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Relações entre Psicologia e Filosofia: A psicologia filosófica

 

William B. Gomes


Doutor em Educação pela Southern Illinois University - Carbondale (EUA), com ênfase interdisciplinar em três campos: ensino superior e história da universidade, psicoterapia e pesquisa qualitativa, e fenomenologia e comunicação. Professor do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Durante muitos anos atuou em atividades de psicologia clínica e de psicologia do trabalho e das organizações. Ex-professor do Curso de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (UNESP - Campus Bauru); da Universidade Federal de Santa Maria, e da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Fundador e primeiro editor da Revista Psicologia: Reflexão e Crítica. Bolsista de Produtividade do CNPq. E-mail: gomesw@ufrgs.br

 

O modo como a psicologia se insere no campo geral do conhecimento a coloca em uma condição privilegiada para o diálogo, seja com as demais ciências, com as humanidades ou mesmo com as artes. A psicologia ocupa um espaço privilegiado de interseção entre as humanidades e as ciências. Em processos complexos tipicamente humanos, a psicologia apresenta-se em sua singularidade lógica que é a condição de mover-se entre raciocínios digitais (redução de incerteza, diferenciação probabilística) e analógicos (decifração de ambigüidade, diferenciação de possibilidades). Nesta condição, o diálogo da psicologia com outros saberes é fértil, mas por vezes empobrecido pela insistência em tomar a interdisciplinaridade como suficiência retórica e não como contraste epistemológico.

O diálogo com a filosofia, em particular com a filosofia da ciência e da ética, é imprescindível para o refinamento conceptual e para o exercício crítico de qualquer campo de conhecimento. Neste sentido, as relações entre psicologia e filosofia seguem os padrões das demais ciências, concentrando-se no exame de questões fronteiriças e controversas. Temos como exemplo, o problema ontológico da representação, isto é, se a intermediação simbólica é ou não é imprescindível para comportamento humano (Peter, 2004), ou se a moral deve ser entendida numa perspectiva realista ou pluralista (Kendler, 2002). Questões conceptuais clássicas continuam sendo examinadas à luz de novas evidências e implicações filosóficas. São exemplos, a escolha de abordagem para inferência causal, se co-variação ou mecânica (Newsome, 2003), ou novos dados e interpretações sobre as contribuições da Gestalt para a explicação da experiência consciente (Engelmann, 2002; Lehar, 2003). Por outro lado, temas mais recorrentes na psicologia brasileira se fazem representar em debates tais como: natureza humana e os limites da ciência (Root, 2003), dilemas correntes entre hermenêutica e poder (Richardson, 2002) e limites metafísicos e epistemológicos na classificação científica (Stamos, 2004). A surpresa na literatura internacional está na maior concentração de trabalhos sobre análise de temas, sendo menor as considerações sobre sistemas filosóficos ou filósofos renomados.

Mesmo com maior presença em departamentos e eventos da área da filosofia, a psicologia filosófica vem atraindo a atenção de psicólogos. Há uma sociedade de psicologia inteiramente dedicada às questões filosóficas, a Society for Theoretical and Philosophical Psychology que é associada à Divisão 24 da American Psychological Association (APA), denominada de Theory & Philosophy. As principais revistas da área são as seguintes: Philosophical Psychology; Philosophy, Psychiatry & Psychology; Journal of Theoretical and Philosophical Psychology; e Theory & Psychology. Note-se que os dois últimos periódicos mencionados são publicados pela APA. Infelizmente, a anacrônica dispersão temática das revistas brasileiras impede uma análise comparativa, embora se saiba que várias questões de psicologia filosófica vêm sendo discutidas em periódicos nacionais. De qualquer modo, a preocupação brasileira sobre as relações entre psicologia e filosofia aparece em textos na defesa dos métodos qualitativos (Ferreira, Calvoso & Gonzales, 2002), e da subjetividade (Neubern, 2001); na análise das relações entre psicologia, psicanálise e ciência (Bastos, 2001; Pacheco Filho, 1997), ou na justificação epistemológica de que "no lugar da psicologia explicar o social, é o próprio social que deve explicar o surgimento da psicologia moderna" (Silva, 2004, p. 12).

A apresentação é uma síntese de três diálogos: 1) diálogos com as psicologias dos grandes filósofos; 2) diálogos com a filosofia da ciência; e 3) diálogos com a psicologia filosófica. O primeiro procura esclarecer a concepção de psicológico no pensamento filosófico que vai dos gregos aos primórdios da psicologia experimental. O segundo contrasta o discurso epistemológico das décadas de 1970 e 1980 com o quadro atual neste início do século XXI. O terceiro destaca as principais preocupações e debates da psicologia filosófica nos últimos anos. A apresentação tem limites e espero obedecê-los com humildade. Assim, cabe antecipar que serei sinóptico, privilegiando o global mais do que o específico, e a reflexão pessoal mais do que uma revisão exaustiva da literatura.

Diálogos com as psicologias dos grandes filósofos
Psicologia e Filosofia mantêm entre si uma relação de amor e ódio. Na perspectiva dos primeiros psicólogos experimentais, a influência da filosofia era um mal a ser afastado por impedir os avanços conceptuais e operacionais da investigação científica. Na perspectiva dos filósofos, os psicólogos estavam à deriva, sem clareza de objeto e método. A generalização é problemática, pois os primeiros passos da psicologia experimental se devem a médicos que eram também filósofos. Por sua vez, filósofos preocuparam-se com alternativas de objeto e método para a psicologia, mas os frutos foram lentos e polêmicos. De qualquer modo, o desenvolvimento da psicologia experimental representou para a filosofia uma ameaça de esvaziamento. A psicologia chegava para ocupar o espaço dedicado ao estudo do sujeito cognoscitivo, um campo de descrição e reflexão filosófica por excelência, desde os primórdios do pensamento humano.

A rebelião dos médicos filósofos contra a filosofia tradicional tinha lá suas razões. Era impossível explorar com o único recurso de proposições lógicas, as bases do intelecto (sensação, percepção, memória, consciência, imaginação, pensamento, linguagem), e da motivação humana (apetições, emoções e afetos). Era também necessário clarificar o campo psicológico para não confundi-lo com a moral, e para não levar ao laboratório a pesquisa com os processos complexos como o pensamento. Até então, inícios do século XIX, havia uma grande distância entre a reflexão filosófica sobre as operações do intelecto ou da alma, e a observação médica sobre as relações entre lesões cerebrais, funcionamento mental e comportamento. Para ir adiante, a psicologia deveria romper com um fundamento importante das teorias filosóficas: a especulação sobre a natureza humana.

É difícil resistir à tentação de abordar as relações entre psicologia e filosofia sem relembrar este começo intrigante, quando erros filosóficos retardaram em séculos desenvolvimentos psicológicos importantes, o mesmo ocorrendo com erros psicológicos. Por exemplo, Aristóteles errou ao desprezar as relações entre cérebro e mente já indicados na medicina de Hipócrates (Mueller, 1960). Para ele, o coração era o centro das sensações. Do mesmo modo, Locke errou ao propor a doutrina da tábula rasa que ainda hoje interfere em sérias decisões políticas, confundido igualdade jurídica com igualdade biológica (Pinker, 2002/2004).

A concepção de natureza humana foi a grande disputa entre as teorias psicológicas propostas pelos filósofos. A primeira tarefa dos primeiros psicólogos foi romper com a especulação metafísica para então estabelecer a psicologia como ciência natural. Essas preocupações aparecem com clareza no prefácio de William James (1842-1910) para o célebre The Principles of Psychology de 1981:

Eu devo me manter atento para o ponto de vista das ciências naturais ao longo de todo o livro. Cada ciência natural assume certos dados sem crítica, e declina desafiar os elementos entre os quais as próprias leis obtidas e das quais derivam as deduções. A psicologia, a ciência das mentes individuais finitas, assume como seus dados (1) os pensamentos e sentimentos, e (2) o mundo físico em tempo e espaço com os quais eles coexistem e os quais (3) eles conhecem. Naturalmente, estes dados são discutíveis; mas essa discussão (e de outros elementos) é chamada de metafísica e está fora da província deste livro. O livro, assumindo que os pensamentos e sentimentos existem e são veículos do conhecimento, argumenta que a psicologia, quando verifica a correlação empírica dos vários tipos de pensamento ou sentimento com condições definidas do cérebro, não pode ir além disso que é como faz uma ciência natural. Se for além, transforma-se em metafísica. Todas as tentativas para explicar nossos pensamentos fenomenais dados enquanto produto de entidades profundas (se "Alma", "Ego Transcendental", "Idéias", ou "Unidades Elementares da Consciência") são metafísicas. Este livro conseqüentemente rejeita as teorias associacionistas e espiritualistas; e neste ponto de vista estritamente positivista consiste o único fator sobre o qual eu tento reivindicar originalidade. (James, 1952, p. xiii)

As relações entre psicologia e filosofia são revistas em 1973 pelo psicólogo e historiador Benjamin B. Wolman (1908-2000) em um estudo intitulado Concerning Psychology and the Philosophy of Science. Wolman inicia suas considerações com as definições de ciência e de filosofia. O termo ciência é apresentado como tendo duas conotações: "a busca do conhecimento e os resultados desta busca" (p. 22). O termo filosofia é então definido como o amor à sabedoria, sendo que sabedoria é conhecimento em oposição à ignorância. Como rainha soberana da sabedoria, a filosofia reinou na Grécia Antiga e na Idade Média, prescrevendo regras para o conhecimento humano. Contudo, prossegue Wolman (p. 22),

Os progressos científicos dos Tempos Modernos ultrapassaram a filosofia e a teologia. Técnicos, engenheiros, médicos, navegantes, exploradores e aventureiros produziram mais conhecimento que os eruditos monges e filósofos. A ciência foi criada por homens que necessitavam dela para o comércio, para o trabalho, para o prazer e, sobretudo, para aqueles que estavam à procura dos fatos. Laboratórios e expedições científicas produziram mais conhecimento factual nos últimos três séculos do que jamais foi inventado pelas meditações e especulações.

Para Wolman, as idéias revolucionárias que trouxeram a psicologia definitivamente para o lado da ciência vieram da teoria da evolução e das grandes descobertas da neurofisiologia. Tais movimentos romperam as barreiras artificiais entre o humano e o resto da natureza.
Filósofos e teólogos tomaram a humanidade fora de contexto, mas a biologia, a fisiologia, a neurologia e a moderna psicologia vêem os humanos como parte e parcela do mundo orgânico. Meditações sobre a natureza da alma, da psique, da mente e assim por diante estão sendo substituídas por observações e experimentos sobre o comportamento dos organismos vivos, incluindo o comportamento humano.
(Wolman, p. 23)

As contundentes manifestações de James e Wolman em um intervalo de mais de 80 anos parecem mostrar que a psicologia consolidou-se como uma atividade plenamente científica. No entanto, saltando-se para uma publicação de 2001, How to think straight about psychology, escrito pelo psicólogo Keith E. Stanovich (Universidade de Toronto), já na 7ª edição, lê-se o seguinte:

Existe um corpo de conhecimento que não é conhecido pela maioria das pessoas. Esta informação refere-se ao comportamento humano e à consciência em suas várias formas. Ele pode ser usado para explicar, predizer e controlar ações humanas. Aqueles que têm acesso a esse conhecimento podem contar com recursos valiosos para compreenderem outros seres humanos. Há neles uma concepção mais completa e acurada sobre o que determina o comportamento e os pensamentos de outros indivíduos, o mesmo não ocorrendo entre aqueles que não possuem este conhecimento. Surpreendentemente, este corpo de conhecimento desconhecido é a disciplina de psicologia. (Stanovich, 2004, p. ix)

A psicologia é mesmo um corpo de conhecimento assim tão desconhecido? Stanovich vai responder que sim, com base nas considerações seguintes: 1) falha dos professores dos primeiros anos dos cursos de psicologia em explicar claramente para os alunos o que é psicologia; 2) falha dos professores em promover junto aos alunos o desenvolvimento de habilidades para a análise crítica; e 3) falha curricular dos cursos de psicologia no sentido de incluir um grande número de teorias e abordagens, e vários tipos de experimentos e métodos, sem encontrar tempo para discutir as questões e os mal-entendidos dos novos estudantes. Como exemplo Stanovich traz algumas perguntas e comentários comuns entre estudantes. Por exemplo, os estudantes costumam perguntar se psicologia é mesmo uma ciência real, assim como a química ou a física, se experimentos artificiais de laboratório podem ensinar alguma coisa sobre o mundo real, ou se a estatística tem algum valor para a psicologia. Os comentários de aula são até mais radicais: essa teoria está furada, pois o meu irmão se comporta exatamente ao contrário do que ela afirma, ou são tantas as teorias que a psicologia finda caindo no senso comum ou em alguma opinião exacerbada. Felizmente, os comentários de Stanovich se referem à realidade norte-americana. Assim, qualquer semelhança com a realidade brasileira é mera coincidência.

Tomando a visão dos três autores, nos seus respectivos tempos e contextos, podemos interpretar que a psicologia realmente consagrou-se como ciência e está produzindo grandes conhecimentos. Contudo, apesar de muito difundida, ela é pouco conhecida, mesmo por aqueles que a estudam.

Voltemos aos três autores mencionados. James foi muito claro ao especificar o tipo de dado que a psicologia estava interessada, mas insistia que para ela progredir deveria romper definitivamente com os sistemas metafísicos e suas doutrinas do supra-sensível. Wolman não deixa qualquer dúvida de que a ciência é a porta para as grandes transformações nas relações entre o humano e a natureza, sendo o humano é parte desta natureza. Por fim, Stanovich confirma que a psicologia é realmente uma ciência, seus progressos são formidáveis, mas lamenta que pouca gente saiba disso. Considerando que há entre a publicação de James e a de Stanovich um intervalo de 110 anos, pode-se admitir que haja algum problema com o projeto científico ou com o projeto de divulgação da psicologia. Qual seria o problema? Stanovich vai dizer que a "psicologia, provavelmente mais do que qualquer ciência, requer habilidades em pensamento crítico para permitir aos estudantes a separação entre o joio e o trigo, um problema que se acumula em torno de qualquer ciência" (Stanovich, 2004, p. xi). Menos mal.

O fato é que o campo da psicologia não rompeu com os sistemas metafísicos tão condenados pelos primeiros psicólogos. Algumas décadas depois do célebre The Principles de James, a pesquisa em psicologia experimental dividia-se em tantas frentes que a visão de globalidade e de inter-relação entre fenômenos psicológicos era de difícil discernimento. A reação veio por meio das teorias da personalidade e das teorias de psicoterapia que, ao oferecerem uma visão global do dinamismo humano e das diferenças individuais, traziam embutida a hipótese primeira, em muitos casos uma doutrina metafísica. O problema metafísico das teorias de personalidade e da psicoterapia é facilmente constatado na fidelidade dos seguidores a essas doutrinas e na dificuldade de diálogo entre as teorias. Mesmo que muitas dessas teorias não recorram a princípios fundamentais supra-sensíveis, a definição de natureza humana já é em si uma questão merecedora de análise criteriosa. O problema se agrava diante da atração de psicólogos e estudantes pelas chamadas psicologias alternativas.

Um modo interessante de lidar com essas questões e de desenvolver habilidades de pensamento crítico é o diálogo com os grandes filósofos, em particular com as teorias sobre natureza e comportamento humano. O diálogo com as idéias psicológicas dos filósofos auxilia na identificação dos elementos que devem compor uma teoria de psicologia, e mostra com clareza as perguntas que uma teoria psicológica deve responder. O distanciamento atual destas teorias permite a realização de um exame crítico indolor, sem patrulhamento e sem proselitismo. Como resultado, nós aprendemos a pensar psicologicamente e não através de determinada teoria psicológica.

A filosofia caracteriza-se pelo estudo do amplo e do universal, enquanto as ciências concentram-se no particular, ocupando-se de parcelas da realidade. A filosofia e as ciências, em conformidade com suas características, estão igualmente empenhadas em encontrar e explicar as causas e modos de expressões do real. Mas, a filosofia, em suas análises globais, permite a compreensão gradativa e articulada de temas complexos e controversos.

Parece-me mais vantajoso iniciar-se na psicologia examinando as proposições advindas da reflexão filosófica do que estudando os volumosos e desconexos manuais de introdução à psicologia, alguns dos quais com mais de 800 páginas, divididas em três colunas. Aqui uma advertência se faz necessária. Os manuais de introdução continuam sendo indispensáveis para uma visão acurada da extensão do campo psicológico contemporâneo, mas para usufruí-los deve-se, antes, aprender a pensar criticamente.

Comparando-se as exposições filosóficas sobre o comportamento humano, desde a Antiga Grécia até o século XVIII, nota-se que os fenômenos chamados de psicológico emergem de dois pólos tensionais: a gnose e o éthos: a primeira se referindo à ação de conhecer; a segunda ao lócus onde tal ação se manifesta. Por éthos se entende o conjunto de costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento humano e da cultura, característicos de uma determinada coletividade, época, e região.

A ação de conhecer apresenta-se como a capacidade para interpretar e responder àquilo que ocorre com o agente do conhecimento, com os outros, e com o entorno. Para tanto, espera-se deste agente o domínio de um código ou linguagem, a aprendizagem com a experiência, a empatia e solidariedade com os demais membros da comunidade, e o autocontrole de acordo com as regras do grupo. A relação entre conhecimento e autocontrole está associada à reflexão sobre como é possível o conhecimento e por que o conhecimento orienta o autocontrole. A reflexão ocupa-se então de duas tarefas: discernir a veracidade do conhecimento e explicar a capacidade de conhecer. Tem-se, então, a invenção da filosofia e da psicologia: a primeira ocupando-se da origem lógica, da validade e do valor universal do conhecimento; a segunda, da gênese e do valor individual do conhecimento. A primeira implicação nos remete ao campo da epistemologia (Knowledge, logos, discourse), a segunda ao campo da gnosiologia (théorie de la connascenza). Por influência da língua inglesa, o termo epistemologia acabou consagrando-se como denominador das duas implicações, causando certa confusão entre a capacidade humana de conhecer e de questionar as suas crenças, e a verdade sobre o que é dado como conhecido. A distinção entre gnosiologia e epistemologia facilita o reconhecimento das diferenças entre racionalismo e empirismo quando aplicados à gênese do intelecto (nativismo versus ambientalismo), e à verificação lógica do conhecimento (dedução e indução).

O éthos é o contexto cultural que baliza, que estabelece as regras da moral e do direito, e que confronta e é confrontado pelo comportamento do agente do conhecimento. A psicologia sem a noção do éthos esvazia-se, pois é ela que fornece o olhar externo para variações comportamentais ditas adequadas ou inadequadas, bem formadas ou mal-formadas, normais ou anormais. Portanto, a psicologia ocupa-se das duas faces da questão, procurando explicar tanto a capacidade de conhecer quanto a capacidade de apresentar comportamentos socialmente adequados.

Qualquer comportamento humano é social e qualquer ato humano é moral.

A introdução a essas questões complexas e profundas é grandemente auxiliada pela análise das teorias metafísicas. Essas teorias partem das relações entre: 1) elementos e princípios de vida, 2) sensibilidade (sensações, apetites, paixões, emoções) e 3) racionalidade e inteligência. Note-se a proximidade com a definição de James apresentada acima: (1) pensamentos e sentimentos, e (2) o mundo físico em tempo e espaço com os quais eles coexistem e os quais (3) eles conhecem. As três instâncias são tratadas em suas articulações e contrastes. Por exemplo, qual a relação entre sensibilidade e racionalidade? Qual seria a via para um conhecimento confiável? Qual a diferença entre percepção e imaginação? Qual a relação entre sonho, memória, e consciência? Como são formados os hábitos? E o que ocorre quando alguma dessas funções adoece? As teorias vão além se preocupando em decifrar os embates entre a racionalidade e as paixões, e em entender a vontade: a iniciação de uma ação, o exame das razões para realizá-la ou não, e a decisão para agir do modo escolhido ou não. Todos esses elementos são compreendidos por um princípio fundamental (ontologia) supra-sensível (racionalismo) ou não (empirismo) que serve de base para as intervenções educacionais e psicológicas. A vantagem deste exercício crítico é a comparação dos elementos básicos e das regras de relações, com as explicações que a teoria fornece. Talvez, se a psicologia não fosse tão vulnerável à mistura do joio com o trigo, como falou Stanovich (2004), não necessitássemos deste esforço. Em compensação, começa-se a conviver com um grande número de nomes e idéias que freqüentam assiduamente os periódicos de psicologia, os diários de notícias, o teatro e o cinema (Sócrates, Platão, Aristóteles, Agostinho, Aquino, Lutero, Descartes, Espinosa, Leibniz, Locke, Berkeley, Hume, Reid, e Kant). Ainda é bem provável que se obtenha uma noção mais clara das relações entre teoria e prática. No Brasil, as relações entre filosofia, idéias psicológicas, e ética no período colonial vêm sendo investigadas, do ponto de vista histórico e teórico, por Marina Massimi (ver por exemplo Massimi, 2001).

O estudo das idéias psicológicas me parece valioso para se discernir os ingredientes necessários a uma teoria psicológica. Teoria, neste contexto, apresenta-se como generalista, mais afeita à idéia de sistema ou macroteoria. É bem verdade que a preferência atual é por microteorias que são específicas, econômicas, e ágeis na solução de problemas. Mesmo reconhecendo o valor das microteorias, das especialidades e das linhas de pesquisa, a compreensão abrangente, mesmo que superficial, do campo de ciência a que se pertence faz bem ao profissional e ao pesquisador.

Diálogos com a filosofia da ciência

Para Wolman (1973), a transformação da psicologia em ciência autônoma deixou a filosofia sem objeto de estudo, cabendo aos filósofos uma outra missão: assumir a leitura crítica das ciências.

Filósofos da ciência não são filósofos no sentido tradicional e tem pouco a ver com a visão de mundo dos sistemas metafísicos (...) eles não descobrem ou trazem qualquer conhecimento sobre astronomia, física, biologia e psicologia, mas analisam os trabalhos e as palavras dos astrônomos, dos físicos, dos biólogos, e dos psicólogos. A tarefa destes filósofos é estudar a ciência. Neste sentido, eles estão contribuindo enormemente no desenvolvimento de métodos para a análise formal do trabalho científico. (Wolman, 1973, p. 23)

Nos anos 1970 e 1980, vários cursos de psicologia deram início a um conjunto de atividades para o estudo da filosofia da ciência. As atividades consagraram-se nas aulas de epistemologia que se caracterizaram como extremamente críticas ao projeto de ciência natural da psicologia. Na época, difundia-se entre nós um projeto empírico para as ciências humanas, tendo a linguagem como empiria. As idéias francesas sobre marxismo, estruturalismo, fenomenologia e existencialismo animavam nossas aulas e debates. Essas teorias exerciam forte influência em estudos literários, filosóficos, cinematográficos e psicanalíticos. Os resultados manifestaram-se de diversos modos: na polarização entre ciências naturais e ciências humanas; na emergência de uma psicologia social de orientação crítica, ou sócio- histórica; e na procura por cursos de pós-graduação na área da filosofia ou da lingüística por parte de muitos psicólogos. Uma decorrência metodológica do período e ainda presente em nossa academia é um certo entendimento de coerência epistemológica. Tal coerência é avaliada na habilidade de ser capaz de conduzir a pesquisa, de acordo com um determinado referencial, seja um autor ou teoria. Por exemplo, se o autor de referência é Piaget, Lacan ou Foucault, deve-se permanecer restrito às posições do autor ou a de seus intérpretes, e jamais usá-los como uma referência de passagem em um texto geral. Fossem essas as regras epistemológicas, os autores mencionados não teriam alcançado tão grande impacto. Esclareça-se, contudo, que a base referencial é necessária, mas a análise comparativa de conceitos e o apoio da evidência empírica são fundamentais para o avanço do conhecimento.

Na década de 1990, notou-se um acentuado declínio na polarização entre ciência natural e ciência humana nas discussões psicológicas na literatura internacional. No Brasil a polarização continuou marcante. Contudo, a grande popularidade alcançada pelas pesquisas qualitativas contribuiu para uma aproximação entre pesquisadores qualitativos e quantitativos. É óbvio que há ainda um radicalismo remanescente que mantém o reducionismo para as duas pontas (natural ou humano; quantitativo ou qualitativo, objetivista ou subjetivista), mas há também uma maior abertura e mesmo um amadurecimento na discussão destas questões. Do mesmo modo, reconhece-se no Brasil o grande interesse dos psicólogos por abordagens sociais e subjetivistas, mas a relação com a epistemologia caracteriza-se muito mais pela procura de coerência metodológica do que pela primazia da verdade. Esses avanços estão associados em grande parte ao desenvolvimento dos programas de pós-graduação stricto sensu.

Epistemologia pode ser definida como a estrutura subjacente que delimita os modos como os objetos são percebidos, agrupados e definidos. Neste sentido, o termo epistemologia ou episteme passou a ser usado tanto para se referir à certeza, quanto à suposição, ou mesmo à opinião. Em 2001 a Universidade de Stanford lançou uma Enciclopédia de Filosofia on-line e de acesso livre . Os verbetes, escritos por filósofos renomados, ensejam um diálogo produtivo com diferentes epistemologias, por exemplo, bayesiana, evolucionária, feminista, moral, naturalizada, social, e da virtude. Os textos tratam tanto de questões tradicionais, digamos as conexões entre nossas sensações e a percepção do mundo (epistemologia naturalizada); quanto de questões recentes, digamos o desenvolvimento de formas lógicas para tomada de decisão (epistemologia bayesiana), a influência de gênero na justificação do conhecimento (epistemologia feminista), e a influência das práticas sociais no desenvolvimento científico (epistemologia social). As posições são controversas, mas os ensinamentos estão na maneira de como as perguntas são formuladas.

Tome, por exemplo, a epistemologia da moral e pergunte: como se faz possível o conhecimento da moral? A resposta é problemática. A perspectiva sociológica defronta-se com duas possibilidades opostas: 1) fatos morais não existem e os conflitos devem-se, muito mais, à sensibilidade moral do que aos fatos morais; ou 2) existe conhecimento moral, mas os fatos morais dependem dos valores do grupo e por isso não são verdades universais. A perspectiva psicológica traz o problema do julgamento moral como dependente de motivações intrínsecas, sendo impossível falar-se de conhecimento da moral. A perspectiva ontológica vai perguntar o que é moral? A resposta vai depender de uma outra análise: moral é uma realidade natural ou supra-sensível, internalista ou externalista? Logo, o conhecimento moral dependerá da definição de sua realidade. A perspectiva feminista entende que o encaminhamento da questão é suspeito, pois pode trazer critérios implícitos de verdade que têm prejudicado mulheres ao longo do tempo. Enfim, como se mover em tamanha controvérsia? O filósofo Richmond Campbell (2003) sugere que uma possibilidade é fazer a distinção entre crenças morais e a representação da realidade moral.

Diante da variedade de epistemologias, pode-se argumentar que a tarefa do pesquisador resume-se a escolha da teoria que se ajusta a seu modo de conhecer ou ao que quer conhecer. No entanto, há um forte movimento entre filósofos contrários ao relativismo epistemológico. A crítica à epistemologia é, no entanto, favorável à psicologia. Quine (1969) defendia que os filósofos deveriam recorrer à psicologia cognitiva e às neurociências, sob o argumento de que "as boas razões" devem ceder o lugar à "evidência adequada" (Feldman, 2001). No momento, grupos de filósofos estão acompanhando atentamente o desenvolvimento das teorias da mente para reverem suas explicações epistemológicas. O filósofo Robert Audi, editor do The Cambridge Dictionary of Philosophy (Audi, 1999) disse em artigo recente (Audi, 2000) que um entendimento corporificado de epistemologia, filosofia da ciência, filosofia da mente, e ética é a tendência mais difundida e influente na filosofia contemporânea. Com efeito, é esta tendência que vem se sobressaindo na literatura denominada de psicologia filosófica.

Diálogos com a psicologia filosófica

O interesse da psicologia filosófica abrange todas as frentes da psicologia contemporânea. Como exemplo podem ser citados: a influência da neurociência cognitiva e da psicologia biológica na compreensão de seres humanos; o manejo de saúde mental na prática psicoterapêutica; as implicações éticas da pesquisa e da prática profissional; o lugar da espiritualidade; o papel dos métodos qualitativos em psicologia, entre os quais a fenomenologia, a psicologia cultural, a narrativa e a análise de discurso; e as perspectivas feministas e pós-modernistas para o conhecimento psicológico. Para esta breve menção aos debates contemporâneos entre psicologia e filosofia, vou me limitar aos problemas da representação, da experiência consciente, da vontade, e da moral.

A representação mental é caracterizada como um problema sério a ser esclarecido pelos filósofos da mente. O filósofo australiano Peter Slezak (2002) resumiu o problema do seguinte modo:

O mesmo tópico foi central na famosa controvérsia entre Antoine Arnauld e Nicolas Melebranche no século XVII, e também central na tradição das "idéias" nos escritos de Locke, Berkeley, Hume, Reid e Kant. Este padrão de recorrência é um fato intrigante. Contudo, a literatura em ciência cognitiva pouco acrescentou à história dos primeiros pensadores da filosofia moderna.

Por conseguinte, o filósofo John Yolton (1996), um estudioso da relação entre percepção e realidade, disse ter muita esperança de que a leitura dos primeiros pensadores da idade moderna possa nos ajudar a entender como nós podemos ter representação (cognitivamente) e realismo.

Os dois grandes fantasmas desta discussão são as definições do esquema básico da representação, e a recorrente ameaça do homúnculo (a idéia da existência de um ser interior). O esquema usado para definir representação contém três partes: o que é representado (mundo), a representação (idéia), e o usuário da representação (mente). A falha do esquema, segundo Slezak (2002) é não fazer a distinção entre representações internas e externas, e pensar que a idéia se interpõe entre o mundo e a mente. No entanto, as soluções apresentadas são no mínimo problemáticas. A redução do modelo triádico para o modelo dual transforma-se em três prováveis soluções insatisfatórias, pois um dos componentes terá de ser excluído. A exclusão da idéia leva ao realismo radical, pois os objetos seriam presenças literais para a mente, não haveria ilusões, por exemplo. A exclusão do mundo traria de volta o solipsismo de Berkeley ou a autonomia da subjetividade. Por fim, a exclusão da mente acabaria com qualquer projeto de psicologia, e o sujeito cognoscitivo não passaria de um robô. Na base de toda essa polêmica está a controvérsia sobre os dados experienciais: o problema dos dados da primeira pessoa.

Dados experienciais e primeira pessoa remetem à tradição filosófica da fenomenologia. Aliás, quando se fala na relação entre psicologia e filosofia, a fenomenologia e o existencialismo aparecem como referências obrigatórias nos nomes de Brentano, Husserl, Jaspers, Heidegger, Sartre, e Merleau-Ponty. Essas abordagens foram responsáveis por uma reaproximação temática entre psicologia e filosofia, nos meados do século XX, com repercussão no campo da psicopatologia, da psicoterapia e da pesquisa qualitativa. Não seria surpresa afirmar que o diálogo entre psicólogos e filósofos continua animador, justamente, em torno dos conceitos fenomenológicos de experiência consciente e intencionalidade. A surpresa deste diálogo entre psicólogos e fenomenólogos está no seu objetivo: a naturalização da fenomenologia. O mais surpreendente é que esses diálogos, fundamentados em pesquisa empírica e análise filosófica, estão trazendo contribuições importantes para uma compreensão mais articulada e integrada da teoria psicológica.

Na verdade, a naturalização da fenomenologia teve início com a filosofia de Merleau-Ponty (1942/1975, 1945/1994), reintegrando as observações de Husserl sobre o fenômeno da consciência com a estrutura de como a consciência é vivenciada no corpo. Por volta de 1990, investigações reconhecidas como neurofenomenologia receberam grande impulso, sob a liderança do proeminente neurocientista Francisco Varela.

No final da década, um grupo de pesquisadores e professores de instituições francesas (Petitot, Varela, Pachoud, & Roy, 1999) organizou um livro intitulado Naturalizing Phenomenology, publicado pela editora da Universidade de Stanford. O objetivo deste grupo interdisciplinar (neurocientistas, epistemólogos aplicados, e filósofos husserlianos) foi reforçar a pesquisa científica da cognição com o auxílio da fenomenologia de Husserl, e também transformar a própria fenomenologia com os recursos da neurocognição.

Como se sabe, as pesquisas em cognição sofreram muitos percalços ao longo de século XX. Experiência e cognição, enquanto consciência, constituiu o primeiro foco de pesquisa em psicologia experimental. Limitações instrumentais e metodológicas desviaram a atenção da cognição para o comportamento, perdendo-se no percurso os dados de primeira pessoa, aqueles dados experienciais ou subjetivos, tão caros aos experimentos em psicofísica, no século XIX. A novidade do dado comportamental de terceira pessoa desqualificou o dado experiencial de primeira pessoa. Quando se retorna à cognição, por volta dos anos 1960, assume-se a perspectiva da terceira pessoa, deixando de lado a subjetividade (primeira pessoa). Gradualmente, os pesquisadores em cognição, fortemente influenciados pelos sistemas computadorizados de informação e pela inteligência artificial, foram encontrando dificuldades na análise dos dados cognitivos. Tais dados não se enquadravam em esquemas da lógica formal. Diante desta limitação, alguns cognitivistas foram aos poucos introduzindo dados de primeira pessoa ao solicitar relatos verbais dos sujeitos de pesquisa. A aliança entre cognição e fenomenologia é um programa interdisciplinar na procura de soluções epistemológicas satisfatórias para os dados de primeira pessoa e para a estrutura cognitiva da percepção de tempo.

A aproximação entre fenomenologia, cognição e neurociência foi incentivada pelos resultados obtidos por Luria (1981) e outros neurologistas em pacientes com desordens cerebrais. Em 1990, o renomado geneticista Francis Crick, prêmio nobel da medicina, lançou um livro sobre a busca científica da alma (Crick, 1998). Interessado nas repercussões, ele reuniu vários cientistas e filósofos para o estudo da consciência. Tais investigações foram grandemente auxiliadas pelo desenvolvimento de tecnologias como funcional Magnetic Resonance Imaging (fMRI), Positron Emission Tomography (PET), e Magnetic Encephelography (MEG), viabilizando a representação das correlações entre atividade neural e experiência consciente.

A colaboração de filósofos e cientistas tem permitido um refinamento conceptual importante para a teorização em psicologia. Figueiredo (1989) em seu popular Matrizes do pensamento psicológico fez uma clara distinção histórica e conceptual entre psicologias funcionais e psicologias compreensivas. Tal dicotomia está sendo superada pelo trabalho conjunto entre filósofos e cientistas. O neurocientista italiano Vittorio Gallese e o filósofo alemão Thomas Metzinger escreveram recentemente um artigo intitulado Motor ontology: The representational reality of goals, actions and selves (Gallese & Metzinger, 2003). Os autores, baseados em resultados neurocientíficos, mostraram como o sistema motor contribui e participa da experiência consciente, e da emergência da primeira pessoa. Para eles, "o sistema motor constrói objetivos, ações e selves intencionais enquanto constituintes básicos do mundo que interpretam" (p. 384). Na mesma direção, Clément e Malerstein (2003) articularam a análise filosófica com a psicologia do desenvolvimento para explicar a ontogênese da consciência, oferecendo uma descrição empírica para o desenvolvimento da intencionalidade nos primeiros meses de vida. Intencionalidade refere-se ao direcionamento da consciência, como resume a frase tão popular entre nós: consciência é sempre consciência de alguma coisa.

Na primeira parte desta apresentação, sintetizei o núcleo central das idéias psicológicas em torno do conceito de vontade (volição), enquanto campo onde ocorrem os embates entre a gnose e o éthos. Pergunta-se então: por que um agente, embora julgue que A é melhor e decida por A, faça voluntária e intencionalmente B? Os avanços nas pesquisas sobre volição estão aqui representados nos trabalhos do neurocientista cognitivo Jing Zhu, da Academia Chinesa de Ciências. Zhu (2004a) inicia sua argumentação em favor do resgate do conceito de volição, apoiando-se no célebre artigo de Hilgard (1980), intitulado A trilogia da mente: Cognição, afeição e conação. Em seu artigo, Hilgard lembrou que até o início do século XX filósofos e psicólogos sustentavam que a volição era a propriedade essencial para o direcionamento consciente da ação (conação).
Volição é definida como um processo executivo mental que faz a intermediação e a ligação entre as deliberações, as decisões, e os movimentos corporais voluntários (Zhu, 2004a). A definição dá conta tanto do entendimento clássico - volição como processo iniciador da ação; quanto do entendimento contemporâneo - volição como controle executivo essencial da ação na implementação da intencionalidade. A ação é descrita como um movimento precedido pelo pensamento, em combinações apropriadas de crenças e desejos, intenções ou razões. Searle (2001) dividiu as relações entre pensamento e ação em três partes: razões para decisão; decisão para ação, e execução da ação. O problema, segundo o autor, são as falhas entre as partes:

Tanto quanto informa nossa experiência consciente, as falhas ocorrem quando crenças, desejos e outras razões não são experienciadas como condições causais suficientes para a decisão (a formação a priori da intenção); quando a intenção a priori não coloca a condição causal suficiente para a ação; e quando a iniciação do projeto da intenção não coloca condições suficientes para a continuação ou finalização da ação. (Searle, 2001, p. 62)

Note-se que na perspectiva de primeira pessoa a falha pode ou não se apresentar como uma fonte de insatisfação experiencial (estar feliz ou infeliz com o que se fez), o mesmo ocorrendo com a perspectiva de terceira pessoa (estar feliz ou infeliz com o que o outro fez). A situação poderia ser amenizada se compartilhada na perspectiva de segunda pessoa (intersubjetividade), compartilhamento da falha: todos somos incapazes de atender as exigências dos nossos desejos. A breve digressão é apenas para mostrar o encontro entre a gnose (sujeito cognoscitivo) e o éthos (a perspectiva do grupo), ou as relações da psicologia como ciência básica (processos básicos, psicopatologia, cognição social) e como aplicação (psicoterapia, educação, comunidades, hospitais, ambiente, etc.).

As falhas da ação e a implicação ética decorrente são aqui ilustradas por estudos das filósofas Roskies (2003) com o sugestivo título: São julgamentos éticos intrinsecamente motivacionais: Lições de uma "sociopatia adquirida"; e Greenspan (2003) intitulado Psicopatas responsáveis. A sociopatia é um distúrbio mental no qual o agente apresenta comprometimento na capacidade para seguir regras morais como base racional de ação. O debate filosófico concentra-se no impasse entre liberdade e determinismo nestes casos reconhecidos como impedimentos motivacionais.

Roskies mostrou como evidências empíricas em psicologia podem contestar posições filosóficas sobre princípios éticos a priori, por exemplo, que as crenças morais são intrinsecamente motivadas (ética internalista). Como evidência, a autora menciona o caso de pacientes com lesões cerebrais que são capazes de fazer julgamentos morais, mas se mostram incapazes de seguir regras morais. Por sua vez, Greenspan propôs critérios para a avaliação e responsabilização de comportamentos tidos como sociopatas, com base em análise de casos clínicos. Para ela, há diferenças entre sociopatias decorrentes de maltratos na primeira infância, e de deficiências congênitas como lesões cerebrais ou problemas neuroquímicos. Tais condições devem ser tratadas diferenciadamente do ponto de vista da responsabilidade ética e legal. De interesse, é ressaltar a importância da pesquisa psicológica para as discussões filosóficas contemporâneas com relação à ética (comportamento).

A esta altura, a pergunta óbvia é se há volições não-conscientes. Com efeito, nem todas as ações voluntárias envolvem volições, mas volições não-conscientes são implausíveis:

Há estados mentais inconscientes ou processos envolvidos na produção e controle da ação do agente, das quais o agente não tem acesso consciente ou não está ciente, mesmo assim, é inapropriado do ponto de vista conceptual a aplicação do termo volições não-conscientes, pois diminuem e empobrecem o vocabulário filosófico e científico. (Zhu, 2004b, p. 317)

Estudos científicos da volição e do desejo, com base em achados das neurociências, evidenciam a correlação entre processos mentais e processos cerebrais. Funções e processos mentais superiores tais como consciência, atenção e controle motor voluntário distribuem-se e interagem com várias regiões cerebrais, sugerindo que os processos psicológicos são globais e integrados. A volição está associada ao córtex cingulado anterior (massa cinzenta localizada na margem medial do hemisfério cerebral). O córtex cingulado anterior participa dos processos de tomada de decisão, das emoções e da regulação dos batimentos cardíacos. É também responsável em tornar memórias novas em memórias permanentes. O córtex cingulado anterior contém um tipo de células nervosas (spindle neurons) só encontradas em grandes primatas e humanos (Gehring & Knight, 2000; Posner & Rothbart, 1998). Para Zhu (2004a, 2004b), as considerações funcionais, fenomenológicas, e neurobiológicas sugerem que a unificação do conceito de volição é viável e consistente.

A controvérsia mais proeminente é sobre a abordagem de primeira pessoa. Pergunta-se, então, a experiência consciente e a representação são conceitos ontológicos cientificamente justificados? Chalmers (1997) acha que sim, mas Dennett (1991) acha que não. Com Chalmers estão vários filósofos entre os quais Varella, Nagel, Searle, Fodor, Levine, Pinker, e Harnad. Com Dennett (1991) estão Quine, Rorty, Hofstadter, os Churchlands, Andy Clark, Lycan, Rosenthal, e Harman. Chegaremos a algum consenso ou continuaremos com as discussões por tempo indeterminado? Só o futuro dirá.

Epílogo

O diálogo com as primeiras relações entre psicologia e filosofia rompe com a ingenuidade do psicólogo, desenvolvendo o pensamento crítico para a análise das relações entre ontologia (o que é), epistemologia (como se justifica) e ética (para que serve), em uma dada teoria. Como resultado, fica-se atento para as relações intrínsecas entre os enunciados ontológicos e éticos - a conhecida ambigüidade entre fatos e valores, ou seja, a transformação de fatos em valores e de valores em fatos. É ainda uma maneira interessante de se iniciar no estudo das bases gerais da teorização em psicologia.

O diálogo com a filosofia da ciência traz um domínio importante de termos básicos que atravessam todas as nossas pesquisas e idéias: empirismo, racionalismo, idealismo, ambientalismo, nativismo, solipsismo, objetividade, subjetividade, funcionalismo, compreensivismo, e naturalismo.

Contudo, a contribuição mais marcante é o desenvolvimento da capacidade para planejamento, execução e análise de dados de pesquisa. A filosofia da ciência contribui para a crítica de métodos e para o cuidado com as interpretações. No entanto, a literatura sobre filosofia da ciência e epistemologia não substitui a literatura sobre história e teoria psicológica. Esses conhecimentos devem ser examinados em conjunto.

O diálogo com a psicologia filosófica traz uma visão ampla e abrangente de uma epistemologia naturalista capaz de incorporar contribuições de diferentes campos do conhecimento, como a fenomenologia e a neurofisiologia. Temas que obtiveram grandes espaços na agenda epistemológica do século XX, como o pós-modernismo, o feminismo, e a sócio-história continuam presentes, mas em menor número de publicações. O crescimento da literatura em psicologia filosófica é facilmente demonstrável pelo aumento do número de publicações. Mas continua uma área de pouco interesse. A divisão 24 da APA é a menor em número de membros, entre as suas congêneres. Tal situação parece-me justificada, pois a ênfase é a concentração focal e intensa na especialidade de aplicação ou na linha de pesquisa que se desenvolve. Neste sentido, a psicologia filosófica é mais uma especialidade, mais uma linha de pesquisa, e assim restrita aos seus simpatizantes e estudiosos.

Com relação ao lugar da psicologia filosófica na formação, embora se reconheça a pertinência, sabe-se que o encaminhamento é complicado. A enorme procura pela profissão leva os cursos para uma orientação mais voltada às aplicações e à prestação de serviços. Estudos básicos e exercícios abstratos de pensamento lógico acabam se restringindo a grupos seletos, dispostos a examinarem as implicações de suas pesquisas e práticas em um plano mais elevado de teorização. Seja como for, o interesse por discussões filosóficas e por interfaces entre psicologia e filosofia está em declínio em nossos cursos de graduação e de pós-graduação. Espera-se que o reconhecimento da importância social da pesquisa empírica, tendo em vista o oferecimento de aplicações seguras e éticas, preserve espaços para teorização e para a crítica filosófica do conhecimento psicológico.

Agradeço as orientandas Daniela Benites e Amanda da Silveira pela leitura crítica e oportunas sugestões.

 

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