Carusto Camargo
É normal pensar que a cerâmica seja um processo estritamente dependente da manualidade pois, ele nasce justamente dela, mas fazer cerâmica não se restringe somente a produção de objetos; fazer cerâmica é pensar sobre o processo, é vivê-lo intensamente, aprender com ele, observá-lo e descobri-lo. De muitos caminhos possíveis a serem descobertos neste processo, destaco aqui o tempo e o diálogo.
Já de início a matéria (argila) nos impõe a iminência do tempo, o tempo de sua maturação, de seu preparo, da espera pelo melhor momento de ocar, levantar a parede, de costurar, de secagem, de queima, etc. e cada um destes tempos têm seu momento específico. Para respeitá-lo e melhor aproveitá-lo temos que vivê-lo no momento exato, nem antes nem depois. É o presente de cada etapa que devemos aproveitar. Em um mundo onde os acontecimentos passam tão rápido, onde temos pouco tempo para vivermos nossa própria vida, a cerâmica nos faz parar e perceber este presente que seguidamente perdemos entre a ansiedade do futuro e o arrependimento do passado.
Quando paramos e percebemos este momento presente, a cerâmica nos revela uma outra coisa: que não estamos sozinhos. A matéria está em constante diálogo conosco, ela nos impõe ações e reações, está viva e nada passiva. É necessário aprender a ouvi-la, não para dominá-la, mas sim, para compreendê-la. Engana-se quem acha que o diálogo está somente no processo de modelar, ele estende-se na secagem, na queima, no revestimento, enfim, em todo o processo. É preciso aprender principalmente com os erros, aceitá-los e compreendê-los. O inesperado, a surpresa, o que foge de nosso pseudo controle ajudam a construir uma linguagem própria e autêntica.
E é esta linguagem que o LACAD busca construir, trazendo conhecimentos teóricos, mas também, experiências práticas, vividas por artistas, professores e alunos, para que possamos juntos, arriscar através do fazer cerâmico.
Rodrigo Núñez