VITALIDADE CULTURAL

VITALIDADE CULTURAL na escola e na formação dos professores

Cultura contemporânea: a lente da vitalidade cultural

A sociedade contemporânea vem passando por mudanças significativas que refletem na visão de cultura, escola, processo de ensino e aprendizagem, desafiando a construção de caminhos no cotidiano escolar que dêem conta da diversidade e do multiculturalismo. A expressão “centralidade da cultura”, Hall (1997), refere-se exatamente à forma como a cultura se insere em cada um dos espaços da vida social contemporânea, contribuindo no modo como o cotidiano é configurado e modificado.

Na última década atividades de artes e da cultura passaram a ser consideradas como um catalisador para o desenvolvimento econômico, social e sustentável. Esta é uma das razões para as políticas públicas estarem voltadas para a discussão da revitalização cultural já que as atividades que envolvem ações culturais e artísticas podem fortalecer a comunidade em sua identidade e tradições fortalecendo conceitualmente a concepção de cultura em contraponto ao conceito de arte.

Atualmente outra interpretação está ganhando aceitação e legitimidade: o olhar para a vitalidade cultural - “cultural vitality”- evidenciando a criação, difusão, validação, legitimação e apoio as artes e a cultura como uma dimensão da vida cotidiana. (MATARAZZO, 1999, JACKSON,2008)

A principal questão é que a atividade cultural ainda é vista principalmente como um objetivo, finalidade, resultado, não sendo considerando o processo pelo qual se desenvolve. As autoridades nas cidades tendem a ver os teatros, museus, bibliotecas e demais equipamentos culturais como mercadorias intrínsecas ao espaço urbano e que qualquer lugar deve ter. Como tal, estes espaços culturais não constam da lista de prioridades locais por causa do reconhecimento generalizado de que as escolas, serviços sociais e habitação devam vir em primeiro lugar. Mas a escola é um meio de promover a educação e o desenvolvimento das crianças e jovens, uma instituição importante para o fortalecimento e vigor cultural artístico da comunidade local.

Diálogo da Escola e Cultura na comunidade local

A escola tem papel fundamental na formação da identidade das crianças e jovens, com impacto no seu desenvolvimento pessoal e social, e precisa ter clareza da necessidade de “positivar a diversidade” da qual é constituída. A identidade do indivíduo vai sendo construída por meio das relações socioculturais estabelecidas com a família, os amigos e a escola, o que vai tornando-o consciente de sua singularidade, do diferente, da diferença. Não se pode conceber uma experiência pedagógica “desculturizada”, em que a referencia cultural não esteja presente, pois a escola é, sem dúvida, uma instituição cultural, acentuada pelas relações entre escola e cultura presentes em todo processo educativo. (CANDAU,2003). É neste contexto que é possível construir espaços entre o conhecimento universal e aquele conhecimento cultural que está ali presente na cultura local, como patrimônio cultural das pessoas que vivem e freqüentam o entorno da escola.

A compreensão e o respeito à diferença é a primeira postura que se deve ter como educador, a segunda é compreender que essa individualidade que cada criança/jovem carrega faz parte de uma coletividade (grupo étnico, econômico, regional, etc.) e, por último, a postura do educador seria de estimulador do desenvolvimento dessa criança/jovem em seu conjunto, observando os aspectos emocionais, cognitivos, físicos e culturais, sendo necessário a partir disso romper com os preconceitos e estereótipos, rejeitar estigmas e valorizar a história de cada um. As artes em seus diferentes segmentos na escola básica (artes cênicas, artes visuais, música, dança, literatura) também podem contribuir para que se estabeleça respeito às diferenças. O ensino das artes possibilita ao professor estabelecer uma ponte entre a cultura do educando e a cultura universal, legitimando a partir disso, os saberes e valores culturais dos diferentes grupos étnicos.

Construir o currículo com base nessa tensão não é tarefa fácil. Mas é através de um diálogo entre a educação e a cultura que a escola viabiliza através da valorização, em sua grade curricular, do patrimônio cultural presente na comunidade local, nos diferentes grupos sociais, etnias e representações, e não apenas na história oficial, por vezes apresentada com abordagens folclorizadas e pitorescas da cultura popular, tratadas como sub-cultura. Requer do poder público, gestores escolares e principalmente dos professores, na prática pedagógica, outra postura com outros saberes, revendo objetivos, questionando conteúdos com outras estratégias e avaliando criticamente as formas de avaliação. Será necessário rever as políticas públicas da educação. Que a escola tenha outro olhar para a gestão, que o docente se disponha a formação buscando reformular o currículo e a prática pedagógica com base nas perspectivas, necessidades e identidades pautadas na diversidade. A construção de práticas multiculturais e não-discriminatórias só é possível na ação conjunta. A cultura escolar e a cultura da escola naturalizam com tanta força estes aspectos, que somente através do diálogo, do questionamento, do debate, seja possível desenvolver um novo olhar sobre o cotidiano escolar.

MÚSICA, CULTURA E EDUCAÇÃO: processo de formação do professor

A implementação da Lei Federal 11769/ 2008 que dispõe sobre a obrigatoriedade do ensino da música na educação básica trouxe um grande desafio para as escolas e para os sistemas de ensino. Até então a música esteve praticamente ausente da maioria das grades curriculares do ensino básico, já que desde a implantação da Educação Artística com a Lei 5692/71, a área de música foi perdendo gradativamente o seu espaço da sala de aula. O trabalho de música nas escolas vinha sendo realizado de uma maneira pouco sistemática, inviabilizando o seu acesso a todos os alunos de uma maneira democrática e sem qualquer processo de exclusão.

A outra questão a enfrentar é o tratamento da educação musical nas escolas como um conteúdo que deverá ser garantido em todas as séries. Na maioria das vezes, o conteúdo da aula de música é desvinculado do meio sociocultural. Particularmente para os professores de classes, essa situação torna-se ainda mais difícil visto que são poucos os que possuem uma formação específica ou preparo suficiente para incluírem as atividades musicais de seus alunos no seu repertório didático.

Apoiado em concepções didáticas que buscam uma aproximação da aula de música com a realidade cotidiana, o processo de formação inicial e continuada de professores procura resgatar um dos objetivos principais da educação musical que é, conscientizar e mostrar com clareza a multiplicidade de relações entre o indivíduo e a música. A formação poderá dar subsídios para posterior desenvolvimento de ações para serem elaboradas com professores e implementadas em diferentes escolas e séries. O objetivo é verificar, na prática, nas escolas das Redes de Ensino, algumas possibilidades de inserção da música e sua viabilidade na sala de aula.

A formação deve pautar sua proposta para dar subsídios para que o professor não especializado se sinta motivado para trabalhar a educação musical de uma maneira mais sistemática, modificando os modelos tradicionais que enfatizam a aquisição de fatos objetivos e procedimentos (leitura de notas, teoria musical) e a casualidade de um ‘praticismo’ amador. Além disso, a formação deve apresentar um programa inovador para professores que já trabalham ou que querem trabalhar com a música na escola considerando a vitalização cultural da comunidade local, as políticas públicas municipais que norteiam a relação da cultura com a educação, e as propostas pedagógicas norteadores do sistema municipal de educação para os PPP das escola da rede de ensino.

Referencias:

CANDAU, Vera, MOREIRA A.F.B. Educação escolar e cultura(s): construindo caminhos; Rev. Bras. Educ. no.23 Rio de Janeiro May/Aug. 2003 http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003000200012

HALL, Stuart, A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções de nosso tempo, Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 22, nº2, p. 15-46, jul./dez. 1997; Rev. Bras. Educ. no.23 Rio de Janeiro May/Aug. 2003 http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782003000200013

MATARAZZO, F. Medindo Índices de uma Cultura Local - Medindo a vitalidade cultural das comunidades , 1999

SETUBAL, M.A. Diálogos entre cultura e educação na escola, 2011, http://educarparacrescer.abril.com.br/

JACKSON, M.R Medindo a vitalidade cultural em comunidades, 2008

SMED –Porto Alegre, Cadernos Pedagógicos, 2007



 
Flame