A expressão “Ama o teu próximo
como a ti mesmo” ganha força quando homens de diferentes designações
fazem referência a ela como regra
importante a ser cumprida com o propósito da paz entre os homens.
É comum nos momentos de orações, de trabalhos espirituais
ou meditações, pensadores volverem-se para suas consciências
e ali procurar explicações ou respostas para aplacar o
bombardeio diário de atos de violência. Nestes rituais
ou práticas metafísicas,
é freqüente o embasamento em literaturas que vão
dar os matizes de cada uma das abordagens filosóficas ou religiosas.
Os poemas de Akhenaton para os rosacruzes, a
Torá para os judeus, a Bíblia para os cristãos,
o Corão para os islamitas, O Livro dos Espíritos para
os espíritas, o Ciência e Saúde para os cientistas
cristãos, o Gita para os estudantes de Brahma Kumaris, são
algumas das obras que formam acervo bibliográfico mundial que
é lido e vivenciado por bilhões de pessoas no mundo inteiro.
“Quando a gente muda, o mundo muda”, diz a coordenadora da escola Brama
Kumaris de Porto Alegre, Márcia Medeiros, ao lembrar o slogan
básico da filosofia originária da Índia. Primeiramente,
a Brahma Kumaris começa com um trabalho de meditação
raja yoga, que é uma linha que trabalha com posturas mentais,
atitudes do pensamento. “Acreditamos que a essência do ser é
silenciosa e pacífica. Mas, através de um processo histórico,
o homem sofreu um desgaste energético. Ou seja, deixou de experimentar
sua essência original de paz, amor, felicidade e pureza”, avalia
Márcia. Com isso, as negatividades passaram a ter espaço
dentro da consciência humana e o homem começou a experimentar
o medo, a raiva, a agitação mental. “O que concebemos
como uma doença da alma”.
Segundo os brahmins, numa situação de saúde o indivíduo
é muito silencioso, pensa muito pouco. Por isso o processo de
meditação é um processo de cura, porque a pessoa
começa a pensar menos, ter menos problemas. “Pensamos tanto em
algo que fazemos da situação um monstro, depois temos
que conviver com ele. A solução é aprender a pensar
só o necessário. O resultado é menos agitação.”
Também para os luteranos “a pregação da paz não
é uma pregação de massa, mas individual”, observa
o pastor presidente da Igreja Evangélica de Confissao Luterana
do Brasil, Walter Winterle. Ele avalia que, devido aos novos arranjos
familiares, o aumento da média de idade para os casamentos e
a perplexidade da juventude ante as incertezas do mundo contemporâneo,
a igreja luterana tem procurado atender às diferenças
daqueles que a procuram. “Não realizamos um programa nacional
específico pela paz. O trabalho é feito junto aos indivíduos
e, na soma destes, formando a igreja, ela influencia a sociedade no
sentido da paz.”
Deus perfeito e homem perfeito, essa é a base do pensamento e
da demonstração para os estudantes de Ciência Cristã.
Segundo o assistente regional de divulgação da Ciência
Cristã no Rio Grande do Sul, Ovídio Trentini, Jesus Cristo
deu ferramentas valiosas para que o homem possa sanar seus conflitos
interiores e viver em paz. Sentimentos como inveja, ciúme e mesmo
a intranqüilidade experimentada ante as notícias de violência
e guerra, podem ser contrapostos ao fato de que o mal não pode
desfazer a presença de Deus. “Quando vemos imagens ruins na TV,
a tendência é pensar que o bem não está presente,
só o mal. Mas ninguém pode ser arrancado da presença
divina.”
Conforme Trentini, esse tipo de pensamento dava a Jesus condições
de agir sobre as circunstâncias desfavoráveis. Essa capacitação
espiritual na consciência do indivíduo lhe dá condições
de demonstrar a presença do bem. O assistente recorda a tranqüilidade
com que Jesus enfrentou uma tempestade no Mar da Galileia. Ele permanecia
dormindo enquanto os demais tripulantes do barco ficavam agitados e
com medo. Assustados, foram acordá-lo: “Onde anda a fé
de vocês?”, perguntou Jesus. Então, ele apaziguou a tempestade.
Num enfoque metafísico, “quando o pensamento está harmonizado
não aceita o que não procede de Deus”, afirma Trentini.
Os rosacruzes também desenvolvem trabalho metafísico como
forma de resgatar a paz interior. “Tudo começa com o relaxamento
em busca da harmonia na consciência. Só então é
possível emitir pensamentos de paz”, diz o Grande Conselheiro
da Ordem Rosacruz – Amorc – da região Sul, Ivar Piazzeta. Para
a Ordem, o homem adquire domínio da vida a medida que entende
as leis naturais, e isso se processa de forma individual. Seu objetivo
é promover a evolução da humanidade através
do desenvolvimento das potencialidades de cada indivíduo e proporcionar
uma vida harmoniosa para alcançar saúde, felicidade e
paz.
Estágio possível através do autoconhecimento, dizem
os espíritas. Processo, segundo o qual, conforme esclarece o
presidente da Federação Espírita do Rio Grande
do Sul, Jason de Camargo, o individuo tem condições de
construir novos paradigmas, modificando assim seu pensamento, emoções
e atitudes. “Temos que resgatar o vocábulo moral, como a regra
de bem proceder em consonância com as leis de Deus”, diz o espírita.
Os franciscanos também propõem mudança. “Senhor,
fazei-me um instrumento da vossa paz”. O texto de São Francisco
inspira seus seguidores a uma prática de resistência em
prol do bem coletivo. “A paz pressupõe a justiça que é
uma tarefa permanente e fruto do amor”, esclarece frei Irineu Costelo.
Segundo ele, a proposta dos franciscanos é viver as primeiras
comunidades cristãs quando tinham apenas “um coração
e uma só alma”. Cada um colocava para uso comum aquilo que possuía.
Quem tinha bens, vendia-os, não para investir, mas para distribuir
segundo a necessidade de cada um. Mas para que isso ocorra hoje em dia,
avalia o frei, é necessário que a sociedade abandone sua
perspectiva do lucro, de tirar vantagem do acúmulo, para alicerçar-se
no sentimento de fraternidade.
HÃO DE VIR
E PASSAR IMPÉRIOS
“Eu não queria estar na pele do Bush”, comenta o presidente da
Federação Espírita do Rio Grande do Sul, Jason
de Camargo, para quem, numa perspectiva espírita, o presidente
norte-americano, ao optar pela guerra e as conseqüentes mortes,
assume uma grande responsabilidade sobre aqueles que “desencarnaram”.
Sob outro ponto de vista, o líder religioso judeu, Guershon Kwasniewski,
avalia que a história se repete, mudando apenas os protagonistas.
Com os olhos fixos na história de seu povo, ele acredita que
a religião auxilia seus fiéis a perceberem onde está
parada a humanidade, dando-lhes força para resistirem a desigualdades
e ao desrespeito entre os povos.
O respeito é necessário também entre religiões
e raças, destaca o líder islamita Ahmad Ali. Segundo ele,
mesmo no tempo das conquistas árabes, seu povo respeitou o direito
dos conquistados de prosseguirem professando sua fé, não
destruíam suas igrejas nem escolas. Entretanto, Ali lamenta que
sejam tantas as ditaduras vividas entre os povos muçulmanos na
atualidade. “A partir do momento em que o povo árabe é
governado por um ditador, ele sofre todas as perseguições
que vêm como conseqüência”, critica. Considerando estas
opressões e a relação exploradora de povos mais
ricos com relação aos mais pobres, Ali diz que é
difícil falar de paz quando há milhões de pessoas
morrendo de fome “e presidentes sem caráter e moral assaltando
o nosso povo”.
O arcebispo Dom Dadeus avalia que os últimos acontecimentos têm
promovido o desenvolvimento de um novo campo de estudos e pesquisas
que recebe o nome de ciência da paz. Ele enfatiza a necessidade
da atual sociedade aprofundar esta temática que classifica de
complexa: “que envolve os limites naturais da soberania dos estados,
a garantia dos direitos essenciais das pessoas e dos grupos, o reconhecimento
de um poder, que intervenha para garantir uma paz justa”.
Segundo o dirigente católico, a guerra autorizada por Bush, foi
duramente criticada pelo cardeal americano Bernard Law, que denunciou
a atitude do presidente de levar a guerra para outras nações.
Disse ainda que os Estados Unidos são odiados porque fazem coisas
odiosas. O Papa João Paulo II também foi severo ao dirigir-se
a Bush quando o proibiu de falar em nome de Deus ao se dirigir aos americanos
nos pronunciamentos via TV. “A guerra não é o que Deus
quer”, justifica.
Entre os luteranos, o posicionamento com relação à
guerra desencadeada pelos Estados Unidos é de total rejeição
ao conceito de guerra preventiva e rompimento do compromisso com a ONU
pelo presidente norte-americano. Em documento divulgado no dia 25 de
março deste ano, eles denunciam: “Não apenas a ordem interna
das nações deve estar calcada no direito, mas também
as relações entre as nações. Por isso, rejeitamos
políticas unilaterais e baseadas na supremacia do poder militar.
Inversamente, vemos como necessidade urgente reafirmar a legitimidade
e a autoridade das instâncias multilaterais sob a égide
da Organização das Nações Unidas”.
Outro manifesto, porém anterior a este, divulgado em agosto de
2001 pela Ordem Mundial Rosacruz, na Europa, além de um diagnóstico
prévio da “degenerescência da humanidade” previu uma saída,
mas com ressalvas: “pensamos que essa degenerescência é
apenas temporária e que acabará numa regeneração
individual e coletiva, na condição, não obstante,
de que os homens dêem uma direção humanista e espiritualista
ao seu futuro. Se não o fizerem, estarão de fato se expondo
a problemas muito mais graves do que aqueles que estão enfrentando”.
Numa prática diária de meditação pela paz
mundial, os brahmins têm se reunido todos os dias às 18h
em sua sede de Porto Alegre. O movimento mundial do Brahma Kumaris,
recebeu da ONU, em 1988, o prêmio Mensageiros da Paz da ONU. Durante
este ano eles haviam desenvolvido uma campanha de doação
em todo o mundo. Localizado em diferentes lugares públicos de
diversas metrópoles, eles solicitavam aos passantes que doassem
um minuto de paz, tema da campanha. Foram coletados cerca de dez mil
anos de paz, comenta a coordenadora da escola Brama Kumaris de Porto
Alegre, Márcia Medeiros.
Dentro deste mesmo enfoque de um procedimento mundial voltado para a
promoção e divulgação da paz, os brahmins
também desenvolvem um trabalho específico junto a profissionais
da mídia. Esse programa começou em 1999 e visa sensibilizar
e criar um diálogo entre os comunicadores para que pensem um
pouco sobre a forma como as imagens e as vozes que eles trazem para
o mundo podem estar contribuindo para criar um mundo diferente.
Na mesma direção, com vistas a colaborar para a filtragem
do que as pessoas ouvem e vêem diariamente, os cientistas cristãos
alertam para a necessidade de uma atitude mental ágil e defensiva:
“Os pensamentos e propósitos maus não tem maior alcance,
nem fazem maior dano, do que nossa crença permite. Os maus pensamentos,
a cobiça e os propósitos maliciosos não podem ir,
como pólen errante, de uma para outra mente humana e ali achar
alojamento sem despertar suspeitas, se a virtude e a verdade formam
forte defesa”, escreve a autora do livro básico da Ciência
Cristã, Mary Baker Eddy.
Esta questão da influência é denunciada pelo frei
Irineu Costelo ao avaliar que o povo norte-americano foi levado a dar
apoio à guerra: “foram as autoridades que influenciaram o povo”,
diz ele. Acusa também o desenvolvimento de uma cultura onde alguns
são melhores do que outros. “Foi isso que se constatou com as
imagens da guerra quando fomos levados a crer que um norte-americano
ou inglês vale 20 ou 30 vezes mais do que um iraquiano. O que
é isto? Somos todos humanos!” (JCS)
TOPOCAPA