Capítulo 8

Relações com a Psicanálise

William B. Gomes

Gustavo Gauer


 

O Capítulo 3 abordou os desenvolvimentos iniciais da psicanálise em Porto Alegre, tendo como centro a Faculdade de Medicina da UFRGS. Este capítulo examina a importância e a força que a psicanálise alcançou entre os psicólogos do Rio Grande do Sul. A Psicanálise tornou-se o referencial teórico dominante e o modelo de atuação profissional, tendo como base a psicoterapia. Como foi visto no Capítulo 2, é provável que notícias sobre a psicanálise tenham alcançado o Rio Grande do Sul nos primeiros anos da década de 1910. Neste período, a análise das teses da Faculdade de Medicina (Capítulo 2) mostrou uma importante mudança de abordagem em relação à nova ciência psicológica. Até então, as discussões giravam em torno do problema ontológico das duas substâncias, a orgânica e a mental, e como elas se inter-relacionavam. Na década de 1910, o interesse voltou-se para um estudo mais acurado das teorias psicológicas e de suas possíveis contribuições para a clínica médica. Uma evidência desta mudança foi a tese de Lauro de Oliveira Pimentel, em 1917, propondo o uso da psicoterapia psicanalítica para o tratamento das neuroses. Sabe-se que por volta de 1920 os trabalhos de Freud eram mencionados nas aulas de ginecologia de Martim Gomes. Em 1934, Dyonélio Machado traduziu pela Editora Globo de Porto Alegre o livro Elementos de psicanálise de E. Weiss e o médico Celestino Prunes começou a incluir noções de psicanálise no programa da cadeira de Medicina Legal. A obra e vida de Freud eram respeitadas e acompanhadas com atenção pela Sociedade de Neuropsiquiatria do Rio Grande do Sul. Nos meados de 1940, o psiquiatra Décio de Souza, um egresso da Faculdade de Medicina da UFRGS, regressava de uma viagem de estudos aos Estados Unidos, com uma considerável bagagem de conhecimentos psicanalíticos, introduzindo a teoria nas cadeiras de Psicologia Geral da Faculdade de Filosofia, e de Psiquiatria e Medicina Legal da Faculdade de Medicina. Na mesma época, Mario Martins, um egresso da Faculdade de Medicina e psiquiatra concursado do Hospital São Pedro, foi a Buenos Aires para formação didática em Psicanálise. Em seu retorno, estabeleceu uma concorrida clínica psicanalítica e um vigoroso grupo de formação.
A chegada do psicanalista didata Mario Martins coincide com a saída do professor de psicologia e de psiquiatria Décio de Souza, que se transfere para Londres em busca da formação didática. Em seu lugar, assume a cátedra, por concurso, o psiquiatra Paulo Guedes, filho do pioneiro psiquiatra Luiz Guedes, e membro do grupo de psicanálise de Mario Martins. Ao mesmo tempo, a clínica de psiquiatria da Faculdade era chefiada por outro psiquiatra também membro do grupo de Mario Martins, o psicanalista David Zimmermann. Esse grupo iria criar programas de especialização e de residência psiquiátrica de cultura psicanalítica, assumindo a vanguarda de importantes renovações no campo da psiquiatria, tanto no Rio Grande do Sul quanto no Brasil.
Quando Béla Székely ministrou cursos na PUCRS, as mesmas aulas que impulsionaram a criação do Instituto de Psicologia foram recebidas com reservas pelos admiradores da psicanálise. Székely expressava restrições à eficácia do tratamento psicanalítico. Tal fato serve de evidência a uma predisposição madura e franca na adesão à teoria psicanalítica, antes do oferecimento do curso de especialização em Psicologia pela PUCRS. Não vai aqui nenhuma crítica à escolha e à preferência pela psicanálise, reconhecidamente um dos mais importantes pensamentos teóricos que influenciaram práticas e costumes no século XX. Anota-se apenas o registro histórico desta ascendência. Na verdade, a psicanálise exerceu profunda influência em toda a psicologia. Sem dúvida, as conferências de Freud na Clark University, nos EUA, em 1909, e depois a psicoterapia psicanalítica dos psiquiatras norte-americanos, modificaram o pensamento psicológico. A psicanálise trouxe uma pauta para os pesquisadores das teorias psicológicas. O funcionalismo americano caracterizava-se pela ausência de radicalismos e de uma formulação teórica sistematizada. Caracterizava-se por uma abertura a diferentes possibilidades metodológicas, sendo capaz de integrar conceitos oriundos de outras teorias. Assim, as idéias de Freud foram se expandindo naturalmente por conta das afinidades funcionalistas, influenciando trabalhos de teóricos como os de Robert S. Woodworth (1869-1962) em seus estudos sobre motivação (Woodworth, 1958). A psicanálise continuou sugerindo hipóteses, como se observa no livro de Robert W. Lundin (1969/1972) intitulado Personalidade: Uma análise do comportamento. Lundin reconheceu a forte influência da psicanálise nos estudos em personalidade e deu considerável atenção à redefinição dos mecanismos de defesa em termos de reações comportamentais defensivas. Dollard e Miller (1950) no livro sobre Personalidade e Psicoterapia redefinem os construtos freudianos do inconsciente, ego e superego, usando a terminologia da teoria de aprendizagem (ver Rychlak, 1981). Do mesmo modo, os mecanismos de defesa foram interpretados no contexto da psicologia social, como é o caso da frustração e traços de respostas interpessoais, no popular texto de D. Krech, R. S. Crutchfield, e E. L. Ballachey (1962/1969), traduzido para o português por Dante Moreira Leite e Miriam L. Moreira Leite.
Nada mais natural que, em Porto Alegre, os novos psicanalistas e seus alunos participassem do corpo docente dos cursos de psicologia. Naquele momento o campo da psicologia ainda era uma incógnita para os médicos. Alguns entendiam a nova ciência como uma disciplina básica para o estudo da psiquiatria, do mesmo modo que professores da Escola Normal a concebiam como instrumental para a pedagogia. Estava em andamento uma luta corporativa liderada por orientadores educacionais, apoiados por alguns médicos e por engenheiros, em favor do estabelecimento de um campo profissional autônomo para a Psicologia. No entanto, a resistência no campo médico era grande e a preocupação voltava-se ao uso de técnicas projetivas e da psicoterapia por profissionais sem formação médica. É oportuno lembrar o entusiasmo da psicóloga Edela de Souza (1980) ao constatar que os psicólogos foram capazes de organizar uma Sociedade de Psicologia sem o auxílio e sem a presença de psiquiatras.
Neste sentido, outra passagem marcante está relatada no discurso de formatura proferido pela professora Juracy C. Marques para os psicólogos de 1970 do Instituto de Psicologia da PUCRS. Disse Marques (1971, pp. 15-16):

Em maio deste ano assisti em Caxias a Jornada de Psiquiatria Dinâmica promovida pela cadeira de Psiquiatria da Faculdade Medicina, sob a liderança do Dr. David Zimmermann. Encantou-me ver o grande número de psicólogos que lá estavam presentes. E tal era sua motivação de participar e seu senso de grupo que numa dada manhã sentiram a necessidade de reunir-se para trocar idéias sobre seus interesses comuns. Numa presença de quase 100 psicólogos, 80 eram ex-alunos do Insituto, contando o que faziam, como trabalhavam e o que esperavam alcançar nos próximos anos

Neste discurso, Marques chamava atenção para o importante papel que o Instituto de Psicologia da PUCRS vinha desempenhando na formação de psicólogos, ou melhor, na criação de uma nova profissão no Estado. A leitura histórica deste texto aponta para a tomada de consciência da afirmação de uma nova classe profissional, e para o fato de que estes profissionais precisavam se reconhecer e assumir a própria identidade. De qualquer modo, a relação próxima com a psiquiatria e as fortes posições psicanalíticas marcou profundamente o desenvolvimento da psicologia no Rio Grande do Sul.

A Psicanálise na PUCRS

A presença de psiquiatras psicanalistas no corpo docente do curso de graduação em Psicologia da PUCRS, e as dificuldades na relação entre psicólogos e psiquiatras foram documentadas em vários textos, como veremos a seguir. Andrade, Hausen e Camara (1979) indicaram a relação entre psiquiatria e psicologia nas seguintes palavras: "Inicialmente, as disciplinas da área da Psicologia Clínica, com exceção das referentes aos testes projetivos, foram ministradas por professores de formação psiquiátrica" (p. 80). Em nota de rodapé, as autoras incluíram a lista destes professores psiquiatras em ordem alfabética, como reproduzido a seguir: "David E. Zimerman*, Flávio Rotta Corrêa, Harri Graeff, Isacc Sprinz*, Luis Carlos Osório, Marcelo Blaya Perez, Mario Bertoni, Marlene Silveira Araújo, Nilo Fichtner, Odon Cavalcanti Monteiro, Paulo Juchem, Themis Groissman, Walmor Piccinini e Walter Daudt." (p. 80). A lista inclui médicos psiquiatras da Clínica Pinel e do Instituto Psiquiátrico Forense. Revendo a importância destes profissionais na psiquiatria do Rio Grande do Sul, não é de admirar que foram estes os professores que causaram maior impacto sobre os estudantes de psicologia.
Dos professores mencionados, Isacc Sprinz* foi o que permaneceu por mais tempo no Instituto de Psicologia. Sprinz concluiu o Curso de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1959, iniciando no ano seguinte sua formação como psiquiatra e psicoterapeuta na Clínica Pinel, onde tomou contato com as idéias psicanalíticas. A seguir, foi convidado para ser assistente de David E. Zimerman na disciplina de Psicologia Clínica do Curso de Especialização em Psicologia da PUCRS. Segundo Sprinz, o conteúdo da disciplina versava sobre os conceitos de neurose e psicose, a dinâmica dos casos, o prognóstico e o tratamento. Os alunos traziam para as aulas os relatos de casos e de entrevistas que eram gravadas, para serem discutidos, e ainda eram oferecidos estágios na Clínica Pinel. Com a criação do curso de graduação, Sprinz passou a lecionar Psicologia Clínica aos alunos do quarto e quinto anos. O psiquiatra disse ainda que muitos professores do curso de graduação foram formados pelo antigo curso de especialização. A influência das idéias psicanalíticas se fazia sentir principalmente nas disciplinas de Psicologia Clínica, pelos professores vinculados à Clínica Pinel e na de Psicopatologia pelos professores vinculados ao Instituto Psiquiátrico Forense. Com relação à linha teórica, Sprinz disse que:

Apesar de Freud se manter como a matriz do pensamento psicanalítico, a corrente predominante no início do curso de graduação era baseada nas idéias de Melanie Klein. Aos poucos, porém, ela foi cedendo espaço para a Psicologia do Ego norte-americana. Isso aconteceu por causa da saída dos professores oriundos do Instituto Psiquiátrico Forense da disciplina de Psicopatologia. (...) Além da Psicanálise havia as influências rogeriana e behvariorista, mas ambas possuíam uma pequena contribuição na época.

A aproximação intensa entre psiquiatras e estudantes de psicologia intensificou um problema que já se arrastava desde os anos 1950. Alguns psiquiatras acreditavam que os psicólogos, ao buscarem formação em psicoterapia e psicanálise, estavam invadindo um território restrito aos médicos. Por outro lado, havia o receio dos próprios alunos de Psicologia de atuarem como psicoterapeutas, conforme mencionado por Sprinz em sua entrevista. Henrique Justo disse em entrevista a Gomes* que decidiu ir atrás de outra técnica de psicoterapia, ainda no início dos anos 1950, porque o psicólogo que tentasse ser psicanalista não era bem visto, seria um terapeuta de segunda classe. Todavia, com o reconhecimento da profissão, os psicólogos estavam dispostos a ampliar suas perspectivas profissionais e a colocar em prática o que eles estavam aprendendo com os psiquiatras. Um dos primeiros efeitos desta luta foi a decisão dos psiquiatras vinculados ao Instituto Psiquiátrico Forensense em deixar o Instituto de Psicologia, conforme Sprinz em sua entrevista.

Conflitos entre psicólogos e psiquiatras

O conflito entre psiquiatras e psicólogos foi cuidadosamente estudado pela literatura sul-rio-grandense. Em 1966, Marcelo Blaya, professor de Psicologia Clínica, apresentou um trabalho para a Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, publicado no ano seguinte pelo Boletim da mesma Sociedade, intitulado "O papel do psicólogo clínico na equipe psiquiátrica". Em 1968, a psicóloga da Divisão Melanie Klein do Hospital São Pedro, Sueli Garcia Brunstein, juntamente com seu grupo de estagiárias, publicou o artigo "Descrição de algumas resistências observadas no estágio de alunas de psicopatologia em um serviço de doentes mentais agudos". Em 1974, Luiz Carlos Meneghini, um psiquiatra professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, membro ativo da Sociedade de Psicanálise e Coordenador no Centro Psiquiátrico Melanie Klein, dedicou um capítulo em seu belo livro À Sombra do Plátano ao problema da clínica psiquiátrica e os psicólogos. Recentemente, Gageiro (2001) trouxe para o Rio Grande Sul sua tese de doutorado, defendida na Universidade de Paris VII, sob orientação da celebrada historiadora da psicanálise Elizabeth Roudinesco. A tese trata, principalmente, das agruras vividas por psicólogos desejosos de obterem uma formação em psicanálise, já que Sociedade de Psicanálise do Rio Grande do Sul, reconhecida pela IPA, só aceitava candidatos médicos. Um breve exame dos textos mencionados é apresentado a seguir.
Meneghini (1974) iniciou seu texto lembrando as atividades das duas psicólogas mais antigas do Hospital São Pedro, uma contratada em 1949 e outra em 1954. Dizia ele que "eram atividades centradas, basicamente, no setor de diagnóstico e controle de evolução de casos clínicos, mediante o emprego de testes psicométricos e projetivos" (p. 27). Eventualmente as psicólogas colaboravam com atividades de pesquisa e atendiam requisições para psicoténica procedentes de outras repartições estaduais. Depois de 1961, os psicólogos foram se afastando do psicodiagnóstico e dedicando-se mais ao setor terapêutico. O bom entrosamento da década de 1950, quando os psicólogos traziam suas pesquisas para discutir com os psiquiatras, havia desaparecido. Meneghini apresentava em seu texto um interesse muito claro em aproveitar melhor a colaboração dos psicólogos. Conversou, então, com psiquiatras, psicólogos e estudantes de psicologia para descobrir uma boa maneira de encaminhar a questão.
Brunstein e colaboradoras (1968) descreveram as dificuldades das alunas de psicologia no estágio de psicopatologia:

As estagiárias da psicologia não entravam sozinhas na Divisão. Combinavam encontrar-se na porta com a finalidade óbvia de não se defrontarem com os pacientes desacompanhadas, pois temiam serem atacadas. Não vinham à divisão com roupas coloridas nem se pintavam porque preocupavam-se com a possibilidade de despertar desejos sexuais agressivos nos pacientes. Por este motivo evitavam conversar com os doentes e despendiam a maior parte do tempo lendo papeletas no posto de enfermagem. De certo modo, continuavam aprendendo psicologia e especialmente psicopatologia sem estabelecer relação com o doente mental. (p. 42)
O psiquiatra coordenador era considerado como Superior em posição e conhecimento por isso não podiam fazer perguntas diante dele para não demonstrar seus escassos conhecimentos. (p. 43)

A situação foi tão difícil, prosseguiram as autoras, que "quatro das alunas se afastaram da Divisão desistindo do seu estágio" (p. 45). O trabalho concluiu defendo a importância do acompanhamento da psicóloga supervisora e que a duração do estágio não deveria ser inferior a um ano. O exemplo confirma a percepção de Sprinz sobre as dificuldades por parte dos estudantes de psicologia. Os mesmos problemas apareceram no texto de Meneghini (1974). O autor observou que as psicólogas apresentavam muita ansiedade frente ao psicótico, mantinham atitude de reserva frente ao psiquiatra e estavam muito desejosas de se envolver em tarefas terapêuticas.
Blaya (1967) iniciou seu texto comparando a história da medicina e da psicologia, recorrendo para tanto a Hipócrates, cujo desejo era conhecer, tratar e curar; e a Aristóteles, cujo desejo era mais o de conhecer e menos o de curar. Hipócrates consagrou-se como o iniciador da medicina e Aristóteles é apontado como o precursor dos psicólogos. Certamente aí estaria um impasse entre psiquiatras interessados em curar e psicólogos interessados em conhecer. Em seguida Blaya fez algumas referências à psicologia experimental como uma continuidade do associacionismo inglês:

Os seguidores de Berkeley iniciaram a Psicologia experimental e os nomes de Fechner, Wundt e Ebbinghaus são conhecidos dos estudiosos da Psicanálise por serem freqüentemente citados por Freud. O início do presente século assistiu ao surgimento das aplicações práticas da Psicologia experimental sob a forma de testes destinados sobretudo a avaliar a deficiência mental e medir a inteligência. A Psicanálise nasceu dentro da Medicina mas transcendeu as suas fronteiras para dar as bases à Psicologia científica contemporânea. Assim a Medicina trouxe à Psicologia uma influência decisiva e renovadora que permitiu a esta um novo surto de progresso. (p. 74)

Blaya argumentava que, para a psicologia, a idéia de tratar era muito nova, teria pouco mais de meio século, e "representava um retorno às fontes depois de 25 séculos de separação" (p. 74).
Na verdade, a colaboração entre medicina e psicologia só vai ocorrer a partir do século XIX (Hearnshaw, 1987). Os filósofos que se ocupavam do estudo da psicologia estavam tão convencidos de que a consciência ou alma era sustentada na razão divina, acima e fora do mundo material, que não se preocupavam com as relações entre intelecto e cérebro. A loucura devia-se a desequilíbrios do humor ou intrusão de forças sobrenaturais. Por outro lado, entre os médicos, pouco se sabia sobre a loucura, não havendo muito em que contribuir para o debate com os filósofos (Kristensen, Almeida & Gomes, 2001).
Para Blaya (1967) o hospital psiquiátrico era o ponto de reencontro entre medicina e psicologia. A seguir o autor explicava que, com o avanço do conhecimento, o atendimento hospitalar ao doente mental passou a ser exercido por uma equipe profissional hierarquicamente organizada, constituída por "médico, enfermeira, atendente, terapeuta ocupacional, psicólogo clínico e assistente social psiquiátrica" (p. 75). O autor prosseguiu dizendo que "a liderança destes grupos tradicional e legalmente, competiu ao médico cabendo-lhe coordenar a contribuição de cada elemento para uma melhor harmonia e produtividade do conjunto" (p. 75). A posição também é coerente com o entendimento de Meneghini (1974).
Ao enunciar as técnicas de tratamentos (sociais, psicológicos, biológicos, farmacológicos e físicos) Blaya advertiu que a "psicoterapia, seja em grupo ou individual, deve necessariamente contar com a cobertura e supervisão médica sempre". O autor apoiou sua posição na prática da Veteran's Administration, dos Estados Unidos, nos seguintes termos:

Presentemente a política da A.[dministração] de V.[veteranos] é a de encorajar a utilização máxima das habilidades e conhecimentos dos psicólogos clínicos. A necessidade básica é ajudar no diagnóstico, treinamento, investigação e educação. No psicodiagnóstico e na psicoterapia o psicólogo funciona sob a supervisão de um psiquiatra. (p. 79)

No entanto, Blaya vislumbrava um papel relevante para o psicólogo na equipe hospitalar:

Em nosso hospital o psicólogo tem se dedicado relativamente pouco ao problema da pesquisa. Mas de um modo geral espera-se que o psicólogo possa contribuir ativamente no planejamento de programas de investigação, organização e coleta de dados, de modo a tornar a sua validez e analisabilidade compatíveis com o tipo de conclusões que se pretendem do experimento. Por outro lado os conhecimentos especiais em matéria como bioestatística fazem do psicólogo clínico um auxiliar valioso para a equipe na análise do material obtido bem como na compreensão de revisões bibliográficas baseadas em conclusões desse tipo. (p. 81)

Nota-se que Blaya enfatizou a atividade de pesquisa como uma competência esperada do psicólogo. Certamente ele estava acompanhando as discussões que ocorriam em diferentes países sobre as bases formadoras de um profissional em psicologia. Nos Estados Unidos, por exemplo, as discussões preliminares sobre a formação do profissional em Psicologia Clínica deixaram claro que, antes do profissional, deveria sempre vir o pesquisador (Cushman, 1992).
A pesquisa como uma atividade fortemente vinculada ao psicólogo foi reconhecida pela psiquiatria local. A profa. Juracy Marques trabalhou, como colaboradora, com o prof. David Zimmermann, na Divisão Melanie Klein do Hospital São Pedro, ligada à Cadeira de Psiquiatria da UFRGS. Marques colaborou como assessora para assuntos de currículo, como co-orientadora de trabalhos de conclusão do Curso de Especialização, como professora de Metodologia da Pesquisa, e de Metodologia do Ensino Superior*. Todavia, como observou o professor Isaac Sprinz, a maioria dos psicólogos orientou-se para a intervenção clínica, análise e psicoterapia, deixando em segundo plano as tarefas de psicodiganóstico e, principalmente, o interesse por pesquisa.

Movimento Carusiano

O maior desafio profissional dos novos psicólogos será o ingresso na formação reconhecida em psicanálise. Em apoio ao exercício da psicanálise por leigos, isto é não-médicos, Malomar Lund Edelweiss publicou extenso e bem fundamentado artigo na Revista Psico (Edelweiss, 1973). O autor, um psicanalista formado pelo Círculo Vienense de Psicologia Profunda de Igor Caruso, apresentou a história do exercício da psicanálise por leigos, informando que em 1914, tal prática já acontecia em Viena através da pedagoga Hermine Hug Hellmuth em Zurich, e do Pastor Oskar Pfister. Edelweiss (1973) incluiu em seu artigo os debates brasileiros sobre o problema, em particular, a mesa redonda realizada em julho de 1954 em São Paulo, como parte do programa do I Congresso Latino-Americano de Saúde Mental. De acordo com o Autor, os argumentos a favor dos médicos baseavam-se unicamente na legislação vigente. Também citou psicanalistas de renome que não eram médicos: Anna Freud, Melanie Klein, Charles Baudoin, e Robert Desville. Em favor dos leigos, Edelweiss (1973, p. 20) recorreu ao próprio Freud, citando a biografia escrita por Ernest Jones em 1957:

Nos anos avançados da década de 30, corria largamente nos Estados Unidos a notícia - que, de maneira muito estranha, se dizia provir de analistas europeus estabelecidos na América - constando que Freud tinha mudado radicalmente seus pontos de vista expressos de modo tão definido na brochura sobre a análise leiga. Sua opinião, agora, seria a de que a prática da psicanálise, em todos os países, devesse ser estritamente confinados aos membros da profissão médica. Eis a resposta à pergunta feita sobre alguma possível verdade do boato:
Julho 5, 1938
Caro Sr. Schnier:
Não posso imaginar como se teria originado a parva atoarda de ter eu mudado meus pontos-de-vista quanto ao problema da análise dos leigos. O fato é que nunca repudiei tais pontos-de-vista, e insisto neles ainda mais persistentemente do que antes, em face da tendência americana de transformar a psicanálise em mera empregada doméstica da psiquiatria.
Seu sinceramente,
Sigm Freud O.

No Rio Grande do Sul, Edelweiss é lembrado por sua atuação em favor dos leigos, iniciando nos final dos anos 1950, o movimento da psicologia profunda de Igor Caruso (1914-1981). Caruso era russo de nascimento, mas descendente de família italiana. Formou-se em Teologia e em Filosofia na Universidade de Louvain, na Bélgica. Seu interesse por psicanálise levou-lhe a procurar Viktor Emil Freiherr von Gebsattel (1883-1976), com quem foi analisado. Caruso participou da reconstrução do movimento psicanalítico na Alemanha, logo depois da Segunda Guerra Mundial (Wiener Psychoanalytische Vereinigung - WPV), associando-se ao grupo que procurou preservar o espírito freudiano sem concessões ao nazismo. Mas afastou-se a seguir. Ele discordava da orientação do grupo, que lhe parecia excessivamente médica, materialista, e de forte influência americana. Em contrapartida, criou o Círculo de Trabalho em Psicologia Profunda, um movimento fiel aos princípios freudianos mas contrário às diretrizes da International Psychoanalytical Association (IPA). A Psicologia Profunda de Caruso dava uma orientação mais intelectual à psicanálise, aberta às preocupações espirituais e filosóficas. Suas posições confluíam para a análise existencial, eram próximas dos postulados de Viktor Emil Frankl (1905-1997), e sustentavam-se em posições da fenomenologia. O importante para ele não era adaptar o paciente ao princípio da realidade, mas levá-lo a resolver as tensões e dificuldades das suas relações conflituosas com o mundo.
As posições de Caruso foram bem recebidas pela Igreja Católica por entender que a religiosidade humana não poderia ser interpretada como uma neurose, como ensinava a teoria psicanalítica (Gageiro, 2001, p. 190). Edelweiss organizou cursos sobre a teoria carusiana na Universidade Católica de Pelotas - RS e na PUCRS. Entre os seus colaboradores destacaram-se o médico Siegfried Kronfeld, sua esposa Gerda Kronfeld, e os padres jesuítas Aloysio Köehler e Köveckses Géza (1921-1967). Os Kronfeld foram a Viena, em 1954, para serem analisados por Caruso. No retorno, depois de um período em Pelotas, eles transferiram-se para Porto Alegre, onde ofereceram atendimento clínico e formação em psicanálise. O Padre Géza fundou e dirigiu os cursos Christus Sacerdos e Ancilla Domini, que visavam a uma formação reciclada do clero, dos religiosos e das religiosas, tentando uma síntese entre teologia, espiritualidade e psicanálise. Esses cursos foram uma versão brasileira da experiência de Cuernavaca, no México. Muitos dos religiosos que participaram destas atividades de orientação carusiana abandonavam as suas congregações. O oferecimento dos cursos foi interrompido pelo prematuro falecimento do seu idealizador e por determinação do Cardeal de Porto Alegre Dom Vicente Scherer*. O padre Köehler será o fundador do curso de Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos em 1972, na cidade de São Leopoldo - RS, uma instituição católica da Companhia de Jesus, fundada em 1969. O movimento carusiano foi durante duas décadas uma importante via de formação psicanalítica independente para psicólogos.
Luiz-Olyntho Telles da Silva (1977, p. 39) resumiu a história do Círculo Psicanalítico em Porto Alegre do seguinte modo:

Em Porto Alegre existe o Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul, o qual oferece a possibilidade de uma formação analítica para psicólogos (assim como para médicos). Este Círculo foi a matriz do Círculo Brasileiro de Psicanálise, fundado em setembro de 1956. Hoje, o Círculo Brasileiro de Psicanálise agrega em seu corpo, além do Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul, o Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, o Círculo Psicanalítico da Bahia, o Círculo Psicanalítico de Pernambuco e o Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro. O Círculo Brasileiro de Psicanálise está filiado à Federação Internacional dos Círculos de Psicologia Profunda (fundado em Viena, em 1947, por Igor Caruso), a qual, por sua vez, está filiada à Federação Internacional das Sociedades Psicanlíticas e à Federação Internacional de Psicoterapia Médica.

Movimento Lacaniano

Os psicólogos foram finalmente atendidos na reivindicação de serem aceitos em programas de formação em psicanálise. Foi um processo lento e gradual. Primeiro, reconheça-se a contribuição dos grupos de orientação carusiana, abrindo a formação psicanalítica aos psicólogos e recebendo os dissidentes da conspícua Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre. Segundo, destaque-se a importância do movimento lacaniano em legitimar a abertura e em revigorar o movimento psicanalítico como um todo. As considerações sobre a história da psicanálise em Porto Alegre nas duas últimas décadas do século XX estão baseadas em Gageiro (2001), Eizirik (1997) e em entrevista com o psicanalista José Luiz Caon, ex-professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRGS.
Tem sido reiterado neste trabalho que os psicólogos interessados em formação psicanalítica foram atendidos entre os meados da década de 1960 e a década de 1970 por grupos de formação carusiana. Ao que parece, os psicanalistas de formação carusiana estavam mais preparados para se expor e para explorar aspectos filosóficos, estruturais e lingüísticos da teoria original. O uso de conceitos estruturais e lingüísticos como regra para uma releitura de Freud era um fato realmente revolucionário, pois colocava a psicanálise no âmbito do grande campo simbólico que caracteriza o pensar e o agir propriamente humano (Gomes, 1986).
O primeiro evento que discutiu as idéias do psicanalista francês Jacques Lacan em Porto Alegre foi organizado pela Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, em 1975, sob a presidência Luiz-Olyntho Telles da Silva, um psicólogo formado pela PUCRS em 1967 e psicoterapeuta de formação carusiana. Para o evento, foi convidado o psicanalista argentino Roberto Harari, por sugestão de um membro da diretoria da Sociedade, a psicóloga Rita Franci, que o havia conhecido em uma viagem a Buenos Aires.
O grande interesse pelo tema fez com que as visitas de Roberto Harari se intensificassem a partir de 1977, em um ciclo de atividades - seminários e atendimento - que terminará em 1988, quando os contatos porto-alegrenses se transferiram de Buenos Aires para Paris. Entre 1978 e 1980, Telles da Silva articulou, juntamente com Harari, a fundação em Porto Alegre de uma instituição destinada à formação de psicanalistas denominada de Maiêutica, a exemplo de instituição congênere, com o mesmo nome, que servia de base para o trabalho de Roberto Harari em Buenos Aires.*
O ano de 1980 foi de grande significado histórico para os seguidores latino- americanos de Lacan. Foi o ano da realização do I Encontro Lacanoamericano. O termo, segundo Gageiro (2001), foi criado pelo próprio Lacan e o evento foi promovido pelo Département de Psychanalyse Paris VIII - Vincennes e pelo Ateneo de Caracas. O Encontro contou com a presença de lacanianos da Argentina, Brasil, México, Equador, Colômbia, Venezuela, Espanha, Austrália e França. O Rio Grande do Sul se fez representar por Luiz-Olyntho Telles da Silva. De acordo com Gageiro (2001), Jacques-Alain Miller, um psicanalista e genro de Lacan, antevia na América Latina um solo fértil para as idéias lacanianas, ao contrário da indiferença dos norte-americanos. O evento foi, inclusive, noticiado e comentado na impressa local através do jornal Zero Hora de 11/08/1980 (Gageiro, 2001).
Na virada da década, o movimento lacaniano estava em franca expansão, como se pôde constatar pelos relatos de estudantes ligados ao Centro Acadêmico do Curso de Psicologia da UFRGS, num evento organizado, em 1981, reunindo mais de mil pessoas. O evento contou com a participação dos psicanalistas Hélio Pelegrino e Abrão Slavutsky e do filósofo Ernildo Stein. O objetivo principal era a discussão dos avanços na Psicologia, Psicopedagogia, Psiquiatria e Psicanálise. Na base das discussões estavam as idéias lacanianas. No ano seguinte, os estudantes da UFRGS organizaram outro evento de muito sucesso intitulado "Mo(vi)mento Psi". O evento repercutiu na imprensa local e uma crítica nele veiculada referia-se à falta de integração entre profissionais de saúde mental, em referência à Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, que embora convidada não compareceu aos debates (Gageiro, 2001).
Enquanto o movimento lacaniano se fortalecia, a Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre enfrentava algumas crises. A liderança de David Zimmermann começou a ser contestada pela nova geração de psicanalistas, levando o professor a antecipar sua aposentadoria e a criar uma nova instituição. Na Sociedade Psicanalítica, o descontentamento da nova geração repercutiu na renovação do quadro de analistas didatas. Neste mesmo período, primeiros anos da década de 1980, o Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal mudou-se do Hospital Psiquiátrico São Pedro para o Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Eizirik (1997, p. 7) descreveu a mudança na imprensa local nos seguintes termos:

A partir da década de 80, um novo rumo foi dado ao curso, bem como ao departamento, acompanhando a tendência da psiquiatria mundial: a mudança para o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), a criação do seu serviço de psiquiatria (recentemente também o de psiquiatria infantil) e a integração definitiva com a Faculdade de Medicina. Nesse cenário, à vertente biológica veio somar-se a psicanalítica e a social.

Na mesma época, a Sociedade Psicanalítica impôs condições consideradas exageradas para aceitar a inscrição de vários médicos brasileiros que voltavam da Argentina com formação em psicanálise, desenvolvida em instituição reconhecida pela International Psychoanalysis Association (IPA). Inconformados, os psicanalistas organizaram uma nova instituição que recebia não-médicos. A essa altura, a American Psychoanalytic Association havia perdido na justiça uma causa, na qual tentava impedir a afiliação de não-médicos. O campo da psicanálise estava legitimamente aberto para os psicólogos. Diante dos fatos, não restou à Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre alternativa senão a de abrir suas portas para outros profissionais. Uma das primeiras, senão a primeira, psicóloga a ser aceita para a formação na Sociedade Psicanalítica foi Inúbia Duarte Andrade, que por longo tempo lecionou Psicologia Clínica no Instituto de Psicologia da PUCRS.
O movimento lacaniano, vai aos poucos, trocando os argentinos pelos franceses e também recebendo contribuições de psicanalistas vindos de São Paulo, como Durval Checchinato e, principalmente, Alduísio Moreira de Souza, que transferiu residência para Porto Alegre*. Nos meados de 1980, Porto Alegre recebeu a visita de psicanalistas integrantes do movimento francês. Foram eles Charles Melman, Marcel Czermak, Christiane Rabant-Lacôte e Contardo Calligaris. Do grupo francês, a maior influência veio do italiano Contardo Calligaris, que se casou com uma gaúcha, permanecendo na cidade por mais alguns anos. Por ocasião da visita dos franceses, o movimento lacaniano estava dividido em vários grupos. Coube a Calligaris, que havia sido analisado pelo próprio Lacan, reunir esses grupos e formar uma grande instituição que veio a se chamar Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA). Estávamos entrando no último decênio do século XX.

 

A hegemonia psicanalítica na formação de psicólogos

Nos últimos anos, cinco dissertações de mestrado (Andrade, 1990; Carvalho, 1992; Furtado, 1997; Gauer, 2001; e Teixeira, 1998) foram dedicadas à formação em psicologia no Rio Grande do Sul. Cada trabalho explora, de alguma maneira, as características da formação em psicologia clínica, ou as influências do pensamento psicanalítico em outras áreas de formação.
O trabalho de Andrade (1990) tratou da influência das teorias psicanalíticas na prática da psicologia escolar no Estado. É traçada uma história do Instituto de Psicologia da PUCRS, a qual serve à análise enquanto definição do contexto de formação dos psicólogos escolares. A pesquisadora considera que a difusão da psicanálise e sua influência no campo profissional do psicólogo são determinantes na história da psicologia no Rio Grande do Sul. São apontados alguns períodos distintos na história da formação superior em psicologia no Estado, no que tange à relação entre psicólogos e psiquiatras. Primeiramente, aquele que vai da regulamentação da profissão e concomitante criação do primeiro curso de graduação na PUCRS, em 1962, até os anos setenta, quando teria havido uma "estreita ligação entre psiquiatras e psicólogos". Naquela relação, os últimos submetiam-se à ordem médica e tinham sua área de atuação restrita à realização de avaliações psicológicas, ou psicodiagnósticos psicanalíticos. No âmbito escolar, essa foi a época de criação, no Estado, dos Centros de Assistência ao Educando (CAEs), cuja estrutura, longe de conflitar com as atividades então usuais na prática do psicólogo, as utilizava como instrumento de cientificização de mecanismos de exclusão nas escolas públicas estaduais. Com a ampliação do campo de atuação profissional no decorrer dos anos setenta, segundo a autora, os psicólogos transformaram-se de meros consumidores a principais agentes divulgadores da psicanálise no Estado. Alterava-se então a relação entre psicólogos e psiquiatras, na medida em que aqueles se convertiam de público-alvo, nas atividades de psicoterapia e supervisão, a adversários destes na luta pelo mercado. Mesmo assim, aos psicólogos teriam ficado reservadas as terapias de orientação psicanalítica, prática considerada menor pelos médicos, em relação à análise propriamente dita. Segundo a autora, nos anos oitenta, ao mesmo tempo em que os cursos de graduação em psicologia se estabeleciam, começavam a ser esvaziados em prol da formação externa em psicoterapia, adquirida geralmente em instituições psiquiátricas e psicanalíticas. Os psicólogos escolares, em especial, embora tenham diversificado suas atividades ao longo desses períodos, limitavam-se a reproduzir em seu campo de trabalho o conhecimento recebido, cumprindo um mandato de instrumento de controle social (Andrade, 1990).
Em comum com o trabalho de Andrade, as dissertações de Furtado (1997) e Teixeira (1998) têm a ênfase em uma das áreas da prática profissional do psicólogo, analisada em seu contexto de formação. Essas duas autoras pesquisaram os programas de disciplinas de psicologia clínica, ou suas equivalentes, em todos os cursos de graduação em Psicologia do Rio Grande do Sul, em funcionamento na época, exceto o da PUCRS. As dissertações de Furtado e Teixeira foram orientadas por Maria Lucia Tiellet Nunes do Instituto de Psicologia da PUCRS.
Furtado (1997) conclui que, nos planos de ensino, a psicologia clínica costuma ser confundida com psicopatologia, com psicanálise, com métodos e técnicas de avaliação e, sobretudo, com a prática psicoterápica. Faltaram definições e limites da psicologia clínica, e não houve correspondência entre o que era ensinado (o que era citado nos programas) e as demandas da realidade social. Em comum, os diversos planos de ensino apresentavam: enquanto objetivo, o treinamento para a prática psicoterápica; no programa de conteúdos, a teoria e a técnica psicanalíticas; e como bibliografia, autores de referencial psicanalítico.
O trabalho de Teixeira (1998) consistiu em investigar as concepções de homem implícitas nos programas das disciplinas de psicologia clínica, ou equivalentes dos cursos de Psicologia do Rio Grande do Sul, exceto o da PUCRS. Por meio de análise de discurso, a autora concluiu que a concepção de homem inerente àqueles programas advém da tradição das ciências naturais e da teoria psicanalítica. A ligação a essas duas posturas científicas corresponderia a uma necessidade de valorização da Psicologia enquanto ciência natural pela sua utilidade. A ênfase na literatura estrangeira, sugerida pelos professores, foi considerada indicador de descompasso com a realidade social brasileira. De acordo com Teixeira, ao mesmo tempo em que os cursos de Psicologia estão voltados à formação técnica direcionada à clínica, seus programas de clínica são vastos a ponto de constituírem verdadeiros currículos de formação, e confusos em suas concepções de homem, resultando numa concepção confusa de psicologia clínica.
Carvalho (1992) entrevistou egressos do curso da UFRGS, graduados entre 1978 e 1983, sobre formação universitária e alternativas de trabalho em psicologia no Estado. Os entrevistados criticaram a qualidade de ensino do curso de psicologia da UFRGS, a pouca ênfase em atividades de pesquisa, e a fragmentação entre as diversas áreas do conhecimento na forma pela qual elas eram apresentadas pelo corpo docente. Os egressos teriam procurado suprir as supostas deficiências do curso através do estabelecimento de grupos de estudo e pesquisa e de outras atividades extra-classe, do que advieram as propostas alternativas de trabalho. A única área considerada satisfatória pelos egressos era a de psicologia clínica, que aparentemente recebia suficiente atenção no curso. A autora concluiu que o fator que mais colaborou para a diversificação das experiências dos alunos não foi tanto o curso de psicologia, mas a matrícula e a convivência em uma universidade federal. Os projetos de atendimento à comunidade eram considerados uma forma de engajamento político por parte dos psicólogos, e, ao contrário do curso formal, as experiências alternativas respondiam às aspirações e necessidades mais prementes da sociedade, sobretudo as dificuldades enfrentadas pelas classes populares. De interesse para a presente análise é o reconhecimento de que a parte mais forte da formação estava justamente na psicologia clínica. Na verdade, a pesquisa só iria fazer parte ativa da graduação em 1988 com a criação do mestrado, mas isto é assunto para o Capítulo 10.
A dissertação de Gauer (2001) esclareceu alguns pontos levantados por Carvalho (1992), em particular, no que se refere à psicologia clínica e à participação dos alunos para manter a profa. Martha Brizio (n1939) à frente da Clínica de Atendimento Psicológico. Brizio graduou-se em Psicologia pela Universidad Nacional de Rosario, Rosario - Argentina, em 1967, passando a integrar o Corpo Docente do curso da UFRGS em 1977. A professora exerceu papel importante na estruturação do ensino e da prática clínica e na difusão da psicanálise no curso da UFRGS.
A psicologia no Rio Grande do Sul nasceu e cresceu em um contexto de estudos e práticas psicanalíticas. Como resultado, os cursos de graduação que se espalharam por todo o Estado seguiram também os referencias teóricos psicanalíticos. Atualmente a psicanálise não é mais uma força hegemônica na psiquiatria gaúcha, mas o movimento psicanalítico continua forte e predominante nos cursos de graduação em psicologia.

 

Referências

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