Foto: Maria Helena Weber

Felipe Milanez: O jornalismo legitima a violência contra os índios no Brasil

Nesta entrevista, o jornalista, ambientalista e professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) Felipe MILANEz fala sobre os conflitos ambientais do país, provocados por interesses econômicos de uma lógica de desenvolvimento predatório, e suas consequências na desumanização e violência sofridos pelos índios e comunidades tradicionais. Frente a um jornalismo que acaba por legitimar esta violência, o uso das redes socias têm sido um caminho efetivo para que estes povos denunciem, informem, mobilizem a sociedade, na defesa de seus territórios, de sua cultura, de sua existência. 

Entrevista concedida ao doutorando Marcelo Parker (Nucop/PPGCOM) em 17 de junho de 2016.

Quais são, na tua opinião, os principais conflitos ambientais existentes hoje no Brasil?

O mais triste, o mais violento, o mais brutal é a luta guarani, é a questão da grilagem de terras e o genocídio guarani no Mato Grosso do Sul. Não tem nada próximo da covardia que acontece hoje lá. Aquilo é uma expansão da soja, pecuária, terra grilada. A desumanização dos índios é uma coisa horrorosa. Eu estive lá em novembro de 2011, tinha sido assassinada uma liderança local. Disso não tinha nada na imprensa: “Ah, morreu um índio, assassinado por um pistoleiro”. Uma revolta... Fui com eles na Atiguassú, que é a assembleia guarani - que os brancos não reconhecem. Fiz um vídeo nessa reunião entrevistando várias lideranças. Duas já morreram de lá pra cá, uma na semana passada. Isto é devastador, a violência a que essas pessoas são submetidas. A última foi a Léa, que vivia numa das áreas mais violentas, com ameaças terríveis, um stress violento, chegou a ter um AVC. Acho que esse é o mais cruel de todos os conflitos que a gente tem no Brasil hoje. Agora, o conflito ambiental é um conflito de poder sobre a natureza, e o desenvolvimentismo acelerou muito esses conflitos. A corrupção aparece de um jeito que choca. Então todos estes projetos de infraestrutura se conjugam. É um conflito ecológico distributivo, uma distribuição das coisas globais. Então quando se criam essas infraestruturas é pra extrair bens ambientais. Não é a Belo Monte sozinha, são novos portos, novas estradas na região, é a duplicação da estrada de ferro Carajás, que é pra levar matéria-prima pra fora. E isso afeta muito a vida das populações indígenas, camponeses, quilombolas.

 

E o quanto o nosso modelo de jornalismo empresarial prejudica uma cobertura que foque nos problemas dessas comunidades?

O jornalismo tem muitos problemas, por essa estrutura que o liga aos interesses das elites. Vale a pena ler o Valor Econômico pra saber como eles estão se organizando pra te explorar, pra destruir a tua terra e pra te matar. Só pra isso que serve essa informação, porque o resto... Eu reflito muito sobre o papel do jornalismo em legitimar essa violência. Esse é o grande problema. Não é que o jornalismo não esteja mostrando, ele está é legitimando essa violência, o assassinato e a desumanização dessas pessoas. O que tem sido novo, interessante, é essas pessoas se insurgindo nas redes sociais, os subalternizados, os pobres da terra, os condenados da terra, os índios, os negros, as mulheres... Estão fazendo isso em blogs e em outros mecanismos pra mostrar o que está acontecendo. O que saiu na Globo sobre Belo Monte é mentira, o Tudo sobre Belo Monte da Folha é mentira. O mesmo mecanismo utilizado pra justificar o golpe é utilizado pra justificar um tipo de desenvolvimento, porque esse é só um tipo de desenvolvimento, um tipo de progresso. Um dos trabalhos jornalísticos mais ofensivos que eu vi, que passou despercebido pelas pessoas, mas me chamou muito a atenção, foi o Matopiba Tchê, um especial que a RBS fez o ano passado e que parecia uma publicação do Médici, pra não falar do Hitler. Era sobre os gaúchos que vão “civilizar” o sertão do nordeste. Aí era oeste da Bahia, Tocantins, Piauí e Maranhão. O que tem em comum nessas áreas? Um monte de gente que aprendeu a conviver com o ambiente. E a natureza está lá: caatinga, floresta e cerrado preservados. Interação com formas comuns de meio ambiente. Mas esse projeto de soja, de desenvolvimentismo... A ideia do gaúcho que está lá não é alguém que saiu do bairro Bom Fim, em Porto Alegre, e foi pra lá. Isso é um mito civilizacional, são pessoas que provavelmente tenham saído do Mato Grosso carregando o gauchismo como embranquecimento. Porque não é o gaúcho preto, pobre, do interior, é o gaúcho embranquecedor, o colonizador: “Vamos embranquecer o nordeste”. Isso eu falei na minha aula da semana passada lá no Recôncavo, aí uma aluna que é da cidade de Luís Eduardo Magalhães falou sobre a cidade dela, que é o epicentro dessa expansão da soja. E o que causa o conflito por lá? É a soja. E é o gaúcho. Porque gaúcho deixou de ser aquele que nasceu no pampa e passou a ser o preconceituoso, o civilizador. E porque a Zero Hora fez essa matéria? Ela poderia ter feito uma matéria criticando a violência que está sendo produzida lá, por esse mito. Mas não, ela enaltece o mito. Então esse gaúcho que está matando nordestinos, que está matando guaranis, ele chega aqui como um herói, ele é celebrado. É o colonialismo interno no Brasil. E a imprensa tem um papel fundamental nisso. Eu acho que eu faço um papel contra-hegemônico na Carta Capital, porque eu tento não legitimar isso. Então eu vou ouvir os índios, os negros, as mulheres. Lá no Mato Grosso do Sul teve uma fazendeira que dizia que os índios estavam sendo manipulados pra denunciar as coisas pelo facebook, porque eles não sabiam escrever. Aí eu falei pro Tonico, que é uma liderança local: “Ô Tonico, tu tá fazendo pós-doutorado mas tu não sabe escrever? Escreve um artigo pra gente publicar já que ela fala que vocês não sabem escrever”. Ele escreveu um ótimo artigo e eu coloquei na Carta Capital. Então é importante a gente não ver o jornalismo como uma vítima, mas como um agente disso. Inclusive eu acho que nas Ciências Sociais também há um grande problema, que é uma herança do elitismo das Ciências Sociais, porque ela também não se posiciona, ela também objetifica as pessoas. Os índios falam mal de jornalistas, mas também de cientistas sociais, porque eles acham que cientista social só vai na aldeia pra roubar conhecimento deles e justificar suas teses. Então são dois campos que têm esse problema, porque são feitos por brancos, da elite. 

Tu falaste antes do uso das redes sociais pelos índios. Tu achas que isso já está fazendo alguma diferença, esse uso da tecnologia pra resistir, pra se comunicar?

É um espaço de debate, de disputa. Os guaranis, os indígenas estão se apropriando muito das redes sociais. Meu facebook tem um monte de índio. Os guaranis entenderam este sistema como uma possibilidade alternativa de mídia, onde conseguiriam eles mesmos se expressar. A Atiguassú, tem denunciado os massacres via facebook. Eles conseguem atingir muita gente. Agora, o facebook também é o lugar onde o fascismo vem gritar. Fica esta disputa; o fascismo está crescendo, mas a luta também está crescendo ali, talvez esteja expondo o fascismo que não estava exposto. O fascismo não começou hoje. Os guaranis sabem o que é ser guarani no Mato Grosso do Sul e estão provocando uma reação no facebook, eles estão conseguindo expor o fascismo que emerge ali, mas ele não emerge de graça, ele já estava latente.

Qual o papel da Funai e do Estado Brasileiro?

A Funai é uma grande contradição. Eu lancei um livro ano passado sobre a história da Funai com depoimentos dos sertanistas. A Funai tem um papel muito complexo e muito contraditório. Ela passou, nos últimos anos, por reformas com as quais eu discordei, inclusive por tentar apagar um passado para construir um futuro desvinculando da história dela, que eu não acho que seja tão negativa. Tem aspectos logicamente terríveis, colonialistas, mas também uma espécie de resistência e de luta ao lado dos índios. A Funai tem muita gente comprometida, indigenistas que se inspiraram no Rondon, nos Villas-Bôas, no Chico Meireles, com a certeza de que era preciso agir dentro do Estado para defender as minorias. Agir de dentro do Estado para defender os indígenas do Estado e do avanço privado do capital. Tem muitos relatos disso na Funai, é um espaço de muita tensão. Tem a turma que entra ali para fazer só a vontade do governo, aprovar Belo Monte, outros que vão para fazer um colonialismo moderno, de se aproveitar da condição indígena para criar seu modus operandi, mas é um espaço que os indígenas dominam. Tem muito menos corrupção na Funai que em qualquer outro órgão do governo. Não que não tenha, mas os índios ficam em cima. Pelo menos o cara vai ter que distribuir com alguma elite mancomunada, alguma liderança que vai querer sacanear seu próprio povo, porque isto existe em toda sociedades, mas é difícil ter corrupção dentro da Funai. A Funai tem muita gente que está ali, como em qualquer órgão público, que foi parar lá por várias razões, sem um grande comprometimento com a causa. Mas também tem muita gente que é muito comprometida. A gente vê isso em vários órgãos, no Incra, no Ibama, tem muita gente que está lá pela ideologia de fazer a reforma agrária, de proteger o meio ambiente. Mas eu sinto que na Funai isto é mais latente pela presença e convívio com os índios. Então a Funai tem esta contradição de, por um lado, fazer parte do Estado que quer se apropriar dos territórios indígenas, colonizar, integrar, forçar uma assimilação e, por outro, ser um espaço de defesa dos indígenas. Tem muitos genocídios que foram evitados ou minimizados pela atuação direta de pessoas da Funai. E tem outros que ocorreram por omissão da Funai. Eu denunciei um deles no ano passado, no Vale do Javari. Por omissão de certos agentes da Funai foi provocado o conflito entre os Matis e os Korubo. 30% dos Korubo foram mortos, duas lideranças Matis foram mortas. E os agentes da Funai fizeram um trabalho pelo qual deveriam responder por crime de genocídio, pela omissão. Agora, houve outros funcionários lá dentro que me passaram esta informação, lutando, denunciando este absurdo que estava acontecendo. A Funai é contraditória, mas sem Funai a gente não ia nem conseguir documentar a quantidade de tragédias com nossos índios.

E organizações internacionais, como a ONU, acabam sendo a única salvação para grupos e organizações que lutam pra mudar essa situação?

Qual o papel dos organismos internacionais? Esta violência é provocada por organismos internacionais. Se não existisse o consumo massivo de soja no mundo os guaranis não estariam morrendo. Se não houvesse o consumo massivo de biodiesel os guaranis não estariam morrendo. Seu não tivesse o consumo massivo de carne não teria tido esta pecuária violenta. Isto é global.  É este sistema global que também produz, que incentiva, talvez, economicamente, a elite local brasileira a ser tão fascista e predatória. Mas, por outro lado, de certa forma os organismos internacionais pressionam quem age aqui dentro sem medo da lei. Então a ONU, a OEA podem causar esse constrangimento. O grande exemplo foram os financiamentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento dos anos 80, que foram parados pelo ativismo do Chico Mendes. O Chico Mendes conseguiu interromper o financiamento do banco pra construção de estradas na Amazônia. E isso teve um impacto direto na violência a que eles estavam submetidos. Depois ele veio inclusive a ser assassinado por essas coisas. No caso do BNDES, quais as perspectivas de uma pressão de fora? Os organismos internacionais acabam sendo a única saída pra controlar e pressionar essas grandes corporações, Monsanto, Siemens, e aí é uma questão de capacidade de grito. Porque o Brasil tem esse efeito bumerangue, grita-se fora pra coisa acontecer aqui. Acho que o caso que eu mais trabalhei mais tempo na minha vida que foi o assassinato do Zé Cláudio e da Maria, se não tivesse havido uma pressão internacional em certos momentos a coisa não teria andado aqui. Com relação à imprensa, o assassinato foi noticiado pelo Guardian. Se não tivesse saído no Guardian a Folha não teria mandado um repórter. Ele me disse isso, era um menino super bem intencionado. Eu fiquei lá por uma luta minha com a família dela. E eu publicava na Carta Capital. O funeral foi na quinta, no sábado encontraram outra pessoa assassinada. Eu denunciei isso. Aí a coisa seguiu chamando a atenção, teve um outro assassinato em Rondônia, a coisa continuou pegando fogo. Aí o Estadão teve que mandar alguém lá, foi o Daniel Bramatti, que é um jornalista gaúcho e fez uma cobertura boa. Mas isso só na semana seguinte. Saiu primeiro lá fora, o Guardian pressionou a Folha que depois acabou pressionando o Estadão. E os jornalistas que foram fizeram um bom trabalho.

Tu lembras de algum caso em que a mobilização via redes sociais tenha forçado uma cobertura?

No Mato Grosso do Sul, talvez. Os índios kaiowá estão colocando vídeos sobre o que está acontecendo lá. Se não houvesse isso, nada estaria repercutindo. Eles sabem disso. E aí é claro, entra a Survival International e outras entidades que conseguem aumentar o volume dessa voz, mas as redes sociais são fundamentais, porque eles se apropriaram delas. Eu botava coisas nas redes sociais, botava no twitter, de dentro da aldeia, ouvindo os fazendeiros dando tiro pra dentro da aldeia. Lá é todo o dia assim. Aí quando os índios começaram a fazer isso eles transformaram a cobertura. Porque eles enfrentam diretamente as mentiras, eles são muito inteligentes. E os mandurucus também, na luta contra a barragem do Tapajós. Eles fizeram blog, eles se articulam com vários mecanismos..

Esse uso da internet e das redes sociais por parte dos índios tem acontecido de quanto tempo pra cá?

Eles já vinham se articulando a um tempo, mas foi principalmente a partir da campanha do “Somos todos guarani-kaiowás”, em 2012, que eles se ligaram em botar a realidade deles. O ano passado, quando teve esse conflito no Vale do Javari, eu conversava com os matis, que estavam sendo criminalizados pela Funai no confronto com os korubo, porque eles mataram os korubo. A minha visão disso é que o problema era a intervenção do Estado, era isso que tinha provocado o conflito. Aí eu ajudei os matis, até me colocando como uma espécie de intelectual orgânico. Eu escrevia, materializava um pouco a história deles. Eles vinham pedindo uma audiência com o presidente da Funai há mais de um ano antes das mortes acontecerem, e a Funai só enrolava, porque tinha um jogo de interesses associado com ganhar dinheiro com a tragédia do Javari. Havia uma intervenção do Estado que estava sendo criticada pelos indígenas e eles tinham que comprovar o que estava acontecendo. Então eles começaram a publicar esses informes e a gente divulgava pelo mundo inteiro. Aí eles ocuparam a Funai, e as redes sociais viabilizaram isso. Tem uma agência de jornalismo, a Amazônia Real, que são duas mulheres que fazem, a Elaíse Farias e a Kátia Brasil, e elas fizeram um grande trabalho, muito próximo, ouvindo os índios. E aí caiu o presidente local da Funai e caiu o grande problema que era um afilhado do Mercadante, que estava em Brasília, que era o Carlos Travassos, coordenador de “índios isolados”, que os índios acusaram pra ONU, fizeram um dossiê e acusaram eles de racismo.

Tu tens um artigo que critica essa ideia de “índios isolados”.

O problema da ideia do “isolado” é um problema muito antigo, porque quem dá o nome é o colonizador, é quem está de fora, então todos os nomes vão ser errados. Não que as pessoas que trabalham com isso não reflitam a respeito. O problema é que, quando se começou essa política de forçar contato com os índios pra abrir terra para os projetos de desenvolvimento, se transformou numa coisa muito mais complicada, com muito financiamento, muita grana. O “índio isolado” virou um produto, porque aí tu passas a contratar a elite de antropólogos pra ir trabalhar na área, quando o problema seria o diálogo com os outros povos que vivem na região, eles é que estão sendo excluídos.  Não que não tenha que ter bons antropólogos de fora trabalhando, mas eles chegam lá num barco de 400 HP, e os matis, que estão fazendo a proteção efetiva dessa área, andam num teco-teco de 3 HP e não vão interagir muito com a proposta. Depois que eu publiquei algumas denúncias e pressionei o BNDES, teve uma reunião em abril no Rio de Janeiro e eles tiveram que levar os índios pra dialogar junto com a ONG paulista que estava gerindo a grana do BNDES. E o “isolado”, dentro dessa dinâmica global, não é “isolado” pros matis. Os matis conhecem os korubo desde sempre. Eles sabem onde está o korubo, mas sabem que uma interação muito próxima pode ser conflituosa, violenta. Então não tem como pensar essa relação sem envolver as tribos do Javari. E a minha crítica era essa: quando a Funai e a ONG CTI passam a criminalizar os matis, pra proteger o isolamento, por uma ideologia nossa. Pra proteger os korubo, os matis são maus. Nos anos 80 se falava do problema indígena, da questão indígena, e aí o Juruna matou a pau, e o Darci Ribeiro usava isso também: “nunca existiu o problema indígena, o problema sempre foi o branco”.

E quais as expectativas quanto ao governo Temer com relação aos conflitos indígenas?

Tragédia e genocídio. Até a ONU falou de atos de etnocídio. É um holocausto ecológico. Não é à toa que houve um massacre no Mato Grosso do Sul essa semana e o governo está quieto. A Dilma pelo menos se constrangia. Quando o Zé Cláudio e a Maria foram assassinados ela mandou a Polícia Federal ir lá investigar. Quando tinha assassinatos dos guarani-kaiowá a gente sabia que a presidência da Funai ia criticar, que o ministério ia criticar, a gente tinha um Ministério dos Direitos Humanos, a Maria do Rosário criticou publicamente. Nesse governo é silêncio total. É uma ordem que pode matar. Pode matar guaranis, pode matar camponês no Pará, pode matar caingangues no sul. Agora caiu o empecilho deles, então é muito preocupante. Eu tenho recebido notícias assustadoras do Mato Grosso, de amigos, de índios. Como houve uma expulsão de invasores durante o governo Dilma (por ordem judicial, porque o Cardozo relutou enquanto ele pode pra fazer essa expulsão), estava circulando um boato na cidade de que “como agora caiu a Dilma a gente pode voltar”. Invasores se armando pra invadir as terras e os índios lá, superexpostos, os funcionários da Funai, pessoas muito legais, superexpostas. Aí liga pra Polícia Federal e o celular já não atende pra ir defender. Então tem uma identificação dessas elites com esse governo que é uma coisa extremamente violenta. Fora a aprovação de projetos pra supostamente fazer crescer o país, que na verdade é pra crescer a elite, que vai arrebentar com os recursos ambientais, acelerar ainda mais a exploração, a venda, o fim de licenciamento ambiental, uma série de medidas cuja lógica é apropriar pra não dividir e massacrar todas as outras populações, indígenas, quilombolas. Tem jovens negros morrendo, aumenta a violência contra as mulheres, tem mais prostituição, mais violência doméstica.

Com relação ao que tu disseste antes, do jornalismo como legitimador destas políticas predatórias, esse papel ficou claro nas reportagens recentes sobre o fim do licenciamento ambiental. Não se verificou a preocupação de explicar minunciosamente o que isso quer dizer e quais as possíveis consequência para o meio ambiente.

Tem uma lógica determinista nisso tudo e o jornalismo ajuda a legitimar esse determinismo. É de que a única salvação é o crescimento e esse crescimento só vai ser atingido se a gente vender os recursos naturais e civilizar os incivilizados.  E é com essa lógica que ele contribui, mas não é o único. Tem a imprensa, mas também tem a justiça (muito injusta, muito elitista), tem as razões econômicas, essa hegemonia do pensamento econômico. O jornalismo contribui, ele é uma das engrenagens que fortalecem essa lógica colonial de determinismo econômico pelo crescimento. Essa ideologia de explorar os recursos e acabar com todos que se interponham no caminho, todos que têm uma relação diferente com o ambiente. Então é matar índio, matar quilombola, matar o gaúcho do campo.

Os brancos já vêm matando as civilizações indígenas há muito tempo. Estaríamos talvez vivenciando as últimas mortes destes povos ou, ao contrário, podemos pensar que hoje estes não-brancos tem mais estrutura, tem um pouco mais de voz hoje me dia?

Essa é uma pergunta complexa. Por um lado, o Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, acha que o que está acontecendo hoje no Mato Grosso e todo esse avanço das políticas neoliberais como projeto civilizacional são a consumação final do genocídio iniciado há 500 anos. Porque se teve um respiro nos anos 80, com a Constituição, agora a coisa vem para o final do genocídio. Isso tudo associado a estas mudanças globais no clima. Então, por um lado, tem sim um processo de uma ofensiva final, que é o projeto da ditadura, essa coisa do gauchismo. Porque a Zero Hora faz agora uma matéria igual a que teria feito em 70? Agora, contra esse avanço final tem as resistências e as lutas. A gente começa a ver essa imposição, tem muita coisa surgindo. Outras formas de pensar, de fazer o mundo que são muito inspiradoras. Trabalhando onde eu estou hoje não tem como não ter esperança. Às vezes 80% dos alunos são afrodescendentes, É uma turma que não está vindo a passeio, eles estão vindo pra mudar.

E qual o papel das emissoras públicas na cobertura destes conflitos?

Ah, é muito importante. Tanto das emissoras públicas quanto dos veículos alternativos. Eu citei antes o programa Amazônia Real, que faz um trabalho fantástico como só quem não tem interesses comerciais na pauta pode fazer. As emissoras públicas no Brasil ainda estão muito ligadas à ideia de governo, é preciso aperfeiçoar isso. Mas sem dúvida, mesmo do jeito que é hoje, eles já preenchem uma lacuna que a mídia empresarial não cumpre. Tem o interesse público por trás, não só no discurso, é possível enxergar isso na programação. Pode melhorar e muito, mas estes veículos são fundamentais pra democracia e pra dar voz pra populações quem não encontram este espaço na grande imprensa.

 

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31Outubro201612:37
Isabel Villela

Presenciei esse desrespeito, violência holocausto ecológico na região Oeste da Bahia - Barreiras, Santa Maria... Lamentável a conivência dos poderes públicos com os grileiros e a ineficácia da ação da justiça. Pior é que, fazendo o trabalho de formiguinha, não se sabe até quando ou como fazer frente para de fato barrar todo esse estado de coisas.

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