ARTE ENTRE OS SÉCULOS XIV e XVIII


TICIANO Vecellio
(c. 1490-1576)


TICIANO Vecellio (c. 1490-1576)
Auto-Retrato, c. 1560
Óleo sobre tela, 86 x 65 cm
Museo Nacional del Prado, Madrid

Giovanni BELLINI (1430-1516)
São Francisco em Êxtase, c. 1485
Óleo sobre painel, 123 x 140 cm
Frick Collection, Nova York

GIORGIONE (c. 1477-1510)
A Tempestade, c. 1505
Óleo sobre tela, 82 x 73 cm
Veneza, Academia

TICIANO (c. 1490-1576), ou GIORGIONE (c. 1477-1510)?
Concerto Campestre, c. 1511
Óleo sobre tela, 110 x 138 cm
Musée du Louvre, Paris

TICIANO (c. 1490-1576)
Salomé com a Cabeça de São Judas Batista, c. 1511-1515
Óleo sobre tela, 89,3 x 73 cm
Galleria Doria Pamphili, Roma

TICIANO (c. 1490-1576)
Flora, c. 1515-1520
Óleo sobre tela, 79,7 x 63,5 cm
Galleria degli Uffizi, Florença

TICIANO (c. 1490-1576)
Homem com Luva, c. 1523
Óleo sobre tela, 100 x 89 cm
Musée du Luvre, Paris

TICIANO (c. 1490-1576)
Assunção da Virgem, 1516-1518
Óleo sobre tela, 690 x 360 cm
Santa Maria Gloriosa dei Frari, Veneza

TICIANO (c. 1490-1576)
Madona com Pessoas da Família Pesaro (Madona de Pesaro), 1526
Óleo sobre tela, 478 x 266,5 cm
Santa Maria Gloriosa dei Frari, Veneza

TICIANO (c. 1490-1576)
A Bacanal, c. 1523-1524
Óleo sobre tela, 175 x 193 cm
Madrid, Museo Nacional Del Prado

TICIANO (c. 1490-1576)
Vênus de Urbino, anterior a 1538
Óleo sobre tela, 119 x 165 cm
Galleria degli Uffizi, Florença

TICIANO (c. 1490-1576)
Dánae, 1544-1546
Óleo sobre tela, 120 x 172 cm
Museo Nazionale di Capodimonte, Nápoles

TICIANO (c. 1490-1576)
O Papa Paulo III com os Netos, Alessandro e Ottavio Farnese, 1545-1546
Óleo sobre tela, 210 x 174 cm
Museo Nazionale di Capodimonte, Nápoles

RAFAEL Sanzio (1483-1520)
O Papa Leão X com Dois Cardeais, 1517-1518
Óleo sobre painel, 155 x 119 cm
Galleria degli Uffzi, Florença

TICIANO (c. 1490-1576)
O Rapto de Europa, 1559-1562
Óleo sobre tela, 185 x 205 cm
Isabella Stuart Gardner Museum, Boston

TICIANO (c. 1490-1576)
Alegoria da Prudência, meados da década de 1560
Óleo sobre tela, 75,5 x 68,4 cm
Londres, The National Gallery

TICIANO (c. 1490-1576)
Pietà, meados da década de 1570
Óleo sobre tela, 378 x 347 cm
Galleria dell´Accademia, Veneza

Ticiano (ou Tiziano) Vecellio (c. 1490-1576), pintor italiano, foi um dos principais artistas da escola veneziana de pintura do Renascimento e um dos mais importantes nomes do mundo da arte. A principal característica de sua obra é a sua aplicação e uso da cor, tornando-o um dos mais influentes artistas ocidentais e antecipando, em muitos aspectos, algu-mas características do Maneirismo e do Barroco. Em sua longa vida, também se caracterizou por sua versatilidade temática, realizando desde retratos, até pinturas religiosas, mitológicas e paisagens.

Nasceu em Pieve di Cadore, uma pequena cidade no vale de Piave, nos Dolomitas, em cerca de 1490, vindo de uma família fidalga. Era o quarto filho de Gregório Vecellio, um distinto conselhei-ro e soldado local. Foi para Veneza entre os 10 e 12 anos de idade, tendo estudado primeira-mente no atelier de Sebastiano Zuccato, um artista de pouco relevo, posteriormente se transfe-rindo para o atelier de Gentille Bellini (1429-1507) e finalmente para o do célebre pintor Giovanni Bellini (1430-1516), irmão de Gentile.

Giovanni Bellini é considerado, no dizer de JANSON (1996, p. 205), “um poeta da luz e da cor”. Veneza possuía fortes ligações comerciais com o norte da Europa, levando Bellini a ser influen-ciado pela pintura flamenga e a explorar a relativamente nova técnica com óleo na criação de uma unidade atmosférica, onde a luz e a cor desempenhavam um importante papel expressivo na exploração de conteúdos emocionais. Em sua obra São Francisco em Êxtase, de 1485, pode-se perceber a mesma preocupação dos pintores flamengos com os detalhes da paisagem, bem como a diminuição de tamanho do protagonista dentro de um cenário maior e a criação de uma atmosfera especial utilizando efeitos de luz e cor. Ticiano sofreria grande influência de seu mestre, bem como de outro pintor integrante do atelier de Bellini, Gior-gione (c. 1477-1510), com quem trabalharia em conjunto em seus primeiros anos.

Cerca de treze anos mais velho que Ticiano, Giorgione teve uma vida curta, mas deixou uma obra de imensa qualidade. Utilizando a técnica cromática aprendida com Bellini, Giorgione tam-bém seria influenciado pelo estilo de Leonardo da Vinci (1452-1519), com quem se encontrou durante a visita do mestre florentino à Veneza em 1500. Segundo KENNEDY (2006, p. 7), “Gior-gione combinara o poder colorido de Bellini com o realismo tonal de Leonardo, criando um mundo ilusório, menos estático e vulnerável à mudanças.” Sua obra mais célebre é a pintura A Tempestade, uma enigmática composição cujo significado ainda permanece um mistério. A cor e atmosfera do quadro, no entanto, remetem a um clima irreal, idílico, algo como um sonho. A luz sobrenatural da tempestade parece ser o tema do quadro, o que inaugu-raria uma nova tradição.

Com a morte prematura de Giorgione aos 33 anos, em 1510, Ticiano se consolidou como a principal liderança do Alto Renascimento veneziano. Segundo KENNEDY (2006, p. 7): “No mundo de Ticiano, o véu de ocultismo e mistério que se encontrava no trabalho de Giorgione é agora levantado e a humanidade é confrontada de forma mais direta e com uma transparência psicoló-gica baseada na experiência do dia-a-dia.”

Muitos trabalhos iniciais de Ticiano trazem algumas dúvidas quanto a sua autoria, no sentido de estabelecer se foi pintado somente por Ticiano ou Giorgione, ou ainda se era uma obra com colaboração de ambos os pintores. Este é caso da pintura Concerto Campestre, inicialmente atribuído a Giorgione, mas hoje considerada como obra de Ticiano, a julgar pela linguagem corporal de seus personagens. No entanto, a obra possui características marcantes de Giorgione, como a luz irreal e um tema misterioso, remetendo a um ambiente pas-toral e idílico.

Em sua fase inicial, a produção de Ticiano se caracteriza pela proeminência de pinturas de Nossas Senhoras e Sagradas Famílias, bem como por imagens de belas mulheres. Segundo KENNEDY (2006, p. 16), “Veneza no século XVI era como Paris na Belle Époque, uma cidade de luz”. A cidade era considerada uma capital do prazer e suas cortesãs tinham fama internacional. Nesse ambiente, é fácil imaginar que havia uma grande demanda por imagens de belas mulhe-res, onde se encaixam suas primeiras séries de retratos femininos, com composições finais idea-lizadas. Servem de exemplo dessa produção as pinturas Salomé com a Cabeça de São João Batista e Flora, ambas imagens idealizadas da beleza feminina e com elementos de composição em comum.

Ticiano foi também um dos retratistas mais procurados de sua época. Em um dos seus retratos mais conhecidos, Homem com Luva, pode-se perceber algumas caracte-rísticas do seu estilo, entre elas a representação da personalidade e o status social do retratado. O olhar cauteloso do personagem, associado a uma expressão algo melancólica, sugerem alguns traços da personalidade do rapaz retratado. Da mesma forma, o começo de um bigode no lábio superior indica sua idade, provavelmente saindo da adolescência e se tornando um adulto, enquanto as luvas lhe dão um ar de sofisticação que sugerem sua posição social. Em termos formais, percebe-se a predominância do estilo pictórico sobre o linear, com o uso de um suave chiaroscuro e uma dissolução da linha com o ambiente de fundo. Esses elementos seriam característicos não apenas de produções futuras do próprio Ticiano, como também influenciariam artistas nos séculos seguintes.

A proeminência de Ticiano na pintura veneziana da época se consolidou desde cedo, com seus trabalhos para a Igreja de Frari. O primeiro deles, realizado entre 1516 e 1518, é a Assunção da Virgem, uma pintura de grandes dimensões que rivaliza com os afrescos de Michelangelo (1475-1564) na Capela Sistina e com a Stanza della Segnatura, de Rafael San-zio (1483-1520). É visível a influência destes artistas neste trabalho de Ticiano. Os apóstolos na parte inferior da pintura refletem o gigantismo e a força típicos de Michelangelo, enquanto alguns elementos iconográficos e de composição parecem ter influência de Rafael. Segundo Lodovico Dolce, um crítico veneziano contemporâneo, citado por KENNEDY (2006, p. 31), “a Assunção da Virgem combinava a grandeza e terribilità de Michelangelo com o encanto e realismo de Rafael e das cores da natureza”. A composição mescla um esquema retangular na parte de baixo, onde estão dispostos os apóstolos, com outro circular na parte superior, onde estão inseridos a Virgem e a figura de Deus Pai, simbolizando a eternidade. A ligação entre ambos se dá por um triângulo, com base nas duas figuras de vermelho na parte inferior e com o vértice na Virgem, representando sua passagem para o nível celestial. A Virgem não é representada levitando, mas sendo levada aos céus em pé sobre uma nuvem, uma solução típica do realismo de Ticiano. A obra demonstra um uso magistral do chiaroscuro, apresentando uma luminosidade divina que irradia da parte superior.

Outro trabalho de Ticiano para a Igreja de Frari é a Madona de Pesaro, uma de suas obras mais célebres, também de grandes proporções, e cujos elementos composi-tivos influenciariam as gerações futuras. Encomendada por Jacopo Pesaro, segundo GOMBRI-CH (1999, p. 331), para “ser oferecido como prova de gratidão por uma vitória alcançada contra os turcos pelo nobre veneziano”. Pode-se perceber uma disposição triangular das figuras, com a Virgem e o Menino ocupando o vértice superior. Entretanto, a perspectiva frontal, tradicional do Renascimento, é substituída por uma visão oblíqua, ao mesmo tempo em que a Virgem e o Me-nino são deslocados para um dos lados da pintura, colocando-os em posição de serem vistos diretamente por Pesaro, representado de joelhos na parte inferior esquerda do quadro. Segundo KENNEDY (2006, p. 37), Ticiano combina “o formato do ex-voto, onde os protagonistas se enca-ram de frente e são representados de perfil, com a tradicional pintura de altar”. A visão oblíqua também permite que o plano de fundo seja o céu e nuvens, sendo na frente representadas duas grandes colunas, que, segundo DAVIES (2010, p. 600), “resolvem o enquadramento, [e] representam a entrada dos céus, tradicionalmente identificada com Maria”.

Também merecem destaque na produção das primeiras décadas de Ticiano as suas pinturas de motivos mitológicos. Encomendada em 1518, por Alfonso d´Este, o duque de Ferrara, A Bacanal faz parte de uma série de três pinturas realizadas por Ticiano para este mesmo serviço, que ainda integra A Adoração de Vênus (1518-1520) e O Triunfo de Baco e Ariadne (1520-1523). A Bacanal mostra a chegada de Baco à Ilha de Andros, onde seus segui-dores aguardam por ele em estado de embriaguez, bebendo direto do rio da ilha, onde corria vinho em vez de água. O próprio deus, entretanto, não aparece na pintura, apenas se vê seu barco ao longe. Ticiano compõe uma paisagem com tons quentes e frios, representando muitas figuras nuas ou seminuas, segundo DAVIES (2010, p. 600), “[...] idealizadas quanto baste para nos fazerem crer que pertencem a uma Idade de Ouro há muito desaparecida e convidam-nos a partilhar de seus êxtases [...]”.

Durante as décadas de 1530 e 1540, consolidado como um dos grandes artistas de sua época, Ticiano continua acompanhando o ritmo das mudanças criativas da arte, muitas delas tendo sido influenciadas pelo seu próprio trabalho. Sobre esta influência, tanto absorvida quanto transmitida por Ticiano, KENNEDY (2006, p. 41) diz que:

Na Assunção da Virgem, colocou-se a par do Alto Renascimento Romano, na Madona de Pesaro, estabe-lece um padrão duradouro para o classicismo maneirista de obra de altar, nas Bacanais de Ferrara, esta-belece um padrão para a pintura mitológica que haveria de ser válido até o século 19.

Uma das suas obras mais célebres deste período é a Vênus de Urbino, uma encomenda recebida do duque de Urbino, Guidobaldo II della Rovere. A figura representa uma jovem nua sobre um leito, em um ambiente ricamente decorado. O quadro é mencionado em uma carta simplesmente como “a mulher nua”, sem haver uma referência à Vênus. De fato, a ausência de alguns atributos, como o Cupido, pode indicar que sua identificação como Vênus possa estar equivocada. Pode ser uma imagem comemorativa de casamento, especificamente uma alegoria do amor conjugal. De qualquer forma, segundo DAVIES (2010, p. 626), “o uso da cor por Ticiano registra as texturas sensuais do corpo da mulher, colocadas à disposição do olhar do observador.”

O nu feminino sensual é uma produção freqüente na obra de Ticiano. Outra obra representativa deste tema é Dánae, uma tela de temática mitológica e com forte apelo sexual. Encomendada pela família Farnese, do Papa Paulo III, a tela foi iniciada em Veneza e finalizada em Roma. Nesta cidade, a obra teria sido vista, segundo Vasari, por Michelangelo, que teria sido muito elogioso, mas comentado que era uma pena que em Veneza nunca tenham a-prendido a desenhar. A pose da jovem na pintura é baseada em Michelangelo, mas a ênfase é toda na luz suave e reveladora, captando a textura da pele com uma grande complexidade cro-mática. Segundo KENNEDY (2006, p. 67), “para o público romano pode ter parecido que Ticiano tentava deliberadamente expor as limitações de Michelangelo ao usá-lo em contexto que elevaria a sensualidade veneziana a outra estatura.”

Ainda em serviço à família Farnese, Ticiano pinta O Papa Paulo III com os Netos, Alexandre e Ottavio Farnese. A obra parece se inspirar no retrato do Papa Leão X com Dois Cardeais, pintado 28 anos antes por Rafael. Como na pintura de Rafael, Ticiano coloca o Papa ao centro da composição, cercado por duas figuras, neste ca-so, seus netos Ottavio Farnese, que se curva para beijá-lo, e o cardeal Alessandro Farnese, em pé na retaguarda. Apesar de ter deixado o trabalho inacabado, chama atenção o tratamento pictórico dado ao traje vermelho do Papa, utilizando diferentes tons para realçar a textura do tecido. Ticiano também dá a sua composição uma dinâmica de movimento maior que o trabalho de Rafael, apontando, com isso, algumas mudanças estilísticas que se operavam.

Nas últimas décadas de trabalho, o estilo de Ticiano muda bastante em relação aos seus traba-lhos iniciais. Sua pincelada se torna mais solta, sendo hoje comparada por muitos críticos a um estilo quase impressionista. Suas obras parecem ter um maior apelo dramático, um caráter épi-co, que estavam em consonância com o espírito da Contra-Reforma. Em seu período tardio, a enorme procura por seus trabalhos obrigava Ticiano a manter muitos assistentes em sua oficina, e somente seus clientes mais importantes podiam esperar obter uma obra inteiramente pintada pelo mestre.

Durante a década de 1550, Ticiano realiza uma série de pinturas mitológicas para o rei Filipe II da Espanha, inspiradas nas Metamorfoses, de Ovídio. Ele denominou esta série de Poesie, indi-cando a referência a uma fonte literária e colocando o artista como um intérprete, gozando de certa liberdade, dessas fontes. Integra esta série o quadro O Rapto de Europa. As curvas, o intenso movimento e os membros carnudos da jovem Europa atraíram artistas barrocos como Rubens, que chegou a copiar este quadro.

Realizado em meados da década de 1560, a Alegoria da Prudência é um dos últimos trabalhos de Ticiano. A pintura representa as três idades do homem: juventude, maturidade e velhice. Trata-se de uma alegoria do tempo governado pela prudência, na qual Ticiano representa a si mesmo, seu filho Orazio e, possivelmente, seu sobrinho Marco. Abaixo de suas cabeças são representados, respectivamente, um lobo, um leão e um cão, simbolizando o passado, o presente e o futuro. Acima do quadro há uma inscrição, cujo significado, segundo PANOFSKY (2007, p.195), é: “do (da experiência do) passado, o presente age prudentemente para não estragar a ação futura”. O rosto de Ticiano, na esquerda, está imerso em uma sombra, de onde ele parece rememorar o passado, ao passo que o jovem Marco está iluminado. Entre os dois, Orazio tem parte de seu rosto iluminada e parte na escuridão. Segundo KENNEDY (2006, p. 90), “o quadro pode ser uma espécie de testamento artístico, expressando a esperança de que seus entes queridos possam se beneficiar deste legado.”

O último trabalho que Ticiano deixou é a Pietà. Executada provavelmen-te para o seu túmulo, a pintura mostra uma possível representação do próprio Ticiano como São Jerônimo, ajoelhado aos pés da Virgem com o corpo de Cristo, em uma composição que lembra a Pietà de Michelangelo na Basílica de São Pedro. As figuras são guardadas ao fundo por uma arquitetura rústica, de onde se percebe as estátuas de Moisés e de uma Sibila, representando, respectivamente, o Antigo Testamento e a Profecia da Crucificação e da Ressurreição. É uma pintura em grandes dimensões, com forte carga dramática e com figuras compostas basicamente de luz e cor. Segundo DAVIES (2010, p. 628), “o artista aplica a cor em espessas camadas de tinta, mas apesar deste impasto as superfícies perderam todo resquício de solidez material.” São figuras etéreas, que aumentam a dramaticidade da cena. Ticiano morreu antes de concluir a pintura, que possivelmente foi finalizada por seu discípulo Palma Giovani (1548/50-1628), cujas intervenções se concentraram principalmente no querubim com a tocha.

Em 1576, Veneza é atingida pela peste e, em 27 de agosto daquele ano, Ticiano morre vítima de febre. A mesma epidemia também mataria seu filho Orazio algum tempo depois. O legado de Ticiano para a arte é muito vasto. Por seu atelier passaram muitos artistas, dentre eles, o jovem Domenikos Theotokopoulos, que seria conhecido como El Greco (1541-1614), vindo da ilha de Creta (que era dominada por Veneza), e antes de se fixar na Espanha. A pintura veneziana após sua morte foi dominada por dois pintores: Tintoretto (1518-1594) e Veronese (1528-1588). Se-gundo DAVIES (2010, p. 629), “enquanto Veronese pintou imagens mais próximas da primeira fase de Ticiano, como a Virgem de Pesaro, com ênfase no realismo, Tintoretto explorou a teatra-lidade e a pincelada fluida da última pintura de Ticiano, a Pietà.”

A obra de Ticiano atravessou os séculos, influenciando de várias formas os estilos mais próxi-mos ao seu tempo, como o Maneirismo e o Barroco, mas também servindo de referência em tempos posteriores, alcançando o Romantismo e a Arte Moderna. O status e a importância de Ticiano podem ser verificados em uma história contada por seus primeiros biógrafos e relatada por GOMBRICH (1999, p. 331). Conta-se que o grande imperador Carlos V abaixou-se para pegar um pincel que Ticiano deixara cair. Esse gesto, embora hoje pareça ter pouca importância, adquire um significado especial se consideradas as regras da corte vigentes naquela época. Pode ser interpretado como se a máxima expressão do poder terreno se curvasse, de forma humilde e simbólica, ante a majestade do gênio artístico.

Verbete elaborado por Marcelo se Souza Silva
Aluno do Bacharelado em História da Arte da UFRGS





Referências

GOMBRICH, E. H. A história da arte. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1999.

DAVIES, Penelope J. E. et al. A nova história da arte de Janson. 9. ed. Lisboa: Fundação Ca-louste Gulbenkian, 2010.

JANSON, H. W; JANSON, Anthony F. Iniciação à história da arte. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

KENNEDY, Ian G. Ticiano: c. 1490-1576. Colônia, Alemanha: Taschen, 2006.

KRÉN, Emil; MARX, Daniel. Web Gallery of Art.
Disponível em: http://www.wga.hu.
Acesso em: 18 set. 2010.

PANOFSKY, Erwin. A Alegoria da Prudência de Ticiano: um pós-escrito. In: __. Significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 2007.

TITIAN. In: Wikipedia.
Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Titian.
Acesso em: 18 set. 2010.