Foto: Canva

Laura Guerra: A sutileza da invisibilidade feminina na produção acadêmica

A regra autor-data é, talvez, a mais compreensível das normas de adequação de textos acadêmicos. A simples indicação do sobrenome de autores e autoras, seguido pelo ano da publicação e, em caso de citação direta, pela página na qual consta o trecho consultado, permite um fluxo de escrita sem longas interrupções para conferir o manual. Além disso, como destaca Umberto Eco na indispensável obra Como se faz uma tese (Editora Perspectiva, 1983), o sistema autor-data serve para economizar o espaço que o sistema citação-nota não consegue. Pontos positivos, mas não são sobre eles que escrevo hoje.

Certa vez, durante uma oficina de Metodologia Feminista, um alerta vindo de duas pesquisadoras chamou muita atenção. Ministrantes do curso e doutorandas vinculadas ao Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Mulher e Gênero (NIEM/UFRGS), Gabriela Scapini e Florência Guarch compartilharam uma crítica ao sistema autor-data como uma peça da complexa engrenagem da invisibilidade da mulher na ciência. O que foi exposto pelas pesquisadoras naquele dia permanece como reflexão.

Pela lógica, a citação do sobrenome implicaria em neutralidade. Porém, levando em consideração a força do hábito e a questão gramatical do masculino genérico para fins de concordância, a neutralidade do sobrenome pode resultar no efeito reverso. Compreender o sistema autor-data como uma faísca para o debate sobre a produção acadêmica feita por mulheres significa dizer que a ocultação do primeiro nome possivelmente gere, mesmo que involuntariamente, o apagamento da autoria feminina. É interessante pensar no sistema autor-data, pois este faz parte da escrita acadêmica de tal forma que as chances de percebê-lo com olhar crítico diminuem. Por experiência própria, foi preciso ouvir a crítica de Gabriela e Florência para começar a pensar sobre. 

Talvez não seria sequer necessário levantar este debate se o cenário fosse diferente. Mesmo com mais mulheres entrando na Universidade, o Censo da Educação Superior de 2018, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), aponta que há mais homens docentes em universidades públicas e privadas. Os dados do Censo da Educação Superior de 2018 foram cruzados com informações da Plataforma Lattes pelo  recém lançado projeto Open Box da Ciência, promovido pela organização de jornalismo de dados Gênero e Número, apoiado pelo Instituto Serrapilheira. A análise mostra que apenas 15% das docentes pesquisadoras recebem bolsa de apoio à pesquisa e apenas 2,6% das docentes pesquisadoras negras recebem o incentivo. São números que refletem em mulheres que já ultrapassaram as primeiras barreiras ao ingressarem em Programas de Pós-Graduação. 

Não se trata da mudança da regra em questão. Sem saber se é uma unanimidade, retomo aqui um conselho relacionado com o tema deste artigo: está permitida a primeira citação indireta com o nome e sobrenome. Iluminar a problemática da autoria é reiterar a necessidade de situar as referências bibliográficas no tempo e espaço e, assim, refletir sobre as condições de produção de quem escreve.

A questão da autoria feminina não é uma novidade. São casos intencionais e não-intencionais, sendo igualmente necessário grifá-los para avançarmos no debate. Embora diferentes do que consideramos a invisibilidade gerada pelo sistema autor-data, há descréditos que, felizmente, a história, o cinema e a cultura iluminaram. É o caso da trajetória da escritora francesa Sidonie-Gabrielle Colette, que teve autoria negada e substituída pelo nome do então marido e também escritor Henry Gauthier-Villars na série de romances Claudine, assim como a artista estadunidense Margaret D. H. Keane, que passou pela mesma situação com os quadros que pintava. Mesmo separadas por um século, localizadas em continentes diferentes, os casos se aproximam no que tange o curso da sociedade ocidental. 

De uma forma ou de outra, entre o intencional e o não-intencional, a engrenagem da invisibilidade feminina opera na vida de mulheres, recaindo com intensidade e rigor de um extremo ao outro da cadeia privilégios e prestígios já conquistados.

 

Laura Guerra
Doutoranda em Comunicação e Informação (PPGCOM/UFRGS)
Integrante do grupo de pesquisa Núcleo de Comunicação Pública e Política (NUCOP) e do Observatório da Comunicação Pública.

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