Jornal da Universidade

Diza Gonzaga
Em busca do sonho
Questão de saúde pública

Curtas

Diza Gonzaga, pela paz no trânsito

 

ADEMAR VARGAS DE FREITAS Jornalista

Ao perder o filho adolescente num acidente de automóvel, a arquiteta Diza Gonzaga mudou completamente o rumo de sua vida. Teve a coragem de renunciar a uma carreira consolidada e iniciar uma luta que devia ser de todos: conscientizar os jovens a preservar a própria vida. Através da Fundação Thiago de Moraes Gonzaga, ela promove a campanha Vida Urgente, que vai onde os jovens estiverem para dizer basicamente três coisas: use o cinto de segurança, tire o pé do acelerador e se beber não dirija.
Diza Gonzaga nasceu Maria Edi Dias de Moraes, em Santiago do Boqueirão, no dia 23 de junho de 1953, mas quando estava com seis meses a família se mudou para Vacaria, terra da mãe. Aos nove anos, houve outra mudança, desta vez para Porto Alegre.
O pai, Franklin Ferreira de Moraes, foi militar do Exército e participou da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial, tendo passado um ano na Itália. A mãe, Elvira, teve sete filhos, seis mulheres e um homem, todos vivos, todos com nome de santo: Rosa Maria, Maria Amália, Mercedes Maria, José Franklin, Maria Aparecida, Estela Maria e Maria Edi.
A infância de Diza foi “a melhor possível”, principalmente até os nove anos, pois vivia solta, correndo no campo, subindo em árvores, pescando no riacho, andando de pernas-de-pau. Estudava de manhã, na Escola Padre Efren, e passava a tarde brincando, só voltava para casa ao entardecer. Naquela época, não havia, como hoje, essa preocupação com a violência, muito menos no interior do Estado.
Nas férias, em vez de ir para a praia ou viajar para Porto Alegre, como as irmãs, ela preferia ir para o sítio de uma tia-avó, onde só havia pessoas bem mais velhas. No sítio ela andava a cavalo, ajudava a tirar leite das vacas e era paparicada. “Não tinha luz elétrica lá, mas acho que o melhor da minha infância foram essas idas ao campo. Eu era muito bem recebida, até guardavam guaraná para mim, que era vista como a menina da cidade.”
A energia que hoje ela dedica à família e à Fundação já se manifestava na infância pelo interesse com que encarava as atividades escolares: em tudo que era festa era ela que discursava ou declamava. Diza guarda até hoje muitos dos poemas que declamou no palco da escola primária. A festa acabou quando o pai, que estava se reformando no Exército, resolveu trazer toda a família para Porto Alegre, já que as três irmãs mais velhas estavam estudando Direito aqui, e o irmão se preparava para vir também.
Os primeiros tempos foram horríveis para ela. “Fomos morar no centro da cidade. O apartamento era grande, mas, para mim, que estava acostumada com pátio, quintal, jardim, lavoura, aquilo era como uma gaiola, uma gaveta.” Diza passou maus bocados, se sentia prisioneira. Além disso, seu sotaque interiorano chamava atenção, e as gurias do edifício em que morava riam do jeito que ela falava. Mesmo assim, conserva muitas amigas dessa época.

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Em busco do sonho


Depois de concluir o primário no Colégio Santa Cecília, Diza fez o clássico no Colégio Estadual Infante Dom Henrique e decidiu cursar Arquitetura. Por intermédio de uma amiga, ficou sabendo de um curso pré-vestibular mantido pela Faculdade de Filosofia da UFRGS e administrado por dois alunos, os irmãos Sérgius Gonzaga, estudante de Letras, e Régis Gonzaga, que fazia Matemática.
Matriculou-se nesse cursinho, onde lecionaram muitos dos atuais professores da UFRGS quando ainda eram estudantes. Um ano depois, estava cursando Arquitetura na Unisinos e casando com Régis Gonzaga. No final do primeiro ano de faculdade já estava grávida de Larissa.
O nascimento da filha a obrigou a fazer o que chama agora de paradinha estratégica. Em seguida veio Thiago, o que a obrigou a outra paradinha estratégica. Por causa dessas paradinhas, o curso de arquitetura, que era para ser feito em cinco anos, foi concluído em oito. Mas ela não se arrepende, adquiriu mais experiência e saiu mais madura da Faculdade. E já trabalhando.
Enquanto isso, a família aumentava. Atualmente, Diza e Régis têm seis filhos (para eles, Thiago continua contando): “Larissa tem 27 anos, Thiago completa 26 no dia 13 de maio, Carolina está com 20, Paula com 15, Gerson também com 15 e Vicente com 13”. Os três mais novos são adotados. O casal tem dois netos, filhos de Larissa: Júlia, com 3 anos, e Santiago, que vai fazer 1 ano.
Diza sempre gostou de obras. Ao longo de quase duas décadas de exercício da profissão, produziu alguns projetos de residência, mas o trabalho que mais a gratificou foi o que fez em prefeituras. Em 1988, coordenou um projeto de creches comunitárias, que construiu 268 prédios no Estado. Também trabalhou na secretaria municipal de obras de Charqueadas, que recém tinha se emancipado como município e tinha tudo por fazer: saneamento, arborização de vilas, projeto do prédio da Prefeitura e da Câmara de Vereadores.
Quando aconteceu o acidente, Diza largou a profissão para se dedicar ao propósito de evitar que, por imprudência, outros jovens sofressem acidentes de trânsito. Então, tratou de criar uma fundação que produzisse ações para que outros pais não passassem pelo que ela passou, mesmo que isso implicasse o abandono de um sonho. “Nunca imaginei que um dia fosse me afastar da arquitetura, mas hoje parece que não tenho mais nem o ar de arquiteto.”

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Questão de saúde pública

Diza considera que trânsito é uma questão de educação. Mais do que isso: uma questão de saúde pública. E a saída é a conscientização, é a mudança de cultura. “O trânsito é a principal causa de morte de jovens do sexo masculino entre 14 e 26 anos.”
Tiago tinha completado 18 anos no dia 13 de maio de 1995. Uma semana depois, a mãe o conduziu a uma festa. Na saída, ele e seu amigo Rodrigo Malinski pegaram carona com outro jovem. Rodrigo vinha ao lado do motorista e Thiago dormia no banco de trás quando o carro, em alta velocidade, bateu num container cheio de entulho, estacionado em local proibido, na esquina da avenida Cristóvão Colombo com a rua Ramiro Barcelos.
“Vida urgente” era o que Diza repetia sem parar naquela madrugada, quando se dirigia ao local do acidente. Essa expressão serviu, mais tarde, para compor o símbolo da campanha, junto com a imagem de uma borboleta. Ela costumava chamar o filho de pesquisador-borboleta cada vez que ele trocava de interesse, como costumam fazer os adolescentes: ora queria estudar inglês, ora queria tocar guitarra ou jogar basquete. Faz sentido: borboleta é um símbolo de transformação e tem vida curta, tudo a ver com a trajetória de Thiago.
A Fundação Thiago de Moraes Gonzaga, que Diza fundou, se manteve inicialmente com a venda do livro Thiago Gonzaga, história de uma vida urgente, onde ela conta o breve período de vida do filho, acrescido de depoimentos de amigos dele e do pai. O livro acabou sendo adotado em muitas escolas para trabalhos sobre a valorização da vida e já está na vigésima edição.
Foi Diza quem criou a linha da campanha, seguida depois pelas agências que se dispuseram a contribuir. “Eu pensava no que diria ao Thiago para que me ouvisse. Ele tinha horror a bebida, mas bebia para perder a timidez e poder se aproximar das gurias. Daí saiu o texto das primeiras peças: A timidez não é a única coisa que você perde quando bebe. Logo depois, perde os reflexos e a percepção da distância. Por isso, se beber, não dirija.”
Quando a campanha começou, as estatísticas diziam que a cada final de semana morriam sete jovens em acidentes de trânsito em Porto Alegre, hoje, baixou para três. Diza tem certeza de que a campanha Vida Urgente é responsável por essa redução. “Nossa campanha atinge os jovens porque não é uma campanha babaca. Nós vamos na festa e dizemos: ‘Cara, em algumas situações é melhor não entrar de cabeça. Pára-brisa é uma delas. Então, use o cinto’, ou ‘O carro pode ter sido projetado para 240 km/h, mas a sua vida não’. Ninguém vai lá para dar lição de moral. É por isso que o Vida Urgente está no coração deles.”
Todas as ações da campanha Vida Urgente são práticas, bem ao estilo Diza, e visam a preservar os jovens dos perigos do trânsito. Além da Madrugada Viva, tem a Escola Urgente, o Buzoon (telentrega de bebum), a Carona Segura e um show anual, o Vida in Concert. Além dos programa dirigidos aos jovens, a Fundação mantém grupos de apoio para pais que perderam filhos no trânsito. No momento, a Fundação está colocando em prática mais uma ação, o projeto Contador de Histórias, dirigido à conscientização das crianças dos jardins de infância.
O Vida in Concert se realiza todos os anos no ginásio Gigantinho e apresenta bandas famosas, como Kid Abelha, Skank, Titãs, além de bandas gaúchas. “É um show pela vida, mas um show cara limpa, sem bebidas alcoólicas. E sempre se arrecada alimentos ou agasalhos para entidades beneficentes”, explica Diza.
Durante as apresentações, os próprios artistas levam mensagens aos jovens: “Se beber não dirija, vamos voltar vivos para casa”. No último show, após a conquista do pentacampeonato mundial, o técnico Luiz Felipe Scolari deu um depoimento em favor da vida. Também se apresentaram jogadores do Inter e do Grêmio, e o ator Rodrigo Santoro.

FOTOGRAFIAS
A sede da Fundação (Rua Botafogo 918, bairro Menino Deus) está sempre repleta de jovens: funcionários, estagiários do CIEE, psicólogos voluntários que atuam nos grupos de apoio. Gente que ajuda Diza a levar em frente seu projeto em favor da própria juventude.
Pelas paredes, painéis com fotos registram as ações. São voluntários atuando no convencimento durante as madrugadas, bandas que se apresentaram no Vida in Concert ou pessoas que se deram depoimento na campanha. Entre essas fotos está a de uma ação na praça Juventude Thiago de Moraes Gonzaga (na Avenida Carlos Barbosa, em frente ao Estádio Olímpico). Também há um painel com fotos de alguns jovens que morreram no trânsito, cujos pais freqüentam os grupos de apoio.
Às sextas-feiras à noite, dezenas de jovens previamente cadastrados, reúnem-se na sede da Fundação, onde recebem instruções, vestem a camiseta da campanha antes de sar para percorrer os points da juventude. Vão fazer o que Diza chama de corpo-a-corpo, jovens falando com jovens, numa tentativa de conscientização: divirtam-se, mas voltem vivos para casa. Ou seja, usem o cinto de segurança, tirem o pé do acelerador e se beberem não dirijam.
A campanha Vida Urgente está em tudo que é lugar onde haja eventos que atraiam jovens. No Carnaval, no Litoral durante veraneio, no Festival de Cinema de Gramado, por exemplo. Nessas ocasiões, um ônibus especial oferece carona para quem volta para casa, especialmente para motoristas que não passam no teste do bafômetro. Quem passa no teste ganha um decalco de borboleta com os dizeres “Carona segura, estou de cara limpa”. Quem não passa recebe decalco com outros dizeres: “Tomei todas, quero carona”.
Entre os 2.600 voluntários cadastrados, há muitos alunos da UFRGS, recrutados através da Internet, que rende a cada dia de 10 a 12 pedidos de inscrição. Alguns até reclamam: “Me inscrevi há dois meses e ainda não fui chamado”. Diza fica chateada quando ouve alguém dizer que os jovens são alienados. “E as madrugadas vivas em Santa Maria, Pelotas, Rio Grande, Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Garibaldi?
No Rio Grande do Sul todas as cidades universitárias têm núcleos da campanha. Atualmente, a prática criada pela Fundação Thiago de Moraes Gonzaga está espalhada por 157 cidades brasileiras, inclusive no Acre. “As pessoas vêem nos jornais ou na TV e entram em contato”, explica Diza. Os interessados em obter mais informações sobre a Fundação podem acessar na Internet o site www.vidaurgente.com.br.


Curtas

ELA VAI LÁ E FAZ
“Sou uma pessoa cheia de energia, dirigida principalmente para as causas sociais. Na época em que trabalhava como arquiteta, gostava mesmo era de embarcar numa caçamba da prefeitura e ir lá na vila resolver um problema de canalização. Comigo, as coisas são muito rápidas. Não gosto muito de reunião: vou lá e faço. Também não sou de usar meias-palavras, sou muito franca e acho que isso às vezes até choca um pouco as pessoas. Se não gosto, já digo. Mas também não guardo rancor.”

NÚMERO MENTIROSO
“As estatísticas de trânsito não são confiáveis, porque eles consideram morto no trânsito quem morre que nem o Thiago, no asfalto. Quem sai com vida e morre dois dias depois, uma semana, um mês depois, não entra na estatística. Então, esse número que o Ministério dos Transportes dá, de 50 mil brasileiros mortos por ano, me desculpe, mas é um número mentiroso. Hoje, pesquisadores acreditam que 120 mil pessoas morrem por ano no trânsito.”

CULTURA QUE MATA
“O trânsito é uma guerra, é a principal causa de morte de jovens do sexo masculino de 14 a 26 anos. E não é por desconhecimento de sinais, é por causa de uma cultura que mata, porque incita as pessoas a correr, a beber e depois dirigir. Tanto que os jovens estão morrendo quando? Não é quando estão indo para a faculdade ou para o trabalho. É no caminho da festa, é no feriadão, é na volta das férias. Então, achei que teria que fazer uma campanha falando nisso. Se beber não dirija, pegue carona com alguém de cara limpa. O carro pode ter sido projetado para atingir 240 quilômetros, mas a vida não. Era essa a linha.”

CHORANDO, AO TELEFONE
“O que me motivou a criar o grupo de apoio, em 1999, foi um pai, que me ligou de Vacaria. Chorando, ao telefone, ele contou que o filho e a namorada do filho tinham morrido num acidente de trânsito. Ele tinha lido o meu livro e agora pedia ajuda, pelo amor de Deus. Pelo jeito de falar, vi que era um homem simples. Olha, para um homem daqueles chorar e pedir ajuda para uma mulher tem que estar mesmo muito mal. Sabe como é o machismo no interior. Depois recebi carta de uma senhora de Boa Vista do Buricá, outra de Cruz Alta... Tenho recebido cartas do Brasil inteiro. Hoje o grupo de apoio virou uma referência. É atendido por duas psicólogas, é aberto, é gratuito, não tem freqüência obrigatória. Tem pai que vem do interior só para a reunião de quarta-feira, que reúne de 30 a 40 pessoas. Na verdade é um grupo para aprender a conviver com a dor.”

FORA DA ESTATÍSTICA
“No ano 2000, a Fundação ganhou todos os prêmios nacionais de trânsito. Isso é bom, porque dá credibilidade à Fundação, mas os troféus que mais importam são os que recebemos todos os dias, os e-mails de jovens que permanecem vivos e procuram ajudar a salvar a vida de outros jovens. Uma dessas mensagens, enviada por uma universitária, eu até pensei em emoldurar. A mensagem diz assim: ‘Oi, pessoal da Fundação, na sexta-feira eu estava num bar da Lima e Silva, festejando o final do semestre. Eu nunca bebo quando tenho que dirigir, mas naquela noite meus colegas me convenceram a fazer uma exceção. Quando peguei o copo e ia começar a beber, chegou o pessoal da Vida Urgente na nossa mesa (não foi por acaso). Naquela noite não bebi.’ Essa guria não entrou na estatística.”

SEM REVOLTA
“Eu levava o Thiago para as festas, disfarçando para não parecer que era mãe dele, para parecer apenas uma amiga dando carona. E sempre aconselhava que, na volta, não pegasse carona, que pegasse um táxi. No dia do acidente eu levei ele. Às vezes, me sinto um pouco injustiçada: eu cuidava tanto dele, até gozavam comigo. Era um baita dum guri, com 1,88m, e eu levava ele pra baixo e pra cima. Tem tantos pais que abandonam os filhos rolando por aí. Alguns pais chegam aqui com raiva, com ódio, com revolta, com tudo. Graças a Deus, eu não tive revolta em momento algum. A raiva e a revolta são sentimentos que envenenam e paralisam.”

PARA ENFRENTAR A DOR
“Na verdade, eu acho que a Fundação me ajuda mais do que eu a ela. Quando estou fazendo palestra para 500 ou 600 alunos numa faculdade eu vejo tantos Thiagos ali no meio e penso que se tivesse uma Diza ou uma Maria fazendo esse trabalho, talvez o Thiago não tivesse embarcado naquela carona sem volta. E é isso que me move, o sentimento de fazer alguma coisa. Essa é a minha maneira de enfrentar a dor.”

MAIO, MÊS HORRÍVEL
“Pai morre, mãe morre, mas filho não morre: para os pais, é como se o filho continuasse vivo. Eu não disse que o Thiago vai fazer 26 anos agora no dia 13 de maio? Dizer que o tempo ajuda a superar a dor é mentira, a dor de perder um filho a gente não supera nunca, a gente aprende a conviver com a situação, e com recaídas. Maio é um mês horrível para mim. Então, eu programo ações, palestras, seminários, para ver se esse mês passa mais depressa. Dou palestras, para jovens, para pais, para educadores. Na semana que passou dei palestra para dirigentes de transportes em Canela. Esses dias falei para médicos, num congresso. Mas acredito que o que faz efeito mesmo é falar para a gurizada.”

VIDA EM PRETO E BRANCO
“A morte de um filho muda a vida da família. É uma dor horrível, que não passa nunca. Uma dor que se sente fisicamente, como se tivesse uma faca cravada no peito. Eu me lembro que naquela madrugada, quando vi o Thiago no asfalto, tive a impressão de que podia fazer ele voltar para dentro da minha barriga e começar tudo de novo. Mas sou otimista: continuo vivendo e sendo feliz, embora a vida tenha ficado em preto e branco para mim.”

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