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O ponto de vista guarani

Trajetória de povo indígena é tema de livro de historiador catarinense. Trabalho mostra como a identidade do grupo étnico tem sido desrespeitada por interesses geopolíticos e que, apesar disso, aldeias resistem à extinção.

A relação do historiador Clovis Antonio Brighenti com o movimento indigenista é antiga e remonta a um momento pessoal de sua juventude. É por isso que no livro Estrangeiros na própria terra – Presença guarani e estados nacionais, resultado de sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade de São Paulo, ele assume o papel de porta-voz do povo indígena ao contar um outro lado da história da formação de Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia.

Estrangeiros na própria terra
Capa do livro ‘Estrangeiros na própria terra’, de Clovis Antonio Brighenti.

A obra foi publicada conjuntamente pela Argos (editora da Universidade Comunitária da Região de Chapecó) e pelaEditora da Universidade Federal de Santa Catarina.

Nela, Brighenti trata da trajetória da população guarani, que continua a existir mesmo após cinco séculos subjugada a interesses geopolíticos, inicialmente de Portugal e Espanha e depois dos governos da América do Sul.

“Todos os acordos estabelecidos entre estados nacionais, desde o Tratado de Tordesilhas, ignoraram a presença dos índios”, destaca o historiador. A população guarani, que formava uma nação própria, acabou, assim, dividida artificialmente em vários grupos, que foram forçados a se identificar com os territórios nacionais onde vivem.

“É comum ouvirmos falar em ‘guaranis paraguaios’ ou ‘guaranis argentinos’, mas, na prática, todas as aldeias pertencem originalmente a um único grande grupo social.” Um dos maiores problemas dessa divisão territorial é que os índios ficam submetidos a legislações indigenistas diversas de acordo com o país onde estão.

Divisão territorial entre países submete os índios a legislações indigenistas diversas

A partir de uma intensa pesquisa bibliográfica (o livro tem mais de 140 referências) e da coleta de relatos orais, Brighenti mostra como os direitos dos guaranis foram violados pelos colonizadores europeus e como a identidade do povo continua a ser desrespeitada nos dias de hoje.

Segundo o historiador, estima-se que a população guarani girava em torno de 2 milhões em 1500 e que não passa dos 250 mil atualmente. Embora jamais tenha sido feito um censo específico sobre o grupo étnico, os números são os mais aceitos nacomunidade indigenista, por levar em consideração vários registros históricos e arqueológicos.

Sobrevivência

Para Brighenti, apesar das adversidades, a população guarani consegue sobreviver graças a uma força de vontade rara em outras tribos. “Diante da interferência do homem branco, vários outros povos indígenas simplesmente deixaram de procriar ou de manter as tradições e acabaram extintos“, diz.

De uns 25 anos para cá, nota-se até mesmo uma tendência de crescimento da população guarani. “As aldeias estão repletas de crianças, e os mais velhos só ensinam o idioma oficial do país depois que elas já aprenderam a língua nativa”, relata.

Opy
Construção da ‘opy’, como é chamada a casa de rezas guarani, em aldeia localizada no oeste de Santa Catarina. Índios fazem questão de manter tradições vivas entre os mais jovens para garantir identidade própria do grupo. (foto: Clovis Antonio Brighenti)

Os maiores problemas enfrentados pelos guaranis estão relacionados com a falta de terras, que ao longo do tempo foram sendo tomadas por agricultores. Sem terra, não há espaço para expansão das aldeias, os recursos naturais são cada vez mais escassos e falta até lenha para fazer fogo.

Foi justamente uma disputa por terra entre índios e agricultores que, de certa forma, motivou Brighenti a escrever Estrangeiros na própria terra. O ano era 1986 e o pesquisador cursava o ensino médio no Colégio Bom Pastor, em Chapecó, no oeste de Santa Catarina, quando viu a escola ser ocupada por índios caingangues (povo indígena do sul do Brasil que se desenvolveu em áreas com predomínio de pinheiros).

Na ocasião, o então estudante conheceu o trabalho do Conselho Indigenista Missionário, entidade da qual passaria a fazer parte dois anos depois. A temática indígena nunca mais saiu da vida de Brighenti, que hoje acompanha o movimento de luta pelos direitos das populações nativas da América do Sul.

Entre as principais reivindicações dos índios estão a demarcação de terras e a criação de uma carteira de cidadania indígena

Desde 2006, há encontros continentais anuais do povo guarani e em 2010 formou-se um conselho para representar os interesses do grupo. Entre as principais reivindicações dos índios aos governos de Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia estão a demarcação de terras indígenas e a criação de uma carteira de cidadania indígena, que daria a eles o direito de circular livremente entre os países.

Tudo se resume a uma única necessidade, que quem lê o livro de Brighenti entende bem: os índios guaranis querem apenas deixar de ser tratados como exóticos em seu próprio território.

Célio Yano
Ciência Hoje On-line/ PR

FONTE: http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2011/05/o-ponto-de-vista-guarani