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HOMERO VIZEU ARAÚJO Professor no Instituto de Letras
Editora Record lança
a primeira coletânea de textos
do erudito e malemolente
jornalista carioca
Sérgio
Augusto escreve bem e claro sobre os assuntos mais variados. E até
este delicioso Lado B (Editora Record, 2002), nunca nos brindara com uma
coletânea de textos de militância na imprensa. Seus dois livros
anteriores eram relativamente mais ambiciosos. Este mundo é um
pandeiro é uma excelente história daquelas comédias
cinematográficas brasileiras que gente como eu associa a Grande
Otelo, Oscarito, Zé Trindade entre outros. Revela ângulos
e detalhes sobre o assunto acompanhados de um quadro de época dos
mais instrutivos e competentes. Enfim, Sérgio Augusto demonstra
aí sua capacidade de pesquisa e erudição com as qualidades
de escritor já mencionadas. No entanto, o livro, que é de
1989, também era uma espécie de incursão arqueológica
pelo passado recente do Brasil, passado recente e espantosamente distante
para quem, como eu, não teve acesso aos sucessos chanchadeiros
a não ser em sessões televisivas esporádicas e em
festivais mais ou menos especializados. Chanchada é assunto distante
para quem não é fã ou especialista, concordamos?
No meu caso só prestei maior atenção a Grande Otelo
mediante Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, quando nas cenas
iniciais o ator encarnando o célebre herói desabava de entre
as pernas de Paulo José, travestido de mamãe Macunaíma,
num parto indígena carnavalesco. De qualquer forma o assunto de
difícil acesso de Este mundo é um pandeiro voltou à
tona com a tevê a cabo e com o Canal Brasil, que nos brinda com
as estrepolias chanchadeiras nos horários mais variados. E as análises
e comentários de Sérgio Augusto podem ser enfim testados
contra seu corpus em preto e branco televisivo.
O outro livro do nosso autor é Cancioneiro Jobim, de assunto restrito
e deslumbrante, a denunciar outro seu interesse profundo, além
do cinema: a música popular. Se bem que Tom Jobim não seja
propriamente ou somente música popular... Mas voltemos ao Lado
B. A militância larga e fecunda de Sérgio Augusto na imprensa
brasileira merecia há tempos uma compilação de textos,
destas que tornam obsoletos aqueles recortes de jornais e revistas que
vão se acumulando para que a gente tenha à mão o
que Millôr Fernandes, Ruy Castro, Ivan Lessa, Arthur Nestrovski
e outros escreveram. Da velha guarda pasquiniana, acho que todo mundo
já publicara seu volume. O renitente Sérgio Augusto felizmente
perdeu seus pudores e nos dá sua coletânea de material colhido
nas revistas Bundas e Bravo!, duas publicações com B no
nome, chama ele a atenção no prefácio.
E já no prefácio trata de demarcar sua praia, sua raia de
atuação, sempre com a malemolência carioca cabível:
“Crônicas ou artigos, pouco importa como se rotulem os textos aqui
enfeixados. Vinte e quatro séculos atrás, poderíamos
até qualificá-los de diatribes, já que assim eram
chamados, entre os filósofos cínicos do século III
a. C., todos os escritos acessíveis a um público vasto,
mas não forçosamente especializado, que versavam sobre prazeres
e dores, formas de beleza e comportamento, técnicas de convivência
e uma vasta gama de filosofices. As crônicas ou os artigos de Bravo!
saem agrupados numa seção intitulada “Ensaios”, rótulo
que alguns leitores consideram por demais pretensioso, tendo em vista
suas modestas dimensões. Embora preferisse outro nome, menos pomposo
e mais genérico, não creio que ensaio lhe caia tão
mal assim, pois ensaio é bem menos e, paradoxalmente, bem mais
do que muita gente acha que é.”
A autodefinição é justa. O jeitão de Sérgio
Augusto é mesmo do ensaísta de idéias, autor do texto
informativo e elegante: às vezes próximo da resenha equilibrada
e sempre suspeita de ser mais bem escrita que o livro comentado, outras
vezes uma miscelânea de dados enfeixada pelo ponto de vista criativo.
Tomemos uma seqüência de ensaios, os que vão da página
213 à 229. Lá estão “Eternas frases ao léu”,
“É o King-Kong? É o Godzilla? Não! É a AOL-Time
Warner! Help!” e “Porcaria”. Em “Eternas frases ao léu” Sérgio
Augusto faz um levantamento de frases célebres atribuídas
erradamente a uma celebridade. Maria Antonieta, por exemplo, pode ter
dito que na ausência de pão, “eles que comam brioche”, mas
a frase já corria a França antes da futura rainha ter nascido.
Não, Bernard Shaw não recusou a proposta de tornar-se roteirista
de estúdio feita por Samuel Goldwin, chefão de Hollywood,
mediante a seguinte pérola: “O problema, sr.Goldwyn, é que
o senhor só se interessa por arte e eu só me interesso por
dinheiro.” O autor da frase é outro. E por aí vai, numa
seqüência bem-humorada que poderia ser infinita. Em “É
o King-Kong?...” temos a discussão do cartel dos gigantes da mídia
(a General Electric, a AT&T/Liberty Media, a Disney, a Time Warner,
a Sony, a News Corporation, a Viacom/ Seagram e a Bertelsmann), de sua
política de aquisição e fusões, acompanhada
do protesto contra a padronização boçalizante por
tais empresas perpetrada. Um texto de informações concentradas
mas didaticamente expostas.
O último ensaio da nossa série arbitrária mas sintomática
é “Porcaria”, hilária e elegante dissertação
sobre defecação, excrementos e os impasses do destino da
merda. O detalhe é que o ritmo do ensaio de Sérgio Augusto
muda para tornar-se mais compassado e pretensamente didático ao
dar conta dos procedimentos necessários: “Voltemos ao início.
Dado o alarme, você procura pelo tal cômodo onde, nas sociedades
modernas, nos livramos dos apertos abdominais não-gasosos. Numa
auto-estrada, todos os caminhos levam a um posto de gasolina. Se numa
estrada modesta o bastante para não dispor de postos de gasolina
e (dado importante) deserta, o indicado é haver-se como nas sociedades
primitivas, cuidando de evitar contato com urtigas e formigueiros. (...)
Dependendo do lugar – um aeroporto estrangeiro, por exemplo –, você
talvez tenha de gastar alguns trocados para livrar seu corpo daquele incômodo
mas inofensivo alien intestinal.”
A variedade de assuntos é filtrada por um talento literário
no qual o humor é procedimento essencial. O detalhismo na citação
acima, que explora os dados constrangedores, revela o domínio do
autor sobre sua prosa. Em “Eternas frases ao léu”, Sérgio
Augusto fora lépido e faceiro, na diatribe anticartel de “É
o King-Kong ...”, escrevera zombeteiro e argumentativo, e no terceiro
ensaio da seqüência explora a escatologia e goza os bons modos
que mandam não falar de merda. E o autor prossegue indo de Graham
Greene à vaidade de Gilberto Freyre, da política de boa
vizinhança de Roosevelt aos estragos do terrorismo e do golpismo
organizado pela CIA, etc, etc.
Com tamanho apetite pelo mundo aí fora, fica evidente que o leitor
não pode esperar nada do lirismo típico da crônica,
aquele texto reflexivo e compassado que fez a fama de Rubem Braga e Paulo
Mendes Campos. A malemolência e a erudição de Sérgio
Augusto não servem ao esforço introspectivo e mais ou menos
emotivo e confessional. A rigor, a impessoalidade cordial parece ser o
tom da prosa do autor, mais próximo de Luis Fernando Verissimo
do que de Millôr Fernandes, digamos. Daí, acho eu, a incapacidade
de Sérgio Augusto para o patético, para a auto-revelação
mais ácida e crítica, para aquela empatia com o leitor na
qual Nelson Rodrigues era mestre. Uma empatia capaz de criar a mais violenta
antipatia – e basta lembrar de como Nelson Rodrigues, o reacionário,
foi recebido até bem pouco tempo. Enfim, uma aposta radical na
reação do leitor, para o bem e para o mal, de que nosso
jornalista não é capaz. Salvo engano meu, Sérgio
Augusto nos trata com cordial e afetuoso distanciamento, o que não
deixa de ser um avanço civilizatório. A regra brasileira
fica entre a proximidade pegajosa e a disposição agressiva.
E Veríssimo, na contracapa, nota que são textos escritos
no calor da hora, com aquele prazo curto do jornalismo. Sérgio
Augusto burila a frase e alcança um manancial fabuloso de informações
aos seus leitores com a presteza que só os jornalistas maduros
logram alcançar. Um autor no auge dos seus poderes, tudo isso com
capa linda e índice remissivo. Para que mais?
Trechos de cinco
ensaios do livro
Uma guerra
perdida
“Uma das vantagens de não se ter filho adolescente é que
você jamais passará pela vergonha de ver o sangue-do-seu-sangue
metido com drogas ou pernoitando na porta de um cinema para descolar um
ingresso para o novo Stars Wars, além do mais fantasiado de Darth
Vader. O diabo é que nem aqueles que, como eu e Brás Cubas,
se recusaram a transmitir a outra criatura o legado de sua miséria
conseguiram se livrar da massacrante presença de A ameaça
fantasma na mídia, cuja complacente, para não dizer entusiástica,
sujeição ao marketing do filme só fez renovar em
mim a crença de que os adolescentes também já tomaram
conta das redações. A revista Programa, do JB, não
lançou um jovem crítico que se apresenta como ‘fanático
e estudioso de Guerra nas estrelas’?”. (Bundas, 6.7.1999)
C=M + D –
PC
“Esta seria a fórmula matemática da corrupção:
M (monopólio) + D (discrição) – PC (prestação
de contas). Em miúdos: alguém detém o tráfico,
a exploração, a posse, o direito ou o privilégio
exclusivo de algo e o negocia às escondidas sem prestar contas
a ninguém. As formas variam: suborno, extorsão, propinas
ilícitas, tráfico de influências, nepotismo, fraude,
desfalque. Somos ricos nisso tudo. Ainda não conseguimos auto-suficiência
em petróleo, mas faz tempo que em matéria de corrupção
podemos olhar para a Indonésia e a República dos Camarões
como os petrolíferos venezuelanos e mexicanos olham para os Emirados
Árabes: sem complexo de inferioridade.” (Bundas, 11.4.2000)
O frenesi
do furo
“O filho de um amigo, estudante de Comunicação, escolheu
como tema para seu trabalho de fim de curso os cadernos de cultura e variedades
dos quatro principais jornais brasileiros. Como fora motivado por um texto,
bastante crítico, que aqui neste espaço dediquei ao assunto,
em dezembro de 1997, não se deu por satisfeito em apenas me ouvir,
para considerações complementares e aprofundamento de alguns
tópicos; também me pediu que lhe sugerisse um título
para a dissertação. Saiu de chofre: ‘Leu um, leu todos’.
Ele gostou, mas logo disse que não o usaria para não ser
injusto com o Caderno 2 do Estado de S.Paulo, que ele, com razão,
considera um caso à parte, de longe, o melhor de sua espécie,
o único da imprensa diária que, a seu ver, acredita na ‘força
do texto’ e investe na ‘inteligência do leitor’, não receia
deixar em segundo plano o jornalismo de agenda (ou seja, aquele cujas
pautas são ditadas por eventos e lançamentos do dia ou da
semana) e não se entregou, como os demais, ‘ao frenesi do furo’.”
(Bravo, outubro 2000)
O cego que
adorava ir ao cinema
“Quando ainda enxergava alguma coisa, Jorge Luis Borges ia muito ao cinema.
Não o considerava uma arte menor, como é praxe entre os
literatos, e até admitia ter contrabandeado da estrutura narrativa
cinematográfica as fusões descontínuas da História
universal da infâmia. Além disso, em suas listagens de obras
favoritas figuravam alguns filmes, em especial os primeiros (Paixão
e sangue, A última ordem, O super-homem) de Josef von Sternberg,
cuja influência sobre os seus primeiros relatos reconheceu por escrito.
O escritor Adolfo Bioy Casares, comparsa de Borges em dois roteiros, L’Invasion
e Les Autres, assinados com o pseudônimo de H. Bustos Domecq para
o cineasta Hugo Santiago, confirma a cinefilia do amigo. Iam quase sempre
juntos ao cinema, em Buenos Aires, e em geral se entusiasmavam mais por
intrigas de complexa urdidura do que pelo engenhoso visual de tal e qual
filme. ‘Em cinema’, comentou Borges com Casares, ‘somos leitores de Mme.
Delly’. Exagero. Borges era apenas um cinéfilo excêntrico.”
(Bundas, 5.12.2000)
Signos do
protesto
“Inventaram, nem sei mais se nos EUA ou na Inglaterra, que julho é
o mês do protesto. Por que não escolheram maio? Talvez para
não dar muita luz às lutas da classe trabalhadora e ao chienlit
de 1968. De mais a mais, a escolha enfrentaria entre nós a forte
concorrência das noivas, há muito identificadas com o mês
de maio, e vice-versa. Junho? Embora duas das maiores manifestações
populares dos últimos tempos tenham ocorrido no sexto mês
do ano (a nossa passeata dos cem mil, em 1968, e os confrontos na praça
Celestial, em Pequim, há dez anos), junho sempre foi o mês
das noivas nos EUA. Pensando bem, julho até que é uma boa
escolha. Foi em julho que os franceses derrubaram a Batilha, os americanos
sacramentaram sua independência, os constitucionalistas de São
Paulo se levantaram em armas contra o governo Vargas e os uruguaios, comandados
por Obdulio Varela, rebelaram-se contra o já-ganhou da seleção
brasileira de 1950.” (Bravo, julho, 1999)
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