Capítulo 6

Instituto de Psicologia da PUCRS

e Organização Profissional

William B. Gomes & Amanda da Costa Silveira


 

No início da década de 1950, época em que era fundado o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), a psicologia apresentava-se como uma promissora carreira científica e profissional. A nova ciência, que trazia grandes expectativas quanto à aplicação, vinha sendo estudada com muito interesse enquanto disciplina no Curso de Filosofia, não havendo ainda um curso inteiramente dedicado a ela. A situação de Porto Alegre era semelhante à dos demais centros intelectuais do país, com a Faculdade de Filosofia formando os primeiros profissionais para o novo campo profissional. Na mesma década, os primeiros psicólogos organizam clínicas e serviços de psicologia, principalmente na área da psicologia industrial e da seleção de pessoal, como se chama na época. Neste capítulo, trataremos da criação do Instituto de Psicologia da PUCRS e da organização profissional dos psicólogos em Porto Alegre.

 

Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul


A iniciativa para a criação de um curso dedicado à Psicologia coube a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Certamente, a iniciativa da instituição em adiantar-se no oferecimento de formação em psicologia dava continuidade à preocupação dos intelectuais católicos em trazer para seus cuidados as disciplinas que tratavam da moral e do intelecto. No final da década de 1940, o Reitor da Universidade Católica, prof. Armando Câmara, um dos signatários do Memorial Católico de 1934, deu início às discussões para a criação de um Instituto de Psicologia. Fazia parte, também, na articulação para criar o Instituto, o prof. Victor de Britto Velho (João & Clemente, 1995), catedrático da disciplina de Psicologia no Curso de Filosofia da UFRGS e também professor da PUCRS.
A Universidade Católica representava a consolidação do esforço marista em organizar uma sólida instituição de ensino superior no Estado. Esse esforço teve início em 1931, com a criação da primeira faculdade, alcançando o nível de universidade em 1948 e recebendo o honroso título de Pontifícia em 1950, sendo a terceira instituição católica a receber esta homenagem no Brasil. A Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul é a segunda universidade mais importante do Rio Grande do Sul, funcionando em um campus bem planejado, sem dúvida um dos mais modernos e urbanizados do país. Nota-se entre os seus dirigentes atuais um esforço em promover a pesquisa e a pós-graduação, a cultura e as artes (Compare-se João & Clemente, 1995; com Soares & Silva, 1992). A preocupação dos maristas em organizar a universidade dentro dos padrões vigenes na época fica evidente quando eles escolhem como primeiro reitor um professor universitário experiente e, naquele mesmo momento, reitor da Universidade do Rio Grande do Sul - o advogado Armando Câmara.
A primeira iniciativa concreta para a criação de um Instituto de Psicologia foi o convite para que o professor e psicólogo judeu-húngaro H. C. Béla Székely (1981-1955) incluísse Porto Alegre no seu roteiro de visitas a cidades brasileiras, para apresentar conferências e ministrar cursos de Psicologia. Székely era um psicólogo clínico freudo-marxista com sólida formação obtida na Áustria, tendo sido aluno de Freud, Adler, Bühler, Hambourg, e Stern (Hartmat, 1988). Transferiu-se da Áustria para a Argentina em 1938, um pouco antes da Segunda Guerra Mundial, fugindo do nazismo. Em Buenos Aires, destacou-se como fundador da primeira Clínica de Conduta Sul-Americana. Em suas conferências, cursos e livros procurou integrar conceitos adlerianos, freudianos e marxistas. Sua produção intelectual é extensa, destacando-se os livros Del niño al hombre, de 1940; El antisemitismo: Su historia, su psicología, su sociología, de 1940; El psicoanalisis, de 1941; Teoria e practica del psicodiagnostico de Rorschach, de 1941; La evolucion sexual de la infancia, de 1942; El niño neurótico, de 1943; Los tests, de 1946; e o Dicionario enciclopedico de la psique, de 1950. Székely, na condição de psicólogo e psicanalista, desenvolvia seu trabalho de forma independente do grupo da Associación Psicoanalítica de Buenos Aires.
Székely ministrou na PUCRS dois cursos, intitulados "Análise e síntese psicopedagógica" e "Da psicanálise à análise existencial", que foram realizados entre 13 de maio e 30 de junho de 1953. Na última aula de Székely foi anunciada a aprovação, pela Universidade, da criação do Instituto de Psicologia. Na época já era reitor o Ir. José Otão (1910-1978), professor de Psicologia da Educação e um dos grandes responsáveis pela expansão e consolidação da PUCRS. A seguir organizou-se uma comissão para elaboração dos estatutos, constituída pelos professores Ir. Henrique Justo, Ir. Hugo Danilo, médico Pedro de Medeiros Mitchel, e Ir. Humberto Luis, sob a presidência do Ir. Paulo Anísio Mosca de Carvalho, um irmão marista procedente de Pernambuco, com formação em filosofia e que lecionava na PUCRS desde 1952.
O Instituto surgia vocacionado às aplicações da psicologia nas áreas de clínica, escola e trabalho. Os objetivos do Instituto eram claros: "formar psicólogos, prestar assistência à criança e ao jovem na escola, ao homem no trabalho e às pessoas emocionalmente desajustadas" (Schroeder & João, 1990, p.11). Estavam assentadas as bases para as três áreas aplicadas clássicas da psicologia profissional: escolar, organizacional e do trabalho, e clínica. O início do Curso de Especialização em Psicologia para formar "psicólogos" foi em 1954. Sendo um curso de especialização, só poderia aceitar candidatos portadores de diploma de curso superior. Assim, no segundo semestre de 1953, o Instituto organizou um Curso Preparatório para um grupo de 58 candidatos interessados em inscrever-se no Curso de Especialização. Aliás, a participação neste curso foi obrigatória para todos aqueles que desejassem ingressar na Especialização. As disciplinas e respectivos professores do Curso Preparatório foram: Biologia Geral (Ir. Ari Vério), Psicologia Evolutiva (Alfredo Richter), Noções de Psicologia e Psicopatologia (Ir. Hugo Danilo); Técnicas Psicométricas e Análise de casos (Ir. P. A. Mosca de Carvalho) e Psicoterapia Menor (Ir. P. A. Mosca de Carvalho). Note-se que o corpo docente era constituído, em sua maioria, por religiosos católicos. Neste mesmo ano estavam sendo organizados os cursos de psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro sob a liderança Hans Ludwig Lippmann (1921-1981) e da Faculdade de Filosofia Sedes Sapientiae, sob a liderança da Madre Cristina Sodré Dória (1916-1997) (Antunes, 1999; Campos, 2001, Langenbach, 1982).
O Curso de Especialização tinha, inicialmente, uma duração de dois anos. A estrutura curricular e corpo docente aparecem na Tabela 6.1. Em 1957, o currículo é reestruturado e o Curso passou para três anos de duração, com nova estrutura curricular, conforme documentado na Tabela 6.2.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os alunos graduados nas três primeiras turmas, isto é, de 1956 a 1958, receberam o título de Assistente em Psicologia. A partir de 1959, o Instituto passou a conceder, aos graduados do currículo de três anos, o título de Psicólogo. A procura pela primeira turma do Curso foi muito animadora. Dos 58 matriculados no Curso Preparatório 41 puderam matricular-se no Curso de Especialização. No entanto, destes 41 apenas 26 confirmaram matrícula no segundo ano. Curiosamente, para a segunda turma matricularam-se apenas quatro alunos. Essa grande variação de interessados em matricular-se no curso pode ser justificada pela novidade que a psicologia representava naquela época, no Rio Grande Sul. O Curso Preparatório certamente reuniu os primeiros interessados e curiosos no estudo da Psicologia. Lá estavam também alguns graduados do Curso de Filosofia da UFRGS. A esse propósito, Profa. Jurema Alcides Cunha mencionou em sua entrevista28 um episódio curioso envolvendo a organização do Curso de Especialização. Ela conta que chegou a ser cogitada juntamente com o casal Edela e Francisco Pereira de Souza para participar do Corpo Docente. No entanto, a participação das jovens professoras não pôde ser efetivada porque não era usual, para as mulheres, o exercício do magistério na PUCRS. Havia apenas uma exceção que era no Curso de Ciências Sociais. Com efeito, o Corpo Docente do Curso de Especialização foi constituído unicamente por homens. No Corpo Docente do Curso de Formação de Psicólogos, em nível de graduação, apresentado em 1964, para adaptar-se as exigências da Lei 4.119, de 1962, só havia uma professora entre 19 professores, ainda assim dividindo a disciplina com um professor. Trata-se de início paradoxal para um Curso que no Brasil, ao contrário dos Estados Unidos ou mesmo da Alemanha, atrairia uma grande maioria feminina. De qualquer forma, o episódio não foi um problema nem para Jurema e nem para Edela que, não podendo ser professoras, matricularam-se como alunas da primeira turma do Curso de Especialização. De qualquer maneira, o Curso de Filosofia da UFRGS se fez representar no Corpo Docente da primeira turma através do ex-aluno prof. Francisco Pereira de Souza que a essa altura, já havia retornado de temporada de estudos nos EUA, como veremos no Capítulo 9.
A regulamentação dos cursos de psicologia e o reconhecimento da profissão de psicólogo pela Lei 4.119, de 1962, repercutiram de imediato no Instituto de Psicologia da PUCRS. O curso de especialização deu lugar ao novo curso de graduação em psicologia. Ao ser solicitado o reconhecimento do curso pelo Conselho Federal de Educação, a PUCRS recebeu pelo parecer Nº 32/64, emitido pelo referido Conselho, o pedido para as seguintes providências: 1) adaptação do curso ao currículo mínimo determinado pela Lei 4.119/1962, 2) indicação dos professores, 3) inclusão do Curso no Regimento da Faculdade a que pertencia, e 4) comprovação da existência de clínica Psicológica (Schroeder & João, 1990). A Tabela 6.3 traz o currículo e corpo docente do Curso de Graduação em Psicologia, constante na documentação que obteve o reconhecimento pelo Decreto N 55.849, de 19 de março de 1965, do Conselho Federal de Educação. Estava, enfim, estabelecido no Estado do Rio Grande do Sul o ensino de psicologia em nível de graduação. A formatura da primeira turma foi em 1967.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Trinta e Cinco Anos Discretos: Depoimento de Luiz-Olyntho Telles da Silva


Há trinta e cinco anos atrás se formava a primeira turma de um Curso Superior Regular de Psicologia, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre; a primeira também do Brasil. Era a primeira vez que uma Universidade Brasileira se preocupava com a formação de intelectuais preparados para entender os desdobramentos da mente humana. E depois de cinco anos de estudos universitários, além dos estágios curriculares e voluntários, em 10 de abril de 1968, na Secretaria da Reitoria, discretamente, sem nenhuma festa, os primeiros Psicólogos receberam das mãos do Diretor do Instituto de Psicologia aqueles que foram os primeiros Diplomas expedidos pela PUC com o reconhecimento do Ministério da Educação.
A iniciativa do curso teve o apoio dinâmico do Ir. Prof. José Otão, de digna lembrança, então Magnífico Reitor da PUCRGS e de vários Psicólogos que já haviam obtido seus títulos através de cursos de Pós-graduação, tanto no Brasil como no exterior. Alguns eram religiosos, como o Ir. Faustino João, seu primeiro Diretor, o Ir. Henrique Justo e o Ir. Crestani que ensinavam a compreensão e o manejo de testes psicológicos, tornando-se o segundo, posteriormente, Diretor do Instituto, devido, acredito eu, a sua devoção à Faculdade e à sua dedicação aos alunos. Outros estavam dedicados à vida pública e tiravam um tempo para dar aulas, como o Prof. Pedro Américo Leal; junto com Rui Garcia e o Ir. Justo eles encarregavam-se dos diversos testes de aptidões e personalidade. O Prof. Paulino Teixeira, o primeiro a nos ensinar a ler o difícil Teste de Rorschach, tarefa logo assumida, na sua falta precoce, pelo Prof. Cícero Emídio Vaz, também faziam parte da equipe. O Dr. Clóvis Assunção nos ensinou os primeiros conceitos freudianos enquanto a Prof. Dra. Juracy C. Marques abriu para nós o campo de estudo dos grupos. E havia ainda os Professores vindos de outras áreas, como a Filosofia, na pessoa do Prof. Hugo Di Primio [e sua Lógica Menor], e também a Medicina. O Prof. Dr. Raul Di Primio nos ensinou, além da Fisiologia e da Anatomia Geral, um profundo respeito pelo corpo e pela vida. O Dr. Prado nos iniciou nos intrincados da Neuroanatomia, enquanto o Dr. Seligman, ambos de saudosa lembrança, nos conduzia pelos meandros da Endocrinologia. O Dr. Paulo Brandão foi o primeiro Psicanalista a nos falar sobre a força dos símbolos e o Dr. Nilo Fichner nos apresentou aos segredos da Psicologia Infantil. Entre as diversas especialidades médicas, uma delas, contudo, nos trouxe uma contribuição inestimável: refiro-me à Psiquiatria, especialidade com a qual a Psicologia encontrou sua maior afinidade; ousaria dizer que a recíproca era [e ainda é] verdadeira. Entre os Psiquiatras que colaboraram naqueles idos, impossível não lembrar de David Zimerman, Carlos Gari Farias, Flávio Rotta Corrêa, Milton Sanchez, Odon Cavalcanti, Mario Bertoni e Walmor Piccinini. Entre tantos que colaboraram para nossa formação, lembro ainda, de um modo especial, de um jovem Psicólogo (na época), recém chegado de Louvain, na Bélgica, o Prof. Francisco Mena Barreto Reis, com seu espírito empreendedor e sua visão aberta para o futuro, e também de um pensador já não tão jovem (mas dotado desta juventude que ele mantém ainda hoje), me refiro ao Frei (hoje Bispo Auxiliar de Porto Alegre) Dr. Dom Antonio Cheuiche: eles contribuíram de modo indelével para a formação de nossos ideais de seriedade, discrição, competência, honra e prudência.
Munidos dos conceitos básicos, invadimos escolas, indústrias e hospitais para 500 horas de estágios curriculares, o que não teria sido possível sem a orientação precisa de profissionais já experientes. O nome de muitos destes supervisores, nem todos Psicólogos, restam na lembrança de seus supervisionados. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Arthur Saldanha abriu as portas do Serviço de Orientação Vocacional para que muito fizéssemos aí nossas pesquisas; na Faculdade de Economia da UFRGS, o Dr. Francisco Pedro Pereira de Souza e sua esposa Edela Pereira de Souza ajudaram a tantos colegas; em outro serviço da mesma Faculdade Juracy Marques recebeu a outros tantos. A VARIG, a Wallig, a Aços Finos Piratini, entre outras tantas empresas receberam estagiários. O Hospital Espírita, o Hospital São Pedro, e alguns outros que já não lembro também abriram suas portas para nossas primeiras práticas. No São Pedro, creio que todas as unidades receberam estagiários, desde o Pavilhão Melanie Klein, coordenada pelo saudoso Dr. David Zimmermann passando pelo serviço do Dr. José de Barros Falcão, o Pavilhão Kraepelin, dirigido pelo Dr. Moisés Roitman, o Pinel e a Tisiologia.
No Pinel, que era dirigido pelo Dr. Isacc Pechanski, ajudamos a instalar um programa de recuperação de doentes crônicos, um programa que certamente ajudou a dar dignidade a muitos, e não me refiro apenas aos pacientes. As amizades que aí formamos ficaram para sempre, não só com o Dr. Pechanski, mas também com o Dr. Luiz Carlos Pellanda, o Dr. Ely Attala Cheffe e o sempre lembrado Dr. Moacir Santos.
Na Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, o saudoso Dr. Luiz Antonio Meira, junto com a Dra. Nadir Saldanha, a Dra.Odair Perugini de Castro, o Dr. José Carlos Fenianos, a Dra. Elmira Cabral, a Dra. Jurema Alcides Cunha, a Dra. Suelly Aveline, a Dra. Herta Darcy Hess, o Dr. Alfredo Richter, além de alguns já citados e entre tantos outros, nos receberam de braços abertos.
Pois estamos aqui e agora, a posteriori, agradecidos a todos vocês. Desde 10 de abril de 1968, muitos de nós fizemos cursos de aperfeiçoamento em diversos paises da Europa, bem como em outros paises da América do Sul e também do Norte. Nos tornamos Psicólogos de Empresas, de Escolas, Clínicos e também Professores que já ajudamos a formar várias gerações e a inspirar novos Psicólogos. Colaboramos mesmo na organização social de nossa profissão. O exemplo que recebemos de toda esta notável plêiade de Professores e Supervisores foi imprescindível para que seguíssemos trabalhando e abrindo novos campos de trabalho.
É isto. E agora tratemos de seguir com nosso trabalho discreto.
Agradeço imensamente à colega Ivone Coelho de Souza por sua memória e colaboração

Porto Alegre, 10 de abril de 2003

(http://www.recort.com.br/lots/)

Organização Profissional


Aos poucos, os psicólogos gaúchos vão se afirmando no mercado profissional, levando seus trabalhos a eventos científicos, e envolvendo-se nas discussões para a regulamentação da profissão. Em 1951, o casal Francisco Pedro e Edela Lanzer Pereira de Souza organizou o primeiro consultório autônomo de psicologia clínica; e, em 1954, Nilo Maciel, José Carlos Fenianos e Arthur de Mattos Saldanha organizaram o primeiro gabinete de psicologia do trabalho (Souza, 1980).
O Rio Grande do Sul esteve representado no I Congresso Brasileiro de Psicologia, realizado na cidade de Curitiba de 1 a 7 de dezembro de 1953. A delegação gaúcha contava com a participação de Paulo Anísio Mosca de Carvalho, Francisco Pedro Pereira de Sousa, e Henrique Justo. O evento de Curitiba não foi, na realidade, o primeiro congresso de psicologia no Brasil, mas foi, sem dúvida, o primeiro de maior impacto, considerando o número de participantes e de trabalhos apresentados. O primeiro congresso realizado no Brasil ocorreu na cidade de São Paulo, em 1937, o segundo no Rio de Janeiro em 1942, e o terceiro na cidade de Belo Horizonte em 1943. Ainda foram realizados eventos em São Paulo e no Rio de Janeiro, no transcorrer de 1948 (Ginsberg, 1954). No congresso de Curitiba, por decisão plenária, foram escolhidos representantes dos estados para coordenarem o movimento pela regulamentação da profissão de psicólogo no Brasil. O Irmão Paulo Anísio Mosca de Carvalho ficou incumbido de representar o Rio Grande do Sul. Os representantes dos demais estados foram Gabriel Munhoz da Rocha (Paraná), João Mendonça (Bahia), Hans Lippmann (Rio de Janeiro e Distrito Federal) e Arrigo Angelini (São Paulo). No ano seguinte ocorreu uma reunião no Rio de Janeiro para tratar da regulamentação da profissão e os gaúchos estiveram representados por Paulo Anísio Mosca de Carvalho e Henrique Justo. A reunião foi secretariada por Annita Cabral (Ramozzi-Chiarottino, 2001). Estes fatos destacam o interesse e empenho dos psicólogos gaúchos pela organização da profissão no Brasil.


Fundação da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul


Por três vezes, desde de 1949, procurou-se criar uma sociedade de Psicologia. O esforço se concretizaria em primeiro de julho de 1959, com a fundação da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, cuja ata foi assinada por 21 profissionais (Souza, 1980, p. 6): Alfredo Richter, Ana Íris do Amaral, Arthur de Matos Saldanha, Edela Lanzer Pereira de Souza, Elmira Flores Cabral, Emília Flores, Flávia Sant'Ana, Francisco Pedro E. Pereira de Souza, Graciema Pacheco, Isolde Sylvia Bechlin, Ítala Maria Gobbi, José Carlos Fenianos, Juracy Marques, Jurema Alcides Cunha, Leda Jenisch Raya, Maria Helena Câmara Schmit, Nilo Antunes Maciel, Nadir Saldanha da Rocha, Suely Teitelbaum e Salomé Hemb. Ao concluir a lista, Souza (1980, p. 6) enfatizou que "entre os fundadores não ficou nenhum psiquiatra. Deixamos nossos 'padrinhos' e confiadamente partimos para uma fase nova de autonomia". A enfática afirmação de Souza é um testemunho eloqüente da participação dos psiquiatras na difusão da psicologia no Estado, bem como da diferenciação que os psicólogos procuraram estabelecer, como será tratado no Capítulo 8.
A Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul foi a primeira entidade a representar os psicólogos gaúchos. A Sociedade continua ativa, reunindo cerca de seiscentos sócios, oriundos da capital e do interior do Estado, entre profissionais e estudantes de Psicologia. Dentre o quadro de sócios, 65 são sócios jubilados, ou seja, ultrapassaram os 25 anos de contribuição à Sociedade.29



Referências


Antunes, M. A. M. (1999). Quadro de referências sobre a história da psicologia no Brasil: 1930 - 1962. Psic. Rev. São Paulo, (8), 97-132.
Campos, R. H. F. (2001). Dicionário Biográfico da Psicologia no Brasil. Rio de Janeiro: Imago Ed./Brasília-DF: CFP.
Ginsberg, A. M. (1954). Impressões do primeiro Congresso Brasileiro de Psicologia. Arquivos Brasileiros de Psicotécnica, 6(2), 105-108.
Harmat, P. (1988). Freud, Ferenczi und die ungarische Psychoanalyse. Tübigen: Ed Diskord. (Publicado originalmente um húngaro, 1986.)
João, F., & Clemente, E. (1995). História da PUCRS Vol. 1. Porto Alegre: Edipucrs.
Langenbach, M. (1982). A Psicologia aplicada no Rio de Janeiro: Início de uma profissão (1938-1962). Dissertação de mestrado não publicada, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
Ramozzi-Chiarottino, Z. (2001). Annita de Castilho e Marcondes Cabral. Coleção da Psicologia Brasileira ,Volume 3. Rio de Janeiro: Imago.
Schroeder, H. B. & João, F. (1990). Síntese histórica do Instituto de Psicologia Monografia não publicada, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
Soares, M. P. & Silva, P. P. D. (1992). Memória da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1934-1964. Porto Alegre: UFRGS.
Souza, E. L. P. (1980). Etapas e crises de crescimento da classe de psicólogos no Rio Grande do Sul. Revista da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, 5-11.
Székely, B. (1940). Del niño al hombre. Buenos Aires: Ed. Claridaded.
Székely, B. (1940). El antisemitismo: Su historia, su psicología, su sociología. Buenos Aires: Ed. Claridaded.
Székely, B. (1941). El psicoanalisis. Buenos Aires: Ed. Claridaded.
Székely, B. (1941). Teoria e practica del psicodiagnostico de Rorschach. Buenos Aires: Ed. Claridaded.
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Székely, B. (1946). Los tests, Buenos Aires: Ed. Claridaded.
Székely, B. (19 50). Diccionario enciclopedico de la psique. Buenos Aires: Ed. Claridaded.