O QUE É




Fundamentação
Esse programa pretende desenvolver ações para o desenvolvimento da educação musical na contemporaneidade. A intenção é traduzir conceituações formuladas no âmbito da sociologia e filosofia formuladas nas pesquisas e reflexões sobre ensino e aprendizagem de música, que tomam como base o conceito de cotidiano para as ações de formação de professores. O programa parte da experiência do Grupo de Pesquisa e Estudo Educação Musical e Cotidiano (CNPq/UFRGS), que desde 1996 vem se dedicando a estudos e pesquisas sobre a temática do cotidiano e suas perspectivas para a aula de música. Além dos projetos individuais de pesquisa, essa temática vem sendo discutida em projetos coletivos.

Os pressupostos e os temas fundamentais do campo de estudos do cotidiano sobre os quais o grupo vem debatendo são: em um campo de análise social e filosófica, o que o cotidiano tem de específico?

Quais os pressupostos que o identificam, definem ou especificam? Dessa forma, é possível refletir sobre os pressupostos analíticos e metodológicos de apreensão de processos que constituem o cotidiano e sua relevância para a área de educação musical.

O conceito de cotidiano – Lebenswelt - tem suas origens na fenomenologia de Husserl (1986) que o concebeu de uma forma teórica e não diretamente para a práxis. O conceito foi também amplamente desenvolvido e empregado na sociologia. As teorias do cotidiano ligadas à filosofia e sociologia são extremamente diversificadas, e tomam como referência, tanto a tradição interacionista, inspiradas nos trabalhos de Garfinkel (1984), quanto uma renovação da sociologia compreensiva (Berger & Luckmann 1994; Schütz & Luckmann 1991) ou novas correntes da fenomenologia (Waldenfels 1985, 1995).

A contribuição da fenomenologia fica evidente não só nessas abordagens, mas, também, nas correntes marxistas que retomam o tema, como os trabalhos de Lefebvre (1991, 1992) e Heller (1992, 1994), para citar dois dos autores mais conhecidos no Brasil, no que diz respeito às questões do cotidiano. Heller (1994), partindo de teorias marxistas elabora um tratado do cotidiano procurando extrair as características descritivas da vida cotidiana e criar uma ontologia desta. Heller (1992: 17) define o conceito de vida cotidiana como a vida de todo homem e todo homem já nasce inserido na vida cotidiana: “a vida cotidiana é a vida do homem inteiro”. É no espaço coletivo – social – que cada pessoa participa da vida diária e valoriza nas suas ações e nos seus discursos os aspectos da sua individualidade e da sua personalidade: sua capacidade intelectual, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, suas paixões e suas ideologias. Através da rotina e na convivência com outros, o indivíduo experimenta e aprende os costumes e os valores do seu espaço e do seu tempo. Nessa esfera do ser social, o indivíduo apropria-se da linguagem, dos objetos e instrumentos culturais, bem como dos usos e costumes de sua sociedade. Sem a apropriação dessas objetivações, segundo Heller (1992), seria impossível a sua existência e convivência em qualquer sociedade humana, independentemente do nível de desenvolvimento dessa mesma sociedade.

Outra abordagem entende o cotidiano como uma dimensão em que os indivíduos colocam em ação as chamadas “táticas de resistência” (DeCerteau, 1994). Nas pesquisas sobre a vida cotidiana, DeCerteau (1994) tem como hipótese central que seria um erro “supor que o consumo das ideias, valores e produtos pelos anônimos sujeitos do cotidiano é uma prática passiva, uniforme, feita de puro conformismo às imposições do mercado e dos poderes sociais”. Os “consumidores” de todos os tipos de bens materiais e culturais criam astúcias “para esvaziar todas as pretensões de uniformização e obediência mantidas pelos gestores da vida pública.” Assim, as astúcias criadas pelos “consumidores” compõem uma “rede de uma antidisciplina” que, majoritária na vida social, quase sempre aparece como “resistência” ou inércia com relação às imposições sociais. Na obra A Invenção do Cotidiano, DeCerteau (1994) busca captar as “artes de fazer”, tentando ampliar a visibilidade dessas ações e compreendê-las em sua originalidade, bem como em suas particularidades de produção e desenvolvimento.

Cada uma dessas abordagens sobre a vida cotidiana apresenta o seu corpus teórico definido e, consequentemente, seus métodos de trabalho. Mesmo considerando que o conjunto de teorias do cotidiano forma um leque bastante amplo, é possível discernir algumas convergências: todas elas se distinguem pela renovação dos estudos empíricos, por uma atenção orientada para a pesquisa de campo que privilegiam atividades sociais estruturantes. Todas elas se distinguem, igualmente, pelo deslocamento de seus interesses, deixando o âmbito da macroanálise em direção aos patamares mais restritos da realidade. DeCerteau (1994), por exemplo, ao analisar “as maneiras de fazer cotidianas” das massas anônimas, dá ao “minúsculo”, ao “vivido”, ou ao “rumor sem qualidade”, o estatuto de objeto científico. Para tal, dedica observações generosas sobre práticas desdenhadas ou tidas como secundárias por outras abordagens.

As teorias do cotidiano insistem na importância do senso comum, não como uma instância fechada, mas como um pré-requisito para a análise do vivido, para âmbitos de suspensão, isto é, da dialetização da práxis cotidiana e de análise científica. Reconhecem que o senso comum possui sentido e que pode também se transformar na força da sociedade. De uma maneira geral, as teorias do cotidiano analisam os processos de construção simbólica e as regras implícitas e explícitas no mundo da vida cotidiana privilegiando as relações intersubjetivas. Partem da concepção de que “a sociedade é uma construção em círculos concêntricos a partir das interações simples, e consideram a vida cotidiana como o âmbito no qual se cria e se compreende o sentido do social.” (Teixeira, 1991).

A literatura que investiga o cotidiano como um espaço social e moral acredita nele como um lugar onde se constroem, em detalhes, as relações com os outros e na qual se constitui o “mundo vivido” e onde o patrimônio comum da humanidade é criado e sustentado. É nele que se desenvolve uma competência ética e intercultural, isto é, a capacidade para refletir sobre a própria impregnação cultural, se conscientizar sobre os componentes culturais e estruturais próprios; compreender diferentes ideias culturais e valores bem como a capacidade de, a partir, daí conduzir um diálogo. Presume também que é por meio das ações e interações que se fazem as continuidades das experiências. Argumenta que não se concebe nenhuma ética sem comunicação, e que toda comunicação envolve mediação. Nesse caso, a mediação é vista como um processo transformador no qual a maioria dos valores e crenças é construída.

Nas pesquisas que o "Grupo Educação Musical e Cotidiano” vem desenvolvendo (Souza 2008), existe o esforço de manter uma clareza mínima sobre o conceito quando aplicado especificamente à educação musical. Isso não é uma tarefa fácil considerando a imensa literatura disponível sobre o tema. A busca pela “limpeza” das várias camadas que o conceito oferece vai se fazendo a partir das experiências empíricas de campo. Nessa perspectiva seguimos a sugestão de Richter (1998) de que não seria desejável uma objetividade científica em relação ao conceito, deve-se tratar de uma realidade viva da vida e considerar que o conceito de cotidiano traz sempre o humano. Para Welter (1986:39), talvez nem seja mesmo possível uma definição única, pois, o cotidiano não seria um objeto, (Gegenstand) mas um estado (Zustand) que sempre exigiria novos esforços descritivos e conceituais. Por essa razão, não se deve tomar o conceito de cotidiano por ele mesmo. Deve ficar claro que se trata sempre de uma interpretação do conceito.



 
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