Jornal da Universidade

"Se há algo que dá medo é o desconhecido"

AGabriel Macaya Trejos é especialista em Biologia Molecular. Sua produção científica inclui 33 publicações em revistas internacionais, é do Comitê para a Experimentação Genética (COGENE) do Conselho Internacional de Uniões Científicas (ICSU) e, atualmente, é reitor da Universidade da Costa Rica. Nas poucas horas de folga gosta de ouvir e tocar música antiga, da qual é um aficcionado. Veio a Porto Alegre participar da III Reunião de Cúpula de Reitores Ibero-americanos. Concedeu entrevista à jornalista Carla Felten, do Jornal da Universidade, com participação do professor de bioética e biólogo do Hospital de Clínicas, José Roberto Goldim, e do Pró–reitor de Pesquisa, Carlos Alexandre Netto. Nesta conversa, falou sobre sua especialidade, o posicionamento dos cientistas e da sociedade em geral diante dos novos caminhos que estão sendo abertos, dos interesses estratégicos e econômicos que se abrem e dos sociais que se fecham. Sempre com um olho na ciência e outro na ética, Macaya conta também como a universidade que dirige está inserida em várias frentes da vida costarriquenha e diz que ainda há muito por fazer.

Jornal da Universidade – Na área das ciências biológicas o conhecimento do genoma está se tornando um ponto central?
Gabriel Macaya Trejos – Sim, e esta pergunta admite duas respostas. Primeiro: poderia se pensar que está sendo tocado o essencial do ser humano. Segundo, porque conhecendo o genoma pode-se começar a fazer perguntas que, até muito recentemente, não poderiam ser feitas. Então, para mim, são duas questões: algo que o classificaria como quase místico e, outro, muito real. Pode-se fazer perguntas relativas a doenças, ao desenvolvimento e a temas mais complexos.

JU – De que maneira o senhor vem direcionando seu trabalho de pesquisa?
Macaya - Durante meu doutorado, em 1972, comecei a trabalhar e a testar a estrutura cromossômica de mamíferos. Foi um período de estudante muito apaixonante, porque tive a oportunidade de ser testemunha do nascimento do que chamam engenharia genética, em Paris, a partir de 1970. Participei de reuniões onde todas as descobertas eram apresentadas. Nesse mesmo período, me sensibilizou o nascimento da oposição à engenharia genética que, no meu grupo, foi tão forte, que fez com que fosse mudada a orientação da minha tese. Inicialmente estava orientado mais para este setor, mas resultou em um trabalho mais descritivo, já que, no Instituto em que estudava, em Paris, as tensões provocadas pela engenharia genética, e por seus possíveis riscos, eram muito fortes. Esse momento foi muito importante e eu gostaria de vê-lo repetido: a comunidade científica se detéve, refletiu, discutiu e tomou decisões. Atualmente, parece que diante de temas tão complexos como clonagem com fins reprodutivos, veríamos repetida a mesma situação vivida em 1970 pela comunidade científica quando, durante um ano completo, os cientistas disseram: “Não faremos nada”. E esta decisão se cumpriu. Foi feita um reflexão e veio a famosa Conferência de Asilomar onde se definiu o que seria, ou não seria, feito pelos cientistas.

JU – Como o senhor vê a evolução do sentimento da comunidade científica em relação à engenharia genética, ou seja, quais eram os temores na década de 70, e quais são os temores de hoje relativos a questões mais atuais como, por exemplo, a clonagem humana?
Macaya - Em 1972, os resultados da ciência estavam avançando muito rapidamente e deixando para trás a sociedade, que não se preparara para os avanços e que não entendia os novos conceitos. Fiz parte de um grupo nos anos 80, que se chamava Comitê de Experimentação Genética, ligado ao Conselho Internacional de Uniões Científicas. Esse comitê começou a propor ações importantes num esforço da comunidade científica por divulgar, não vulgarizar, e formar opiniões sobre os problemas éticos e científicos, e sobre as perspectivas, sobre a tecnologia. Foi feita uma campanha de formação de jornalistas, para que soubessem informar e entender os debates. Agora, estamos de novo, exatamente, com os mesmos problemas e não estamos preparados para enfrentá-los. Quando lemos as barbaridades que são publicadas na imprensa nos assustamos porque estamos tratando de temas muito complexos. Os medos não mudaram, são os mesmos de sempre, ligados ao desconhecimento. Se há algo que dá medo é o desconhecido.

JU – Este medo afeta somente a sociedade em geral ou também a comunidade científica? Há uma distinção entre os medos de alguém que conhece, ou que detém a informação, mas pode ainda não ter refletido sobre este temor, e o medo de quem conhece pouco ou nada a respeito do assunto?
Macaya - Se alguém conhece o tema, a reação que terá não é a de medo. É de precaução, de risco. Se não conhece, bem, aí sim será uma reação de medo. Por isso, eu acho que o “Princípio da Precaução”, muito importante para a ética na pesquisa, é muito sólido, mas muito manipulado também. Lucidamente, em 1972, por exemplo, usando este princípio de precaução, se dizia: “Sobre este tema não há conhecimento suficiente. Não se trabalha nele até que se consiga este conhecimento.” E, apesar deste conhecimento ter sido obtido, não se trabalhou, até o momento. Com este argumento, adiou-se por mais de 20 anos a construção de híbridos de oncogenes e bactérias. Só muito recentemente se começou a fazer isto. Para mim, há uma diferença entre risco e medo.

JU - A imprensa não especializada difundiu que com o estudo do genoma estava sendo decifrado o livro da vida e que o homem passava a brincar de Deus. Até que ponto estas expressões são verdadeiras ou, ao contrário, facilitam a mistificação de que os cientistas estão descobrindo um segredo proibido?
Macaya - Tratar de entender a vida ou o funcionamento de um ser vivo parece ter sido uma aspiração da humanidade durante toda a história dos seres humanos. Sempre se buscou entender. Hoje, não vamos pensar diferente. Crer que conhecendo a seqüência do genoma humano vamos entender a vida, o funcionamento do ser humano, é uma arrogância que, muito rapidamente, se revelará falsa. O trabalho que existe pela frente para poder se entender como funciona um ser vivo é gigantesco. Só que, agora, as bases são mais sólidas para fazê-lo. Temos aí uma peça a mais do quebra-cabeças, mas ainda faltam muitas.

JU – Então o senhor diria que o “mistério” está só começando?
Macaya - O problema não é um mistério, e aqui entramos num campo muito complexo. Para mim, a vida não é mais que uma série de processos físicos e químicos. Não é nada mais. Nem antes, nem depois.

JU – Qual será o grau do impacto que o conhecimento do genoma humano terá na medicina do século XXI e de que forma será sentido este impacto?
Macaya - A medicina do século XXI não será como se acreditava – a medicina que se chama genômica, ligada ao conhecimento da seqüência do genoma humano – mas estará ligada a outro campo, mais novo, que se chama proteômica – que é a organização e o funcionamento das proteínas. Talvez isto seja o mais apaixonante, porque não há, até este momento, uma relação entre a seqüência gênica e a estrutura tridimensional da proteína, o que faz, finalmente, com que a proteína funcione de uma forma e não de outra. Estamos dando um primeiro passo, que é o de conhecer o fenômeno. Vamos conquistar grandes avanços em diagnóstico, suscetibilidades de doenças, etc. Porém, enquanto não avançarmos na proteônica, não avançaremos em tratamentos, mas apenas em diagnósticos. Esta é uma diferença fundamental. Em algumas doenças se poderá chegar a uma possível correção.

JU – Isto agrega um outro tema: o do desconforto de conhecer sem poder fazer nada. Por exemplo: ter que se dizer a um paciente que ele está acometido de uma tal enfermidade, mas que ainda não podemos lhe oferecer nada para encaminhar a cura. Isto não causa ao cientista um desconforto muito sério?
Macaya - Tenho uma posição ética, não compartilhada por muita gente. Eu preferiria saber acerca dos riscos e preparar-me, do que desconhecê-los. Se tiver uma doença no futuro, mesmo que os médicos não tenham o que oferecer em tratamento, prefiro preparar-me psicologicamente, a simplesmente desconhecer o fato.

JU – Na sua opinião a engenharia genética e a genômica têm permitido, ou facilitado, um maior interesse pela ética do que pela ciência?
Macaya - Eu esperava mais interesse pela ética na ciência através da engenharia genética e da genômica. O exemplo mais importante é que no orçamento do projeto Genoma Humano norte-americano havia uma porcentagem de 5% a 6 % dedicada aos problemas chamados sociais. Diante da importância que teriam esses problemas, 5% a 6% do orçamento do projeto eram ridículos. Creio que faltou um esforço internacional para trazer maior clareza aos problemas da sociedade ligados ao Projeto Genoma Humano. Por muitas razões, um jogo comercial muito forte criou uma expectativa maior do que realmente se poderia esperar: a Engenharia genética passou a ser um negócio fantástico. Porém, é muito delicado criar essas expectativas. Podemos dizer qual é a doença, sua cura, não. Nem sequer entendemos porque se adoece. Então, aí faltou um esforço maior de fazer com que esses problemas e debates se tornassem mais aparentes e mais claros. Por isso há pessoas, entre as quais eu me incluo, e há outras dentro desta universidade que, quando há uma reunião como esta dentro de uma universidade, querem ouvir sobre o genoma humano. Com muito prazer, me disponho a falar sobre o que sei sobre o assunto para desmistificar e demitificá-lo para que entendamos os seus temas e problemas centrais. Tenho esta pretensão.

JU – Como o senhor vê a questão das patentes?
Macaya - As patentes são um tema que já não se discute mais. Porque, se há algo que é um fracasso, é a concepção de patente. A patente era um sistema para quê? Poderias compartilhar um conhecimento, guardando os direitos sobre a utilização deste conhecimento. Hoje, não se patenteia mais porque não se quer mais compartilhar conhecimento. Então, se usa o que se chama segredo comercial. As patentes continuam a ser importantes. Mas mais importantes são os segredos comerciais, os segredos industriais, os segredos de processo. Isto levou ao fato de que muitas informação deixou de circular. E isto é muito ruim, porque passamos a ir às reuniões científicas, onde se apresentavam resultados, e, de repente, havia um vácuo de informação. Perguntava-se “por quê”? E a resposta era: “Não posso comentar. Isto tem valor estratégico, comercial e o contrato não permite que falemos”. É impressionante. A informação começou a reduzir-se. E continua sendo assim. É um problema cada vez mais complicado. Existem muitos resultados que sabemos que existem, mas não são publicados nem compartilhados.

JU – Como a comunidade científica pode refletir a respeito disso? Uma comunidade que sempre trabalhou com produção de conhecimento e com a sua discussão imediata para um avanço, agora não discute mais nada, não apresenta mais nada. Quer dizer: poucos conhecem um resultado, e isto não é exposto a novas opiniões ou examinado por outros ângulos. Além da humanidade, a própria ciência não perde com isso?
Macaya – Esse é o problema central. Concordo plenamente com esta análise. A ciência perde com isso. Justamente a única garantia que se tinha a respeito do avanço da ciência era esse escrutínio aberto. No momento que esse escrutínio aberto começou a desaparecer, deveríamos ter buscado mecanismos para substituí-lo. Mas não é o que está acontecendo. E isso é muito grave.

JU – Como é o financiamento da pesquisa científica na Costa Rica, e como se faz para trabalhar em genômica?
Macaya - A pesquisa científica está num percentual muito alto nas universidades da Costa Rica. Foi o que revelou um estudo feito pela Fundação Internacional para a Ciência – IFS, com sede na Suécia, sobre a ciência na América Central, que cobria as ciências básicas – Ciências da Saúde, Medicina, Agronomia e outras. Da produção científica centro-americana, 70% vêm das universidades da Costa Rica.Desses 70%, a metade é originada na Universidade da Costa Rica. Como é o financiamento? Um terço dos recursos para pesquisa científica é financiado pela Universidade e 2/3 são provenientes de recursos externos. A genômica na Costa Rica é resultado de um trabalho feito por uma rede de grupos estabelecida graças a um esforço de um núcleo fundamental, que é o Centro de Pesquisa em Biologia Celular e Molecular, criado em 1977, pela Universidade. Naquele momento, isso era um luxo para um país como a Costa Rica, mas houve alguém, ou um grupo, com audácia e clarividência para encará-lo. Foi um movimento antecipatório. Aliás, esta é uma das funções da universidade que está sendo esquecida. A universidade tem duas responsabilidades, mas geralmente se exige uma e não se vê a outra. Ela tem de responder às necessidades e ao desenvolvimento do país; porém, também tem de manter uma base genérica de conhecimentos, de atividades que não têm relação direta com a conjuntura e que é uma preparação ao futuro. Isso é fundamental, e se tem esquecido. A Universidade da Costa Rica, em 1977, investiu em biologia celular e molecular e, então, quando vieram os processos de seqüenciamento, a genômica etc., pudemos, com as colaborações adequadas, nos inserir e trabalhar. E já temos resultados que, para um país como a Costa Rica, eram impensáveis, como sítios genômicos patenteados.

JU – O senhor poderia citar um exemplo?
Macaya - A Costa Rica deu um exemplo único, que gosto de citar, porque continua sendo único. No início dos trabalhos sérios de genética molecular e genômica, em 1976, descobriu-se um tipo de surdez hereditária numa população muito concentrada, em que o número de surdos era muito alto. O trabalho iniciou-se pela genética tradicional, a fisiologia, a medicina, e foi avançando até chegar aos genes. Este foi o instrumento para desenvolver toda a tecnologia até se chegar a reconhecer o gene, isolá-lo, reconhecer a proteína mutada, e descobrir um modelo diferente de surdez. Porém, mesmo com todo este desenvolvimento, mantinha-se uma situação catastrófica: ter de dizer a um jovem que, aos 16 anos, ele ficará surdo. Este é um tipo de surdez muito interessante, porque tem uma aparição tardia, ao final da adolescência. Então, os afetados aprendem a falar corretamente; isso se chama surdez pós-lingüística. Aprende-se a falar corretamente e logo depois deixa-se de ouvir. Mais tarde, fizemos um trabalho muito mais completo, estudando a genética do maníaco-depressivo, ou enfermidade bipolar, sempre em associação com grupos norte-americanos com financiamento do NIH; mas o essencial era feito na Costa Rica. Neste trabalho da enfermidade bipolar, localizou-se o sítio cromossômico para a doença maníaco-depressiva e se patenteou a descoberta. Os doentes que contribuíram com o trabalho fazem parte de uma associação que é beneficiária de 1/3 da patente. Esse é o único caso no mundo. Assim, um patenteamento bem pensado pode ser positivo, por isso sempre o cito como exemplo. Beneficia a empresa, a universidade e os doentes. Eu mesmo entreguei à associação de doentes, cheques provenientes de royalties. Agora, o mesmo grupo está trabalhando com esquizofrênicos e já tem resultados.

JU – Como a Costa Rica maneja a parte de ética da pesquisa que envolve seres humanos?
Macaya – Esse é um trabalho enorme. E, novamente vem “de baixo”. Um grupo pequeno de pesquisadores que estudava esse tema decidiu criar seu próprio grupo de bioética. Convidamos professores de filosofia e começamos a construí-lo. E antes de sair a lei, já tínhamos um comitê funcionando. Depois foi muito fácil de participar na regulamentação e na elaboração dos projetos de lei. O Senado e a Assembléia Legislativa tardaram muito em concordar sobre uma lei, de modo que as instituições desenvolveram seus próprios regulamentos. Foi o primeiro comitê auto-regulamentado.

JU – Como o reitorado afetou a vida do pesquisador?
Macaya – Apesar de ocupar um cargo administrativo, ainda produzo trabalhos científicos. Claro, do total da minha produção científica, 75% foi antes de ser reitor, e 25% desde então. Como manter o pesquisador ativo? Primeiro, participando de, ou organizando, colóquios internacionais. A cada dois anos fazemos na Costa Rica um simpósio com a Sociedade Internacional de Evolução Molecular (já fizemos cinco), sempre incluindo, direta ou indiretamente, temas sociais. Outra atividade é participar dos conselhos editoriais de algumas revistas especializadas. Espero voltar ao laboratório dentro de uns dois anos.
JU – E como é, para a Universidade, ter um cientista como reitor?
Macaya – É muito complicado. Procuro, como reitor, ser o mais equilibrado possível, não privilegiando uma área em detrimento de outra, já que a universidade tem de avançar em todas as frentes.

JU – A Universidade da Costa Rica está trabalhando numa cultura de desenvolvimento sustentável como uma coisa formal ou isto é uma coisa de poucas pessoas?
Macaya - Há um trabalho em várias frentes na Universidade da Costa Rica para promover uma nova cultura entre os alunos. Certos temas fundamentais se introduzem horizontalmente em toda a formação. Durante o primeiro ano de estudo, todos os alunos recebem um mesmo programa de Humanidades em todos os cursos, com disciplinas como Filosofia, História, Linguagem. A seguir, também estudam ciências básicas: Ciências Sociais, Física, Química, Biologia, Sociologia, Antropologia. Esse é o primeiro momento para introduzir temas transversais, como direitos humanos, bioética, igualdade de gênero, integração de deficientes e desenvolvimento sustentável. Com se faz isso? Fazemos bem? Não sei. Mas se faz. Temos outro mecanismo, único na universidade. A partir do terceiro ano do curso escolhido, quer dizer, mais ou menos a partir da sua metade, os alunos participam de trabalhos comunitários-universitários, com uma carga horária de 300 horas/aluno, em um projeto interdisciplinar. Alunos de todos os cursos fazem isto, são mais ou menos 800 mil horas/estudante por ano de trabalhos dedicados à comunidade. Esse trabalho sempre termina com um Seminário de Realidade Nacional. Isto é feito desde 1974 e a atividade foi, recentemente, avaliada por um comitê externo, da UNICEF. A avaliação foi estupenda. Foram apontadas muitas coisas boas, e algumas erradas, que estavam sendo feitas.

JU – Como a população vê essa prática?
Macaya - Depende muito. Porque tem uma parte da população, tanto fora como dentro da universidade, que tem uma tendência a vê-la como mão de obra barata. E aí há um conflito permanente quando não se aprovam trabalhos comunitários- universitários que são mão de obra barata. Por exemplo: um órgão do Estado necessita fazer uma grande pesquisa. Então, convoca os estudantes universitários como mão de obra barata para trabalhar nesta pesquisa sobre qualquer coisa. A partir daí, criamos um projeto que prepara o estudante e paga o professor. É um projeto que também traz dinheiro para a universidade, e assim todos ganham.

JU – Dessa forma a universidade participa e está inserida na sociedade que, afinal, é quem paga para que os estudantes e os professores possam prestar esses serviços, concorda?
Macaya – Há uma coisa que ainda não está bem. Trabalho comunitário-universitário é uma via de mão-dupla. É a universidade atuando e aprendendo. No momento há mais ação do que aprendizado.

JU – Por quê? O que falta?
Macaya – Maior preparação. Não há uma conscientização suficiente desse trabalho nas próprias comunidades. Quase sempre é uma interação comunidade-universidade muito embasada nos interesses da universidade. A universidade precisaria ir mais longe, precisa aprender as necessidades da comunidade e desenvolver seus programas.


JU – Qual o principal desafio da universidade pública?
Macaya - O principal desafio da universidade pública é continuar sendo pública. Se pensamos que a universidade é apenas um mecanismo de formação de profissionais, estamos mal. A universidade pública é mais do que isso. Primeiro, eu acredito que ela é fundamental para o que eu chamo de uma reserva para o futuro. É a instituição que tem de garantir a possibilidade das mudanças necessárias à sociedade. Não me pergunte quais são elas. Porém, temos que ter a capacidade de reagir adequadamente no momento oportuno, e não, como dizem alguns, para prever o futuro. Há um interesse e um compromisso que vão além da conjuntura, do governo e do reitor. É o compromisso de criar mecanismos para obter respostas adequadas em momentos adequados a problemas que sequer imaginamos agora. Isto é o que faz uma universidade pública.

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