Marlise Brenol: A dimensão pública do fim da rádio Unisinos

A jornalista e doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS, Marlise Brenol, avalia neste texto as perdas que o encerramento das atividades da rádio da Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos) trazem para a comunicação pública e a comunidade acadêmica. Brenol, que também foi da fundação gestora da rádio, de 2015 a 2018, destaca que a Rádio Unisinos buscava promover conhecimento, divulgar a ciência, mobilizar alunos e gerar um debate público entre professores, alunos, cena cultural da região e arredores, bem como com os atores do poder público. “A dimensão pública estava em tratar dos temas de interesse público, mas também em ser do público para o qual ela existia e nela percebia valor”, afirma.  

 

No dia 04 de junho de 2019, a Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos) divulgou um comunicado oficial anunciando o início do processo de “descontinuidade da rádio Unisinos”. Foi uma derrota para a comunidade acadêmica, em especial professores e alunos dos cursos de comunicação e artes criativas que não conseguiram evidenciar o valor simbólico da operação; foi uma lástima para os ouvintes do dial 103.3 ou do digital, pois a programação genuína cooptava fãs e criava uma legião de apaixonados por cultura; foi uma triste despedida para locutores, produtores, estagiários, gestores. Mas, para além dessas perdas, está uma dimensão bem mais ampla, um papel social até então desempenhado pela rádio (e por outros veículos) que vem sendo desafiado pelo ambiente de abundância informativa: a mediação de temas de interesse público.

Há 23 anos, quando os jesuítas pleitearam e receberam do Ministério das Comunicações uma outorga de transmissão de radiodifusão no espectro de frequência modulada (FM 103.3), vivíamos casualmente o começo da popularização do acesso comercial à internet. Era um contexto no qual crescia a comunicação alternativa guiada pela corrente crítica à centralização dos meios de comunicação de grupos hegemônicos. Os jesuítas perceberam uma oportunidade de disseminar valores humanistas para os seus públicos por meio de um veículo institucional, uma rádio educativa. A rádio, ao longo dos anos, foi constituindo os seus valores sociais em consonância com os valores de uma universidade que prima pela valorização da educação, pelo respeito à diversidade, pelo amor ao próximo, pela prestação de serviço social à comunidade, sendo relevante localmente e conectada globalmente.

Pelas ondas sonoras e pela transmissão em meios digitais, a programação colocava em discussão temas sociais como educação básica, educação fundamental, educação superior. Também tratava de temas como diversidade de gênero, políticas públicas de geração de empregos e oportunidades, mercado de trabalho para as profissões. Havia um cunho de divulgação científica para os pesquisadores dos programas de pós-graduação. E havia muita conversa sobre músicos, aspectos históricos, efemérides do Jimi Joe, espaço para novas expressões de arte, música e literatura. Houve ainda um último fôlego de inovação em coberturas como da feira do livro de Porto Alegre de 2018, com uma série de podcasts sobre livros clássicos que puderam ser ouvidos no FM, no site e até em totens espalhados pelo evento. Também era um espaço para (trans)formar pessoas em jornalistas, radialistas, publicitários, comunicadores digitais, gestores e ainda valorizar novas bandas e talentos musicais, em parceria com os respectivos cursos.

Havia um sentimento de pertencimento na equipe, de paixão pelo trabalho, que tornava esses movimentos em grandes feitos, comemorados como vitórias a cada elogio do público ou dos professores da universidade. No cerne, havia o objetivo de promover conhecimento, divulgar a ciência, mobilizar alunos e gerar um debate público entre os professores, os alunos, a cena cultural da região e arredores, os atores do poder público e, mais recentemente, entre anunciantes que compartilhassem dos mesmos valores sociais e humanistas. A rádio foi bem além do dial, transbordou para teatros, seminários, festivais, festas, shows, criou o senso de comunidade. 

A rádio ocupou um espaço que uma rádio comercial não poderia ocupar porque era uma programação guiada por valores humanistas de interesse público e coletivo. Não foi uma rádio pressionada por metas de audiência, apesar de ter visto os indicadores do Ibope crescer nos últimos anos; não foi uma rádio pressionada por metas de receita, apesar de gerar receitas próprias; não foi uma rádio pressionada por ROIs, ou seja, retorno em investimentos no digital, mas gerou ações genuínas de participação e ativação por causas sociais como a campanha do Dia da Consciência Negra, no Facebook e no Instagram. Foi uma rádio guiada pela mediação de interesse público. A dimensão pública estava em tratar dos temas de interesse público, mas também em ser do público para o qual ela existia e nela percebia valor. 

O que a descontinuidade da rádio Unisinos nos ensina, entre tantas lições ao longo dos 23 anos de existência, é que é tempo de a comunicação social resgatar valores sociais e de prestação de serviço social e disseminá-los em fóruns de comunicação pública e política como eventos governamentais, industriais, empresariais, do terceiro setor. Uma rádio, um jornal, uma TV aberta tem qualidades muito além de métricas de audiência tanto enaltecidas pela abundância informativa. A fragmentação da comunicação em segmentos e mídia direcionada para um público específico provoca o risco do silenciamento do coletivo, do fim do repertório social em comum, da perda de identidade de um povo, da perda da universalidade da comunicação. A qualidade dos meios de comunicação, sejam analógicos, sejam digitais, mas produzidos por comunicadores profissionais e éticos, está em promover o debate público, acionar atores relevantes para o tema, gerar impacto em atos políticos e públicos e aprofundar a discussão. A qualidade do conteúdo determina a qualidade do debate público. 

Marlise Viegas Brenol 
Jornalista. Doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do grupo de pesquisa Núcleo de Comunicação Pública e Política (Nucop). Foi professora da Unisinos por 10 anos e presidiu a fundação gestora da rádio Unisinos, a FunpeT,  de 2015 a 2018. 

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