Quando se fala de música popular brasileira, a primeira pergunta
que se faz é: o que aconteceu? Por que não existem mais
os Chico, os Caetano e Gil? Foi uma coincidência do tipo da que
aconteceu em Paris, nas artes plásticas, com o impressionismo.
Todos estavam lá, no momento certo.
EM PRIMEIRA
MÃO NA TV
A MÚSICA MAIS NOVA
Os festivais puxam o ciclo dos programas musicais na televisão.
O primeiro nos novos moldes, isto é, diferente dos moldes anteriores,
foi O Fino da Bossa. É irônico até, mas quem soube
capitalizar o êxito do primeiro festival da Excelsior foi a Record.
Ela começa a série de programas que vão tendo um
êxito extraordinário. Pela primeira vez na história
da TV brasileira era levada a música mais nova que se fazia, em
primeira mão, e de uma maneira também nova. Antes, os programas
eram de estúdio, parados, tipo “Para Ouvir Maysa”. Na Record era
aquele entusiasmo, com auditório. Os programas não eram
transmitidos ao vivo por razões técnicas, mas o que chegava
ao público era a mesmo gravação ao vivo. Uma música
saindo do forno da MPB e mostrada de uma forma limpa, honesta, sem maquiagem,
que deixava todos arrepiados. As pessoas percebiam estar diante de uma
geração de músicos privilegiados, de uma coisa nova
e qualificada. Muito diferente do que se faz hoje nas TVs, que pode ser
novo mas não tem qualidade, nem significação.
ARTISTAS
E PÚBLICO
CONTRA A DITADURA
A situação política do país contribuiu enormemente
para a empatia e a cumplicidade entre população e artistas,
o público e as letras daquelas canções. O livro vai
abordar esse aspecto como até hoje nunca foi feito. Mesmo com a
censura interferindo nos trabalhos, acaba sendo um dos períodos
mais importantes da história da MPB. Tanto, que quando eu e Jairo
Severiano estávamos selecionando as músicas para o segundo
volume do livro A Canção no Tempo (Editora 34, 1998), nos
demos conta de que, no período de 1901 a 1985, o ano de maior número
de êxitos da MPB foi justamente 1968, ano em que a ditadura se aprofunda.
Era uma espécie de válvula de escape, havia uma predisposição
da platéia em abraçar esse tipo de música. Se Geraldo
Vandré não estivesse no FIC de 68, com Pra Não Dizer
Que Não Falei de Flores, provavelmente Sabiá não
teria sido vaiada, mesmo sendo uma canção de exílio.
A vaia não era para o Tom e o Chico, era contra a não premiação
do Vandré. Mas o principal é que além da empatia
com o público havia muita criatividade, como o tempo se encarregou
de provar.
O FIC
SÓ REVELOU
MILTON NASCIMENTO
Uma das significações dos FIC está no fato de que
neles a relação entre música e censura fica mais
evidenciada. A interferência dos militares na música popular
é patente, clara. Basta citar o fato de terem interferido na organização
do festival para impedir que a música do Geraldo Vandré
fosse a vencedora. Meu livro vai examinar de que modo era feita essa interferência,
a relação da censura com a organização do
festival e os artistas. Mas os FIC não revelaram praticamente ninguém.
Ou alguém acha que o Toni Tornado foi uma revelação?
Quando participaram do FIC, Vandré, Elis, Tom Jobim, Chico Buarque,
Jorge Ben e outros, já eram grandes nomes. A rigor o FIC trouxe
Milton Nascimento, Dori Caymmi, quem mais? De qualquer forma, a biografia
dos artistas que venceram os FIC não está tão impregnada
desse festival quanto a biografia dos que venceram os festivais da Record
está impregnada deles.
OS ESTUDANTES
FORAM FUNDAMENTAIS
Dentro do novo público formado pelos festivais a participação
dos estudantes foi fundamental. Sem a menor dúvida eles impulsionaram
a coisa, movendo-se quase como manadas, indo sempre a todas as atividades
que eram realizadas na época em São Paulo, e não
no Rio. O ótimo livro Noites Tropicais, de Nelson Motta, não
explora esse lado porque ele não viveu aquele ambiente. Meu livro
falará bastante do ambiente universitário em São
Paulo. O que aconteceu em São Paulo foi parecido com o que acontecera
no Rio entre o fim dos 50 e o início dos 60, no surgimento da bossa
nova. Em 1965, o centro da música brasileira deixa de ser o Rio
e passa a ser São Paulo, até a dispersão trazida
pelo AI-5. Quase todos os artistas se transferem para São Paulo
de mala e cuia. Elis, Jorge Ben, Roberto Carlos, Erasmo, Caetano, Gil,
Edu Lobo, Carlos Lyra etc, vão morar em São Paulo para poder
atender à demanda. E a demanda estava em São Paulo.
TROPICALISMO
TEVE
MUITO DE MARKETING
O tropicalismo não foi concebido como tal no festival de 1967,
em que as músicas que o detonaram foram apresentadas. Ele vem depois,
ideologizado em função de outros fatores não musicais.
Sua origem está inclusive em motivos comerciais. Havia a possibilidade
de se montar um esquema em que as roupas, os modelos, ajudariam aquilo
a se projetar. De certa forma, nessa intenção de marketing
havia um paralelismo entre o tropicalismo e a Jovem Guarda. Antes não
havia isso. A Banda e Disparada, por exemplo, não se caracterizam
como um movimento, ao passo que Calhambeque dá origem ao movimento
chamando Jovem Guarda e as músicas de Caetano (Alegria, Alegria)
e Gil (Domingo no Parque) dão origem ao movimento chamado tropicalismo.
Ou seja: em ambos os casos houve um envolvimento de marketing que não
ocorrera antes. O livro vai mostrar como o tropicalismo teve esse envolvimento.
OS INVESTIDORES
SE ANTENARAM
Toda vez que os investidores percebem que há petróleo em
determinado lugar, vão tentar cavar o seu poço lá
também. Foi o que aconteceu. Os investidores perceberam que a música
popular estava em alta, era uma ação em alta na bolsa. Como
as empresas podiam tirar sua beirada daquilo tudo? Fazendo roupas para
os caras, inventando produtos para vender com a assinatura do cara. E
as gravadoras também, obviamente. Não havia disco de gravadora
no primeiro e no segundo festivais. Quando aquilo aconteceu, elas se antenaram:
êpa, vamos gravar porque vai dar dinheiro. A Philips (hoje Universal),
por exemplo, exerceu um papel parecido com o da TV Record, ao contratar
praticamente tudo o que havia de bom na música brasileira. No caso
da Record, não sobrou nada para as TVs Tupi e Excelsior. Ela raspou
o tacho. Os programas musicais da Tupi e da Excelsior não emplacavam
porque elas não tinham elenco, ou se tinham era de segunda linha.
Já a Record chegou a ter mais de 100 artistas contratados. Só
de música.
AQUELE FENÔMENO
PODERÁ SE REPETIR?
Impossível dizer se haverá no futuro a possibilidade de
um novo momento como aquele. Foi uma conjugação de fatores,
e coincidências podem acontecer novamente. Mas aquela saudável
ingenuidade da descoberta parece ter se extinguido na música. Hoje
existem no mundo somente duas categorias de música popular: uma
dirigida por quem entende de música, e outra dirigida por quem
não entende. No primeiro caso, importa a formação,
o conhecimento musical do sujeito. No segundo, vale mais o fato de ele
ter sido um bem sucedido profissional de marketing de uma fábrica
de sabonetes, por exemplo. O feeling musical do sujeito do segundo caso
é igual a zero. Ele é capaz de perceber elementos extra-musicais,
como o rebolado de uma cantora. Mas para mim ele está falando de
outro assunto, não de música. Vou me preocupar com a área
da música boa, feita por músicos bons, de talento. A outra
que se dane, não quero nem saber, não vou perder meu tempo
e gastar meu ouvido com porcaria. Ouço os primeiros minutos de
um CD e imediatamente já posso dizer se presta ou não.
GRAVADORAS
QUEREM
VENDAS, NÃO MÚSICA
Hoje, a maioria das gravadoras brasileiras é dirigida não
por quem gosta de música mas por quem sabe vender música.
Não temos mais profissionais como Adail Lessa, por exemplo, que
sustentou na gravadora Odeon um artista como Milton Nascimento, quando
ele não vendia nada. O feeling desse tipo de profissional, que
percebe que o artista pode ser uma fonte de renda durante muitos e muitos
anos, é muito diferente do tino de um empresário que percebe
que um artista por ser fonte de renda durante pouco tempo. O sujeito que
contrata a Tiazinha para gravar um disco é completamente diferente
do que contrata um artista como Guinga. O Guinga pode durar a vida toda.
E a Tiazinha, quanto pode durar? Alguns meses. Descai a bunda, tchau!
A ERA DOS
FESTIVAIS
E SEUS VENCEDORES
1965
Arrastão, de Edu Lobo/Vinícius de Moraes, com Elis Regina
(I Festival de Música Popular Brasileira)
1966
Porta Estandarte, de Geraldo Vandré/Fernando Lona, com Tuca (Festival
Nacional de Música Popular)
A Banda, de Chico Buarque, com ele e Nara Leão, e Disparada, de
Geraldo Vandré/Téo de Barros, com Jair Roidrigues (II Festival
de Música Popular Brasileira)
Saveiros, de Dori Caymmi/Nelson Motta, com Nana Caymmi (I Festival Internacional
da Canção-FIC)
1967
Ponteio, de Edu Lobo (III Festival da Música Popular Brasileira)
Margarida, de Gutemberg Guarabira, com ele (II FIC)
1968
São São Paulo, Meu Amor, de Tom Zé, com ele (IV Festival
da Música Popular Brasileira)
Lapinha, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, com Elis Regina
(1ª Bienal do Samba)
Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque, com o Quarteto em Cy (III
FIC)
1969
Sinal Fechado, de e com Paulinho da Viola (IV Festival da Música
Popular Brasileira)
Cantiga por Luciana, de Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, com Evinha
(IV FIC)
1970
BR-3, de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, com Toni Tornado
(V FIC)
O FIM
Em 1971 restava o FIC, vencido pela completamente esquecida Kyrie, dos
completamente esquecidos Paulinho Soares e Marcelo Silva. E na última
edição, em 1972, terminaram empatadas Diálogo, de
Baden Powell e Paulo César Pinheiro, e Fio Maravilha, de Jorge
Ben.
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