ENTREVISTA

EVGEN BAVCAR
Tenho só uma pequena lâmpada
eslovena para iluminar o mundo
Para mim, os cegos representam o único grupo que ousa
olhar o sol diretamente nos olhos. Esta afirmação
ajuda a entender a personalidade e o sentido existencial de Evgen
Bavcar, o fotógrafo cego nascido na Eslovênia há
55 anos, que esteve em Porto Alegre para a inauguração
de sua mostra de fotos A Noite, Minha Cúmplice, no MARGS. Doutor
em História, em Filosofia e em Estética, além
de fotógrafo e cineasta, Bavcar vive em Paris e é uma
pessoa fascinante pela erudição, pela simplicidade e
pelo bom-humor. Poliglota, fala esloveno, servo-croata, inglês,
alemão, francês, italiano, espanhol e começa a
se expressar também em português, como mostrou na entrevista
a Clóvis Ott e Juarez Fonseca, do Jornal da Universidade, com
a participação de Elida Tessler, do Departamento de
Artes Visuais da UFRGS. Bavcar perdeu o olho esquerdo aos 10 anos,
perfurado por um galho de árvore, e o outro, aos 11, na explosão
de um detonador de minas com o qual brincava. A perda da visão
do olho direito veio aos pouco, com a passagem dos meses, como se
se tratasse de um longo adeus à luz, recorda. Os acidentes
fizeram com que Bavcar descobrisse a realidade do terceiro olho,
como conta a seguir. acha aborrecido ter de responder sem-
pre às mesmas perguntas?
Evgen Bavcar Isso é interessante, porque sou obrigado
a criar, fazendo variações, para não dar sempre
as mesmas respostas. A pergunta, invariável, é: como
você faz as fotos? Não quero responder a isso, porque
não é importante como faço as fotos, e sim por
que as faço. Não se pode perguntar a um artista, ou
mesmo a qualquer pessoa, como ela faz amor. Esse é um problema
íntimo. Da mesma forma, como faço as fotos é
um problema íntimo. Faço, sobretudo, com um equipamento
fotográfico. Que não foi criado por um cego, nem por
um homem que não tinha a mão esquerda, mas por uma pessoa
normal.
JU
Desde quando o senhor fotografa?
Bavcar Comecei bem jovem, tinha uns 16, 17 anos. Minha irmã,
Maria, comprou uma Zorki 6, câmera russa muito popular, que
era uma imitação da alemã Leica. E eu quis fotografar
uma garota de quem gostava muito, na escola. Levei o filme para um
fotógrafo e quando ele revelou disse que as imagens eram um
milagre. Lembro que marquei o diafragma 8, a velocidade talvez 60.
JU
Como decidiu se tornar fotógrafo?
Bavcar Gosto de coisas proibidas. Um dia, por exemplo, já
cego, eu quis dirigir uma moto. Meu tio tinha uma scooter italiana,
e como eu sabia conduzir muito bem bicicleta, pensei que poderia conduzir
também a moto. Naquele dia meu tio ficou um pouquinho embriagado
e pedi que me emprestasse a moto para dar uma volta num gramado grande
que havia não poderia andar numa rua, claro, pois seria
muito perigoso. Naquele gramado eu poderia conduzir a moto em primeira
velocidade, sem problema, andando em círculo. Continuo gostando
de motos, muitas vezes dirijo uma Honda 250 na Alemanha e uma Yamaha
500 em Paris, sempre na primeira marcha. Gosto disso como uma coisa
proibida. 
JU
Isso de dirigir motos, fotografar, fazer coisas específicas
de pessoas que enxergam, não seria uma inconformidade, uma
rebelião contra a cegueira?
Bavcar Sim, mas também uma compreensão da cegueira.
Todos os fotógrafos precisam de um quarto escuro, devem revelar
seus filmes em uma sala escura. E toda a minha vida é uma sala
escura, eu sou uma sala escura, usando uma máquina por onde
entra a luz. Por que não poderia fazer fotos? Isso não
é uma provocação e sim um desejo interior de
fazer imagens.
JU
O senhor se considerada mais um fotógrafo ou um filósofo?
Bavcar As duas coisas juntas. Preciso da filosofia para defender
meu trabalho, a filosofia me ajudou muito a conhecer as pessoas e
poder fazer a universidade. Em Lubliana, os filósofos sempre
foram mais tolerantes com os cegos do que os historiadores. Fiz licenciatura
em História e fui o primeiro professor cego em uma escola para
pessoas normais, a mesma escola onde fiz o curso primário.
Mas a filosofia sempre me interessou imensamente.
JU
Como foi sua infância?
Bavcar Vivi minha juventude no pós-guerra. As crianças
não tinham brinquedos, somente os fuzis, a munição,
as armas que sobraram da guerra, eram esse os nossos brinquedos. Eu
conhecia todos os fuzis alemães, italianos, russos, todos.
Não conhecia muito bem os detonadores de minas, e isso foi
fatal para mim. Mas minha infância foi muito bonita, como todas
as infâncias, apesar de ter sido influenciada pela guerra. Lembro
que eu e meus amigos brincávamos de ser os nazistas alemães,
os partisans de Tito, os fascistas italianos e tudo isto. Nossas brincadeiras
eram assim. E éramos também soldados austríacos,
pois os mais velhos nos contavam histórias da Primeira Guerra.
Fui um general austríaco, fui um comandante dos partisans iugoslavos...
JU
E na adolescência?
Bavcar A adolescência foi muito difícil, pois
quanto fiquei cego todos os amigos se afastaram, partiram, exceto
dois, um que se tornou teólogo e outro que permaneceu em minha
cidade natal. Eu recebia poucas visitas, foi uma adolescência
solitária, um pouco triste. Então comecei a estudar
literatura, línguas, estudar, estudar muito.
JU
Como fazia para estudar?
Bavcar Aprendi a escrita braile no hospital, pois quando um
de meus professores percebeu que eu não teria mais possibilidades
de ver, me trouxe uma professora de braile. Quando saí do hospital
já conhecia bem a escrita braile. E depois também era
a época do magnetofone, que trouxe novos tempos para os cegos.
Eu recebia livros da Alemanha, em alemão, alguns livros da
Itália e outros da Suíça, em francês. Isto
foi muito importante para que eu me abrisse para o mundo. Comecei
a estudar italiano já como terceira língua, pois minha
primeira língua era o esloveno e a segunda, o servo-croata.
Depois vieram o alemão, o francês e as outras.
JU Por que, depois de se formar em História, o senhor
resolveu estudar Filosofia?
Bavcar Um amigo me disse: é interessante que você
estude a história, mas é melhor que estude a filosofia,
porque os filósofos são as pessoas mais abertas, mais
abertas que outras. Fui o primeiro estudante cego de filosofia em
Lubliana. Filosofia é importante porque os filósofos
fazem as perguntas. Para os filósofos a cegueira não
deve ser um problema. Pode ser um problema, mas menor que os outros.
Na filosofia e no teatro gregos encontramos muitos cegos, por exemplo.
JU
A Eslovênia integrava a Iugoslávia no período
soviético. O senhor teve algum problema político na
época?
Bavcar Eu poderia fazer todo um mês de conferências,
sem preparar-me muito, sobre a Iugoslávia, porque conheço
tudo. A primeira coisa que me recordo desse período foi sobre
o inform buro (polícia política). Não porque
tenha visto, pois foi em 1948, mas porque meus amigos me contavam.
Um velho amigo, que já morreu, passou nove meses em uma prisão
porque escutara na Rádio Trieste, da Itália, a notícia
de que Tito partira de Belgrado e que o governo também partira,
quando Tito se opôs a Stalin. Isto está muito vivo em
minha cabeça, e me recordo muito bem também de quando,
em 1956, os húngaros pediram ajuda nossa diante da invasão
das tropas soviéticas. Minha cidade situa-se a 200 quilômetros
da fronteira com a Hungria. Lembro de ouvir no rádio o pedido
de ajuda dos húngaros. Depois, em 1968, fui convidado pelo
exército da Iugoslávia para cantar as canções
dos partisans, com meu acordeão, durante a invasão da
Tchecoslováquia. Foi muito perigoso para a Iugoslávia,
porque Tito se colocou ao lado de Dubcek e os russos mandaram 25 divisões
blindadas para as nossas fronteiras. Acompanhei a ocupação
da Tchecoslováquia pelo rádio. Tudo isso foi muito presente
para mim na história da Europa, não é uma coisa
abstrata. A Iugoslávia tinha uma certa independência.
Também fiz críticas a Tito, mas ele foi um grande empecilho
contra Stalin, isso se deve reconhecer. Fui amigo de seu fotógrafo
oficial e ele me disse que Tito era um homem muito inteligente. A
autogestão iugoslava foi uma tentativa do sonho não
realizado do socialismo. De todo modo, sempre tive um pouco de reserva,
pois o problema era o sistema. Durante um ano fui membro do Partido
Comunista, mas como não paguei as mensalidades, acabei excluído.
Era um dissidente econômico... E por que me convidaram a entrar
para o Partido? Porque fui um excelente aluno na escola, não
pela convicção política.
JU
Como o senhor avalia a extinção do império
soviético, o desmembramento da Iugoslávia e a conseqüente
independência de seu país?
Bavcar A independência da Eslovênia não
deve ser compreendida da maneira tradicional. Se um povo, uma nação,
quer existir, deve haver um estado. Se não há um estado
não há uma identidade internacional. Isso é tudo.
Podíamos ser eslovenos e falar esloveno em nossa república
na Iugoslávia, mas no estrangeiro éramos iugoslavos,
o que não significa nada. A Iugoslávia era um estado,
e como tal, mais importante que as identidades culturais das nações
que a formavam. Se digo que sou esloveno é porque a língua
de minha mãe é o esloveno, porque minha cultura de origem
é eslovena. Nossos ancestrais nasceram como austríacos,
depois se tornaram italianos, depois iugoslavos, até que finalmente
estamos podendo ser eslovenos.
JU
O senhor aprovou a deposição e agora o julgamento
internacional do ex-ditador iugoslavo Slobodan Milosevic?
Bavcar Muitas pessoas na Iugoslávia foram ingênuas
com Milosevic, no início, quando ele começou a assumir
o poder. Mas penso que essa corte de Haia, que não é
bem uma instituição internacional universal, age como
um governo mundial e isso não é bom. Penso que todas
as nações devem ser envolvidas em um processo de conscientização
para os direitos humanos, e isso inclui a nação sérvia,
para que ela própria leve Milosevic aos tribunais. Porque se
Milosevic é levado a um tribunal internacional na Holanda,
isso significa que os sérvios não são um povo
democrático nem são capazes de julgá-lo. E eu
não acredito nisso. Acho que todos os povos têm um senso
de moral e de direito, porque pertencem à mesma civilização.
Por que uns seriam melhores que outros?
JU
O senhor é um esloveno, um europeu e um cidadão
do mundo. O que diz disso?
Bavcar Sou um cidadão do mundo somente quando posso também
ser esloveno e depois europeu. Se o mundo não reconhece minha
pequena identidade, não posso ser um cosmopolita. Acho que
todas as culturas devem ser reconhecidas. Por exemplo, a riqueza do
Brasil é a diversidade, do mesmo modo que a riqueza da Europa
é a diversidade. Se tudo for igual não me interessa.
JU
O senhor considera que sua fotografia é eslovena, européia,
ou não teria uma nacionalidade? O brasileiro Sebastião
Salgado, por exemplo, fotografa aglomerados humanos e pessoas na América
Latina, na África e na Ásia, principalmente. É
uma fotografia documental que se identifica com o Terceiro Mundo e
o que ele tem de mais dramático. Já sua fotografia tem
uma característica de arte plástica.
Bavcar Eu situo um problema universal, que é o da luz
e das trevas. Neste problema entra também a Eslovênia
porque é o único país que eu vi com os olhos
físicos, de onde me ficou uma recordação da luz.
Para mim, a Eslovênia é o espelho universal do mundo,
mesmo que seja um pequenino espelho, um quase nada. Se quero, por
exemplo, ver uma mulher brasileira, morena, antes de tudo lembro de
uma menina de minha terra natal que era morena. Depois devo transformar
essa menina morena, devo dar a ela os presumíveis traços
típicos de uma mulher brasileira, o cabelo... Mas o arquétipo,
o modelo primitivo, é a menina eslovena. Que se torna universal.
Outro exemplo: a partir da igreja de minha cidadezinha, uma igreja
pobre, não muito bonita, não muito interessante, não
exclusiva, devo construir todas as igrejas, Notre Dame, de Paris,
a basílica de São Pedro, de Roma, a catedral de Nossa
Senhora, de Dresden, todas. Então, aquela minha pequena igreja
se torna universal. Devo falar esta linguagem para entender o demais,
e esta é minha parte cosmopolita. Cosmopolita pela necessidade
de uma recordação da luz, de minha identidade metafísica
eslovena. Não sou esloveno somente pela língua e pela
cultura, mas também pela luz. Não sou um esloveno tradicional,
um nacionalista, nada disso, nasci lá por fatalidade e foi
o único lugar onde vi a luz. E com essa pequena luz eslovena
devo iluminar todo o mundo. É uma pequena lâmpada mas
a única que possuo, por isso ela é tão importante.
Elida
Tessler Lembro uma vez, Evgen, que tu me falaste que todas
as imagens, todas as paisagens, advêm da tua última visão
através da janela do hospital. Me parece que isso está
em tuas fotografias, a tentativa de reprodução de uma
paisagem vista pela última vez. Nesse sentido, todas as fotos
que ofereces ao olhar do outro são paisagens, não importando
se são pessoas, se são objetos ou se verdadeiras paisagens
no campo.
Bavcar Esta janela é na verdade minha primeira janela
para todas as coisas.
JU
Como o senhor consegue ver as fotos, depois de
feitas?
Bavcar Com as palavras dos outros. Para mim, as fotos pertencem
a uma inutile beauté, uma beleza inútil. Não
sou um consumidor direto, e isso me dá a força da transcendência
imediata. O escritor e crítico de arte inglês John Berger
comparou minhas fotos com as pinturas feitas nas tumbas do Egito.
Minhas fotografias não foram criadas para as tumbas
para minha tumba sim, porque não as vejo , mas para os
olhares físicos dos outros. Nesse sentido, ligam-se à
minha transcendência somente como idéias.
JU Pode-se dizer que o senhor fotografa através dos
olhos dos outros? É isso que o leva a fotografar algo ou alguém?
Bavcar Minhas fotografias só existem para mim enquanto
existem para os outros. A palavra de outros olhos me conta a realidade
física de minhas fotografias. Conheço somente suas realidades
conceitual e espiritual, reveladas por meu terceiro olho, com o qual
eu fotografo.
JU
O senhor também faz cinema. A fotografia é estática
e o cinema uma seqüência de imagens em movimento. Como
o senhor trabalha com essa diferença?
Bavcar Vi somente dois filmes em minha infância: Branca
de Neve e um western. Como disse um teórico austríaco,
o cinema é fotografia em movimento. Então, eu começo
a imaginar fotografias que se movem. Mas me lembro também desses
dois filmes. É difícil para mim fazer contatos com pessoas
do cinema porque existem muitos preconceitos, não encontro
produtores. Então fiz alguns filmes por minha conta, pois quero
fazê-los com minhas palavras, não com as palavras dos
outros. Além disso, todos os cegos do cinema padecem das imagens-clichê
e não gosto disso. Sou contra, porque é mais fácil
mostrar o cego como um voyeur comum. E eu sou um voyeur absoluto,
essa é a diferença. Veja aquele filme que ganhou a Palma
de Ouro em Cannes, Dancing in the Dark (Dançando no Escuro),
de Lars von Trier. Todos os jurados neste caso, devo dizer, foram
muito cegos. O filme é puro clichê sobre os cegos, um
melodrama kitsch.
JU
Luz e sombra, o preto e o branco, são as motivações
básicas de sua fotografia. Considerando que sua última
visão foi uma paisagem colorida, por que o senhor não
faz fotos em cores?
Bavcar Porque as fotos em cores são muito caras, sobretudo
se for fazê-las em grandes dimensões. De todo modo também
posso fazer fotos em cores, conheço as cores. Mas a cor é
muito complicada. Quer dizer, posso estudá-la em um sistema
matemático, de espectro físico, e nesse caso é
fácil. Você me diz: eu te dou tantos por cento de azul
e tantos por cento de amarelo, e então posso combinar rapidamente
a cor em minha cabeça. Isso com a cor em sistema físico,
mas não a cor como matéria. Sei disso porque tenho amigos
pintores, e fazer as cores como matéria é mais difícil
do que fazê-las com a cabeça. Esse é o problema.
As cores me acompanham sempre, apenas prefiro, quando alguém
me descreve, por exemplo, o azul do Sena, que me diga que é
um azul com tantos por certo desta ou daquela cor.
JU
O senhor está cego há 44 anos, tempo em que muitas
coisas mudaram, em que novas formas apareceram. Como faz para compreender,
ou para ver formas que nunca viu?
Bavcar Sei disso tudo, mas devo conhecer somente as coisas
muito importantes, porque não posso entrar em todos os detalhes.
Não posso estudar todos os cartazes de Paris, não me
interessa isto. O que me interessa é a maneira como se faz
isto. Sei que há muita luz em Paris, iluminando as ruas e os
prédios, mas o que me interessa é o sistema, as coisas
principais. Devo trabalhar com modelos muito primários, de
base. Por exemplo: vi fotos de Brigitte Bardot quando era menino,
e ela era belíssima, com aquela boca fantástica. Lembro
também de fotos de Sophia Loren, Gina Lollobrigida, Liz Taylor
com grandes olhos, Greta Garbo, Marlon Brando...
Elida
Tu podias aprofundar essa questão das coisas essenciais
para os teus sistemas de compreensão do mundo? Hoje falávamos
de nossa afeição por objetos e me disseste coisas que
acho interessante retomar aqui, sobre teu apego por objetos e sobre
os objetos mágicos que tens como essenciais.
Bavcar Com estes objetos, eu devo criar uma nova realidade.
Por exemplo, o filme de Kubrick, 2001, Uma Odisséia no Espaço.
No fim, são 20 minutos de uma cascata de cores. Para compreender
isso, devo imaginar as cores da Eslovênia, fazer uma síntese
dessas cores e colocá-las em movimento para sentir Kubrick.
É uma nova realidade. Mas se não existe um objeto de
base para a construção de outras coisas, não
posso construir nada. Outro exemplo: comprender uma pintura é
algo muito complicado se não possuo um sistema de construção
da totalidade interior. Os mesmos quadros que existem na exterioridade
devo transportar para minhas galerias interiores. Vi uma reprodução
da Gioconda em branco e preto. Mas não devo acreditar naquele
olhar de menino, porque para um menino aquela pintura não era
muito bonita. Devo olhar esta pintura com os meus olhos de hoje, e
aí ela se torna outra coisa. Aquele olhar de menino é
somente uma pequena base para a possibilidade de outras imagens. Um
amigo me disse um dia que para descrever uma pintura para mim a pessoa
deve ser muito inspirada, deve ter as palavras certas para fazer com
que essa pintura entre em minha alma. Um exemplo típico: pedi
ao atual diretor do Museu do Louvre, especialista em John de La Tour,
que me descrevesse sua pintura. Perguntei: Mas como é
a cor vermelha de La Tour? Ele respondeu: É um
vermelho como vermelho de tijolo. E meu amigo disse que eu não
deveria acreditar nessa descrição porque não
é um vermelho de tijolo, e sim um vermelho de tijolo quando
o sol se põe. A descrição inspirada faz uma diferença
enorme. Mas muitas vezes prefiro que me leiam um poema sobre uma pintura
do que uma descrição dela.
JU
O senhor também é poeta? Pergunto isso porque
muitos de seus textos têm uma marca fortemente poética.
Bavcar Obrigado. Na França dizem que sou muito sentimental,
que sou um sentimental eslavo por ser muito lírico. Esse lirismo
é um pouquinho esloveno, a parte lírica é muito
típica das pequenas nações ameaçadas na
História. E para os franceses, que são muito racionais,
sou demasiadamente sentimental. E sou mesmo, não tem problema.
JU
Quais são os seus poetas preferidos?
Bavcar Tenho muitos. Fernando Pessoa é um deles. Lorca,
outro. Por causa dele fui estudar espanhol. Gosto de Mayakowski e
de vários novos poetas russos e gregos. Enfim, são muitos.
Elida
Qual foi a estrutura de base que te levou a reunir as 50 fotografias
expostas no MARGS, em Porto Alegre?
Bavcar Quis mostrar um pouco de minha obra em geral e também
algumas fotografias inéditas, como as de série A
Transcendência. Quis incluir as duas fotos com jogadores
de futebol, que recordam minha outra vinda ao Brasil. Lembro que estava
andando de carro em Belo Horizonte e a rádio transmitia um
jogo de futebol. Adorei quando o locutor gritou gooooooooool,
um grito tão longo que dava para atravessar uma ou duas ruas,
e me veio à memória o futebol na antiga Iugoslávia,
que também é muito folclórico, como no Brasil.
As fotos de nus pertencem à serie de um trabalho sobre a mortalidade.
Não faço fotos de moças nuas pela simples nudez,
obviamente. Não para mostrar o corpo mas a mortalidade. Quando
Adão e Eva compreenderam que estavam nus, compreenderam também
que haviam se tornado mortais.
Elida
Fale das fotos da série Infância,
que têm as bonecas, a caminha do bebê...
Bavcar Essa é uma história um pouquinho sentimental.
Quando éramos crianças, minha irmã tinha só
uma boneca para brincar. E eu também brincava com esta boneca,
antes de começar a brincar com os fuzis. Depois, minha mãe
dizia sempre: Que lástima que tu não continuaste
brincando com bonecas. As fotos de bonecas representam os olhares
das crianças. Penso que os fotógrafos devem também
fazer fotos para as crianças, porque se não se faz nada
para os olhares das crianças, não se pode recordar de
sua própria infância e em arte, uma condição
sine qua non é sempre a infância. A infância não
conhece restrições, normas, coisas proibidas.
Elida
Eu queria destacar o alto grau de generosidade do Egven para
com a exposição em Porto Alegre. Porque as fotos inéditas
que ele mencionou não são quaisquer fotos. Ele ter ido
a Minas Gerais e fotografado o barroco brasileiro é uma coisa
muito significativa. Ele vem da Europa e traz de lá o seu olhar,
a sua versão para os santos barrocos brasileiros. Pela primeira
vez estas fotos estão sendo vistas, nem os mineiros nem os
europeus as viram ainda.
Bavcar Não tive muito tempo para trabalhar bem Ouro
Preto. Eu gostaria de ter dedicado duas ou três semanas, todas
as noites, mas não pude. Meu trabalho é uma manufatura
fotográfica, com longas sessões todas as noites.
JU
E o senhor também estudou música...
Bavcar Sim, durante 12 anos estudei acordeão, violino
e um pouco de violão. Fui quase um virtuose no acordeão.
Gosto muito da escola de Viena e meu trabalho de bacharelado foi sobre
Beethoven. Mas a música não me interessa muito como
modo de expressão porque foi sempre uma imagem clichê
dos cegos, aquela coisa do cego tocando acordeão em uma rua
histórica...
retorna
topo