Jornal da Universidade

Em busca da paz
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Senhor Presidente: o horror não é uma fatalidade!

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Em busca da paz

Esta é uma edição especial do Jornal da Universidade. Uma edi-ção inteiramente dedicada à busca da paz, enfocando ações e pessoas que vêm trabalhando para que se estabeleçam relações de não-violência entre os homens e entre as nações.
O professor Marcelo Rezende Guimarães abre a análise da temática da paz, com o artigo “Paz: a questão da ressignificação”, na página 3. Na página 4, a professora Clary Milnitsky-Sapiro fala sobre a função acadêmica na construção da não-violência. A relação entre juventude e violência é abordada pelo professor José Vicente Tavares dos Santos no artigo “A superação da violência e a construção da paz na vida de uma juventude fraturada”, que está na página 5.
Educação para a paz é um movimento que vem se expandindo no Brasil desde a década de 80 como um novo paradigma educacional que propõe mudança na postura de professores e alunos. A reportagem está na página 6. Na página 7, a pesquisadora Ana Clara Torres Ribeiro busca o significado da palavra paz, que parece envolver uma variedade de sentidos para os que a citam ou a reivindicam.
Na página 8, a secretária municipal de Direitos Humanos e Segurança Urbana, Helena Bonumá, faz uma análise da relação entre o crime e a segurança urbana. O florescimento de um movimento pacifista mundial determinado a partir da invasão americana no Iraque é o tema da reportagem publicada na página 9. E na página central, 119 pessoas, entre professores, alunos e técnico-administrativos da Universidade, definem o que vem a ser a paz.
Existe uma relação entre paz e democracia? É o que pergunta (e procura responder) a matéria da página 12, que traz a opinião de diversos professores da UFRGS. A matéria da página 13 analisa a atuação diplomática no Brasil em defesa das boas causas no cenário internacional, incluindo aí questões relativas aos direitos humanos, ao meio ambiente e a tratados e acordos como o Mercosul e a Alca.
Em busca da paz, o homem sempre acaba apelando para a divindade, por meio da oração. É assim em todas as religiões, como demonstra a matéria das páginas 14 e 15. Tem gente que fala, tem gente que reza, tem gente que faz. Nas paginas 16 e 17, uma reportagem mostra pessoas e grupos que tomaram uma atitude positiva diante da situações de sofrimento em que vive grande parte da população.
O clamor pela paz chega às páginas dedicadas à cultura e à arte. Na página 18, uma reportagem mostra como os músicos reagem diante da situação mundial, condenando a guerra e o tráfico de armas. E na página 19, os cartunistas apontam suas armas contra a guerra.
Na última página está o perfil de uma mulher que não se conformou em enterrar o filho adolescente, vítima do trânsito: criou uma fundação para evitar que outros jovens abram suas defesas nessa modalidade contemporânea de guerra.
Boa leitura.

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Senhor Presidente: o horror não é uma fatalidade
Yannis Tsiomisn Arquiteto, professor das Escolas de Arquitetura de Paris (*)

À memória de Tim Lopes, jornalista negro, torturado e assassinado a golpes de faca na
Vila Cruzeiro, Rio de Janeiro,
“cidade maravilhosa”, em junho de 2002.

Eu falo da cidade imensa, realidade cotidiana feita de duas palavras: os outros, escreveu Octavio Paz em 1996, certamente pensando na Cidade do México. Houve um tempo em que, ao ler as palavras dos poetas sobre as cidades místicas, ao olhar as representações dos pintores, dos desenhistas, as imagens dos fotógrafos, podíamos nos maravilhar com estes monstros sedutores, aos quais abandonávamos nossa inocência sem remorso: as grandes cidades do mundo. Este tempo passou. Hoje, tudo é cidade e não temos mais razões para nos maravilharmos ou para nos sentirmos orgulhosos disso que se tornou uma banalidade: estar na cidade, mesmo que ela seja a “mais bela cidade do mundo”. É o caso do Rio de Janeiro, esta cidade que amamos, que eu amo, tendo-a seguidamente visitado desde 1988, tendo ali vivido e trabalhado, mesmo que por fragmentos de tempo e de espaço.
Rio, São Paulo, Lagos e tantas outras... Muito já se disse sobre a insegurança dessas cidades, e nenhuma metrópole do planeta escapa à violência – estamos entendidos! E “entendemos” tão bem que aceitamos essa situação como se fora mais uma fatalidade, como a queda das bolsas, como uma catástrofe natural. Porém, Nova York, em setembro de 2001, pôs um termo ao mito do horror urbano fatal. De fato, as medidas tomadas contra o terrorismo mostraram que, quando os interesses nacionais, mundiais e “globais” são questionados, é possível reagir. Mesmo que de maneira tortuosa... O horror do World Trade Center demonstrou mais uma vez o que já sabíamos: a fatalidade do horror é um mito. Quando “se” quer, há reação. Quando o poder municipal, quando o Estado quer, ele reage. Sabemos, porém, a solução jamais irá nos dar segurança.
Fiel viajante, há tantos anos arquiteto e professor, no Rio mesmo, como professor convidado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal, ou nas Escolas de Arquitetura de Paris, tenho me ocupado de trabalhos de estudantes, franceses ou brasileiros, cujo objeto é o espaço urbano da cidade do Rio de Janeiro. Exercendo essa função, constatei que os debates sobre o planejamento desta metrópole, os projetos urbanos, as estratégias arquiteturais e urbanas, enfim, as problemáticas, eram por todo lugar as mesmas. Fala-se nas “grandes obras” de Mitterrand, do sucesso dos projetos de Barcelona (excessivamente valorizados no Rio), de Berlim e do Museu Guggenheim, de Bilbao... O mundo universitário ou o mundo profissional dos arquitetos usa os mesmos termos para falar do urbano e da metropolização: “de Rio a Pequim, os mesmos problemas, as mesmas soluções” – como escrevia há cerca de quarenta anos o urbanista grego Doxiadis, que trabalhou no Rio! (Aliás, devemos nos interrogar sobre os efeitos da “mundialização” no plano arquitetural e urbano: os temas tratados em Paris, Rio e alhures são os mesmos – e as formas e imagens propostas pela arquitetura brasileira, com justiça, no passado, consideradas únicas, reproduzem hoje os mesmos modelos, ao invés de pensar uma abordagem específica... Mas esta é uma outra questão.)
Em um primeiro momento, pouco refleti sobre o significado desta “banalização” dos discursos e das abordagens sobre a cidade. Não era eu mesmo “exportador” ou “importador” de práticas de projeto urbano? Porém, tendo por tantos anos desempenhado o papel de “convidado” no Brasil, sinto a necessidade de pagar uma dívida. O que me incomodava há muito tempo tornou-se simplesmente uma questão de consciência, de cidadania – e eu a exponho aqui.
Quando das minhas primeiras visitas, eu me dizia que o Rio de Janeiro era uma cidade bela demais para ser “verdadeira”. Era o período da descoberta, o tempo em que olhamos uma cidade através da sua história, da sua “maneira de ser” ou, simplesmente, através do prazer de “estar lá”, cercado de amigos calorosos, hospitaleiros. Era o tempo do viajante.
Alguns anos mais tarde, eu me dizia que o Rio era enfim, apesar de tudo, uma cidade banal, que conhecia os mesmos problemas de todas as grandes cidades e que era objeto do mesmo tratamento e dos mesmos discursos: corrigir a cidade por meio de projetos, melhorar a vida dos moradores – Corredor Cultural, Rio Cidade, Favela Bairro, projetos para o porto, reabilitação do centro histórico... Logo, tudo me parecia normal numa cidade normal. Afinal, no fundo, sempre olhamos um espaço através do nosso métier e dos nossos hábitos cotidianos. Era o tempo do citadino – em trânsito, certamente –, mas “morador” da cidade assim mesmo.
Em seguida, porém, nasceu e cresceu em mim um sentimento de desconforto. Vivi então o tempo da tensão cotidiana, do perigo real de perambular pela cidade – o que eu considerava uma “fantasia” dos meus amigos cariocas. Tomei consciência do tempo e dos espaços proibidos da cidade. Tomei consciência dessa restrição de movimento, da violência física e psicológica que sofremos pelo simples motivo de estarmos no Rio de Janeiro, da vergonhosa autocensura, da aceitação do fato de estar em “liberdade vigiada” por nós mesmos. As notícias de jornal, as “experiências” pessoais de uns e de outros, a violência, os seqüestros, os fogos de artifício atirados das favelas para anunciar a chegada da “mercadoria”, os tiros escutados durante a noite... tudo isso adquiriu para mim outro significado. E a dimensão desses fatos tornou-se política, no sentido pleno do termo. Porque, no mesmo momento, eu trabalhava um projeto para o sítio da ágora de Atenas, cidade onde a democracia nasceu, e me dava conta da distância imensa que nos separa – não me refiro somente ao Rio de Janeiro – daquela visão realmente “política”, onde o espaço físico e sua forma, por um lado, e os direitos e deveres democráticos, por outro, não podiam ser separados sob pena de desaparecerem, tanto uns, como os outros.
As últimas operações de “assalto” promovidas pelos narcotraficantes, no bairro de Ipanema, inicialmente, depois em Botafogo, os tiros de fuzil contra as delegacias, os centros comerciais e até mesmo contra a sede do governo, são meros epifenômenos desse acostumar-se à guerra civil que toma conta do Rio há tantos anos. Em meio a eleições de grande importância para o Brasil, vivemos momentos dignos dos filmes B hollywoodianos, exceto que, sob a mira dos criminosos, há um refém: a cidade inteira. O enredo é sempre o mesmo: dezenas de artigos na imprensa nacional e internacional, dezenas de promessas sobre as medidas que serão tomadas, apelos à presença do Exército nas ruas...
É assim que se mata a democracia (aliás, ela ainda vive?), entre o olhar divertido dos estrangeiros – “Ah, esses brasileiros! Samba, futebol, crise do real e narcotráfico” – e as palavras apaziguadoras das autoridades, e o esquecimento desde que a “crise” passou.
As causas, nós as conhecemos. Por que voltar ao assunto? Falamos de milhões de pessoas, moradores das favelas e periferias do Rio, desrespeitadas, subtraídas de seus direitos elementares, reféns dos traficantes e de seus cúmplices – e reféns, também, da indiferença. Que o novo presidente, o novo governador, o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, que todos visitem uma delegacia de polícia do “grande Rio”, na Penha, por exemplo. Eles compreenderão que as condições desses lugares são a representação da indiferença que merecem tanto os que são chamados a fazer respeitar a lei, os policiais, como os que estes deveriam proteger, os moradores. Pobres moradores, pobres policiais, pobres pivetes... Então eu me disse que, efetivamente, o Rio de Janeiro, onde o jornalista Tim Lopes foi assassinado a golpes de faca há alguns meses, não é uma cidade banal: não por causa de sua paisagem, mas porque ali a vida humana é cada vez menos um valor, pois muitos de seus habitantes interiorizaram o horror e se protegem fazendo de conta que levam uma vida normal. Que cidadãos surgirão desses meninos de classe média, superprotegidos e cercados de jogos eletrônicos, que não sabem o que é brincar na rua, lá onde se prostituem, matam e morrem outros meninos da mesma idade?
Senhor presidente, além da reforma agrária ou do respeito a suas obrigações internacionais, existe uma outra urgência: a da democracia nas cidades brasileiras, como Rio e São Paulo. E que os senhores prefeitos e governadores, e que nós, os urbanistas e os arquitetos, compreendamos que as formas que embelezam e que os “grandes projetos” são desprovidos de sentido sem o direito à cidade. É preciso, pois, construir uma nova démarche, e que esta não seja uma imitação daquelas de alhures ou do passado: uma démarche para um urbanismo democrático, uma démarche para reabilitar o cidadão, inseparável de uma démarche para reabilitar as cidades.

(*) Texto escrito no Rio de Janeiro, em outubro de 2002

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