Foto: Reprodução TV Brasil

Gabrielle Tolotti: Coronavírus e o temeroso discurso do presidente

A Organização Mundial da Saúde declarou no dia 11 de março pandemia de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Na ocasião, o surto já estava disseminado por 114 países, com 118 mil casos e 4.291 mortes registradas. No Brasil, o primeiro caso com teste positivo para coronavírus foi registrado em 25 de fevereiro. Enquanto o mundo tomava diversas medidas drásticas para desacelerar a propagação do vírus, como cancelamento de voos, fechamento de fronteiras, proibição de aulas, eventos esportivos e culturais, o presidente Jair Bolsonaro desdenhava da magnitude da pandemia. Em Miami, no dia 9 de março, afirmou que “há muita fantasia sobre coronavírus” e, de volta ao Brasil, no dia 11, declarou que “outras gripes mataram mais do que essa”. 

Após o secretário de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, ter sido diagnosticado positivo para o Covid-19 e a suspeita de que o próprio presidente estivesse infectado, Jair Bolsonaro interrompeu temporariamente os discursos que relativizavam a gravidade da situação. Inclusive, em pronunciamento oficial no dia 12 de março, o presidente solicitou que diante do cenário de pandemia as manifestações pró-governo marcadas para o domingo, dia 15, fossem repensadas.

No sábado, dia 14, um dia antes da data agendada para os protestos, o boletim oficial do Ministério da Saúde informou que o Brasil possuía 121 casos confirmados de coronavírus, sendo registradas transmissão local, terceiro e último estágio epidemiológico, em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Para reduzir a transmissibilidade do vírus, o Ministério da Saúde indicou medidas que visavam a redução do fluxo urbano e o incentivo à etiqueta sanitária.  

No entanto, em desacordo com o seu pronunciamento oficial e a orientação do Ministério da Saúde, no domingo, dia 15, o presidente Jair Bolsonaro incentivou as manifestações de rua em suas redes sociais, tuitou 43 vezes sobre os atos pró-governo, postando vídeos e fotos dos protestos em diversas cidades do Brasil. Por outro lado, não fez nenhuma postagem falando dos riscos do coronavírus ou sobre medidas de prevenção. Além disso, rompeu o isolamento indicado pelos médicos por conta da suspeita de contaminação e esteve na manifestação em Brasília, cumprimentando e fazendo selfies com apoiadores. À noite, em entrevista à CNN, Bolsonaro ainda qualificou como “histeria” e “extremismo” as medidas adotadas para conter a propagação do vírus. 

Na sexta-feira (20), quando o país estava registrando a décima segunda morte de pessoas infectadas pelo novo coronavírus e ultrapassando a marca de 900 casos confirmados, Jair Bolsonaro, em entrevista ao apresentador Ratinho, no SBT, mais uma vez falou em histeria, criticou o fechamento de shoppings e a proibição de missas e cultos. Na mesma entrevista, também expôs sua total falta de sensibilidade com o assunto ao declarar: "vão morrer alguns do vírus? Sim, vão morrer. Vai acontecer, lamento”. 

Segundo revelado pela revista Época, no mesmo dia 20, Bolsonaro ficou irritado com o cancelamento dos protestos do dia 15 e não foi contundente em seu pronunciamento oficial porque não queria que as manifestações fossem suspensas. Pelo aplicativo de menagens Whatsapp, o presidente cobrou explicação de deputados sobre a desmobilização nas redes sociais e, para tentar reverter a situação, orientou o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos), seu filho, a pressionar os aliados que estavam desistindo da promoção dos atos. 

Jair Bolsonaro tem agido de maneira extremamente irresponsável. Além de colocar boa parte da população em risco ao incentivar aglomeração de pessoas no dia 15 e romper o isolamento médico para interagir com apoiadores, seus discursos sistemáticos de ridicularização das medidas de combate à pandemia são simbolicamente muito temerosos. 

A Teoria Semiolinguística de Análise do Discurso, fundada por Patrick Charaudeuau, ensina que são os discursos que regulam as práticas sociais. Nesse sentido, compreende-se o quão poderoso é o discurso do homem mais importante da nação. Com seus posicionamentos, portanto, Jair Bolsonaro tem reforçado, em parte da população que acredita na legitimidade de suas palavras, um entendimento anticientífico sobre a crise sanitária mundial e contribuído para que algumas pessoas não encarem com tanta seriedade as orientações dos especialistas para a redução do número de casos de COVID-19. Ou seja, mais do que não liderar uma força-tarefa de combate ao coronavírus, Bolsonaro tem atrapalhado. 

Diante desse cenário, aumenta a responsabilidade da comunidade acadêmica e científica. Nós pesquisadores, professores, jornalistas, virologistas, infectologistas, sanitaristas, neurologistas etc., precisamos seguir defendendo o conhecimento científico, disputando narrativas, compartilhando informações precisas e pressionando o poder público. Cada um de nós é um bastião no combate à desinformação, ao pânico e à inércia. 

 

Gabrielle Tolotti
Relações Públicas
Especialista em Cultura Digital e Redes Sociais (UNISINOS)
Mestranda em Comunicação (PPGCOM/UFRGS) 

 

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