Foto: Janaína Gomes

Kelly Prudencio: nas redes sociais, a visibilidade não necessariamente é convertida em discutibilidade

Kelly Cristina Prudencio, doutora em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), é professora e pesquisadora no Departamento de Comunicação e no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Coordenadora do grupo de pesquisa COMPA (Comunicação e participação política), integrante do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT-DD), pesquisa atualmente as estratégias de comunicação da Nova Direita nas mídias sociais para tentar entender que tipo de interação esses perfis estabelecem com seus usuários. Em entrevista a Marcelo Parker, do Observatório da Comunicação Pública, Prudencio reflete sobre o uso das diferentes mídias sociais nas eleições presidenciais de 2018 e em outros momentos recentes da política brasileira.

 

Kelly, nós costumamos falar de atuação política em redes sociais como se fosse algo uno, mas elas têm muitas diferenças entre si.

É verdade, são estratégias diferentes. No Twitter é um tipo de perfil, no Facebooké outro e no Youtubeé outro também. O que eles têm em comum é que o engajamento político da Nova Direita através dessas ferramentas é muito grande. Alguns perfis têm milhões de seguidores. Eles atuam muito fortemente no Facebooke no Youtube, um pouco menos no Twitter. E agora estão entrando fortes no Instagram. E uma das falhas que a gente já percebe é que não vai ser possível observar, nesse momento ainda, a comunicação pelo Whatsapp.

 

Twitterfoi muito forte nos primeiros protestos de junho de 2013 e no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco. Em ambos os casos, a utilização dessa ferramenta se deu por ativistas de esquerda, mas parece que agora isso mudou e a direita também está se apropriando de mais dessa rede.

Sim. Um pouco da surpresa que a gente teve na eleição de 2018 foi porque que a gente não prestou atenção, como deveríamos, a esses perfis chamados de conservadores, de direita, de reacionários... Acho que isso é uma coisa que a gente tem que definir melhor. A gente tá chamando de Nova Direita, porque é um perfil de ativismo que não necessariamente é liberal, mas é reacionário, é contra a conquista de alguns direitos que levaram anos para serem conquistados e que estão sendo ameaçados e alguns já eliminados. O Twitter,de fato, é muito influente, mas ele tem uma forma de interação que é diferente do Facebook, por exemplo. No Twitter você consegue pescar que tipo de recurso retórico e argumentativo eles estão usando, diferentemente do Facebook,que é mais endosso e voltado para as próprias pessoas que já estão envolvidas naquela questão, que já concordam com aqueles posicionamentos. O Twitter tem uma abertura um pouco maior para posicionamentos contrários. Então isso é uma primeira diferença que a gente já pode observar.

 

Nas eleições de 2014 a gente já viu algumas pessoas se elegendo vindas desse perfil ideológico conservador. Em 2016 também. O que então aconteceu de diferente em 2018? 

Em 2018 candidatos que estavam em primeiro lugar na corrida pro Senado, por exemplo, em diversos estados, como a Dilma em Minas Gerais, o Suplicy em São Paulo, o Requião no Paraná, apareceram em terceiro no dia da eleição. Por outro lado, alguns que não apareciam nas pesquisa chegaram em primeiro lugar, com um número muito grande de votos. Então aconteceu alguma coisa na véspera das eleições, nas redes sociais, e eu destacaria o Whatsaap, que a gente não conseguiu monitorar. Ou porque não se fez nenhum tipo de monitoramento ou pela própria característica do Whatsaap, que não é público, as mensagens são privadas.

 

E como pesquisar isso?

Por enquanto, a única maneira de pesquisar isso tem sido entrar em alguns grupos e observar como isso acontece. Mas não temos recursos metodológicos ainda definidos de como fazer isso. As iniciativas pioneiras nesse sentido têm como método entrar nestes grupos e observar. Entrar ou de uma maneira camuflada ou às vezes consentida. Eu acho que a gente subestimou um pouco esse movimento de insatisfação política que já existia e foi explorado por essa Nova Direita a partir de 2013. A gente achou que algumas coisas estavam garantidas, alguns consensos estavam consolidados em relação a direitos de minorias como mulheres, LGBTs, negros. Por mais que houvesse alguma discordância, havia um consenso mais ou menos consolidado em relação a isso. E a gente viu que não, que nós voltamos a correr riscos da década de 30, principalmente na questão trabalhista, onde o ataque foi maior. Porque se você atinge os trabalhadores, você atinge diretamente outras questões não resolvidas no Brasil, como questões de gênero, de raça, de sexualidade. 

 

Tu achas que a gente pode fazer uma relação direta entre a ascensão dessas redes com um certo declínio da influência da TV? Porque o Bolsonaro tinha pouco tempo de tevê, não foi a debates e venceu.

Eu não sei em relação às eleições, mas acho que seria precipitado dizer que a televisão perdeu importância. Mesmo com toda essa disseminação da comunicação interpessoal pelas mídias sociais, eu acho que a TV ainda é muito importante. Porque tanto os ativistas de direita como os de esquerda ainda esperam o reconhecimento midiático como uma espécie de atestado de existência, de credibilidade e de importância pública que só os meios de comunicação de massa, como a TV, podem dar. Então, mesmo que algumas decisões imediatas sejam tomadas sem levar em conta essa mídia, eu acho que a televisão ainda é muito importante.

 

Tu usaste as expressões reacionáriosdireita conservadora. E o termo fascismo?De alguma maneira se aplica academicamente a esse momento político?

Eu acho que sim. Quando você pensa em um espaço democrático com conservadores e liberais, eles convivem, você pode ter uma disputa saudável entre visões políticas diferentes. Mas eu acho que, no atual cenário brasileiro, a gente perdeu o centro, os moderados. Onde foram parar os moderados? Então o moderado, em um momento de polarização, ele vai ser imediatamente colocado para um lado ou para o outro. Essas posições são legítimas e são até desejáveis em uma democracia. Mas quando a gente fala em fascismo, a gente tá falando de discursos de ódio que reivindicam a eliminação do outro, do diferente. Eu acho que isso está acontecendo em vários países. No Brasil acontece de maneira pouco raciocinada. O próprio Bolsonaro falou em um comício no Acre: “vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”. Segurando uma arma. Aí as pessoas contemporizam: “ah, mas ele jamais faria isso”. Mas é um discurso de ódio que desqualifica a existência de um grupo opositor. Isso é fascismo. Se aquele grupo opositor não merece ser considerado, então você já tem um fascismo ou, no limite, um protofascismo. 

 

Quais características que tu achas que distinguem as diferentes redes sociais? Elas agem em conjunto ou cada um na sua especificidade?

Eu acho que as duas coisas. Cada uma tem uma característica e explora um tipo de aspecto da comunicação, mas no conjunto elas produzem um resultado. Eu acho que essas eleições foram isso, o resultado de uma série de estratégias diferentes nas diferentes plataformas. O Instagram, que a gente recém começou a pesquisar com relação ao seu uso político, é muito mais ligado na celebração de algumas personalidades que já têm algum prestígio, sejam celebridades da televisão ou da própria internet, como youtubersque vão para o Instagram e fazem o que a gente chama de transmídia. Como eu disse antes, o Twittertem uma abertura maior para a discordância, embora o número de usuários seja muito menor do que o do Facebook, por exemplo. O Facebook tem se caraterizado por uma espécie de endosso, a formação das bolhas no Facebooké muito mais forte que nas outras redes. E o Youtube depende das outras redes para que os usuários cheguem até a plataforma. Então existe uma circulação de informação entre as redes que faz com que este ou aquele perfil seja mais fortalecido, tenha mais visibilidade. Nas redes sociais, a questão da visibilidade é muito problemática, porque ela não necessariamente vai ser convertida num debate, numa discussão, no que o Habermas chama de discutibilidade. A discutibilidade só acontece se houver visibilidade, mas a visibilidade não garante que vai haver discussão. Então nossa pesquisa vai tentar ver que aspectos foram explorados pra gente tentar fazer uma fotografia desse momento no Brasil. O bom seria ter o auxílio de pesquisadores de outras áreas, como a Educação e a Psicologia, pra ajudar a entender esse processo de identificação com determinadas figuras das redes sociais e a disseminação de um tipo de conteúdo que é anticiência, anti-intelectualismo, antirracional. Todo argumento racional é imediatamente desqualificado, dando voz a pessoas que agora podem falar qualquer coisa.  

 

E como tu enxergas o uso dessas redes pela esquerda no Brasil?

Antes dessa pesquisa, a gente fez outra com perfis progressistas. Não necessariamente de esquerda, mas progressistas no sentido de ampliação da esfera pública para novos atores e novas discussões, ressignificações de questões de gênero, de raça, de direitos urbanos como a mobilidade, moradia. Essas são demandas que apontam para a ampliação da democracia, para a progressão destes aspectos, por isso são progressistas. Uma das diferenças que eu percebo é que a esquerda trabalha muito mais com grupos e a direita com indivíduos. Pelo menos no Facebook, que é a plataforma que a gente mais pesquisou, é uma comunicação voltada para dentro, há pouca ampliação daquilo que a gente chama de quadro inicial da mobilização. “Essa é a nossa causa, ela é justa por causa disso e a solução é essa”. Então, nas redes sociais, é uma atuação muito definitiva. A esquerda é muito voltada pra si mesma e com uma certa apologia de uma superioridade intelectual e moral sobre a direita e outras posições. E isso acaba por gerar antipatia e impede o estabelecimento de pontos mais efetivos de influência política.

 

Marcelo Parker é doutor em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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