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Marlise Brenol - Espionagem, fake news e ataque: estratégias da guerra cibernética

A jornalista Marlise Viegas Brenol reflete sobre o ataque aos sistemas de comunicação como estratégia de guerra. Para a autora, "a guerra cibernética começa com a espionagem ... segue com ofensivas campanhas de desinformação ... e avança para os ataques de ruptura de estruturas de informação e comunicação". Brenol expõe o caos e pânico que este tipo de ofensiva pode provocar em uma nação e alerta que "a verdade inconveniente é que todos estamos conectados à guerra cibernética.".   

 

A guerra da Rússia contra a Ucrânia, desencadeada em fevereiro de 2022, evidencia como elemento complementar em relação a conflitos anteriores, como a invasão ao Iraque em 2003, o ataque a sites digitais e a outras tecnologias de comunicação via internet. A guerra cibernética, associada a bombardeios aéreos e tanques por terra, preocupa os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que passaram a considerá-la uma guerra híbrida. O contexto atual alça a internet a um domínio oficial de guerra, junto com a terra, o ar e o mar. Para entender a ciberguerra, eu proponho conectar três estratégias: espionagem, fake news e ataques hackers. 

O objetivo das ofensivas cibernéticas é desestabilizar o país alvo, a Ucrânia, e instalar o caos nas atividades cotidianas da população impedida de acessar os sites de governo, os aplicativos bancários ou mesmo conversar com familiares por mensagens. A falta de comunicação efetiva do governo com a população leva à desinformação e ao desamparo em condições normais de temperatura e pressão. Em uma guerra, a falta de comunicação pode determinar a desagregação militar e civil precipitando a rendição ou derrota.

A guerra cibernética, no entanto, não iniciou com a ofensiva de Vladimir Putin contra a Ucrânia. Essa guerra está avançando em silêncio há muitos anos, desde que as grandes potências passaram a fazer fortes investimentos em pesquisa e tecnologia para vencer os adversários em inteligência estratégica. O desenvolvimento da internet, como a história conta, foi patrocinado pelo Departamento de Defesa norte-americano na segunda metade do século passado. O desafio para os pesquisadores era estabelecer uma rede de comunicação descentralizada e distribuída que mantivesse a comunicação em postos avançados militares mesmo em situação de ataques a bombas. 

A internet cresceu para muito além da proposta inicial porque não funciona apenas como uma tecnologia de comunicação. As pessoas não mais acessam a internet, as pessoas vivem a internet.  Essa é a consequência da privatização do acesso em banda larga e redes móveis, da armazenagem digital de arquivos e dos negócios online. Se a vida civil e comercial trafega plenamente pelas ondas ciber, também estão no mesmo mar o cibercrime e a ciberguerra. O crime traz aquela máxima: ou você já foi vítima de golpe na internet ou ainda será. Mas este é assunto para outro texto. 

A guerra ciber requer estratégia e as táticas para alcançar os objetivos geopolíticos vêm sendo ensaiadas desde muito antes de fevereiro de 2022. Eu ilustro o meu argumento com uma retomada explicativa sobre o crescente acionamento da espionagem, das fake news e dos ataques hackers na Europa e no mundo. 

A espionagem é derivada da investigação online. A internet oferece uma série de ferramentas para investigar pessoas, empresas e comportamentos online. Há softwares para analisar comportamento de consumo em mídias sociais, dados de acesso a sites, comparativo de vendas em e-commerce, orçamentos de governos em planilhas abertas e tantas outras informações publicadas e disponíveis todos os dias por meio da “rede”, “teia”, “nuvem”, ou como queira se referir ao bom e velho “TIC”, sigla que popularizou a referência à tecnologia de informação e comunicação. 

No entanto, a investigação por softwares esbarra em informações sigilosas, de estratégia de governo em relação a questões internas nacionais ou sobre relações exteriores ou mesmo em questões de privacidade. A lei brasileira de acesso à informação, por exemplo, permite manter em sigilo informações “imprescindíveis à segurança de Estado” ou relacionada “a vida privada, honra e imagem das pessoas”. No caso de informações pessoais envolvidas, a restrição pode chegar a 100 anos. No caso de documentos de interesse público a restrição pode ser de 25 anos prorrogados por igual período. Isso significa que um inimigo pode investigar o país abertamente por meio das informações publicadas em portais de transparência, mas enfrenta barreiras para levantar informações de foro íntimo dos políticos nacionais.

A espionagem acontece quando a investigação ultrapassa as fronteiras do acesso legal à informação de um país. Os Estados Unidos, por exemplo, elaboram dossiês com informações sigilosas sobre países da Europa e da América Latina, incluindo o Brasil, como revelou a denúncia de Edward Snowden em 2013. Snowden, não por coincidência, recebeu asilo político na Rússia no mesmo ano.  O avanço do uso da internet para disseminar interesses políticos e militares teve um levante desde esse episódio. No caso em questão, do lado dos EUA, o argumento era a defesa da espionagem de Estado como estratégia, o que justificava a perseguição ao “inimigo político” Snowden. Do outro lado, estava a narrativa de defesa do hackativismo libertário que tudo invade e denuncia na terra sem lei da internet e, no espírito Robin Hood, invade ilegalmente sistemas governamentais em nome da “denúncia” de maus feitos. 

O crescente uso de narrativas, versões diferentes para um mesmo fato, introduziu no mundo dois novos vocábulos: pós-verdade e fake news. O primeiro versa sobre a ideia de que as pessoas tendem a acreditar na “narrativa” por emoção e crença, mais do que por fatos. O segundo define as estratégias políticas de espalhar na internet “falsas narrativas” ou argumentos de pós-verdade camuflados na linguagem jornalística.

As campanhas de desinformação estruturadas em fake news foram identificadas na guerra contra a Ucrânia, mas antes disso já circulavam em diversos debates públicos. Foi o caso das discussões sobre o Brexit, a saída da Inglaterra da União Europeia. e também das suspeitas de campanha russa para as eleições de Donald Trump. Trump foi um ferrenho adepto do termo “fake news” para se referir à imprensa americana de legado sempre que um veículo de mídia noticiava um fato que lhe desagradasse. Em 2016, empresas de Moscou compararam anúncios de fake news no Facebook e foram rastreadas, configurando a suspeita de interferência russa na disputa eleitoral entre Trump e Hilary Clinton. E desde então a guerra de fake news só fez acelerar. Na editoria de internacional são frequentes as notícias sobre ataques de desinformação, seja invasão a sites de empresas, governos, de mídia ou em mídias sociais. Nas notícias sobre os relatórios de inteligência americanos, muitas infrações são atribuídas originalmente à Rússia.  

As campanhas de desinformação são parte da estratégia de guerra cibernética. Na Ucrânia, em fevereiro, houve registros de fake news relacionadas ao não funcionamento de caixas eletrônicos para saque de dinheiro ou mesmo sobre a fuga do presidente Volodymyr Zelensky do país na primeira semana de conflito. Mas as ofensivas ainda mais agressivas são aquelas que desestabilizam a infraestrutura de comunicação e o tráfego de dados na internet. Este é o estágio mais avançado da guerra cibernética que a Ucrânia enfrenta em 2022. 

Os sites governamentais, os provedores de e-mails oficiais e aplicações de instituições bancárias sofreram ataques importantes que tiraram o serviço do ar. Esta tática é chamada de negação de serviço distribuído (DOS), quando uma série de pedidos de acesso simultâneos são disparados impossibilitando o servidor de responder. Os acessos são coordenados por hackers e partem de milhares de dispositivos “sequestrados” em táticas de phishing e malware (instalação de arquivos maliciosos nas máquinas), ou seja, computadores de uso comum são usados em ataques de guerra sem agência do proprietário.  

A guerra cibernética começa com a espionagem que mune de argumentações os estrategistas militares, segue com ofensivas campanhas de desinformação que provocam pânico e caos e avança para os ataques de ruptura de estruturas de informação e comunicação. Sem comunicação eficiente não há governo, não há Estado, não há nação. Eu escrevo este texto sobre o caso da Ucrânia, mas a verdade inconveniente é que todos estamos conectados à guerra cibernética. E o caminho nesta “infohighway” é só de ida. 

 

Marlise Viegas Brenol 

Jornalista, Doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS. Integrante do Núcleo de Comunicação Pública e Política (NUCOP) e do Observatório da Comunicação Pública e Política (Obcomp).

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