Foto: Renan Costa Lima/Estúdio Tropical

Josiel Rodrigues: Os barulhaços como nova estratégia de mobilização social

“Pausa nas ruas, não na luta”. Essa foi a chamada dos movimentos sociais após o início do isolamento social para o combate ao coronavírus que, de modo geral, se deu no início da semana passada. Desde meados de fevereiro estavam convocadas manifestações em todo o Brasil – inicialmente como calendário da Jornada de Lutas da Juventude e que rapidamente foi aderida pelas mais diversas entidades, como centrais sindicais e entidades educacionais.

Pautas para a convocação dessas manifestações era o que não faltava: a redução dos orçamentos das universidades e institutos federais (em relação ao orçamento de 2019, o corte foi de 17%), a Medida Provisória 914 (vista como uma afronta à autonomia universitária), a discussão sobre o programa Future-se (considerada um projeto de privatização das instituições federais de ensino superior), além da própria rejeição do governo de Jair Bolsonaro.

Todas essas pautas ainda estão presentes na realidade da educação brasileira, mas foram rapidamente suprimidas da agenda da esfera pública com o avanço do COVID-19 no Brasil. A velocidade com a qual a pandemia se alastrou no país (e que já causou mais de 16 mil mortes no mundo todo) obrigou os brasileiros e brasileiras a aderirem às medidas de prevenção – dentre elas a necessidade de permanecer em quarentena nas suas casas.

Diante de todo esse cenário, as entidades do movimento que estavam organizando as manifestações de rua optaram por suspendê-las, devido ao fato de atos de rua configurarem aglomerações sociais e, portanto, poderem colocar em risco a vida das pessoas. E como ficam, então, os protestos e as reinvindicações sociais? A resposta foi: barulhaço!

Os locais tradicionais de concentração dos atos, como a Esquina Democrática em Porto Alegre, a Igreja da Candelária no Rio de Janeiro, a Praça Universitária de Goiânia, a Praça da Saudade em Manaus e a Praça do Campo Grande em Salvador, por exemplo, deram lugar a um novo ponto de encontro: as janelas das casas e apartamentos de todo o Brasil.

A massa formada por milhares de pessoas que ocupavam as ruas do país deu lugar ao som que ecoava de todos os cantos das cidades brasileiras. As faixas e estandartes que carregavam as indignações daqueles que enchiam as ruas nas tradicionais manifestações (tenhamos como exemplo os “tsunamis da educação” do ano passado) estão hoje representados pelos gritos de cidadãos que continuam indignados com o que está acontecendo, mas desta vez de suas casas.

Os barulhaços estão sendo uma importante resposta da sociedade ao momento que estamos vivendo: a capacidade de mobilização social em um contexto de pandemia ocuparam os principais noticiários do país. Não há, entretanto, a possibilidade de estimar quantitativamente a participação das pessoas – e isso não tem importado, já que o barulho das panelas, apitos e gritos foi forte o suficiente para fazer o presidente da República voltar atrás na sua decisão de possibilitar a suspensão dos contratos de trabalho por quatro meses, sem o pagamento de salários.

Estas manifestações confirmam que há uma efervescência de participação e da discussão da agenda política nacional entre as pessoas. Houve, ainda, uma convocação de panelaços a favor de Jair Bolsonaro no dia 18 de março, mas sem o mesmo sucesso dos que foram realizados contra seu governo.

A indignação é justificada, já que enquanto outros países, como a Alemanha e a França, estão enfrentando de forma bastante dura a pandemia do coronavírus, por aqui Bolsonaro tem demonstrado incapacidade em liderar o combate à doença. Palavras de ordem como “Fora Bolsonaro”, “Bolsonaro fascista”, “Bolsonaro é miliciano” e, também, gritos em defesa intransigente do Sistema Único de Saúde (SUS) era o que se ouvia durante os últimos pronunciamentos do presidente. Aconteceram, também, projeções nos prédios e edifícios das cidades, que reforçavam as frases entoadas durante os barulhaços.

Merece destaque, aqui, o panelaço ocorrido durante o pronunciamento de Jair Bolsonaro da última terça-feira (24), em que as declarações do presidente foram de forte incentivo à retomada das atividades cotidianas (como aulas e reabertura do comércio), fruto de uma leitura de que o coronavírus não é nada mais que uma “gripezinha”. O pronunciamento mobilizou as pessoas para um dos mais intensos e calorosos atos contra as declarações e a postura do presidente, que foi de completo descaso com a vida das pessoas.

Enquanto atos de rua tradicionais têm como dificuldades de mobilização questões objetivas desde a necessidade de deslocamento até o local de concentração até questões subjetivas, como um possível cansaço físico e o medo do enfrentamento a autoridades policiais, os barulhaços encontram como ponto positivo a possibilidade de as pessoas estarem em suas casas. E é esse, talvez, um dos elementos que mais tem feito essas manifestações crescerem e serem a resposta desse tempo para todas as dificuldades que estamos vivendo – sendo elas de ordem sanitária, econômica ou política. 

Ao que pode ser observado, os barulhaços estão contribuindo para a dissolução da chamada polarização social que tomou conta do nosso país nas eleições presidenciais de 2014 e que se agravou nas últimas eleições. A tendência é que continuem acontecendo e, com eles, será das janelas de todo o Brasil que as pautas populares terão voz. Será das nossas casas que nos protegeremos e manifestaremos nossas opiniões!

 

Josiel Rodrigues
Relações Públicas
Mestrando em Comunicação (UFRGS) 
Membro do Grupo de Pesquisa em Comunicação Pública e Política (NUCOP) e do Observatório da Comunicação Pública.

*********************************

Artigos assinados expressam a opinião de seus autores.
Para contribuir com textos/imagens/vídeos nesta seção do OBCOMPentre em contato

 

Comente

Compartilhe:

Textos e Opiniões

  Atualizar Código