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Romaria das Águas

Romaria das Águas

A Romaria das Águas é um movimento interreligioso e ecológico em torno do cuidado com as águas, especialmente do Lago Guaíba, e em devoção à Nossa Senhora Aparecida das Águas. É o tema da pesquisa de doutorado de Stella Pieve, que nos traz um relato de como o evento ocorreu em 2010.

A Romaria das Águas acontece há 18 anos, entre Porto Alegre, Região Metropolitana e interior do estado. Uma procissão por terra marca a passagem de Nossa Senhora Aparecida das Águas por cidades onde são coletadas águas de arroios, fontes e nascentes para serem misturadas, abençoadas e posteriormente jogadas nas águas do Lago Guaíba no dia 12 de outubro, na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. Nesse dia, ocorre uma procissão fluvial entre o Rio Jacuí e o Lago Guaíba.

Dia 12 de outubro de 2010. Às 8h da manhã sai de casa. O dia é lindo, sol e céu azul. Muitos motoqueiros pela Borges, “em procissão por Nossa Senhora Aparecida”, comenta a senhora ao meu lado no ponto do ônibus. Cheguei cedo na Ilha Grande dos Marinheiros, Nossa Senhora Aparecida das Águas ainda estava a caminho. Um altar, cheio de flores, mais alto e protegido por uma tenda a esperava. Ali estavam duas crianças juntas, uma vestida com roupas de Nossa Senhora e outra de Oxum, azul e amarelo predominavam. Foi feita uma pequena procissão, da BR até este altar.

Ao lado, um palco montado pela prefeitura e diversas “banquinhas”, stands comercializam alimentos e artesanatos preparados nas Ilhas – Ilha Grande dos Marinheiros, Ilha das Flores, Ilha da Pintada. O Departamento Municipal de Água e Esgotos(DMAE) distribuiu copos d'água, jogos para crianças, adesivos e marcadores de livros. Estiveram presentes técnicos e estagiários do grupo de teatro de bonecos.

Deixada a Santa ali, 12 pessoas, representantes religiosos ou de instituições político-sociais foram convidados a subir no palco – da Igreja Católica (Irmãos, Freis e Pastora da Criança), Igreja Messiânica, Sociedade Beneficente Espírita Bezerra de Menezes, Umbanda, bem como representantes do Orçamento Participativo (OP), do Centro de Educação Popular (CAMP), do Centro Marista de Educação da Ilha Grande dos Marinheiros e do Clube de Mães. Tais representantes vinham de Porto Alegre – Arquipélago e região central da cidade –; Região Metropolitana e interior do estado – Canoas, Minas do Leão e Rio Pardo.

Enquanto se preparava a abertura do evento, muitos cantos e danças no palco. Tudo começou com um breve relato da história da Romaria, foi apresentada a imagem de Nossa Senhora Aparecida colada, encontrada toda quebrada no lixo na década de 1990 e atualmente, protegida em uma caixa de madeira com frente de vidro transparente. Daí por diante, vários representantes discursaram sobre o evento. Alguns relacionados ao trabalho nas Ilhas, anterior a Romaria, outros a partir desta.

O próximo a falar, irmão Marista, começa com “o amor em Jesus Cristo nos une”. Relembra a escolha das padroeiras das Ilha Grande dos Marinheiros. Nossa Senhora da Conceição, também conhecida por Nossa Senhora dos Pobres e que apareceu a eles nas águas e na Ilha Grande dos Marinheiros, a beira do Rio Jacuí, no qual chega a água de todos os rios do Guaíba. Daí, concluiu que as Ilhas são encantadas pela fada Nossa Senhora das Águas “que escolheu os pobres”. Reflete que em seus 30 anos de trabalho ali, pouco é o avanço, mas relembra a fundação no local do primeiro galpão com o maior número de catadores. Por fim, seu discurso associa o dia de Nossa Senhora das Águas a um dia ecológico e da mulher, pois é a mulher quem cuida, fechando sua fala com: “Parabéns romeiros, peregrinos, ecologistas, profetas ecologistas, médicos do planeta.”

Agora um Frei comenta sobre o feriado, “tantas viagens no feriado e nós estamos aqui”. “Povo pobre, povo humilde”. Abertamente, faz uma analogia de Nossa Senhora das Águas à mulher, à nossa pátria feminina “que pode ser governada por uma mulher”. Interessante notar que grande parte dos presentes carrega seu adesivo “Dilma”. O representante da Federação Afro-Umbandista e Espiritualista do Rio Grande do Sul (FAUERS) relata os 2800 km percorridos com Nossa Senhora das Águas e acrescenta uma reflexão sobre as diferenças “água todo mundo bebe não importa cor, crença ou o time que torce”. O representante do OP da Ilha das Flores lembra o espaço em que vivem e convivem, cercados por água, o arquipélago de Porto Alegre. O último Irmão a falar neste momento fez menção às crianças, “cuide das crianças mais que das flores e dos animais, são fonte de vida”.

Findados os discursos iniciais, pediu-se que todos os que trouxeram amostras de água a colocassem em uma mesa ao lado do palco e próxima a imagem de Nossa Senhora das Águas. Deu-se início ao segundo momento, um relato sobre a caminhada da “Mãe Oxum”, Nossa Senhora Aparecida das Águas no ano de 2010, na 17ª Romaria das Águas. Neste ano, Nossa Senhora chegou até São Pedro do Sul, interior do RS e para o evento de hoje (12 de outubro) veio água até do Rio Uruguai.

Agora, as narrativas passam a associar Nossa Senhora Aparecida das Águas à revitalização, além de uma posição de defesa das águas, de “brigar pelas águas”. A representante da FAUERS, ao destacar arroios como “rios guris”, associou-os ao dia da criança, também 12 de outubro, e aproveitou a ocasião para homenageá-las. É interessante a relação vida, criança, revitalização e água, a ideia de ciclo, de recomeçar, de apostar nas sementes, no que pode brotar e a água como fonte dessa vida. Foi relembrada a história da Fonte Dona Josefina que ao entrar na Romaria das Águas vai sendo “vista e ouvida” pelo poder público. Na 16ª Romaria das Águas em 2009, a ação foi um movimento de coleta e limpeza na referida fonte e nesta – 17ª Romaria das Águas –, a fonte já estava revitalizada e tombada como Patrimônio Cultural de Canoas/RS. O Arroio Nunes em Alvorada/RS, também foi destacado como resultado da 17ª Romaria das Águas, ao passar por um processo de revitalização, bem como a nascente do rio Gravataí que foi limpa para a Romaria.

Nisso, mulheres e moças grávidas, vestidas de túnicas brancas e com as barrigas amostra levam as amostras de águas até a mesa do palco e passamos ao ofertório. Para o ofertório mulheres de saias brancas e carregando cestas de frutas, pães e balas abençoados, dançam e cantam distribuindo estes alimentos entre os presentes, a partilha. Canto e comida. Em seguida, é lido um poema sobre mãe, bebê e água, mais uma vez destacando a relação da vida em ciclo e da importância da água como fonte dessa vida.

Passamos assim ao teatro de bonecos do DMAE. A história é sobre poluição. Duas crianças aprendendo sobre o assunto, com a mãe, a professora e um super-herói para limpar as águas.

Dali a poucos minutos somos instruídos sobre a Romaria Fluvial. São 290 lugares patrocinados pela Secretaria da Cultura. São anunciados dois barcos, o menor deles saindo da Ilha Grande dos Marinheiros com preferência para quem mora no Arquipélago. O outro, Noiva do Caí, sai da Ilha do Pavão e para embarcar é preciso pegar um ingresso antecipadamente próximo ao palco.

O terceiro momento do evento conta com apresentações de danças e cantos de grupos ali presentes. São cinco grupos - “Raios de Sol”, “TKS Street Dance”, “Ogum Beira Mar”, “Ilha da Pintada” e “Por-do-Sol” - dos quais participam jovens, crianças e senhoras dançando ou cantando. Todo o evento é filmado e fotografado por jovens e adolescentes das Ilhas a partir de um projeto do CAMP.

Percebo que o pessoal da FAUERS não está mais presente, penso que estão no gasômetro preparando o evento lá, o que constato em nossa chegada. Mais animação no palco. Agora o comentário sobre o dragão na imagem de Nossa Senhora das Águas, remetendo ao mal e ao apocalipse sua frase é bastante interessante: “é, a gente é da umbanda, mas entende disso também”. Também fala sobre as drogas que estão em toda parte, inclusive na Ilha e pede auxílio a Nossa Senhora.

Já são meio dia (meia hora no RS), começam os informes sobre a ida de barco até o gasômetro. Os grupos que se apresentarão lá devem ir antes, de ônibus. Crianças e adolescentes só podem embarcar se acompanhados dos pais ou responsáveis. O comentário em seguida recorre ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA): “não reclamem comigo, essa lei é de vocês! Vocês que a fizeram!”

Em seguida uma pausa para o almoço. Em baixo do viaduto é o único lugar com sombra. Frango assado, arroz, alface e tomate, quindim, arroz doce, refrigerante e água...comidas preparadas e vendidas pelos moradores da Ilha Grande dos Marinheiros. Também estão exposto artesanato, almofadas, colchas de cama, artigos em croché, pesos de porta, bijuterias de escama de peixe, artesanatos locais.

Depois de uns bom minutos de espera, chega o ônibus que nos leva até a Ilha do Pavão, no pier onde embarcamos. Só entra no ônibus quem tem ticket para o barco, o que gera tumulto na porta. Ali dentro, muitos reclamam da demora, adolescentes e crianças gritando, cantando, fazendo brincadeiras. Na Ilha do Pavão estão dois barcos, o “Noiva do Caí”, onde vão os romeiros e o “Turistinha”, onde vai a imagem de Nossa Senhora das Águas. Irmão Cechin tenta embarcar com Nossa Senhora Aparecida das Águas, mas a Marinha não permite, revendo número de pessoas no barco, coletes salva-vidas, enfim, normas de segurança. Vamos todos juntos no “Noiva do Caí”, ao lado do “Turistinha” com Nossa Senhora.

A viagem durou em torno de 40 minutos e não existe mais uma programação geral, diversos grupos de romeiros dispersos em conversas particulares e informais. Chegando no gasômetro, muita gente no espera, e de longe se avista as pessoas vestidas de branco. Ao descermos formamos um longo corredor de pessoas de mãos dadas por onde passa o andor com Nossa Senhora até o palco. Ela é posta em baixo do palco, sobre o reboque adaptado especialmente para carregá-la, ao lado esquerdo de quem olha de frente. Ainda assim, fica na altura do palco, como se ali em cima estivesse.

O palco é coberto e composto por vários representantes religiosos – a maioria da Umbanda, Igreja Messiânica e Igreja Católica. Pouco a frente deles uma mesa coberta por tecidos branco, amarelo e dourado, ornamentada com flores, sustenta uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida e o “cálice” onde são misturadas as águas limpas coletadas em arroio, fontes e nascentes. Os participantes, entre membros de Casas de Caridade e Centros de Umbanda, católicos, membro da Johrei, misturam-se transeuntes que já estavam no gasômetro, muitos vieram seguindo Nossa Senhora.

Retomam-se às celebrações. Agradecimentos e homenagens ao casal que reformou a imagem de Nossa Senhora Aparecida das Águas; a imagem “colada” de Nossa Senhora Aparecida encontrada no lixo é “devolvida” ao Clube de Mães; representantes religiosos que “recepcionaram” a imagem contam sua experiência e uma delas ora/reza um “Pai Nosso ecológico”. Os discursos seguem em torno da mãe, mãe das água, das crianças e da renovação, a importância da mulher para o mundo, os catadores de materiais recicláveis como os médicos e profetas do planeta. Por fim, a união da ecologia e da religião “a união da diversidade das religiões” para “defender o meio ambiente e a ecologia”.

Segue-se o evento com o rito das águas. As amostras de águas limpas coletadas de fontes, nascentes e arroios são “juntadas” para serem abençoadas e jogadas nas águas sujas do Lago Guaíba, que é o Lago que as une. Este ano vieram água de 11 lugares: Sapucaia do Sul – Arroio Boa Vista; Canoas – Fonte Dona Josefina; Alvorada – Arroio Nunes; Viamão – Arroio Feijó/Saint Hillaire; Gravataí – Rio Gravataí; Porto Alegre – Arroio do Cortume/Belém Velho; Rio Pardo – Rio Pardinho; Porto Alegre – Rio Jacuí; Santa Maria – Rio Vacacaí; Porto Alegre – Gruta da Glória; Cacequi – Nascente do Rio Ibicuí, deságua no Rio Uruguai.

Em seguida as águas limpas e agora misturadas são abençoadas. O mote são as nascentes – do Rio dos Sinos e do Rio Uruguai – se abraçando para defender a água, a natureza, o meio ambiente. Duas gestantes são chamadas para levarem o “cálice” de águas limpas para serem jogadas nas águas sujas do Guaíba, simbolizando renovação, geração de vida, mãe e filho, cuidado.

Caminhamos até o bar flutuante para que o ritual das águas seja completado. Nem todos conseguem acompanhá-lo devido ao pouquíssimo espaço, eu não consigo. Mas ouço. Agora, a intersecção das águas limpas e sujas, é abençoada por líderes religiosos católicos, da Johrei e da Umbanda.

De volta ao palco, Nossa Senhora Aparecida das Águas permanece ali por um tempo para que se possa fazer pedidos, agradecer. Logo em seguida, é carregada até o “Turistinha”. Dali partem com ela até seu Santuário na Ilha Grande dos Marinheiros, onde a Santa ficará até o próximo ano. Findada a celebração, a bateria “Por-do-Sol” ainda toca no Guaíba, enquanto o stand da FAUERS comercializam pequenas imagens de gesso de Nossa Senhora das Águas, arrecadando a quantia para os Guaranis de Caçapava, para onde já tinham doado roupas e alimentos. Logo a multidão se dispersa e o “Turistinha” some no Guaíba, fechando a 17ª Romaria das Águas.

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