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Tavira: Com raio-X e TAC não há segredo islâmico que resista

Custou mas foi. O vaso Islâmico de Tavira, arte popular islâmica, descoberto pelos arqueólogos Manuel e Maria Maia, está finalmente exposto no Núcleo Islâmico do Museu Municipal de Tavira. Veja como foram revelados os seus segredos.
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Convém antes saber que a vasta zona designada pelos muçulmanos de Al Garb al Andaluz (ou seja, a ocidente de Andaluz) foi ocupada por estes a partir do ano 712. Quando chegaram a cidade estaria moribunda, mas ressurge e no séc XI, há notícias do movimento do seu porto e a par da prosperidade mercantil veio a importância política e, por isso, Tavira chegou a ser capital de um Reino Taifa e, durante período almóada, capital de um distrito.

É deste contexto que emerge o mais famoso vestígio islâmico da cidade, o “exótico” Vaso de Tavira, em cerâmica, e profusamente ornamentado com figuras, pelo que este achado dos arqueólogos Manuel e Maria Maia é um dos mais eloquentes testemunhos da vida no Al Andaluz.

Foi encontrado durante as escavações que corresponderiam a possível “vala-lixeira” como explicou Manuel Maia no âmbito da descoberta.

No mesmo local, os arqueólogos descobriram um contentor de suspensão e ainda um cantil, ambos decorados com traços e círculos a branco, de pasta alaranjada de cerâmica comum e ainda o fundo de uma taça esmaltada a branco que tinha uma inscrição feita a manganés que, segundo Adel Sidarus e Ahmed Tahiri, significa “Não há Deus senão Alá”.

Voltando ao vaso de Tavira, este tem uma espécie de ‘cachimbo’ ou torre, por onde se introduz a água que circula por um canal oco a rodear o bordo superior do vaso.

Este canal é, por sua vez, interrompido por 11 figuras, humanas e de animais que no seu interior possuem finos canais, através dos quais a água verte, como se de uma fonte se tratasse, para dentro do corpo do vasilhame.

TAC descobre todos os segredos

Como é que se sabe tudo isto? Quando for apreciar ao vivo a cerâmica, mesmo ao lado está disponível um vídeo que retrata o exame realizado pelo médico de Imagiologia Jorge Pereira, diretor de serviço no Hospital de Faro, que na sua clínica de Tavira tem vindo a colaborar com as investigações arqueológicas.

Assim, o mesmo aparelho que identifica artérias e veias e outros órgãos humanos através do exame Tomografia Axial Computadorizada (TAC), e ainda por raio X, analisou os mistérios do vaso de Tavira descobrindo mistérios que já tinham mais de dois milénios.

É caso para dizer que aquilo que é bom para a saúde também é bom para a arqueologia, porque o TAC é uma tecnologia não invasiva e portanto não dói no caso do doente e não afeta a estrutura das peças que a ela são sujeitas.

Enganos do artesão, a estrutura dos canais que transportam a água tudo pode ser seguido num écran transportando para o presente um passado longínquo.

Quem são as figuras do Vaso Islâmico de Tavira

As 11 figuras são constituídas por seis representações antropomórficas e cinco zoomórficas, o que traduzido, significa haver três cavaleiros, dois deles armados, o primeiro com lança e cinturão com espada e com a cabeça coberta por turbante e o outro com capacete de forma cónica, espada em punho e escudo de combate de forma circular.

No meio dos cavaleiros está, provavelmente a representação de uma mulher, ornada com diadema ou com um coque como penteado.

Um dos cavaleiros tem a seu lado um peão, também armado, enquanto o outro está ladeado por dois músicos, um deles a tocar um pequeno tambor ou tanur, enquanto que o outro toca um adufe, ambos com a cabeça coberta por capacete de forma cónica e pontiaguda.

A seguir está uma tartaruga com a carapaça decorada, depois um boi, uma cabra e um camelo.

A torre (ou cachimbo para inserir a água) apresenta diversas aves e toda a peça possui uma complexa decoração com representações esquemáticas de peixes, plantas e símbolos geométricos.

Para que serviria esta peça, tão extraordinária, quando é clara a intenção do oleiro de representar as figuras com grande realismo?

Consensual é o fato da água (al-ma) ser, antes de mais, um dos elementos primordiais, a par da terra, céu, fogo e ar, desenvolvendo significações simbólicas ao longo dos milénios.

Porém, enquanto a arqueóloga Maria Maia, entretanto falecida, admitia que poderia ser uma “miniatura popular de um tanque palaciano”, há outras interpretações com a de Cláudio Torres, que considerou ser a representação simbólica de um rapto nupcial.

Por sua vez, e numa discussão que eventualmente só será esclarecida com novas descobertas e investigações, Mário Varela Gomes, considera que o “Vaso de Tavira” corresponde a um recipiente de abluções para os guerreiros ali representados (murabitun) e preparados para a guerra santa (djihad), que se purificavam através da água que as figuras vertiam para o seu interior, estimulados pelos músicos, a serem resistentes e obstinados como a tartaruga, igualmente símbolo da longevidade.

Um caso de persistência que atravessou mandatos de 2 partidos

E por longevidade, foi precisa muita persistência, por parte da autarquia de Tavira, desde que as obras de requalificação da agência do então Banco Nacional Ultramarino, em 1996, puseram a descoberto vestígios arqueológicos que obrigavam à intervenção, por ser Zona Especial de Proteção de monumento classificado, a Porta de D. Manuel, uma das antigas entradas na muralha.

Não só não facilitou o facto de o banco proprietário ter sido absorvido por outro, como foi difícil obter financiamento para as obras.

A tarefa foi dividida por vários mandatos de dois autarcas, Macário Correia (PSD) que iniciou o processo e Jorge Botelho (PS) que o culminou adjudicando 750 mil euros para obras e mais 150 mil, para a musealização do espaço. No total, a Câmara de Tavira investiu, desde o início do processo, 2,1 milhões de euros.

Finalmente, o Núcleo Islâmico do Museu Municipal de Tavira abriu esta sexta-feira ao público, com a pompa e circunstância habituais, mas também com uma homenagem ao casal de arqueólogos, arqueólogos Manuel e Maria Maia que lideraram as escavações na antiga Pensão Arcada e no BNU, onde foram descobertos vestígios islâmicos atrás citados e outros, datados dos séculos XI e XII.

Mais de uma década e meia de trabalho, para que se saiba melhor de onde se vem, um passo essencial para abrir caminhos futuros.

Neste caso, e foi nesse sentido que se pronunciaram as personalidades que assistiram à inauguração, o valor contemporâneo passa não só pela identidade cultural da cidade, mas também pelo valor turístico de um espaço que exibe uma das peças arqueológicas mais intrigantes do Al Garb al Andaluz.

Nota: O Núcleo Islâmico do Museu Municipal de Tavira pode ser visitado no inverno terça a sábado das 10h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30 e no verão das 10h00 às 13h00 e das 15h00 às 18h30, todos os dias.

 

 

 

FONTE:  http://www.observatoriodoalgarve.com/cna/noticias_ver.asp?noticia=48831