| Jornal da Universidade |
| Janeiro-Fevereiro 2002
nº 48 Opinião | Campus | Perfil | Arquivo | Contato | Expediente | |
Elis:
imortal aos
20 anos
JUAREZ
FONSECA Jornalista
Era essa a idade dela ao tornar-se uma estrela e mostrar que já era a maior cantora brasileira
Rio de Janeiro, março de 1964.
A cidade centraliza a agitação política que varre o país,
ânimos exaltados à esquerda e à direita. Piquetes de greve
e militares em estado de alerta dão o tom. A agitação
cultural é grande também, causa polêmica o filme Deus
e o Diabo na Terra do Sol e vive-se o auge da expansão da bossa nova,
que chegara para decretar a aposentadoria da música velha e fazer a
cabeça dos jovens do país do futuro. Shows multiplicam-se pelas
casas noturnas da Zona Sul mas há um lugar especial em Copacabana:
o Beco das Garrafas.
O Beco é o quartel-general da bossa viva, na rua estreita um bar ao
lado do outro, muita fumaça e cuba libre. Um desses bares inscreverá
seu nome na história, o Bottle’s, por causa de uma garota estrábica
e quase assustada que uma noite aparecerá por lá para nunca
mais ser esquecida. No início ela causará estranheza por causa
da voz forte, metálica – e com sotaque gaúcho. O oposto do canto
de bossa, macio, intimista, carioca. Pior: por não fazer parte da turma,
ela será era considerada uma forasteira. Mas cantará demais.
E carimbará seu passaporte para a imortalidade.
Quando desembarcou na rodoviária do Rio, acompanhada pelo pai Romeu,
no dia 31 de março de 1964, Elis Regina tinha 19 anos recém
feitos. Nem prestou atenção à incomum movimentação
de soldados, queria instalar-se logo na nova casa – um apartamento de quarto-e-sala
alugado numa rua interna de Copacabana – para começar a cuidar da nova
vida. O pai, 45 anos, estava desempregado. Trazia uma carta de recomendação
do PTB de Porto Alegre, o partido do presidente João Goulart e do deputado
Leonel Brizola. Com ela, esperava conseguir trabalho.
Um dia depois a carta do PTB já não valia nada, pois o PTB fora
tirado do poder. Na verdade Romeu estava desempregado há anos, fazia
apenas bicos. Desde os 13 anos Elis ajudava a sustentar o apartamento em que
vivia com o pai, a mãe Ercy e o irmão caçula Rogério,
num dos primeiros conjuntos residenciais populares (tipo BNH) de Porto Alegre,
que deu origem ao bairro do IAPI. Agora, no Rio, não seria diferente.
Enquanto Romeu ficava fazendo a comida e arrumando a casa, Elis partia para
a luta, percorrendo as indicações de sua caderneta.
Afinal, embora no Rio parecesse, ela não era qualquer coisa. Tinha
três LPs gravados e uma história de sucesso em Porto Alegre.
Tinha mais, além da voz preciosa: uma garra infernal, uma determinação
invencível e uma ambição bem nutrida. Elis tinha certeza
do que podia, sabia que o público brasileiro poderia ser conquistado
como fora o público gaúcho. E cada vez mais gostava de cantar,
de estudar de música, de se informar a respeito de tudo. Quando completou
18 anos, decidiu despregar-se da saia possessiva da mãe, deu um tempinho
e encarou o desconhecido.
Se ainda hoje essas decisões são difíceis, imagine-se
35 anos atrás. Porque Elis era uma menina normal, nenhuma rebelde,
nenhuma punk antes do tempo. Aos sete anos a família descobriu que
ela cantava afinadinho. Então a avó sugeriu: “Por que não
a levam para cantar no Clube do Guri?”. Transmitido nas manhãs de domingo
pela Rádio Farroupilha, o Clube do Guri era líder de audiência
apresentando cantores mirins. Depois de uma primeira tentativa desastrada,
em que não conseguiu abrir a boca, cinco anos depois Elis transforma-se
na estrela do programa.
E surgem os primeiros problemas. Cantar no rádio não era coisa
para meninas de família, pensavam os professores e as colegas do Instituto
de Educação, onde ela fazia o ginásio. Houve muita ida
da mãe à escola, muita discussão e até sessões
de tapas, até que a deixaram em paz para estudar. E ela precisa estudar
de verdade, precisava apresentar o boletim sem manchas, caso contrário
dona Ercy não a deixaria cantar no Clube do Guri nem faria seus vestidos.
Esse era o trato: primeiro o estudo, depois a liberação para
freqüentar o Clube.
Quando fez 13 anos, grande e famosa demais para um programa infantil (era
a garota sensação de Porto Alegre), Elis assinou seu primeiro
contrato profissional com a Rádio Gaúcha. Seria uma das atrações
do Programa Maurício Sobrinho, líder absoluto das tardes de
sábado, e de outros programas da Gaúcha (com o primeiro salário
ela comprou um toca-discos). Aos 14 anos vem a estréia no disco, um
compacto puxado pela música Dá Sorte, sucesso instantâneo
no Sul. Aos 15, o primeiro LP, Viva a Brotolândia, repleto de versões
de músicas juvenis americanas.
Olha só: a autoridade de dona Ercy, que fazia marcação
cerrada, só permitiu que a filha pintasse as unhas e usasse sapatos
de saltinho aos 15 anos. E já fazia tempo que ela praticamente sustentava
a casa. Depois dos 15, por causa disso, Elis começa a criar asas e
a fazer vale cada vez mais sua vontade. O segundo LP para a Continental, em
1962, chama a atenção da Colúmbia (depois CBS, hoje Sony),
para a qual ela faz o terceiro disco, gravando não mais versões
mas autores como os gaúchos Túlio Piva e Sérgio Napp,
como Baden Powell. Música brasileira moderna.
No final de 1963, Elis resolve abandonar no segundo ano o curso normal, que
fazia na escola Diogo de Souza. A teórica carreira de professora estava
defintivamente suspensa. E é com o dinheiro economizado dos salários
da Rádio Gaúcha que Elis e o pai chegam ao Rio em março
de 1964. Os trocados estavam quase no fim quando dois meses depois ela consegue
enfim um contrato com a TV Rio. Começou a cantar (e a impressionar)
no programa Noites de Gala, um dos melhores da emissora. Na TV Rio, conheceu
o baterista Dom Um Romão, que tocava no Beco das Garrafas.
A partir do sucesso dos shows no Beco, Elis (sempre sustentando o pai no Rio
e o resto da família em Porto Alegre) recebeu um convite para se apresentar
em São Paulo, onde se aconteciam muitas mostras de bossa nova promovidas
no meio universitário. Em São Paulo, ganhando dinheiro, foi
ficando e fazendo fama, cantando bossa e música dos autores de mais
sucesso e prestígio do movimento. Veio daí o convite para interpretar
a música Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, no I Festival
da MPB, realizado pela TV Excelsior, em abril de 1965. E ela ganhou.
A interpretação dada por Elis a Arrastão, tanto musical
como cenicamente (os braços para o alto lhe valeram o apelido de eliscóptero),
são um marco de antes e depois na popularidade da música brasileira
pós-bossa nova. No mesmo ano, ao lado de Jair Rodrigues, ela estréia
na TV Record como apresentadora de O Fino da Bossa. O programa, semanal, conquista
o Brasil instantâneamente e Elis conquista a posição de
estrela número um. “Você sabe lá o que é, com 20
anos, sair pra rua e ser reconhecida? Você fica louca, se achando Deus”,
disse, muito mais tarde.
Aí está: aos 20 anos, meses depois de ter saído de Porto
Alegre em busca de seu destino, Elis Regina cravou fundo o alicerce de uma
carreira que faria dela a maior cantora brasileira de todos os tempos e uma
das maiores do mundo em sua geração. Lançou compositores
e mais compositores, brigou, fez discos memoráveis, fez discos não
tão bons, fez shows definitivos, viajou pelo país inteiro e
pelo exterior, polemizou, casou, descasou, teve três filhos, levantou
bandeiras, sofreu, discutiu, mas sobretudo cantou. Dos 11 aos 36 anos, cantou.
Cantou até sua morte – por overdose de cocaína – tornar-se manchete
de toda a imprensa brasileira em 19 de janeiro de 1982. Uma morte por ingenuidade,
típica dos não-viciados, dos que desconhecem o poder letal da
droga. Os fãs entenderam isso, pois dias depois começou a aparecer
nos muros das cidades a inscrição “Elis vive”.
O harém como ele era
PEDRO ANTUNES FILHO Jornalista
Quantas mulheres e concubinas um
muçulmano rico pode ter? O tema, que agora ganhou espaço na
imprensa ocidental, chegando até as novelas
brasileiras, não é o que parece, como mostra este texto sobre
a antiga
instituição do harém
Oharém mais luxuoso, mais
desenvolvido, mais bem do-
tado em mulheres e eunucos de que se tem noticia é certamente o harém
dos sultões turcos. O império otomano foi uma das grandes potências
econômico-militares que o mundo já conheceu, e os sultões
que governavam esse imponente complexo de etnias diferentes e costumes legendários,
algumas vezes bem, freqüentemente muito mal, eram homens que dispunham
de poderes inimagináveis. Apesar de não ser uma instituição
turca, o harém floresceu e funcionou 100% em Constantinopla, capital
do império turco. Daí sua fama se alastrou pela Europa, onde
o harém se tornou um mito romântico, sustentado pelas novelas
das Mil e Uma Noites, pelas narrativas de Théophile Gautier e pelos
painéis de Ingres. Da Europa, a imagem fabulosa do harém percorreu
o resto do mundo.
Hoje, quando se fala em harém, imagina-se logo um palácio arejado
e aquático, dentro do qual mulheres lindas e despidas fumam narguilés
coloridos, enquanto eunucos bonachões e risonhos abanam leques emplumados.
Era de se esperar que, depois de tantos anos, a imagem do harém estivesse
um pouco deturpada, mas essa comumente badalada está tão longe
da realidade que um viajante moderno que acreditasse nesse harém, se
fosse de repente transportado no tempo e no espaço para o verdadeiro
harém dos sultões turcos, não acreditaria jamais estar
no lugar de seus sonhos.
Até 1558, o Palácio Real só alojava homens. A lei muçulmana
permitia que os ricos desposassem quantas mulheres pudessem sustentar, e os
sultões possuíam, logicamente, centenas de mulheres, mas todas
elas viviam num palácio bem distante do seu real marido. Assim, não
atrapalhavam as affaires d’état, nem distraíam os ministros
e grão-vizires. Até que uma concubina de Suleimão o Magnifico
(no Oriente, o termo concubina não encerra conotações
negativas e significa apenas mulher não-oficial), que também
devia ser magnífica e que se chamava Roxelana, conquistou tão
completamente o velho Suleimão que obteve licença de se mudar,
com todas as suas escravas e todos os seus eunucos, para o palácio
do marido.
A partir dessa data e dessa fraqueza masculina, todas as mulheres do sultão,
concubinas, sogras etc, exigiram também morar no palácio, e
o harém se agregou definitivamente à vida política dos
turcos. O número de mulheres variava de 300 a 1200, e assim, novos
aposentos tiveram de ser construídos junto à sede da Divina
Porta. Além das mulheres, ainda havia os eunucos. Os eunucos, invenção
chinesa, eram no início todos brancos. Mas os brancos suportavam muito
mal a terrível operação que os eunucava (havia quatro
modos de castração: total, corte dos testículos, corte
do pênis, esmagamento de tudo – poucos sobreviviam), e aos poucos foram
sendo substituídos por pretos, mais robustos e resistentes. O chefe
dos eunucos pretos, o Kislar Agha, era um dos principais administradores do
palácio, e aos poucos se tornou urna figura política das mais
influentes.
Governava o harém a mãe do sultão no poder, ou seja,
a sultana Validé, e, em segundo lugar, o Kislar Agha. Este, como aliás
todos os outros eunucos influentes, era uma pessoa frustradíssima,
das mais recalcadas, cheia de uma agressividade violenta em relação
ao sistema e aos homens que tinham feito dele o que ele era. Casos de crueldade
do Kislar Agha com escravas e concubinas são conhecidos, e sempre cheios
dos maiores requintes de sadismo. Por sua vez, a mãe do sultão,
governando um pequeno império, freqüentemente aspirava a ter maior
poder e a estender seu mando para fora do harém, englobando o próprio
império. Assim, o harém era um palco de intrigas e de politicagem,
em que o Kislar Agha, a sultana Validé e a primeira esposa estavam
sempre batalhando por privilégios e influências.
Roxelana foi uma das primeiras a conseguir tudo isso. Depois de se instalar
no palácio, manobrou várias pessoas até conseguir que
o sultão mandasse executar seu grão-vizir Ibrahim (que odiava
Roxelana). Depois disso, várias outras pessoas poderosas da corte começaram
a desaparecer, e a mão de Roxelana certamente deve ter estado por trás
desses crimes. Em pouco tempo, o verdadeiro rei da Turquia era esta antiga
escrava de origem russa. Depois de Roxelana, outras esposas ambiciosas tentaram
alcançar o poder, mas quando perdiam, ou para o sultão ou para
a sultana Validé, uma morte violenta era o seu prêmio imediato.
Jogavam-lhe o cadáver dentro do Bósforo num saco cheio de pedras.
Conta uma narrativa popular que, certa vez, um mergulhador vislumbrou, no
fundo do rio, inúmeros sacos oscilando, como bambus, à correnteza
– e parece que eram mais de cem.
Aliás, afogamentos em massa ocorriam ocasionalmente, quando um sultão
descobria um grande complô que tramasse o seu assassinato. Houve até
um deles, Ibrahim, que mandou jogar todas as suas 300 mulheres dentro do rio,
simplesmente para ter o prazer de arranjar, mais tarde, um harém inteiramente
novo. Uma das mulheres conseguiu escapar, foi capturada por um navio pirata,
e finalmente chegou a Paris, onde contou toda a história. Uma veneziana,
Safia de Baffa, teve muito mais sorte, e usando charme, intriga, e armas chegou
ao lugar cobiçado de primeira esposa e até a sultana Validé,
quando seu filho assumiu o trono. A primeira coisa que fez foi fazer de seu
próprio filho um bêbado debochado, que só se interessava
pelas orgias do seu harém, enquanto a mãe efetivamente governava
o império. Safia de Baffa foi dessas rainhas poderosas e cruéis
que, entretanto, conseguem influenciar o curso da História: durante
os vinte anos que governou, se aliando com várias nações
européias, evitou guerras com Veneza e outras cidades mediterrâneas.
Uma reviravolta política derrubou Safia, e um novo sultão ascendeu
ao trono. Ministros e povo esperavam um reinado mais ponderado, mas Ibrahim
se revelou um tarado dos mais despóticos. Aumentou o harém,
onde praticamente vivia, sempre coberto de óleos perfumados e peles
raras. Mandou instalar centenas de espelhos no harém, e o número
de orgias tornou-se incontável. Cada sexta-feira Ibrahim fazia questão
de levar para a cama uma virgem – e sua mãe, muito obediente, fazia-lhe
todas as vontades. A Turquia sofreu muito enquanto o sultão governava
com todos os poderes, e até à instituição dos
grão-vizires, ou primeiros-ministros, que colocaram mais ordem nos
negócios estatais, o império otomano viveu sob a inflação
e a miséria, o que, em última análise, foi uma das causas
imediatas do seu fim.
Mas nem sempre os sultões eram tão desordeiros ou tarados. Normalmente,
a não ser por um alto índice de lesbianismo, os costumes do
harém eram bastante calmos. O sultão passava a maior parte do
tempo com suas esposas, se dedicando de vez em quando a uma ou outra favorita.
O processo de escolha de uma parceira noturna seguia um ritual cerimonioso
e longo. Em nenhuma hipótese, nesses tempos normais, o sultão
apontaria para uma mulher do harém, e ela logo iria para a cama com
ele. O protocolo era complexo e, sobretudo, lento.
Numa de suas visitas à mãe ou a uma esposa, o sultão
poderia reparar na beleza dos olhos de tal escrava, ou então no café
que estava tão bem preparado. A mãe ou a esposa tomaria nota
do nome da escrava olhada, ou da cafezeira, e fariam o possível para
que ela estivesse presente na próxima visita real aos aposentos femininos.
Se o sultão continuasse dando bola para a mulher, a escrava era imediatamente
promovida a kadin guzdeh, o que significa literalmente favorita que o sultão
está de olho em cima. A condição de guzdeh trazia um
aposento luxuoso, dez escravas que a serviriam fielmente, alguns eunucos e,
sobretudo, muito cartaz. Caso o sultão se mantivesse interessado, um
belo dia a ex-escrava seria banhada, esfregada com óleos e perfumes,
penteada, vestida na mais fina e sexy lingerie, adornada com jóias
e berloques e, à noite, introduzida discretamente na alcova de seu
rei e senhor.
Se o sultão gostasse da sua maneira de beijar, tocar alaúde,
ou fazer café, ela poderia permanecer uma favorita oficial, o que trazia
toda sorte de regalias. Mas, em certos casos, o sultão não gostava,
ou, então, nem tinha pensado em levá-la para a cama. Estava
honestamente elogiando o café ou os olhos da criada sem nenhum pensamento
oculto. Nessas ocasiões, a mulher poderia estar ali toda preparada
perfumada e cheirosa e esperançosa, e o sultão não querer
nada com ela, mandá-la dormir e ir dormir também. Nesse caso,
a pobre infeliz, se sentindo rejeitada, ainda era maltratada pela mãe
ou pelas esposas legais, que a culpavam de tudo, e ainda por cima retiravam
seu aposento luxuoso, botavam-na de volta no dormitório comum, e, claro,
adeus escravas, eunucos, boas comidas, jóias, deferências e favores.
Lá voltava ela para o seu cantinho para preparar café ou para
exibir seus lindos olhos.
É claro que a alternativa era gloriosa, e fazia valer a pena correr
esse risco. O sultão podia vibrar, ela podia até ter um filho
dele (era mantido um registro cuidadoso de cada mulher que passava a noite
com o sultão – de manhã, burocraticamente, o sultão rubricava
a folha), e quem sabe, chegar até à posição de
sultana Validé, um belo dia.
Assim, a vida do harém se dividia em dois tempos radicalmente opostos.
Se o sultão era maluco, as orgias e bebedeiras entravam na ordem do
dia, e todas as mulheres aproveitariam os delírios reais para intrigar,
na busca de mais poder, e ao mesmo tempo procurando maneiras de cativar o
augusto soberano do harém e da Turquia. Os eunucos estariam alertas
para qualquer bobeada feminina, e aí eles é que assumiriam o
poder. Ou então o sultão era calmo e contemplativo, só
escolheria uma favorita uma vez por ano, para não romper a tradição,
e passaria o resto do tempo longe dos aposentos femininos, só indo
ao harém para visitar sua mãe e esposas. Nesse caso, a vida
do harém tornava-se insuportavelmente tediosa.
A monotonia reinava, apenas interrompida por um ou outro caso de homossexualismo
entre os sexos que ali se encontravam. E não havia absolutamente nada
a fazer. A não ser dar uma espiada por uma fresta no visitante europeu
que o sultão estava recebendo, que nem chegava perto do harém,
mas que, quando voltava para a Europa, maravilhava as platéias com
suas descrições minuciosas de mulheres nuas, afrodisíacos
e repuxos, numa atmosfera lânguida e sensual.