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Em
busco do sonho
Depois de concluir o
primário no Colégio Santa Cecília, Diza fez o clássico
no Colégio Estadual Infante Dom Henrique e decidiu cursar Arquitetura.
Por intermédio de uma amiga, ficou sabendo de um curso pré-vestibular
mantido pela Faculdade de Filosofia da UFRGS e administrado por dois alunos,
os irmãos Sérgius Gonzaga, estudante de Letras, e Régis
Gonzaga, que fazia Matemática.
Matriculou-se nesse cursinho, onde lecionaram muitos dos atuais professores
da UFRGS quando ainda eram estudantes. Um ano depois, estava cursando
Arquitetura na Unisinos e casando com Régis Gonzaga. No final do
primeiro ano de faculdade já estava grávida de Larissa.
O nascimento da filha a obrigou a fazer o que chama agora de paradinha
estratégica. Em seguida veio Thiago, o que a obrigou a outra paradinha
estratégica. Por causa dessas paradinhas, o curso de arquitetura,
que era para ser feito em cinco anos, foi concluído em oito. Mas
ela não se arrepende, adquiriu mais experiência e saiu mais
madura da Faculdade. E já trabalhando.
Enquanto isso, a família aumentava. Atualmente, Diza e Régis
têm seis filhos (para eles, Thiago continua contando): “Larissa
tem 27 anos, Thiago completa 26 no dia 13 de maio, Carolina está
com 20, Paula com 15, Gerson também com 15 e Vicente com 13”. Os
três mais novos são adotados. O casal tem dois netos, filhos
de Larissa: Júlia, com 3 anos, e Santiago, que vai fazer 1 ano.
Diza sempre gostou de obras. Ao longo de quase duas décadas de
exercício da profissão, produziu alguns projetos de residência,
mas o trabalho que mais a gratificou foi o que fez em prefeituras. Em
1988, coordenou um projeto de creches comunitárias, que construiu
268 prédios no Estado. Também trabalhou na secretaria municipal
de obras de Charqueadas, que recém tinha se emancipado como município
e tinha tudo por fazer: saneamento, arborização de vilas,
projeto do prédio da Prefeitura e da Câmara de Vereadores.
Quando aconteceu o acidente, Diza largou a profissão para se dedicar
ao propósito de evitar que, por imprudência, outros jovens
sofressem acidentes de trânsito. Então, tratou de criar uma
fundação que produzisse ações para que outros
pais não passassem pelo que ela passou, mesmo que isso implicasse
o abandono de um sonho. “Nunca imaginei que um dia fosse me afastar da
arquitetura, mas hoje parece que não tenho mais nem o ar de arquiteto.”
TOPO
CAPA
Questão
de saúde pública
Diza considera que trânsito
é uma questão de educação. Mais do que isso:
uma questão de saúde pública. E a saída é
a conscientização, é a mudança de cultura.
“O trânsito é a principal causa de morte de jovens do sexo
masculino entre 14 e 26 anos.”
Tiago tinha completado 18 anos no dia 13 de maio de 1995. Uma semana depois,
a mãe o conduziu a uma festa. Na saída, ele e seu amigo
Rodrigo Malinski pegaram carona com outro jovem. Rodrigo vinha ao lado
do motorista e Thiago dormia no banco de trás quando o carro, em
alta velocidade, bateu num container cheio de entulho, estacionado em
local proibido, na esquina da avenida Cristóvão Colombo
com a rua Ramiro Barcelos.
“Vida urgente” era o que Diza repetia sem parar naquela madrugada, quando
se dirigia ao local do acidente. Essa expressão serviu, mais tarde,
para compor o símbolo da campanha, junto com a imagem de uma borboleta.
Ela costumava chamar o filho de pesquisador-borboleta cada vez que ele
trocava de interesse, como costumam fazer os adolescentes: ora queria
estudar inglês, ora queria tocar guitarra ou jogar basquete. Faz
sentido: borboleta é um símbolo de transformação
e tem vida curta, tudo a ver com a trajetória de Thiago.
A Fundação Thiago de Moraes Gonzaga, que Diza fundou, se
manteve inicialmente com a venda do livro Thiago Gonzaga, história
de uma vida urgente, onde ela conta o breve período de vida do
filho, acrescido de depoimentos de amigos dele e do pai. O livro acabou
sendo adotado em muitas escolas para trabalhos sobre a valorização
da vida e já está na vigésima edição.
Foi Diza quem criou a linha da campanha, seguida depois pelas agências
que se dispuseram a contribuir. “Eu pensava no que diria ao Thiago para
que me ouvisse. Ele tinha horror a bebida, mas bebia para perder a timidez
e poder se aproximar das gurias. Daí saiu o texto das primeiras
peças: A timidez não é a única coisa que você
perde quando bebe. Logo depois, perde os reflexos e a percepção
da distância. Por isso, se beber, não dirija.”
Quando a campanha começou, as estatísticas diziam que a
cada final de semana morriam sete jovens em acidentes de trânsito
em Porto Alegre, hoje, baixou para três. Diza tem certeza de que
a campanha Vida Urgente é responsável por essa redução.
“Nossa campanha atinge os jovens porque não é uma campanha
babaca. Nós vamos na festa e dizemos: ‘Cara, em algumas situações
é melhor não entrar de cabeça. Pára-brisa
é uma delas. Então, use o cinto’, ou ‘O carro pode ter sido
projetado para 240 km/h, mas a sua vida não’. Ninguém vai
lá para dar lição de moral. É por isso que
o Vida Urgente está no coração deles.”
Todas as ações da campanha Vida Urgente são práticas,
bem ao estilo Diza, e visam a preservar os jovens dos perigos do trânsito.
Além da Madrugada Viva, tem a Escola Urgente, o Buzoon (telentrega
de bebum), a Carona Segura e um show anual, o Vida in Concert. Além
dos programa dirigidos aos jovens, a Fundação mantém
grupos de apoio para pais que perderam filhos no trânsito. No momento,
a Fundação está colocando em prática mais
uma ação, o projeto Contador de Histórias, dirigido
à conscientização das crianças dos jardins
de infância.
O Vida in Concert se realiza todos os anos no ginásio Gigantinho
e apresenta bandas famosas, como Kid Abelha, Skank, Titãs, além
de bandas gaúchas. “É um show pela vida, mas um show cara
limpa, sem bebidas alcoólicas. E sempre se arrecada alimentos ou
agasalhos para entidades beneficentes”, explica Diza.
Durante as apresentações, os próprios artistas levam
mensagens aos jovens: “Se beber não dirija, vamos voltar vivos
para casa”. No último show, após a conquista do pentacampeonato
mundial, o técnico Luiz Felipe Scolari deu um depoimento em favor
da vida. Também se apresentaram jogadores do Inter e do Grêmio,
e o ator Rodrigo Santoro.
FOTOGRAFIAS
A sede da Fundação (Rua Botafogo 918, bairro Menino Deus)
está sempre repleta de jovens: funcionários, estagiários
do CIEE, psicólogos voluntários que atuam nos grupos de
apoio. Gente que ajuda Diza a levar em frente seu projeto em favor da
própria juventude.
Pelas paredes, painéis com fotos registram as ações.
São voluntários atuando no convencimento durante as madrugadas,
bandas que se apresentaram no Vida in Concert ou pessoas que se deram
depoimento na campanha. Entre essas fotos está a de uma ação
na praça Juventude Thiago de Moraes Gonzaga (na Avenida Carlos
Barbosa, em frente ao Estádio Olímpico). Também há
um painel com fotos de alguns jovens que morreram no trânsito, cujos
pais freqüentam os grupos de apoio.
Às sextas-feiras à noite, dezenas de jovens previamente
cadastrados, reúnem-se na sede da Fundação, onde
recebem instruções, vestem a camiseta da campanha antes
de sar para percorrer os points da juventude. Vão fazer o que Diza
chama de corpo-a-corpo, jovens falando com jovens, numa tentativa de conscientização:
divirtam-se, mas voltem vivos para casa. Ou seja, usem o cinto de segurança,
tirem o pé do acelerador e se beberem não dirijam.
A campanha Vida Urgente está em tudo que é lugar onde haja
eventos que atraiam jovens. No Carnaval, no Litoral durante veraneio,
no Festival de Cinema de Gramado, por exemplo. Nessas ocasiões,
um ônibus especial oferece carona para quem volta para casa, especialmente
para motoristas que não passam no teste do bafômetro. Quem
passa no teste ganha um decalco de borboleta com os dizeres “Carona segura,
estou de cara limpa”. Quem não passa recebe decalco com outros
dizeres: “Tomei todas, quero carona”.
Entre os 2.600 voluntários cadastrados, há muitos alunos
da UFRGS, recrutados através da Internet, que rende a cada dia
de 10 a 12 pedidos de inscrição. Alguns até reclamam:
“Me inscrevi há dois meses e ainda não fui chamado”. Diza
fica chateada quando ouve alguém dizer que os jovens são
alienados. “E as madrugadas vivas em Santa Maria, Pelotas, Rio Grande,
Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Garibaldi?
No Rio Grande do Sul todas as cidades universitárias têm
núcleos da campanha. Atualmente, a prática criada pela Fundação
Thiago de Moraes Gonzaga está espalhada por 157 cidades brasileiras,
inclusive no Acre. “As pessoas vêem nos jornais ou na TV e entram
em contato”, explica Diza. Os interessados em obter mais informações
sobre a Fundação podem acessar na Internet o site www.vidaurgente.com.br.
Curtas
ELA VAI LÁ E FAZ
“Sou uma pessoa cheia de energia, dirigida principalmente para as causas
sociais. Na época em que trabalhava como arquiteta, gostava mesmo
era de embarcar numa caçamba da prefeitura e ir lá na vila
resolver um problema de canalização. Comigo, as coisas são
muito rápidas. Não gosto muito de reunião: vou lá
e faço. Também não sou de usar meias-palavras, sou
muito franca e acho que isso às vezes até choca um pouco
as pessoas. Se não gosto, já digo. Mas também não
guardo rancor.”
NÚMERO MENTIROSO
“As estatísticas de trânsito não são confiáveis,
porque eles consideram morto no trânsito quem morre que nem o Thiago,
no asfalto. Quem sai com vida e morre dois dias depois, uma semana, um
mês depois, não entra na estatística. Então,
esse número que o Ministério dos Transportes dá,
de 50 mil brasileiros mortos por ano, me desculpe, mas é um número
mentiroso. Hoje, pesquisadores acreditam que 120 mil pessoas morrem por
ano no trânsito.”
CULTURA QUE MATA
“O trânsito é uma guerra, é a principal causa de morte
de jovens do sexo masculino de 14 a 26 anos. E não é por
desconhecimento de sinais, é por causa de uma cultura que mata,
porque incita as pessoas a correr, a beber e depois dirigir. Tanto que
os jovens estão morrendo quando? Não é quando estão
indo para a faculdade ou para o trabalho. É no caminho da festa,
é no feriadão, é na volta das férias. Então,
achei que teria que fazer uma campanha falando nisso. Se beber não
dirija, pegue carona com alguém de cara limpa. O carro pode ter
sido projetado para atingir 240 quilômetros, mas a vida não.
Era essa a linha.”
CHORANDO, AO TELEFONE
“O que me motivou a criar o grupo de apoio, em 1999, foi um pai, que me
ligou de Vacaria. Chorando, ao telefone, ele contou que o filho e a namorada
do filho tinham morrido num acidente de trânsito. Ele tinha lido
o meu livro e agora pedia ajuda, pelo amor de Deus. Pelo jeito de falar,
vi que era um homem simples. Olha, para um homem daqueles chorar e pedir
ajuda para uma mulher tem que estar mesmo muito mal. Sabe como é
o machismo no interior. Depois recebi carta de uma senhora de Boa Vista
do Buricá, outra de Cruz Alta... Tenho recebido cartas do Brasil
inteiro. Hoje o grupo de apoio virou uma referência. É atendido
por duas psicólogas, é aberto, é gratuito, não
tem freqüência obrigatória. Tem pai que vem do interior
só para a reunião de quarta-feira, que reúne de 30
a 40 pessoas. Na verdade é um grupo para aprender a conviver com
a dor.”
FORA DA ESTATÍSTICA
“No ano 2000, a Fundação ganhou todos os prêmios nacionais
de trânsito. Isso é bom, porque dá credibilidade à
Fundação, mas os troféus que mais importam são
os que recebemos todos os dias, os e-mails de jovens que permanecem vivos
e procuram ajudar a salvar a vida de outros jovens. Uma dessas mensagens,
enviada por uma universitária, eu até pensei em emoldurar.
A mensagem diz assim: ‘Oi, pessoal da Fundação, na sexta-feira
eu estava num bar da Lima e Silva, festejando o final do semestre. Eu
nunca bebo quando tenho que dirigir, mas naquela noite meus colegas me
convenceram a fazer uma exceção. Quando peguei o copo e
ia começar a beber, chegou o pessoal da Vida Urgente na nossa mesa
(não foi por acaso). Naquela noite não bebi.’ Essa guria
não entrou na estatística.”
SEM REVOLTA
“Eu levava o Thiago para as festas, disfarçando para não
parecer que era mãe dele, para parecer apenas uma amiga dando carona.
E sempre aconselhava que, na volta, não pegasse carona, que pegasse
um táxi. No dia do acidente eu levei ele. Às vezes, me sinto
um pouco injustiçada: eu cuidava tanto dele, até gozavam
comigo. Era um baita dum guri, com 1,88m, e eu levava ele pra baixo e
pra cima. Tem tantos pais que abandonam os filhos rolando por aí.
Alguns pais chegam aqui com raiva, com ódio, com revolta, com tudo.
Graças a Deus, eu não tive revolta em momento algum. A raiva
e a revolta são sentimentos que envenenam e paralisam.”
PARA ENFRENTAR A DOR
“Na verdade, eu acho que a Fundação me ajuda mais do que
eu a ela. Quando estou fazendo palestra para 500 ou 600 alunos numa faculdade
eu vejo tantos Thiagos ali no meio e penso que se tivesse uma Diza ou
uma Maria fazendo esse trabalho, talvez o Thiago não tivesse embarcado
naquela carona sem volta. E é isso que me move, o sentimento de
fazer alguma coisa. Essa é a minha maneira de enfrentar a dor.”
MAIO, MÊS HORRÍVEL
“Pai morre, mãe morre, mas filho não morre: para os pais,
é como se o filho continuasse vivo. Eu não disse que o Thiago
vai fazer 26 anos agora no dia 13 de maio? Dizer que o tempo ajuda a superar
a dor é mentira, a dor de perder um filho a gente não supera
nunca, a gente aprende a conviver com a situação, e com
recaídas. Maio é um mês horrível para mim.
Então, eu programo ações, palestras, seminários,
para ver se esse mês passa mais depressa. Dou palestras, para jovens,
para pais, para educadores. Na semana que passou dei palestra para dirigentes
de transportes em Canela. Esses dias falei para médicos, num congresso.
Mas acredito que o que faz efeito mesmo é falar para a gurizada.”
VIDA EM PRETO E BRANCO
“A morte de um filho muda a vida da família. É uma dor horrível,
que não passa nunca. Uma dor que se sente fisicamente, como se
tivesse uma faca cravada no peito. Eu me lembro que naquela madrugada,
quando vi o Thiago no asfalto, tive a impressão de que podia fazer
ele voltar para dentro da minha barriga e começar tudo de novo.
Mas sou otimista: continuo vivendo e sendo feliz, embora a vida tenha
ficado em preto e branco para mim.”
TOPO
CAPA
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