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Cardápio incomum

Análise de dentes de um ancestral do homem que viveu há 1,97 milhão de anos mostra que ele tinha hábitos alimentares diferentes dos apresentados pelos outros hominídeos. Sua dieta incluía madeira e cascas de árvores.

 

Cardápio incomum

Crânio de ‘Australopithecus sediba’ encontrado em Malapa, na África do Sul. Diferentemente das outras espécies de hominídeos, esse ancestral do homem se alimentava de cascas de árvores. (foto: Lee Berger)

Pesquisa recente aponta que o Australopithecus sedibaancestral do homem que viveu na África há 1,97 milhão de anos, tinha hábitos alimentares pouco comuns aos demais hominídeos. Além de comer as partes mais macias das plantas, ele também se alimentava de madeira e cascas de árvores.

O estudo, realizado por cientistas dos Estados Unidos, da Alemanha e da África do Sul, baseou-se na análise de dentes dessa espécie de hominídeo encontrados na África do Sul. Para avaliar a complexidade dos alimentos consumidos pelo A. sediba, os pesquisadores observaram o desgaste dos dentes e o tártaro encontrado neles. O tártaro é uma placa mineralizada formada ao longo da vida do indivíduo a partir de saliva, bactérias mortas, cálcio e restos de alimentos.

Ao analisar os restos de vegetais fossilizados presentes no tártaro, os cientistas descobriram que o A. sediba comia alimentos mais duros que os consumidos pelos outros hominídeos. Enquanto a alimentação das outras espécies de Australopithecus e hominídeos dos gêneros ParanthropusHomo era baseada em folhas, sementes e raízes, o A. sediba tinha uma dieta mais ampla, que incluía desde gramináceas, folhas e frutas até arbustos e tecidos lenhosos, como cascas de árvores.

Dentes fossilizados
Por meio da análise do tártaro presente nos dentes do ‘Australopithecus sediba’, os pesquisadores descobriram o tipo de alimento consumido por essa espécie de hominídeo. (foto: Amanda Henry)

A pesquisa, publicada na revista Nature, sugere que o consumo de cascas de árvores e outros alimentos lenhosos era sazonal. Os autores estimam que o A. sediba recorria a esses alimentos em épocas de escassez de frutas. Mas o cardápio incluía apenas as cascas ricas em gorduras e açúcares.

O consumo desse tipo de alimento não é tão incomum quanto parece. Amanda Henry, paleoantropóloga do Instituto Max Planck (Alemanha) e uma das autoras do estudo, lembra que, até hoje, as cascas das cerejeiras e dos salgueiros são utilizadas em diversas partes do mundo com fins medicinais. Além disso, a casca do bordo, uma árvore muito comum no hemisfério Norte, é a matéria-prima de uma calda doce muito usada em sobremesas.

Primata com dieta de ruminante

A análise do tártaro dos dentes do A. sediba também revelou outra grande diferença da sua dieta: ela era baseada em plantas do tipo C3, e não C4, como era o caso da alimentação das outras espécies ancestrais do ser humano. Segundo os autores do estudo, as plantas C3 incluem árvores, arbustos e algumas ervas; entre as C4, estão a maior parte das gramíneas tropicais. A divisão desses grupos está associada à forma como esses vegetais absorvem o CO2 durante a fotossíntese.

A dieta do A. sediba era mais parecida com a de animais ruminantes, como a girafa, do que com a dos demais hominídeos

O ambiente onde vivia o A. sediba tinha grande variedade de plantas C3 e C4. Mas essas últimas localizavam-se nas savanas, enquanto as C3 podiam ser encontradas em áreas de vegetação mais fechada. Por isso, os pesquisadores acreditam que o A. sedibaera uma espécie especializada em escalar árvores.

Os cientistas contam que a preferência por plantas C3 torna a dieta do A. sediba mais parecida com a de animais ruminantes (dotados de um estômago complexo, como a girafa) do que com a dos demais hominídeos. Mas eles ressaltam que não é possível determinar o porquê dessa predileção.

“Talvez a preferência seja explicada por causa da grande concorrência com outros animais e hominídeos consumidores de plantas C4”, arrisca Henry. E completa: “Ou então porque a savana era um lugar muito aberto e perigoso para se estar”.


Lucas Conrado

Especial para CH On-line

 

Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2012/07/cardapio-incomum