Blog do NEMES

Sexta-feira, 13 de Julho de 2007

As quatro tiranias de Peter Greenaway

(Disponível em http://backstagenet.hospedagemdesite.com/fronteiras/blog/)

A exibição nas salas escuras, por duas horas ininterruptas, divididas por um público que compartilhava emoções com desconhecidos chegou ao fim, segundo o artista. Contudo, afirma que, se o cinema está morto, a cultura das telas está mais viva do que nunca. A grande tela das salas se disseminou e se moveu para todas as partes da nossa vida por meio de TVs, computadores, celulares e até relógios de pulso. A batalha entre a sala de cinema e as novas telas interativas continua. Cabe ao espectador, dividido entre as duas realidades, decidir se quer a grande imagem ou a imagem em tempo real.
Com formação em artes plásticas, Greenaway leva sua crítica para além de fatores tecnológicos e reconstrói a máxima do filósofo canadense Marshall McLuhan – o meio é a mensagem - ao assegurar que a força deste meio está na estética. De acordo com o convidado, a habilidade de estimular os sonhos e legitimar a imaginação encoraja uma participação de corpo e alma na produção cinematográfica, que falha em proporcionar este estímulo. Este fracasso é causado em razão das quatro tiranias definidas pelo artista: texto, enquadramento, ator e câmera.
A tirania do texto
Conseqüência de uma educação baseada em textos, Greenaway admite que, tanto os espectadores, quanto os cineastas sofrem de um analfabetismo visual em que a principal dependência da compreensão da mensagem reside na aliança com a palavra, e não com a imagem. Ao citar os fenômenos de bilheteria O senhor dos anéis e Harry Potter, ilustra seu posicionamento, pois “não são filmes, são livros ilustrados”, e conclui que “quer você seja Godard, Almodóvar ou Spielberg, seu cinema procura o caminho de volta à livraria. Temos 112 anos de história de cinema, mas só vimos o prólogo. Foram 112 anos de histórias ilustradas”.
A tirania do enquadramento
Conforme o artista, o cinema tradicional insiste em criar um espaço ilusório em que a moldura da janela é a abertura para o universo paralelo do filme. Contudo, salienta, não há moldura no mundo real. Criação e ferramenta do homem, o enquadramento é uma reação regulada para sua irregular visão horizontal do mundo. “Se a moldura foi feita pelo homem, pode ser desfeita. O paralelogramo deve ir embora”.
A tirania do ator
“O cinema não é um playground para Sharon Stone”, impõe o palestrante. Apesar de muitos filmes parecerem um palco para expor a figura central do ator, ele precisa dividir a tela com outras evidências do mundo, como uma figura em uma paisagem, defende o cineasta, que admite a forte influência da pintura na sua composição artística. Para construir a noção de conjunto, Greenaway considera a organização de elementos relativos ao espaço como luz e sombra, cores e textura tão relevantes quanto os referentes ao ator, como partes e formas do corpo, roupas e gestos. “Considerar a performance do artista como a chave para a resposta do público reduz a potência visual da linguagem cinematográfica”, contesta.
A tirania da câmera
Por mais paradoxal que algumas das afirmações do cineasta pareçam, na quarta tirania garante que “temos que nos livrar da câmera”, pois ela é apenas um mecanismo de gravação e reprodução. Precisamos, segundo Greenaway, transpor a preguiça e passividade do olho – tanto humano quanto mecânico – e ir diretamente ao cérebro e à imaginação, que são a base da criação. As novas tecnologias permitem essa passagem, argumenta. “Não queremos um cinema de apropriação ou cópia do mundo conhecido. Queremos um cinema de irrealidade virtual”.
Para concluir, retoma que a sétima arte ainda não criou um vocabulário específico. Ao lembrar o crítico francês André Bazin, que considerava o cinema uma união da literatura, pintura e teatro, ressalta que, imagético por essência, o cinema ainda é demasiadamente apegado ao texto. A solução para uma arte que esgotou os paradigmas e passa a repetir versões das mesmas histórias é, para Peter Greenaway, voltar ao chamado ground zero, ou seja, à estaca zero. “As quatro tiranias devem ser erradicadas para nos movermos à frente e ver o que há a seguir. Precisamos aproveitar o declínio do cinema para fazer uma revolução”.

1 Comments:

At 19 de Julho de 2007 07:09 , Luciana said...

Celso,

Dá pra pensar muitas coisas a partir daí, e principalmente o quanto temos a aprender com diretores como Greenaway. Viva o cinema!

 

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