Capítulo 3
Influências da Psiquiatria e da Psicanálise

William B. Gomes

Gustavo Gauer


 

A influência da psiquiatria nas origens da psicologia no Rio Grande do Sul é ao mesmo tempo profunda e difusa. Os primeiros professores de psicopatologia e psicologia clínica foram psiquiatras psicanalistas. Por conseguinte, o desenvolvimento da psicologia assemelhou-se ao modelo da psicologia francesa: pouca ênfase na experimentação e muita atenção na observação clínica. Com efeito, a psicopatologia sustentada pela clínica psicanalítica ocupou o lugar da experimentação e da conceituação dos processos psicológicos básicos. Como resultado, a orientação teórica dos primeiros cursos de graduação em psicologia seria marcadamente psicanalítica.

Psicologia e a Psicanálise no Hospital São Pedro

Como foi dito no capítulo anterior, o primeiro hospital de Porto Alegre foi a Santa Casa de Misericórdia, criada em 1823. O Hospital Psiquiátrico São Pedro surgiu em 1884, com o nome de Hospício São Pedro, e a Faculdade de Medicina foi fundada em 1898. O Hospital São Pedro iniciou suas atividades acolhendo os 25 doentes mentais que estavam depositados na Santa Casa de Misericórdia. Seu primeiro diretor foi um médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, de nome Carlos Lisboa (1857-1886). Lisboa trazia em seu currículo a experiência de ter sido médico interno do Hospício Pedro II da mesma cidade. A escolha do diretor se deu por sugestão de um diário local chamado de Jornal do Século que fazia comentários enaltecendo as qualidades do jovem médico e a sua experiência como alienista.6 O novo diretor trouxe muitos planos para o hospital, mas sua gestão foi interrompida tragicamente por seu falecimento aos 29 anos de idade, "em conseqüência de um abscesso no cérebro, devido à otite média" (Godoy, 1955, p. 297). A gestão de Lisboa durou apenas dois anos.

O primeiro professor de Psiquiatria na Faculdade de Medicina foi Francisco de Paula Dias de Castro. Na época, a cátedra intitulava-se Psiquiátrica e Moléstias Nervosas e era oferecida para os alunos do sexto ano. Em 1904, quando se forma a primeira turma, a cátedra estava a cargo de Tristão de Oliveira Torres. Em 1912, era titular o professor José Carlos Ferreira, quando Luiz José Guedes assumiu pela primeira vez como professor interino. Não se sabe quantas vezes e por quanto tempo Guedes exerceu as funções de professor interino de psiquiatria. A efetivação como titular da Cátedra de Clínica Neurológica e Psychiatria ocorreu em 1917, mediante a apreseentação de dois trabalhos: Estudo clínico das paralysias alternas; e Subsídios ao estudo clínico da presbyofrenia (Guedes, 2000). Sob a liderança de Luis Guedes estavam sendo lançadas as bases da formação em clínica psiquiatra e em clínica neurológica.

Luiz José Guedes nasceu em Pelotas – RS em 12 de novembro de 1882, e faleceu em Porto Alegre em 30 de novembro de 1943.7 Iniciou sua formação médica na Faculdade de Medicina de Porto Alegre, transferindo-se, a pedido da própria Faculdade, para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeio, aonde veio a se graduar em 1904, com a tese Arythimia Cardíaca. Depois de formado Guedes retornou ao Rio Grande do Sul, fixando residência em Porto Alegre. Há informações de que ele foi professor do Instituto Gymnasial Julio de Caastilhos. Em 1913 ele foi nomeado Médico de Doenças Somáticas do então Hospício São Pedro em Porto Alegre.

Em 1916 Luis Guedes foi novamente ao Rio de Janeiro para estágios em psiquiatria sob supervisão de Juliano Moreira (1873-1933) e neurologia sob supervisão de Antônio Austregésilo (1876-1961). Guedes esteve, ainda, em Buenos Aires e Mondivéu para estágios em hospitais psiquiátricos. Retornando a em Porto Alegre foi nomeado médico psiquiátra do Hospício São Pedro. É bem provável que Guedes já tenha vindo para Porto Alegre com algum conhecimento de psicanálise, pois tanto Moreira quanto Austregésilo são considerado precursores do estudo da teoria de Freud no Rio de Janeiro. Consta que em 1899, Moreira, um seguidor da escola de psiquiatria alemã, discutia com seus alunos, na Faculdade de Medicina da Bahia, as publicações de Freud. Por sua vez, Austregésilo publicava, dois anos depois do concurso de Guedes à Faculdade de Medicina de Porto Alegre, o livro Sexualidade e Psiconeuroses (Austregésilo, 1944/1949). O livro refere-se a algumas idéias da psicanálise (Jabur, 2001). ***

No Hospital São Pedro, após a morte de Lisboa, seguiram-se as gestões transitórias de Ramiro Barcelos e Olinto de Oliveira, e as gestões efetivas de Francisco Dias de Castro, Tristão Torres e Deoclécio Pereira. O último diretor mencionado permaneceu no cargo até o seu falecimento, completando 20 anos de gestão. No período de sua doença, Pereira foi substituído por José Carlos Ferreira, aquele que havia sido o primeiro professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina. Os médicos listados como diretores do hospital não foram psiquiatras. Somente em 1927 a administração do hospital retornou a um psiquiatra, sendo escolhido para o cargo o médico Jacintho Godoy Gomes.

Formado em 1911 pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre, Jacintho Godoy8 (1883-1959) dedicou-se à medicina legal assumindo, dois anos depois de sua formatura, as funções de médico legista da Chefatura de Polícia. Entre 1919 e 1921, estudou na França com os psiquiatras Pierre Marie (1865-1934), Joseph Babinski (1857-1932), Ernest Dupré (1862-1921) e Maxime Laignel-Lavastine (1875-1953), todos da Salpêtrière. Na França, estudou a situação dos alienados criminosos, freqüentando a Enfermaria Especial de Depósito da Prefeitura de Polícia. Voltando ao Brasil, foi encarregado pelo governo estadual para organizar e dirigir o Manicômio Judiciário. Sua condução ao cargo foi motivada pelas boas relações de Godoy com Borges de Medeiros, governador do Estado, de quem havia sido secretário particular voluntário, ainda nos tempos de estudante de medicina. Em seu discurso de posse como diretor do Manicômio Judiciário, em 1924, referiu-se à Ata da Sessão de 29 de abril de 1907 da Sociedade Medicopsciológica de Paris, para ressaltar a relevância do empreendimento:

A Sociedade Medicopsicológica de Paris, considerando que, no interesse dos alienados tratados nos asilos e a fim de que estes hospitais de tratamento das moléstias mentais possam se aproximar, na medida do possível, dos hospitais ordinários, formula o voto de que sejam os mesmos desembaraçados dos doentes particularmente perigosos, em razão de suas tendências às reações violentas, assim como de alienados difíceis, que contam muitas vezes várias internações de caráter indisciplinado e tendências perversas são uma causa permanente de perturbação para os outros doentes e para o funcionamento dos serviços (Godoy, 1955, p. 62).

O hospital, de acordo com Godoy (1955), não deveria ser um manicômio criminal, mas um laboratório para pesquisas psiquiátricas. Para tanto, seguiu o modelo do Criminal Lunatic Asylum of Broadmoor da Inglaterra, fundado em 1892, já incorporando os aperfeiçoamentos introduzidos pelos americanos quando da instalação do Danemora Hospital for Insane Convicts em 1902 (Godoy, 1955).

Os médicos Luiz Guedes, Jacintho Godoy e Fábio Barros formaram a primeira geração de psiquiatras do Estado e ficaram conhecidos como kraepelineanos9. Quando Godoy assumiu a diretoria do Hospital São Pedro, Luiz Guedes já era médico do hospital exercendo as funções de diretor técnico.

Godoy empreendeu grandes reformas no hospital, como a construção de pavilhões independentes para atender diferentes tipos de pacientes, modernização das técnicas de tratamento de acordo com os recursos da época, desenvolvimento de atividades de pesquisa e de intercâmbio científicos com médicos de Paris. Preocupou-se com a contratação de médicos especializados em psiquiatria e criou a primeira escola para enfermeiros psiquiátricos no país.

Entre os primeiros médicos nomeados em sua gestão, em 1927, aparecem os nomes de Januário Jobim Bittencourt10, Décio Soares de Souza (1907-1970) e Dyonélio Machado (1895-1985). Esses médicos direta ou indiretamente contribuíram para o desenvolvimento da psicologia e da psicanálise. Bittencourt foi enviado para a França, Alemanha e Bélgica, em 1929, para estudar e observar "a assistência a menores anormais, laboratórios de psicologia experimental, para fins de orientação profissional, e o funcionamento de serviços abertos" (Godoy, 1955, p. 344). Godoy elogiou muito o relatório apresentado por Bittencourt, mas não encontramos referências posteriores sobre alguma iniciativa para criação de laboratório de psicologia. Souza (1930) desenvolveu sua tese de doutorado Demencia Precoce e Eschizophrenia no Hospital Psiquiátrico São Pedro, sob orientação de Godoy, e será um dos grandes incentivadores do desenvolvimento da formação de psicólogos. Dyonélio Machado especializou-se em psiquiatria no Rio de Janeiro com Antônio Austregésilo e foi um dos primeiros a divulgar a psicanálise no Estado (Gageiro, 2001).

A gestão de Godoy foi interrompida em 1932 sob alegação de envolvimento partidário com a revolução constitucionalista. O psiquiatra não reconheceu como procedentes as acusações, mas só retornaria ao cargo em 1937, com o Estado Novo de Getúlio Vargas. Neste período a direção do Hospital ficou sob a responsabilidade do professor Luiz Guedes.

Psiquiatria e Psicanálise

Enquanto isso, no decorrer dos anos 1920, as idéias psicanalíticas começavam a despertar interesse na Faculdade de Medicina, sob a orientação de Martim Gomes, um professor de Ginecologia e escritor. Entre suas obras destacam A Criação Estética e a Psicanálise de 1930 e As Loucuras do Dr. Mingote de 1933. No início da década seguinte, Dyonélio Machado, um psiquiatra do Hospital São Pedro, já aplicaria noções psicanalíticas à clínica psiquiátrica e traduziria para o português o livro Elementos de Psicanálise de Edoardo Weiss (1934), considerado o primeiro texto psicanalítico publicado no Estado do Rio Grande do Sul. O livro está organizado em cinco lições: 1) O que é a psicanálise? O Eu e o Inconsciente; 2) Simbolismo, Introdução aos conceitos de "Es" e "Super Ego"; 3) Origem do Super-Ego e dos sentimentos sociais religiosos; 4) A teoria dos instintos; 5) A metapsicologia, Elementos de psicopatologia e a terapia psicanalítica. O livro inclui ainda um glossário de 85 termos psicanalíticos. O Prefácio foi escrito por Sigmund Freud e diz o seguinte:

O autor destas lições, Dr. Eduardo Weiss, meu amigo e discípulo, desejou algumas palavras de prévia recomendação. Faço-o, embora plenamente convencido de que a recomendação é supérflua. A obra recomenda-se por si mesma. Quem sabe avaliar a seriedade de um trabalho científico; quem presa a honestidade do estudioso que não quer diminuir ou negar as dificuldades; quem desfruta da habilidade do mestre, que com a sua exposição lança luz na treva e põe ordem no caos, de reconhecer o grande mérito dêste livro e compartilhar da minha esperança de que êle venha a suscitar entre as pessoas cultas e entre os doutos da Itália um não passageiro interêsse pela jovem ciência da psicanálise. (p. 7)

O texto de Weiss será, nas décadas seguintes, leitura obrigatória nos cursos introdutórios de psicologia.

Em 1934, a Psicanálise passou a fazer parte do programa da Cátedra de Medicina Legal da Faculdade de Medicina, através do Curso de Elementos da Psicanálise, ministrado pelo recém empossado professor Celestino Prunes. O curso era um pré-requisito para as disciplinas de Criminologia e de Psiquiatria Forense.

Em 1938 fundou-se a Sociedade de Neuropsiquiatria do Rio Grande do Sul, cuja sessão inaugural foi presidida por Décio de Souza. O primeiro presidente da Sociedade foi Jacintho Godoy. No dia 26 de outubro de 1939 a Sociedade reuniu-se para uma sessão extraordinária em homenagem à memória e à obra de Sigmund Freud. A sessão foi realizada no Salão Nobre da Faculdade de Medicina, sob a presidência de Jacintho Godoy, contando com grande audiência, Falaram na ocasião os psiquiatras Dyonélio Machado sobre o tema "Considerações em torno da concepção psicanalítica das neuroses" e Décio Soares de Souza sobre "Considerações em torno da metapsicologia de Freud" (Daudt, 1989).

Em 1937, Jacintho Godoy reassumiu a direção do Hospital São Pedro. Entre as primeiras tarefas estava a realização de um concurso público para o cargo de médico psiquiatra. Em 1938 um decreto federal proibiu a acumulação de cargos públicos e os psiquiatras Luiz Guedes e Flávio Barros, juntamente com vários outros funcionários, tiveram que deixar o Hospital. A preparação e aplicação dos exames ficaram aos cuidados da Faculdade de Medicina. Os aprovados foram Mario Martins, Cyro Martins, Luis Ciulla e Victor de Brito Velho. Todos esses médicos viriam a buscar, tempos depois, a formação em Psicanálise. Mario Martins será o primeiro psicanalista de Porto Alegre e, segundo Gageiro (2001), o primeiro psiquiatra latino-americano a passar por uma formação em Psicanálise. Brito Velho será um dos professores pioneiros de psicologia da década de 1940. Nesse mesmo ano, o Hospital recebeu a visita de Emílio Mira y Lopes11 (1896-1964) que fez uma conferência sobre os problemas decorrentes da superlotação em hospitais psiquiátricos. Outra iniciativa importante de Godoy, no período, foi a criação da Escola de Enfermagem Psiquiátrica, inaugurada em 1939.

Entre as realizações da administração Godoy de interesse para a história da Psicologia destaca-se o curso de Biopsicologia Infantil oferecido a professoras das escolas públicas, com o objetivo de desenvolver uma psiquiatria preventiva. Os itens do programa trazem várias questões básicas da psicologia. O programa e os professores encontram-se listados na Tabela 1.1.

O Curso de Biopsicologia Infantil repercutia, em Porto Alegre, o movimento internacional de Higiene Mental. Para o movimento, as síndromes mentais ou afecções cerebrais com expressão psíquica eram determinadas por perturbações orgânicas ou funcionais, produzidas por toxi-infecções adquiridas ou hereditárias (Godoy, 1955). Os professores primários, por estarem próximos ao dia-a-dia das crianças, poderiam tanto prevenir as doenças quanto reconhecer as crianças que já apresentavam sintomas e mereciam cuidados médicos. A lista de professores do curso é impressionante pela qualidade dos docentes. Nela aparecem aqueles que serão os primeiros professores universitários de psicologia e que marcaram profundamente os rumos da área no estado, como Décio de Souza e Brito Velho, e aquele que será mais tarde o primeiro psicanalista de Porto Alegre, Mario Martins.

 

Tabela 1.1

Curso de Biopsicologia Infantil

 

Em 1944, Décio de Souza, psiquiatra que atuava no Hospital Psiquiátrico São Pedro, retornou de seus estudos no Serviço Jules Massermann de Nova York e substituiu o prof. Luiz Guedes na Cátedra de Psiquiatria da Faculdade de Medicina. Souza deu uma orientação psicanalítica à disciplina, e organizou cursos complementares, despertando grande interesse entre os alunos. Por esta época, Mario Martins, juntamente com sua esposa Zaira, foi a Buenos Aires para fazer formação com Angel Garma (1904-1993), um psicanalista espanhol com formação em Berlim, tendo sido analisado por Theodor Reik (1888-1969). Garma chegou a Buenos Aires em 1938 e, juntamente com Enrique Pichon-Rivière, Marie Langer, Celes Cárcamo e Arnaldo Rascovsky, formou a Associação Psicanalítica Argentina, reconhecida pela International Psychoanalytic Association em 1942. Os argentinos exerceram grande influência na formação de psicanalistas em Porto Alegre e no Rio de Janeiro (Gageiro, 2001). Em 1949, Mario Martins e sua esposa Zaira já contavam com um ativo grupo de estudos cujos membros eram David Zimmermann, Celestino Prunes, Paulo Guedes, Günter Wurth, Ernesto La Porta e Victor de Brito Velho. Desse momento em diante, o espanhol seria a língua oficial da Psiquiatria no Rio Grande do Sul.

Com efeito, a Psicanálise afirmava-se com muita força em Porto Alegre. Décio de Souza foi para Londres realizar sua formação na Sociedade Britânica de Psicanálise, afastando-se da Cátedra de Psiquiatria. Em seu lugar assumiu o professor Paulo Guedes, filho de Luiz Guedes, que juntamente com o professor David Zimmermann, recém nomeado Chefe de Clínica da Cadeira, exercerão grande influência na difusão da Psicanálise no Rio Grande do Sul (Ribeiro, 1961).

No início dos anos 1950 o movimento psicanalítico passa a viver um período de grande efervescência em Porto Alegre. A clínica psicanalítica de Mario Martins amplia-se com o retorno de médicos gaúchos com formação psicanalítica. Eram eles José Lemmertz e Cyro Martins, formados pela Associação Psicanalítica da Argentina, e Celestino Prunes, um professor da Faculdade que regressava de sua formação no Rio de Janeiro. A Cadeira de Psiquiatria, juntamente com a Cadeira de Medicina Legal da Faculdade de Medicina, organizou, em 1953, o curso de Psicologia Médica que era oferecido regularmente a todos os alunos. Em seguida, em 1957, os professores David Zimmermann e Paulo Guedes fundaram o primeiro curso de especialização em Psiquiatria no Brasil, localizado no Hospital São Pedro, com duração de três anos. O Programa caracterizou-se por um novo modelo de formação psiquiátrica, com forte ênfase psicanalítica, sendo oferecida formação em psicoterapia individual e em grupo. As atividades do curso de especialização deram origem no Hospital São Pedro ao Centro Psiquiátrico Melanie Klein. Este Centro assumiu uma posição de liderança nacional na formação de psiquiatras de orientação psicanalítica, e durante muito tempo foi a sede do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da UFRGS.

Também em 1957, outra iniciativa consolidaria ainda mais o desenvolvimento da Psicanálise no Estado: a organização, pelo grupo de Mario Martins, do Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre. O Centro congregou os psicanalistas locais, deu mais estrutura para os cursos de formação e estimulou o intercâmbio com profissionais de outros estados, e de outros países. Como resultado, pôde pleitear o reconhecimento da International Psychoanalytic Association, o que efetivamente ocorreu em 1963, com o apoio da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro.

Em 1960, o professor Marcelo Blaya, da cadeira de psiquiatria da Faculdade de Medicina, fundou um serviço psiquiátrico no modelo da Menninger School of Psychiatry de Topeka - Kansas, onde havia estudado e realizado residência no Topeka State Hospital. O serviço tornou-se nacionalmente conhecido com o nome de Clínica Pinel. A clínica caracterizava-se pelo trabalho de equipe multiprofissional, pelo uso da psicoterapia, da terapia ocupacional e da ambientoterapia. A Clínica Pinel ofereceu a primeira residência em psiquiatria no Brasil, e de sua equipe sairiam os professores para as disciplinas de psicologia clínica do Instituto de Psicologia a ser criado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) (Blaya, 1980; Ribeiro, 1961).

No Instituto Psiquiátrico Forense (antigo Manicômio Judiciário) a influência da psicanálise também foi muito grande (Ribeiro, 1961). Na época, o Instituto possuía a mais completa biblioteca de psiquiatria no estado. Esta instituição fornecerá os professores de psicopatologia para os cursos de psicologia da PUCRS (Andrade, Hausen e Camara, 1979).

Logo apareceram dois periódicos trimestrais com forte influência psicanalítica: os Arquivos da Clínica Pinel, sob a direção editorial do professor Marcelo Blaya Perez e a revista Psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob a direção editorial do psicanalista e professor Paulo Guedes. A cidade de Porto Alegre passa a ser um dos principais centros de formação psicanalítica do país, produzindo estudos e textos que eram apresentados regularmente nos Congressos Internacionais de Psicanálise e de Psicoterapia de Grupo (Ribeiro, 1961).

Nas duas décadas seguintes, 1960 e 1970, a Psicanálise será uma tendência hegemônica na psiquiatria do Estado, principalmente pelo trabalho e liderança de David Zimmermann no “Melanie”, como ficou conhecido o Centro Psiquiátrico Melanie Klein do Hospital São Pedro. Ao Melanie acorriam jovens médicos de todo o país em busca da formação psicanalítica. Registre-se que fenômeno semelhante ocorreu nos Estados Unidos, com a prática de psicoterapia. Seis anos depois das conferências de Freud na Clark University, em 1909, a Psicanálise parecia ter tornado obsoletas as demais formas de psicoterapia (Cushman, 1992). É neste ambiente de grande interesse por Psicanálise, motivado pela marcante atuação de professores médicos psiquiatras, que vão surgir a formação em psicologia e a profissão de psicólogo no Rio Grande do Sul.

 

Referências

Andrade, I. D., Hausen, D. C. & Camara, M. A. (1979). O ensino da psicologia clínica no Instituto de Psicologia da PUCRS. Psico, 16, 78-86.

Blaya, M. (1980). A residência em psiquiatria na Clínica Pinel - Associação Encarnación Blaya I - 1960 - 1980. Arquivos da Clínica Pinel VI (3), 167-175.

Cushman, P. (1992). Psychotherapy to 1992: A historically situated interpretation. Em Donald K. Freedheim (Org.) History of psychotherapy: A century of change (pp. 21-64). Washington DC: American Psychological Association.

Daudt, V. M. (1989). Notas históricas sobre a Sociedade de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. Psiquiatria [RS], 11(1), 46-50.

Gageiro, A. M. (2001). L'histoire de la psychanalise du Brésil et de la fondation de la Société Psychanalytique de Porto Alegre (1963). Tese de doutorado não publicada Universite Paris VII - Denis Diderot.

Godoy, J. (1955). Psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Autor.

Guedes, P. S. R. (2000). Luis José Guedes e Paulo Luis Vianna Guedes: 50 anos de ensino de psiquiatria na Faculdade de Medicina da UFRGS. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, 22(1), 45-54.

Jabur, F. (2001). Austregésilo, Antônio Rodrigues Lima (1876-1961) . Em Regina Helena de Freitas Campos (Org.). Dicionário Biográfico da Psicologia no Brasil (pp. 66-68). Rio/Brasília: Imago/CFP.

Ribeiro, R. P. (1961). A psicanálise no Rio Grande do Sul: Nota histórica. Psiquiatria [Porto Alegre - RS] 1(4), 88-90.

Weiss, E. (1934). Elementos de Psicanálise (Dyonélio Machado, Trad.). Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo (Publicado originalmente em italiano em 1930, com prefácio de Sigmund Freud. A tradução foi da segunda edição em italiano publicado em 1932.)

 


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