Pe. Balduino Rambo, S.J.




Entre as biografias publicadas sobre o Pe. Balduino Rambo (1905-1961), a mais completa foi elaborada por Arthur Rabuske, S.J., sob o título: "Balduino Rambo, S.J., sacerdote, naturalista, escritor e líder popular". O autor atribui-lhe três características conforme seu necrológio: "Sábio", "Sacerdote de Corpo e Alma" e "Apóstolo Social".

Outro seu biógrafo, Walter Spalding diz: "Além de cientista, sacerdote e professor, o Padre Rambo foi um dos grandes incentivadores da agricultura, cientificamente trabalhada. Seu habitat predileto eram as colônias. Seu nome é, por isso, lembrado em todas as regiões colônias do Rio Grande do Sul, onde é tido como conselheiro, mestre e amigo que não se limitava à teoria, mas mostrava, praticamente, com pá ou enxada em punho, ou montado num trator, como fazer, como melhor agriculturar."

Estas, além de muitas outras impressões registradas sobre Balduino Rambo, demonstram sua idéia de importância e abrangência de sua obra. Pe. Rabuske, em entrevista, disse que um estudo completo sobre o alcance do trabalho de Pe. Rambo, é um projeto a ser feito. Segundo ele, seu pleno reconhecimento e entendimento será tarefa para o próximo século.

Diante do exposto, e levando em consideração o espaço restrito que dispomos, destacaremos aqui apenas alguns aspectos da vida e obra deste intelectual teuto sulriograndense.


O Sábio

Balduino Rambo nasceu em Tupandí (Distrito do município de Montenegro, estado do Rio Grande do Sul), em 11 de agosto de 1906, de onde partiu para o mundo em busca de conhecimento.Terminado o curso primário, entrou para a Escola Apostólica de Pareci; em 1923 ingressou para o noviciado.

Fez o Curso de Filosofia em Pullach, perto de Munique, na Alemanha. Após este período de estudos na Alemanha, Rambo tornou-se professor do colégio Anchieta, em Porto Alegre - 1931 à 1933, lecionando História Natural. Estudou Teologia no Seminário Conceição de São Leopoldo e, aos 30 anos, ordenou-se. Seis anos depois voltaria a lecionar no Colégio Anchieta, onde passaria a maior parte de sua vida, tendo lá, fixado residência.

Foi fundador da Cátedra de Antropologia e Etnografia da UFRGS, em 1940, mesmo não sendo esta sua especialidade (sua área era botânica). Rabuske sugere que sua indicação foi devido à sua riqueza cultural e capacidade científica, aplicável em qualquer área de conhecimento. Mais tarde, assumiu a direção do Departamento de História Natural da Divisão de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul. Sob sua direção foi fundado o Museu Riograndense de História Natural.

Foi organizador do Instituto Anchietano de Pesquisas, fundado em 1956, ficando a seu cargo a redação da revista Pesquisas daquela instituição, embora ele só tenha participado dos cinco primeiros números.

Em setembro de 1959 iniciou a publicação da revista "Iheringia", com uma série de Botânica e outra de Zoologia. Dirigiu tanto o museu como a revista até a sua morte.

Lecionou, ainda, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Leopoldo, futura UNISINOS (1969). Empenhou-se pela formação de um Jardim Botânico em Porto Alegre e consegui que o Taimbezinho fosse declarado Parque Nacional.

Cedo, despertou-lhe o interesse pelas ciências naturais. No ginásio iniciou sua coleta de plantas e, em duas semanas, já havia reunido 32 espécimes. Mesmo durante seus estudos na Alemanha, aproveitava os dias de folga para incursões científicas, cujos resultados foram publicados em revistas alemãs e brasileiras.

Em seu primeiro ano no Anchieta, 1931, fundou o "Herbarium Anchieta", que, em 1964, passou ao Instituto Anchietano de Pesquisas, também criado por rambo em 1956. O Instituto tem publicado inúmeros trabalhos científicos, estando sediado, desde 1964, em São Leopoldo.

Em 1942, publicou sua primeira grande obra: "A fisionomia do Rio Grande do Sul", um verdadeiro retrato físico do Estado. São 300 páginas de texto, mapas e 30 ilustrações paisagísticas, a partir de fotos tiradas por ele em viagens aéreas por todo território gaúcho. Estas foram descritas pelo próprio Rambo: "(...) fui de avião, 60 horas inteiras, cerca de 11.000 km através de todo Rio Grande do Sul; e isso sob as asas do Mater Brasília, em máquina do Terceiro Regimento de Aviadores, sediado em Canoas (...). Podes imaginar o que esta experiência signifique para mim (...). Cheguei a ver todos os rios do meu Estado pátrio, desde a nascente até a embocadura; todas as suas montanhas, da base ao cimo; todas as suas matas, do extremo sul até o ângulo noroeste da fronteira argentina; todos os seus campos de pastagens, todos os seus centros urbanos, numa palavra toda a minha pátria."

Sua dedicação à botânica resultou num acervo de plantas que, em 1948, já chegava a 50.000 exemplares, cerca de 90% da flora nativa. Pretendia em um ano ter a base para a Flora do Brasil Meridional.

Suas publicações científicas passam de 1.600 páginas e por seus trabalhos era conhecido internacionalmente. Em 1956 foi convidado para visita às principais Universidades, Museus, Jardins Botânicos e Parques Nacionais dos Estados Unidos, custeada pelo governo americano. Posteriormente, em 1960, recebeu o mesmo convite da Alemanha.

Sua maior obra literária e científica, segundo ele próprio, é seu diário, escrito de 1919 à 1961. Entre os anos 1945-1961, escreveu mais de 10.000 páginas em alemão gótico, sobre os mais variados assuntos, inclusive suas aspirações e conflitos pessoais. Parte destes escritos já estão traduzidos e publicados na obra "Em busca da Grande Síntese", cujo título simboliza toda a vida de Pe. Rambo, que buscou uma grande síntese como ser humano, sacerdote, escritor, cientista e pensador. Faleceu em 12 de setembro de 1961.


Apóstolo Social

Pe. Balduino Rambo, no dizer de Isabel Arendt, foi o último dos "padres colonorum", ou seja, "o último dos padre jesuítas que lideraram os católicos da região colonial, especialmente os descendentes de imigrantes alemães."

Sua atuação ligava-se a um projeto maior: O Projeto de Restauração Católica, posto em prática no Rio Grande do Sul, a partir da segunda metade do século XIX, tendo como características fundamentais, a valorização do rural, o apego ao passado e o conservadorismo. A fim de atingir seus objetivos, os católicos, sobretudo jesuítas, organizaram associações, dentre as quais, a Sociedade União Popular, fundada, em 1912, pelo Pe. Amstad, S.J. Esta, pretendia ser uma espécie de direção superior de todas as outras. A partir de 1940, Rambo tornou-se continuador de Amstad, passando a conduzir a direção da União Popular, prejudicada, na época, em decorrência da Campanha de Nacionalização.

Tornou-se redator do principal veículo de comunicação da sociedade: a revista "Sankt Paulusblatt", que se destinava à formação e à informação dos colonos teuto-brasileiros católicos. Era também autor de artigos e contos publicados na revista dirigidos especialmente àquele grupo. A "Paulusblatt" é a revista católica em língua alemã mais antiga do Brasil, uma das poucas que voltou a circular após a Campanha Nacionalização empreendida pelo Estado Novo, circulando até os dias de hoje. Rambo era contrário à nacionalização, criticando, sobretudo, a forma arbitrária como foi conduzida. Lamentava a massificação do "rebanho humano" e a não valorização das diferenças, que só enriqueceriam e fortaleceriam a nação.

Pe. Rambo era um líder reconhecido entre os colonos. Cientista renomado internacionalmente, não perdeu contato com sua origem: a colônia. Escrevia contos retratando seu cotidiano, valorizando o meio rural e sua sociedade. Para aproximar-se dos leitores, escrevia muitas vezes no dialeto "Hunsrückisch", língua falada, ainda hoje, pela maioria dos colonos.

Durante um período, publicou cartas fictícias, em dialeto. Eram correspondências supostamente trocadas entre colonos, também fictícios, descrevendo diversas situações do meio rural. As cartas, publicadas na "Paulusblatt", eram aguardadas pelos leitores com grande expectativa. Famílias se reuniam à noite para leitura, acompanhada, inclusive, pelas crianças.

A produção literária de Pe. Rambo, objetivava a valorização do mundo rural frente ao urbano e a divulgação de um modelo de colono que, segundo ele, era religioso, trabalhador e avesso a novidades. Isto não significava, entretanto, um regresso intelectual, pois a educação, a boa imprensa e a boa leitura eram incentivadas pelos padres, que se empenharam neste sentido.



Texto publicado por Marlise Regina Meyrer (Professora Mestre em História) no jornal Diário de Canoas, em 23/11/1999.