Porto Alegre / RS / Brasil
Março de 2004
Ano VI - Edição número 69
Cultura-página 10

 

Proposta de casamento

Conto de Sidnei Schneider
Este é o texto vencedor do Concurso de Contos Caio Fernando Abreu, promovido pelo Instituto de Letras


segue >>

Proposta de casamento

Não clareara ainda e ele já estava com o animal encilhado diante do peque-no cinamomo que brotara nos fundos da casa. Sorvia uma bomba cravejada de estrelas vermelhas com os olhos fixos no nascente, aguardando que as do céu dessem lugar a sua jornada. Jeremia, que é como se chamava por comodidade dos seus ou erro de escrivão, pedira a filha do seu Ambrósio em casamento. O pai da guria, que ficara de avaliar o assunto, depois de um mês deu o veredito. Aceitava o pedido, mas Marialva era moça acostumada a ter do bom e do melhor, conhecia Porto Alegre e tinha sonhos viajadouros de ir pelo mar até a corte, no Rio de Janeiro, e ele era filho de uma família bem servida, com boas quadras de campo, mas modesta para tais exigências, o que o preocupava. Jeremia percebeu-se aturdido por um sentimento dúbio, que o tornava incapaz de distinguir se estava sendo aceito ou recusado pelo estancieiro. Mas o velho Ambrósio, assim como o bom Deus do céu, se trazia a estiagem também mandava a chuva:
– Não te apoquentes, no dia em que terminar o inverno, monta um cavalo da tua escolha e aponta o focinho dele para o poente. O campo que conseguires atravessar nesse dia fica sendo teu, é o dote que te dou junto com minha filha. Mas não podes cansar a montaria, pois terás que voltar na mesma noite, chegando aqui antes do amanhecer. Se te atrasares, nada feito.
No que o disse se levantou, com a autoridade de quem dava o assunto por resolvido. Jeremia saiu dali contente como nunca se sentira, chegando a duvidar que estivesse realmente acordado.
Agora, aguardava o sol, seguiria seu rastro.

No passo do sangão, próximo ao meio-dia, refrescado pela sombra das árvores que escondiam o córrego, pensava, satisfeito, tudo isso é meu, enquanto o flete descansava e bebia a grandes haustos as águas límpidas e tranqüilas. Por prudência, era hora de voltar, cavalgara a manhã inteira, tinha mais terras que qualquer estancieiro da vizinhança, não lhe convinha o exagero, ficando atrás apenas de Dom Ambrósio. Essa última conjetura sugou o bem-estar de suas veias e atrapalhou seus sentimentos. O cavalo deu dois passos e sujou a água com as patas.
Não se sentia mais cansado, o mesmo devia se dar com o animal. Prosseguiria a jornada, por que ser o menor se podia ser o maior. Comeu o fiambre de pão e charque, deixou escorrer da guampa um largo gole de cachaça para ativar o ânimo, montou, esporeou de leve e se pôs a subir a ribanceira. Ao sair do arvoredo, viu a desimpedido o horizonte. Quadras e quadras de campo, coxilhas suaves e infinitas, arrelvadas de gramíneas e flores de maria-mole. O azul do céu, o jardim amarelo do campo, os capões-de-mato verde-escuros como pontos de fuga do seu olhar o chamavam para diante. A explosão de uma perdiz, que o obrigou a dar um sofrenaço no zaino, fez com que as florezinhas vermelhas que gotejavam o chão em volta trouxessem os rubros lábios de Marialva a sua memória. Sim, aquela boca, que nunca tocara, e sua dona, com quem muito de longe trocara olhares, também seriam para ele, e com esses pensamentos esporeou com força o cavalo, que galopou um bom eito. Devia cuidar mais da montaria, não, nada de galopes, cada passo que avançava, cada cupinzeiro que deixava para trás, cada árvore solitária na encosta de uma coxilha eram marcas da sua vitória, mas teria que voltar.
Quando o sol ganhou a frente, indicando-lhe o caminho, sentiu medo de perder tudo o que já conquistara. Puxou as rédeas, desceu do cavalo e deixou-o solto. Que descansasse, carecia de avaliar a situação. Recostou-se num velho tronco, caído entre a vegetação rasteira, alisou com a faca uma palha de milho e se pôs a picar sem pressa o fumo que trouxera. Atado o palheiro, sentou-se em cima do tronco para fugir das formigas, bateu as pedras-de-fogo e sentiu-se como um rei. Suado, molhado, mas um rei no seu trono natural, saboreando a fumaça adocicada do seu cigarro. A sua volta, um séquito de preás aplainava os campos do fim de tarde. Na distância, percebeu um capão-de-mato, longínquo, é verdade, mas não impossível de alcançar durante o dia. Sua meta, de lá chegaria a tempo, nem que tivesse que dispensar a montaria e voltar nas botas.
Viu o capacete do sol se pôr no último horizonte um pouco antes de chegar ao seu objetivo, na encosta de uma grande coxilha. Uma serpente cruzou seu caminho e o cavalo reboleou. Num salto, botou-se à caça da mesma de facão em punho, mas a danada escapuliu por entre as macegas. Era um sinal, dali devia voltar. Buscou as rédeas e caminhou encosta acima, para longe dos desígnios daquele ser maligno, só para ver o que tinha detrás da coxilha onde cravaria o marco de madeira-de-lei que o zaino carregava. Não podia acreditar no que via. Além da coxilha, o que poucos até então teriam posto nos olhos, uma ilha no meio do campo, o Caverá, solitário, indicando o fim das terras do seu Ambrósio. Era uma injustiça, se enterrasse o marco, sujeito à revisão dos peões do estancieiro, no local em que se encontrava, acabaria perdendo aquelas terras para a estância dos fundos. Quem chegou até aqui, deixa sua marca no cerro, resolveu-se.
O dia tomou-lhe menos de meia-hora, a conquista estava feita e era plena. Enquanto descia para o pé do monte, fizera planos generosos. Deixaria seu Ambrósio morando na estância, ele, a mulher e as outras duas filhas viveriam as suas custas, sem problemas. Não seria um duro penar para o velho, mas uma solução, afinal, não gerara filho macho e podia morrer a qualquer momento sem deixar a questão da herança resolvida.
De volta ao capão, a noite fechou-se. Diante de si, como que para orientá-lo, uma enorme lua cheia. Alumiou, pensava, o que tinha lançado não era culo, era suerte.
A montaria estava estropiada, dava-lhe de beber e a lavava do sal em cada sanga. Nos aclives ia de a pé, cansaço não sentia, o animal que agüentasse, ia lhe dar todo o descanso possível. No mato de uma canhada correu um veado, um pombão arrulhou, a lua, menor agora, acima de sua cabeça. Notou que estava a meio caminho, conseguiria, até as pombas arrulhavam para Dom Jeremia Fernandes Miranda, os sinais da natureza eram-lhe favoráveis. Montava, descia, parava, andava, bebiam, montava, até que o quadrúpede empacou na tabatinga de um valão. Desesperado, Jeremia esporeou, bateu, puxou, e nada. Por fim, deu goles de canha para o animal, à força. O bicho disparou por umas braças, resvalou e caiu sem poder mais levantar. Era um dos melhores cavalos da região, mas é perda pouca diante dos ganhos, concluiu. Não devia estar longe e o pôde comprovar. No topo da coxilha, avistou a estância de Dom Ambrósio com a fogueira que este lhe prometera manter alta. O que não estariam comentando os peões responsáveis pelas chamas. Torciam por ele, com certeza. Três horas, três horas e meia a pé, se não se enredasse pelas aguadas repletas de arbustos espinhentos e taquarinhas-poca. Conhecia o suficiente do céu para saber que as Três-Marias estavam com ele e lhe davam esperança. Conseguiria. Deu um talagaço na canha e atirou fora a guampa, com a cachaça lhe escorrendo pelos cantos da boca. Conseguiria.
Duas coxilhas depois, avistou três cavaleiros. Estava salvo, pagaria o que quisessem por um cavalo, nem que fosse uma parte de suas terras. Talvez peões de Ambrósio, curiosos pelo seu destino. Ao percebê-lo sob a lua cheia, que tornava alva a sua rota camisa, vieram ao seu encontro:
– Então, paisano, pensaste mesmo que conseguirias?
Viu o metálico da arma de fogo nas mãos do que falava, enquanto era cercado pelos outros dois. Amarraram-lhe os punhos com tentos apertados e estes a uma soga presa ao cavalo do chefe. A trinca ia na frente, folgando com ele, que se esforçava para acompanhar a marcha sem se deixar cair. Dirigiram-se para um capão-de-mato que ficava ao sul. Jeremia tinha os olhos esbugalhados, sentia uma mistura de pena pelo não alcançado e de horror pelo que havia de acontecer. Entrados no mato, o vulto maior lhe atirou sua segunda frase:
– Olha ali o maricas do Genovaldo, que a Marialva conheceu em Porto Alegre. Outro pobretão que almejou a propriedade de Dom Ambrósio.
E Jeremia viu uma caveira estaqueada no galho de uma árvore, branca e limpa, sob a luz da lua que o traíra.
– Tudo culpa dos bugres – riu um dos auxiliares.
– Tudo culpa dos bugres – repetiu, vagarosamente, o que falava.
O mais quieto dos três, então, arrulhou.

topo