Jornal da Universidade

Modelo econômico e instabilidade financeira limitam retomada do crescimento

ELIANA RAFFAELLI - Jornalista

Há novidades que disputaram com a Copa do Mundo as atenções nacionais: dólar em disparada, como ocorre de tempos em tempos; argentinização, para satisfazer tendências à imitação; e Risco-Brasil, novo verbete no já extenso e curioso “economês” brasileiro, dialeto que em épocas cíclicas é enriquecido por governantes, economistas, banqueiros, investidores, (especuladores ou não), analistas de mercado e pela mídia. Aqui, uma tentativa de explicar tudo isso de maneira mais acessível e menos assustadora.

A perspectiva de que o Brasil volte a crescer, meta perseguida sem sucesso nas últimas décadas, se torna cada vez mais distante frente a instabilidades econômicas como as registradas nas últimas semanas, em que o dólar bateu nos R$ 2,80 (uma das maiores cotações dos últimos oito anos) e o Risco-País, indicador que mede a credibilidade externa dos títulos públicos, chegou a ser o terceiro maior do mundo, atrás apenas da Argentina e da Nigéria.
Turbulências como estas no percurso da economia nacional não surpreendem, conforme economistas e analistas de mercado. Pelo contrário, são apenas reflexo do modelo econômico adotado com o Plano Real, fundamentado na forte dependência de investimentos internacionais para fechar o balanço de pagamentos, que é a contabilização de tudo que entra e sai do país, desde exportações e importações, até investimentos e gastos com turismo.
Quando se fala em crescimento não se trata de índices irrisórios, de 1% ou 2% ao ano, como os registrados na década passada. “Um crescimento de 2%, como o esperado para o país neste ano, é uma taxa medíocre para uma população que cresce a média de 1,6% ao ano”, afirma o professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Flávio Fligenspan. “A cada ano entram pelo menos 1,6 milhão de pessoas no mercado de trabalho. Como vai se dar emprego para todos eles se não for via crescimento?”, questiona o economista.
Entretanto, este aspecto foi relegado a segundo plano quando se optou, em 1990, pela abertura comercial, intensificada em 1994, com o lançamento do Plano Real. “A idéia do real era justamente ter um câmbio barato para trazer mais produtos importados a preços acessíveis, a fim de competir com as mercadorias nacionais”, afirma Fligenspan. Em razão deste modelo, contudo, as compras externas cresceram muito, superaram de longe as exportações, resultando em um desequilíbrio da balança comercial, que passou a acumular sucessivos saldos negativos.
Dados do Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior comprovam isso. Entre 1993 e 2001, as exportações nacionais aumentaram 50% (de US$ 38,6 bilhões para US$ 58,2 bilhões), ao passo que as importações tiveram acréscimo de 120% (de US$ 25,3 bilhões para US$ 55,6 bilhões). Em conseqüência, o saldo comercial (diferença entre as vendas e compras), que desde 1981 era positivo, tornou-se negativo a partir de 1995, voltando a se recuperar somente no ano passado, quando somou superávit de US$ 2,6 bilhões, graças à estagnação econômica motivada pelo racionamento de energia elétrica.
Os efeitos se espalharam por vários setores. Apesar de o câmbio barato ter incentivado muitas companhias nacionais a se voltar ao mercado externo, o ingresso massivo de produtos importados desestabilizou muitas empresas locais, que não resistiram à competição estrangeira e quebraram. Em paralelo, o desempenho desfavorável da balança comercial ampliou ainda mais a dependência do capital externo.
Neste sentido, é importante diferenciar os dois tipos de capital que ingressam no País: o produtivo e o financeiro. O primeiro é o investimento direto, destinado a atividades produtivas, ao passo que o segundo é o aplicado nas instituições financeiras, atraído por altas taxas de juros e pela facilidade de movimentação. Atualmente, cerca de dois terços dos US$ 50 bilhões
anuais que o Brasil precisa para fechar suas contas provêm do chamado capital financeiro, altamente volátil.

JUROS
A dependência excessiva do capital financeiro tornou o País refém da boa vontade dos investidores, e os juros altos passaram a ser usados como atrativo. “Aí começa o problema, porque as taxas de juros interna e externa são vasos comunicantes. Isto é, não se pode manter uma alta e outra baixa, pois, caso contrário, o investidor daqui preferiria aplicar fora”, diz o economista. Como resultado, os juros elevados dificultam os investimentos dos empresários locais e, sem investimentos, não se tem crescimento.
Reflexo disso está no frágil desempenho que a economia vem registrando. De janeiro a maio deste ano, a indústria nacional amarga quase 1% de retração em comparação ao ano passado. O comércio, no primeiro quadrimestre de 2002, teve redução de 1,06% no volume de vendas em relação ao mesmo período de 2001, conforme estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A carga tributária nacional, por sua vez, aumentou, chegando a 34,36% do PIB em 2001, ante 32,95% em 2000, segundo pesquisa recente divulgada pela Receita Federal.
A desaceleração atingiu em cheio o mercado de trabalho. O desemprego voltou a crescer, passando de 5,6% da população economicamente ativa em dezembro passado para 7,57% em abril. Com menos emprego, os trabalhadores perdem poder de barganha nas negociações salariais, e os rendimentos tendem a ser achatados, como as pesquisas revelam. Apenas no primeiro trimestre de 2002, o rendimento médio dos trabalhadores recuou 5,7% em comparação ao primeiro trimestre do ano passado.
Mesmo com os juros em patamares estratosféricos, situados entre os quatro mais altos do mundo, os investimentos internacionais no Brasil têm recuado, passando de US$ 30 bilhões em 1999 para US$ 20 bilhões no ano passado. A explicação, conforme Fernando Ferrari Filho, professor do Departamento de Economia da UFRGS, se deve à conjuntura internacional desfavorável.
Fligenspan, que é também diretor-técnico da Fundação de Economia e Estatística (FEE), acrescenta que a questão confiança é outro aspecto importante. “Tudo depende da confiança que os investidores têm na economia brasileira, não no que se mostra hoje, mas em termos de expectativas”. Neste sentido, é analisada tanto a capacidade de geração de dólares (via balança comercial) para que haja moeda estrangeira suficiente para remeter ao exterior quando o investidor decidir realocar seus recursos, bem como a capacidade do Governo de honrar a dívida interna, composta pelos títulos públicos federais nos quais os investidores aplicam seus recursos.
Exatamente na junção destes fatores é que se concentra a desconfiança dos financiadores externos, que levou à instabilidade das últimas semanas. Frente aos sinais pouco animadores emitidos pela balança comercial e ao crescimento acentuado da dívida líquida do setor público, que passou de R$ 153,2 bilhões em 1994 (30% do PIB) para R$ 684 bilhões em abril deste ano (54,5% do PIB), as incertezas aumentaram. É certo que boa parte do acréscimo da dívida deveu-se à renegociação dos débitos com estados e municípios e à inclusão de passivos não contabilizados, chamados popularmente de esqueletos.
Entretanto, o fato é que, independente das razões, é um valor elevado, que pode dificultar a rolagem, caso os investidores considerem que o Governo terá problemas para honrar os compromissos. Neste caso, passam a ser exigidos juros mais altos ou prazos mais curtos, o que cria uma bola de neve, pois impacta novamente na dívida, que tem 30% de seu estoque corrigido pela Selic (taxa básica de juros) e 20% pela taxa de câmbio. Como confiança é algo totalmente subjetivo, os investidores podem, a qualquer momento, considerar que é hora de procurar um porto mais seguro e, ao mesmo tempo, rentável.

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS
De acordo com Fligenspan, a instabilidade verificada desde o início de junho se deveu a um ataque especulativo, pois não há justificativa que explique por que a crise não estourou antes, já que a situação é a mesma há vários meses. Ao lado desta percepção externa negativa, o Governo antecipou a mudança nas regras dos fundos de investimento de renda fixa, que passaram a ter variação diária de acordo com as transações no mercado, ocasionando perdas que chegaram a 5%. Em dez dias, os investidores sacaram R$ 10 bilhões destes fundos, migrando para as cadernetas de poupança e para os fundos cambiais.
“O mercado vive esta angústia porque percebe que os fundamentos macroecônomicos não são tão sólidos como o governo costuma argumentar”, diz Ferrari. Por não querer assumir estes problemas-chave, afirma o economista, o Governo está procurando um bode expiatório, que agora atende pelo nome de “efeito Lula”, diante do crescimento do candidato da oposição, Luis Inácio Lula da Silva, nas pesquisas de opinião para as eleições presidenciais de outubro.
“Qualquer que seja o novo presidente terá um discurso muito parecido, ou seja, o discurso de que a estabilização de preços é uma conquista, mas que é necessário retomar o crescimento, mesmo que, para tanto, seja preciso abrir mão um pouco da meta inflacionária”, destaca Ferrari. A diferença entre a política dos candidatos da situação e oposição estaria em questões estruturais. “É óbvio que em um eventual governo Lula não seriam retomadas as privatizações e haveria um processo mais crítico de integração com a Alca (Área de Livre Comércio das Américas)”.
Flávio Fligenspan considera que os analistas e investidores bem informados não temem a vitória de Lula, pois têm claro que o candidato não tem como fazer uma ruptura radical, que seria, no extremo, renegociar forçosamente a dívida externa. “Isso não aconteceria por motivos legais e econômicos”.
O Brasil tem uma legislação que proíbe a moratória, decisão que depende de aprovação do Congresso Nacional e que, com certeza, não passaria em um Governo com minoria no Legislativo. “Não ocorreria também do ponto de vista econômico, porque afrontar o mercado é perigoso, precisa ter muito cacife para fazer isso, pois se corre o risco de ver cessados todos os financiamentos. Sem recursos, é possível que houvesse dificuldades até mesmo para financiar a compra de petróleo e, em poucos meses, o País poderia parar”, diz ele. “Mas faz parte do jogo especulativo e político espalhar boatos”.

ARGENTINA
Outro comentário que ganhou dimensão neste ambiente conturbado trata da possibilidade de o Brasil virar uma Argentina, hipótese afastada com veemência por boa parte dos economistas. “Falar em ‘argentinização’ do Brasil é terrorismo. O País tem uma indústria forte, um considerável mercado consumidor e um grau de abertura significativo, com a comercialização não apenas de commodities, como também de produtos manufaturados”, afirma Ferrari. Para Fligenspan, outro aspecto que distancia as economias é que na Argentina o atrelamento do peso ao dólar levou a grandes distorções. “Lá, todo mundo deve para todo mundo, há uma crise sistêmica que ameaça a sobrevivência do sistema financeiro, bem diferente da situação brasileira”.
Embora não possa ser comparado ao arrasado país vizinho, o Brasil está vivendo uma das maiores crises financeiras desde o fim de 1998, quando terminou a paridade entre o real e o dólar. Naquela época, embora já houvessem distorções na balança de pagamentos, havia uma causa externa forte que abalou a credibilidade dos investidores internacionais nos países emergentes: o calote bilionário dado pela Rússia. Agora, contudo, parece que a instabilidade está sendo provocada mais por causas internas, apesar de externamente não haver um cenário muito otimista, sobretudo, desde setembro do ano passado, quando os ataques terroristas aos Estados Unidos geraram um clima de desconfiança mundial.
Mesmo assim, os economistas consideram que a instabilidade é passageira, pois não há interesse do próprio Governo em manter o dólar elevado, já que além de pressionar a dívida interna pode prejudicar o alcance das metas de inflação, que neste ano estão fixadas em 3,5%, com margem de dois pontos para cima ou para baixo.
Além disso, o Governo tem mostrado disposição para conter esta disparada, a exemplo das medidas adotadas recentemente, como o aumento do compulsório dos bancos nos depósitos a prazo (de 10% para 15%), o saque de US$ 10 bilhões de uma linha de crédito do Fundo Monetário Internacional (FMI), bem como a negociação com o fundo de um limite mais baixo para as reservas internacionais, que passou de US$ 20 bilhões para US$ 15 bilhões.
Porém, para ter acesso a todos estes recursos, o País terá de apertar ainda mais suas contas, ampliando o superávit primário, de 3,5% do PIB para 3,75%. “Superávit é receita menos despesa, não tem mágica. Como não tem mais como aumentar receita (a carga tributária já passa de um terço do PIB), a saída é cortar despesas. E é um crime cortar despesas em um país pobre como o Brasil, com todas as carências que têm na área social”, diz Fligenspan.
Com poder de fogo superior a US$ 15 bilhões, o Governo espera conseguir acalmar os ânimos. A dúvida é se este valor - que para nós representa muito dinheiro e que para os argentinos seria um sonho - será suficiente para amenizar a ânsia dos especuladores. Enquanto não se tem uma perspectiva clara, a almejada retomada do crescimento econômico segue como uma meta distante.


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