Infelizmente não pude colaborar tanto quanto gostaria com o relato do Barcamp, porque apesar de nerd, não tenho notebook. Aqui vão, então, minhas impressões gerais sobre o encontro. Além dos posts da Maria Clara, quem quiser mais detalhes pode acessar o site agregador ou ver as fotos.
O evento foi um sucesso, na avaliação de todos os participantes. A maioria confessou o ceticismo inicial com a idéia de “desconferência”, sem horários fixos nem palestrantes, na sessão de encerramento. Eu mesmo disse que minha primeira reação foi pensar “isso é coisa de comunista” e esquecer do site, até a Maria Clara me incentivar a entrar na lista de discussão. Ao trocar e-mails com os interessados no Barcamp, notei que a maioria era de pessoas sérias, com experiência em colaboração na Web — ou ao menos um genuíno interesse — e algo a dizer. Por isso decidi participar. Sugeri publicar relatos no site oficial, para que nas próximas edições as pessoas possam ter uma idéia melhor de como funciona uma desconferência.
A grande surpresa é que, apesar da falta de uma organização centralizada, o Barcamp não foi muito diferente de uma conferência tradicional. As pessoas com algo a dizer subiram ao palco e apresentaram suas idéias. Os debates foram tão civilizados quanto em qualquer outro evento, inclusive com o indispensável portador de incontinência verbal que interrompia a todo mundo. Os “grupos de trabalho” se formaram espontaneamente, com discussões de alto nível. Bem diferente de minha imagem inicial, de um bando de bichos-grilos fugindo do assunto o tempo inteiro para falar de qualquer livre-associação viajandona.
André Avorio, o facilitador do Barcamp, se mostrou um pouco desapontado com o fato de que, no primeiro dia, muita gente tenha esperado por decisões de cima. De fato os participantes ficaram um tanto perdidos, mas creio que isso é natural em um modelo de encontro bottom-up, novo para a maioria. A meu ver, se auto-organizaram no menor tempo possível nesse contexto. No primeiro dia aconteceram “palestras” mais ou menos tradicionais, com auditório cheio e especialistas no palco. Porém, foi bom para cada um conhecer os interesses dos outros, o que facilitou a formação dos GTs no dia seguinte.
O número de participantes foi de entre 80 e 100, mais do que o esperado pela organização. Inclusive, mais do que o primeiro Barcamp em Amsterdam reuniu, segundo André Avorio. Relatos informam também que contamos com maior presença feminina. É uma quantidade de gente comparável à de muitas conferências acadêmicas “oficiais”. Até maior.
O fato de uma centena de pessoas desconhecidas viajarem por sete horas ou mais para uma conferência sem programação definida me parece fascinante. Mais fascinante ainda, que essas pessoas se disponham a confiar em desconhecidos o suficiente para dividir um quarto com eles. No caso dos organizadores, fascinante é terem confiado seu nome a uma imobiliária para o aluguel das acomodações, quando nada garantia a presença dos interessados. Embora a mídia e alguns pesquisadores mais apocalípticos gostem de pintar o relativo anonimato da Web como um reduto para todo tipo de canalha e gente sem caráter, creio que experiências como essa mostram o contrário. Assim como na vida real, a maioria das pessoas é de bem e, dada a oportunidade atrelada a um interesse pessoal, fica feliz em colaborar. Infelizmente, “notícia boa não é notícia”, então em geral temos apenas os relatos negativos.