DESEQUILÍBRIO E COMUNICAÇÃO 

Nós que estudamos a comunicação pública e mantemos aceso este canal, perseguindo o objetivo de que a dimensão pública da comunicação dos governos qualifica a democracia, acompanhamos a consertação e as rupturas de relações entre governo, sociedade e instituições sustentadas pela COVID19.  

Submetidos às consequências de uma pandemia global descontrolada, governantes são obrigados a tomar providências e a cuidar de seus cidadãos.  Na maioria dos países, pela vez primeira, a política econômica foi submetida a políticas de investimentos na saúde pública. A vida em primeiro lugar. De todos os lados brotam inesperadas redes de solidariedade e acordos municipais, estaduais, federais e internacionais. O mundo parece se unir em torno do mesmo objetivo: sobrevivência, segurança e tranquilidade para recomeçar. Podemos identificar o movimento de redes de comunicação pública, através das quais, diferentes sociedades, governantes e meios de comunicação giram em torno de um tema único, a vida. 

Processos de contágio, prevenção, medicação, vacinas e pesquisas sobre essa ameaça global foram transformados em pauta única, de interesse público, abordada por milhões de pessoas, em centenas de dispositivos comunicativos. Políticos, celebridades, artistas e anônimos cidadãos se dedicam ao tema e tentam contribuir. Em nome do interesse público, pode-se identificar o rearranjo de forças e de relações: a imprensa parece recuperar sua função pública de informar, perseguir a verdade, prestar serviço público; os poderes legislativos e judiciários parecem acordar e defender os direitos da sociedade; a Universidade se engaja na luta contra o vírus;  associações e entidades até pouco tempo escamoteadas reforçam suas ações junto aos trabalhadores e miseráveis; a saúde pública, o SUS brasileiro, se torna defensável e parece recuperar o investimento público; e, as organizações privadas ingressam na luta aconselhando e vendendo seus serviços, produtos, associando interesses públicos e mercadológicos.   

No Brasil, entretanto, ações e discursos presidenciais vão à contramão deste momento histórico. Do seu lugar de poder, o presidente Jair Bolsonaro assume diferentes personas para desqualificar a preocupação internacional, ridicularizar a força da COVID19 e desautorizar a ciência. Usando todo o poder que lhe foi conferido pelo voto, promove a insegurança, a desagregação; convoca seus seguidores a substituir o discurso científico pelo religioso; transforma medicamentos em cartadas políticas e desrespeita seu staff ministerial, governadores  e prefeitos, em nome de uma “verdade” particular, sem base racional.

Suas descabidas atitudes o transformaram em pauta internacional. Ridicularizado ou ovacionado, desconstrói princípios elementares da comunicação e de posturas adequadas a um presidente de uma democracia. Seu comportamento irresponsável indica a disputa por uma imagem pública centrada na parte política do vírus, na qual não há espaço para a saúde pública e para a vida dos brasileiros. 

O OBCOMP segue vigilante na identificação e análise das relações entre Estado, mídia e sociedade, publicando conteúdos noticiosos e opinativos desde o início dessa crise sanitária, expondo suas dimensões públicas e privadas. Observatórios em regimes democráticos são ainda mais importantes quando governantes flertam com o autoritarismo e com a ameaça à vida dos cidadãos.

 

Porto Alegre, 14 de abril de 2020.

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