Foto: Clarice Lissovsky

Fernanda Bastos: Reflexões a partir do acontecimento Marielle Franco

Em 14 de maio de 2020 completaram-se 26 meses de espera pela conclusão da investigação que apura a responsabilidade sobre os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes. Marielle era vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL e Anderson seu motorista. Eles foram executados em 14 de março de 2018, em uma emboscada na região central do Rio de Janeiro. Até hoje, não sabemos por que motivo e a mando de quem Marielle foi assassinada. Até o momento, a única apuração que se tornou pública na investigação é a de que o ex-policial Ronie Lessa fez os disparos contra a parlamentar e que o também ex-policial Élcio de Queiroz dirigia o carro que encostou no veículo de Marielle para descarregar os tiros. O objetivo deles era assassinar Marielle, mas, repito, por quê?

A espera por respostas iniciada naquela noite não veio sem pressões e protestos, no entanto. Sem pretender entrar na discussão sobre a investigação, minha dissertação — defendida em 16 de abril de 2020 no Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM/UFRGS), de forma remota em consequência da pandemia da covid-19—, buscou oferecer um frame e uma interpretação sobre a mobilização em torno desse fenômeno.

O postulado central do estudo é que o assassinato da vereadora destrama um acontecimento no qual a  trajetória de Marielle passa a ser apropriada para a construção de narrativas das causas desse acontecimento. Diferentemente da repercussão de muitos assassinatos de vereadores no Brasil, o caso envolvendo Marielle Franco despontou nos noticiários do país e de outros países que olhavam para o Brasil. A relevância do acontecimento ficou demonstrada até no ingresso dele como pauta dos então youtubers Artur Moledo do Val, Joice Hasselmann e Kim Kataguiri — hoje Kataguiri e Hasselmann são deputados federais e Val, deputado estadual —, que não são identificados com a defesa dos direitos humanos e a causa antirracista, mas dedicaram vídeos específicos, alertando sobre o que consideravam os excessos da mídia na cobertura do caso em detrimento de outras mortes, sobretudo a de policiais militares em atividade e de cidadãos de bem, que não teriam sido adequadamente visibilizadas.

A análise desse acontecimento mostrou que ele aciona para um estado de coisas — conforme termo utilizado por Gilles Deleuze —, que busquei identificar na cobertura da imprensa, a partir das narrativas que emergiram nas notícias sobre o acontecimento e suas interpretações. A imprensa, nesse sentido, forma o que chamei de sismógrafo, por indicar esse estado de coisas disputado pelos atores mobilizados pelo acontecimento.

O exercício interpretativo se amparou na hermenêutica de Paul Ricouer e na antropofagia, entendida por meio do que Marcelo Paixão identifica como sendo um padrão de manutenção das desigualdades raciais no Brasil. A partir do postulado deleuziano de que o acontecimento é sempre duplo e paradoxal, foram estabelecidos alguns eixos de inter    pretação, que generalizam as leituras de Marielle como sendo heroína e anti-heroína, mártir e inimiga. Outro eixo de apropriação antropofágica do acontecimento Marielle é a sua transformação em produtos de consumo, por meio de imagens em bottons, camisetas e quaisquer produtos vendáveis. A generalização necessária para o consumo de sua trajetória e a urgência de transformá-la em uma mensagem vendável para que seus ganhos políticos fossem repartidos se unem nesses eixos, no qual a disputa pelo estado de coisas e a conformidade com o acontecimento são identificadas.

Tanto as leituras que transformaram Marielle em uma anti-heroína, sobretudo por meio das notícias falsas (fake news), quanto aquelas que atribuíram a ela o papel de inimiga da ordem apontam para o que Slavoj Žižek chama de desacontecimentalização, um processo no qual se tenta retirar a potência transformadora do acontecimento, levando até mesmo a sua anulação, ou seja, sua retirada da narrativa histórica e possível invisibilização.

A morte de Marielle, embora tenha atingido a muitas pessoas como um fato sem consolo, integra-se com naturalidade à narrativa histórica quando analisado o seu perfil de mulher negra, de origem favelada, LGBT+ e defensora dos direitos humanos. Ciente dos problemas de realizar uma análise em concomitância com o fenômeno pesquisado, no trabalho tratei de recuperar o incômodo e o alívio que o mandato de Marielle representava para a história da política brasileira, tema encontrado por exemplo em texto seminal de Sueli Carneiro sobre a rara aparição das mulheres negras em cargos de comando na política.

Desde o assassinato, diversos grupos e instituições — e em especial a Anistia Internacional e o Instituto Marielle Franco — têm feito o enfrentamento às autoridades para que essa morte não seja menosprezada e para que o legado de Marielle permaneça visível como uma cicatriz. Minha dissertação sinaliza para um esforço de linguagem a fim de compreender o que parece ininteligível, como o ódio e o ataque aos direitos humanos. A imagem de Marielle a todo tempo nos lembra que, no Brasil, as vítimas desse ódio são agrupadas em maior número pela cor da pele.

Em 14 de maio de 2020 completaram-se 26 meses de espera pela conclusão da investigação que apura a responsabilidade sobre os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes. Marielle era vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL e Anderson seu motorista. Eles foram executados em 14 de março de 2018, em uma emboscada na região central do Rio de Janeiro. Até hoje, não sabemos por que motivo e a mando de quem Marielle foi assassinada. Até o momento, a única apuração que se tornou pública na investigação é a de que o ex-policial Ronie Lessa fez os disparos contra a parlamentar e que o também ex-policial Élcio de Queiroz dirigia o carro que encostou no veículo de Marielle para descarregar os tiros. O objetivo deles era assassinar Marielle, mas, repito, por quê?

A espera por respostas iniciada naquela noite não veio sem pressões e protestos, no entanto. Sem pretender entrar na discussão sobre a investigação, minha dissertação — defendida em 16 de abril de 2020 no Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM/UFRGS), de forma remota em consequência da pandemia da covid-19—, buscou oferecer um frame e uma interpretação sobre a mobilização em torno desse fenômeno.

O postulado central do estudo é que o assassinato da vereadora destrama um acontecimento no qual a  trajetória de Marielle passa a ser apropriada para a construção de narrativas das causas desse acontecimento. Diferentemente da repercussão de muitos assassinatos de vereadores no Brasil, o caso envolvendo Marielle Franco despontou nos noticiários do país e de outros países que olhavam para o Brasil. A relevância do acontecimento ficou demonstrada até no ingresso dele como pauta dos então youtubers Artur Moledo do Val, Joice Hasselmann e Kim Kataguiri — hoje Kataguiri e Hasselmann são deputados federais e Val, deputado estadual —, que não são identificados com a defesa dos direitos humanos e a causa antirracista, mas dedicaram vídeos específicos, alertando sobre o que consideravam os excessos da mídia na cobertura do caso em detrimento de outras mortes, sobretudo a de policiais militares em atividade e de cidadãos de bem, que não teriam sido adequadamente visibilizadas.

A análise desse acontecimento mostrou que ele aciona para um estado de coisas — conforme termo utilizado por Gilles Deleuze —, que busquei identificar na cobertura da imprensa, a partir das narrativas que emergiram nas notícias sobre o acontecimento e suas interpretações. A imprensa, nesse sentido, forma o que chamei de sismógrafo, por indicar esse estado de coisas disputado pelos atores mobilizados pelo acontecimento.

O exercício interpretativo se amparou na hermenêutica de Paul Ricouer e na antropofagia, entendida por meio do que Marcelo Paixão identifica como sendo um padrão de manutenção das desigualdades raciais no Brasil. A partir do postulado deleuziano de que o acontecimento é sempre duplo e paradoxal, foram estabelecidos alguns eixos de inter    pretação, que generalizam as leituras de Marielle como sendo heroína e anti-heroína, mártir e inimiga. Outro eixo de apropriação antropofágica do acontecimento Marielle é a sua transformação em produtos de consumo, por meio de imagens em bottons, camisetas e quaisquer produtos vendáveis. A generalização necessária para o consumo de sua trajetória e a urgência de transformá-la em uma mensagem vendável para que seus ganhos políticos fossem repartidos se unem nesses eixos, no qual a disputa pelo estado de coisas e a conformidade com o acontecimento são identificadas.

Tanto as leituras que transformaram Marielle em uma anti-heroína, sobretudo por meio das notícias falsas (fake news), quanto aquelas que atribuíram a ela o papel de inimiga da ordem apontam para o que Slavoj Žižek chama de desacontecimentalização, um processo no qual se tenta retirar a potência transformadora do acontecimento, levando até mesmo a sua anulação, ou seja, sua retirada da narrativa histórica e possível invisibilização.

A morte de Marielle, embora tenha atingido a muitas pessoas como um fato sem consolo, integra-se com naturalidade à narrativa histórica quando analisado o seu perfil de mulher negra, de origem favelada, LGBT+ e defensora dos direitos humanos. Ciente dos problemas de realizar uma análise em concomitância com o fenômeno pesquisado, no trabalho tratei de recuperar o incômodo e o alívio que o mandato de Marielle representava para a história da política brasileira, tema encontrado por exemplo em texto seminal de Sueli Carneiro sobre a rara aparição das mulheres negras em cargos de comando na política.

Desde o assassinato, diversos grupos e instituições — e em especial a Anistia Internacional e o Instituto Marielle Franco — têm feito o enfrentamento às autoridades para que essa morte não seja menosprezada e para que o legado de Marielle permaneça visível como uma cicatriz. Minha dissertação sinaliza para um esforço de linguagem a fim de compreender o que parece ininteligível, como o ódio e o ataque aos direitos humanos. A imagem de Marielle a todo tempo nos lembra que, no Brasil, as vítimas desse ódio são agrupadas em maior número pela cor da pele.

 

Fernanda Bastos
Jornalista
Mestra em Comunicação (UFRGS) 
Editora geral da Figura de Linguagem

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