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Senhor
Presidente: o horror não é uma fatalidade
Yannis Tsiomisn Arquiteto, professor das Escolas de Arquitetura de Paris
(*)
À memória de Tim Lopes, jornalista
negro, torturado e assassinado a golpes de faca na
Vila Cruzeiro, Rio de Janeiro,
“cidade maravilhosa”, em junho de 2002.
Eu
falo da cidade imensa, realidade cotidiana feita de duas palavras: os
outros, escreveu Octavio Paz em 1996, certamente pensando na Cidade do
México. Houve um tempo em que, ao ler as palavras dos poetas sobre
as cidades místicas, ao olhar as representações dos
pintores, dos desenhistas, as imagens dos fotógrafos, podíamos
nos maravilhar com estes monstros sedutores, aos quais abandonávamos
nossa inocência sem remorso: as grandes cidades do mundo. Este tempo
passou. Hoje, tudo é cidade e não temos mais razões
para nos maravilharmos ou para nos sentirmos orgulhosos disso que se tornou
uma banalidade: estar na cidade, mesmo que ela seja a “mais bela cidade
do mundo”. É o caso do Rio de Janeiro, esta cidade que amamos,
que eu amo, tendo-a seguidamente visitado desde 1988, tendo ali vivido
e trabalhado, mesmo que por fragmentos de tempo e de espaço.
Rio, São Paulo, Lagos e tantas outras... Muito já se disse
sobre a insegurança dessas cidades, e nenhuma metrópole
do planeta escapa à violência – estamos entendidos! E “entendemos”
tão bem que aceitamos essa situação como se fora
mais uma fatalidade, como a queda das bolsas, como uma catástrofe
natural. Porém, Nova York, em setembro de 2001, pôs um termo
ao mito do horror urbano fatal. De fato, as medidas tomadas contra o terrorismo
mostraram que, quando os interesses nacionais, mundiais e “globais” são
questionados, é possível reagir. Mesmo que de maneira tortuosa...
O horror do World Trade Center demonstrou mais uma vez o que já
sabíamos: a fatalidade do horror é um mito. Quando “se”
quer, há reação. Quando o poder municipal, quando
o Estado quer, ele reage. Sabemos, porém, a solução
jamais irá nos dar segurança.
Fiel viajante, há tantos anos arquiteto e professor, no Rio mesmo,
como professor convidado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
Federal, ou nas Escolas de Arquitetura de Paris, tenho me ocupado de trabalhos
de estudantes, franceses ou brasileiros, cujo objeto é o espaço
urbano da cidade do Rio de Janeiro. Exercendo essa função,
constatei que os debates sobre o planejamento desta metrópole,
os projetos urbanos, as estratégias arquiteturais e urbanas, enfim,
as problemáticas, eram por todo lugar as mesmas. Fala-se nas “grandes
obras” de Mitterrand, do sucesso dos projetos de Barcelona (excessivamente
valorizados no Rio), de Berlim e do Museu Guggenheim, de Bilbao... O mundo
universitário ou o mundo profissional dos arquitetos usa os mesmos
termos para falar do urbano e da metropolização: “de Rio
a Pequim, os mesmos problemas, as mesmas soluções” – como
escrevia há cerca de quarenta anos o urbanista grego Doxiadis,
que trabalhou no Rio! (Aliás, devemos nos interrogar sobre os efeitos
da “mundialização” no plano arquitetural e urbano: os temas
tratados em Paris, Rio e alhures são os mesmos – e as formas e
imagens propostas pela arquitetura brasileira, com justiça, no
passado, consideradas únicas, reproduzem hoje os mesmos modelos,
ao invés de pensar uma abordagem específica... Mas esta
é uma outra questão.)
Em um primeiro momento, pouco refleti sobre o significado desta “banalização”
dos discursos e das abordagens sobre a cidade. Não era eu mesmo
“exportador” ou “importador” de práticas de projeto urbano? Porém,
tendo por tantos anos desempenhado o papel de “convidado” no Brasil, sinto
a necessidade de pagar uma dívida. O que me incomodava há
muito tempo tornou-se simplesmente uma questão de consciência,
de cidadania – e eu a exponho aqui.
Quando das minhas primeiras visitas, eu me dizia que o Rio de Janeiro
era uma cidade bela demais para ser “verdadeira”. Era o período
da descoberta, o tempo em que olhamos uma cidade através da sua
história, da sua “maneira de ser” ou, simplesmente, através
do prazer de “estar lá”, cercado de amigos calorosos, hospitaleiros.
Era o tempo do viajante.
Alguns anos mais tarde, eu me dizia que o Rio era enfim, apesar de tudo,
uma cidade banal, que conhecia os mesmos problemas de todas as grandes
cidades e que era objeto do mesmo tratamento e dos mesmos discursos: corrigir
a cidade por meio de projetos, melhorar a vida dos moradores – Corredor
Cultural, Rio Cidade, Favela Bairro, projetos para o porto, reabilitação
do centro histórico... Logo, tudo me parecia normal numa cidade
normal. Afinal, no fundo, sempre olhamos um espaço através
do nosso métier e dos nossos hábitos cotidianos. Era o tempo
do citadino – em trânsito, certamente –, mas “morador” da cidade
assim mesmo.
Em seguida, porém, nasceu e cresceu em mim um sentimento de desconforto.
Vivi então o tempo da tensão cotidiana, do perigo real de
perambular pela cidade – o que eu considerava uma “fantasia” dos meus
amigos cariocas. Tomei consciência do tempo e dos espaços
proibidos da cidade. Tomei consciência dessa restrição
de movimento, da violência física e psicológica que
sofremos pelo simples motivo de estarmos no Rio de Janeiro, da vergonhosa
autocensura, da aceitação do fato de estar em “liberdade
vigiada” por nós mesmos. As notícias de jornal, as “experiências”
pessoais de uns e de outros, a violência, os seqüestros, os
fogos de artifício atirados das favelas para anunciar a chegada
da “mercadoria”, os tiros escutados durante a noite... tudo isso adquiriu
para mim outro significado. E a dimensão desses fatos tornou-se
política, no sentido pleno do termo. Porque, no mesmo momento,
eu trabalhava um projeto para o sítio da ágora de Atenas,
cidade onde a democracia nasceu, e me dava conta da distância imensa
que nos separa – não me refiro somente ao Rio de Janeiro – daquela
visão realmente “política”, onde o espaço físico
e sua forma, por um lado, e os direitos e deveres democráticos,
por outro, não podiam ser separados sob pena de desaparecerem,
tanto uns, como os outros.
As últimas operações de “assalto” promovidas pelos
narcotraficantes, no bairro de Ipanema, inicialmente, depois em Botafogo,
os tiros de fuzil contra as delegacias, os centros comerciais e até
mesmo contra a sede do governo, são meros epifenômenos desse
acostumar-se à guerra civil que toma conta do Rio há tantos
anos. Em meio a eleições de grande importância para
o Brasil, vivemos momentos dignos dos filmes B hollywoodianos, exceto
que, sob a mira dos criminosos, há um refém: a cidade inteira.
O enredo é sempre o mesmo: dezenas de artigos na imprensa nacional
e internacional, dezenas de promessas sobre as medidas que serão
tomadas, apelos à presença do Exército nas ruas...
É assim que se mata a democracia (aliás, ela ainda vive?),
entre o olhar divertido dos estrangeiros – “Ah, esses brasileiros! Samba,
futebol, crise do real e narcotráfico” – e as palavras apaziguadoras
das autoridades, e o esquecimento desde que a “crise” passou.
As causas, nós as conhecemos. Por que voltar ao assunto? Falamos
de milhões de pessoas, moradores das favelas e periferias do Rio,
desrespeitadas, subtraídas de seus direitos elementares, reféns
dos traficantes e de seus cúmplices – e reféns, também,
da indiferença. Que o novo presidente, o novo governador, o prefeito
da cidade do Rio de Janeiro, que todos visitem uma delegacia de polícia
do “grande Rio”, na Penha, por exemplo. Eles compreenderão que
as condições desses lugares são a representação
da indiferença que merecem tanto os que são chamados a fazer
respeitar a lei, os policiais, como os que estes deveriam proteger, os
moradores. Pobres moradores, pobres policiais, pobres pivetes... Então
eu me disse que, efetivamente, o Rio de Janeiro, onde o jornalista Tim
Lopes foi assassinado a golpes de faca há alguns meses, não
é uma cidade banal: não por causa de sua paisagem, mas porque
ali a vida humana é cada vez menos um valor, pois muitos de seus
habitantes interiorizaram o horror e se protegem fazendo de conta que
levam uma vida normal. Que cidadãos surgirão desses meninos
de classe média, superprotegidos e cercados de jogos eletrônicos,
que não sabem o que é brincar na rua, lá onde se
prostituem, matam e morrem outros meninos da mesma idade?
Senhor presidente, além da reforma agrária ou do respeito
a suas obrigações internacionais, existe uma outra urgência:
a da democracia nas cidades brasileiras, como Rio e São Paulo.
E que os senhores prefeitos e governadores, e que nós, os urbanistas
e os arquitetos, compreendamos que as formas que embelezam e que os “grandes
projetos” são desprovidos de sentido sem o direito à cidade.
É preciso, pois, construir uma nova démarche, e que esta
não seja uma imitação daquelas de alhures ou do passado:
uma démarche para um urbanismo democrático, uma démarche
para reabilitar o cidadão, inseparável de uma démarche
para reabilitar as cidades.
(*) Texto escrito no Rio
de Janeiro, em outubro de 2002
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