Maria das Graças Pinto Coelho resenha o livro Comunicação Pública e Política: Pesquisas e Práticas

Nesse texto, originalmente publicado na Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, a pesquisadora e professora Maria das Graças Pinto Coelho (UFRN) resenha o livro Comunicação Pública e Política – Pesquisas e Práticas, lançado em 2017 pela Editora Sulina e disponibilizado gratuitamente em 2019 na versão digital. Para Coelho, o livro se destaca no percurso conceitual da comunicação pública no país, demonstrando como esse conceito vem sendo aproveitado para classificar ações, discursos, produtos e a publicidade de governos, assim como para defender relações entre a sociedade, o Estado e dispositivos comunicacionais e midiáticos. 

 

Comunicação Pública e Política – Pesquisas e Práticas

Este livro-coletânea, organizado por Maria Helena Weber, Maria Pfeiffer Coelho e Carlos Locatelli, resume uma agenda de pesquisa de mais de uma década que busca entender como a comunicação pública no Brasil influencia os eventos históricos, a política, a sociedade e afeta práticas comunicacionais de longo prazo. O livro se destaca no percurso conceitual da comunicação pública no país, demonstrando como esse conceito vem sendo aproveitado para classificar ações, discursos, produtos e a publicidade de governos, assim como para defender relações entre a sociedade, o Estado e dispositivos comunicacionais e midiáticos. Os textos apresentam testes empíricos e exemplos ricos sobre as causas e as consequências da variabilidade institucional sobre o campo da Comunicação e da Política nos últimos 15 anos, o que coincide com a ampliação do debate público sobre a comunicação e seus dispositivos midiáticos que, na circulaçao dos significados, produzem e reproduzem práticas sociais. Reúne 31 artigos de 31 autores que atuam em 16 universidades brasileiras e quatro universidades do exterior. Os autores, em suas análises, apresentam resultados de teses, dissertações, trabalhos de conclusão de curso e de iniciação científica e, em suas conclusões, apontam para um eixo problematizador nas diferentes experiências epistemológicas vivenciadas: o interesse público da comunicação, ou sua função social.

O livro apresenta aspectos históricos, acontecimentos e relações da comunicação com o debate no espaço público, problematizando a realidade ao induzir explicações e respostas simples a conflitos e situações de desequilíbrio, liberdade, igualdade e justiça. Essa proposta certamente contribuirá, também, para uma distribuição mais equitativa dos saberes sobre a temática da comunicação pública e política em espaços acadêmicos de formação e pesquisa.

Apresenta aos leitores partes da revolução que ocorreu nas pesquisas em Comunicação nas duas últimas décadas, aquela que, segundo os organizadores: [...] é a pesquisa que desagrada aos poderes porque ela pode mostrar como a manipulação, o controle, o silenciamento e a repressão são exercidos. A pesquisa das áreas das ciências sociais, política e humanas é o lugar da comunicação capaz de interferir, refletir e tornar visíveis as coisas do poder (WEBER; COELHO; LOCATELLI, 2017, p.12).

Lembrando que a produção científica não circula como deveria, apesar de sofisticados repositórios, o que silencia as reflexões, mesmo inacabadas, sobre os aspectos que capturam a realidade brasileira. E muitas vezes não acontece também porque a produção acadêmica da área continua a ser editada para pequenos grupos de acadêmicos e sem a preocupação por parte de algumas redes de dar linearidade temática ao testar metodologias, debater conceitos e excluir incertezas.

O foco das pesquisas aqui apresentadas é no uso intensivo de dados e experimentos aleatórios para entender que políticas e regimes de visibilidades funcionam e quais não funcionam nas articulações entre Sociedade, Meios de Comunicação e Estado. E como os temas de interesse público mobilizam atores sociais em arenas distintas. O livro inclui temas como redes de comunicação pública. Disputas de narrativas entre grupos econômicos, instituições, grupos sociais e Estado na repercussão dos acontecimentos e normativas das políticas públicas de comunicação.

A organização da obra busca modos para identificar e analisar a comunicação pública em diferentes cenários, apontando os acontecimentos públicos que se desdobram em debates capazes de mobilizar poderes. Também destaca ações e produtos gerados por instituições que interferem na comunicação pública. A divisão proposta é de ordem funcional, mas os textos conversam entre si. A leitura tanto pode ser feita por capítulos, por temas, ou por objetos empíricos de interesse.

O primeiro capítulo, intitulado Redes e Poderes, tem por objetivo fixar e sustentar hipóteses sobre a comunicação pública na perspectiva normativa. O segundo capítulo, Acontecimentos, apresenta textos sobre acontecimentos públicos que permitem identificar o movimento mais completo do conceito de comunicação pública. Marja Pfeiffer Coelho, por exemplo, problematiza no texto “Santiagraha: a constituição de um acontecimento público”, o porquê e como estudar um acontecimento assim qualificado. A análise de uma operação da Polícia Federal sob o viés do “acontecimento público” revela muito sobre as relações entre mídia e política naquele fato histórico, mas também pode ser transposta para vários casos policiais envolvendo corrupção, política e poder, que tomaram conta da agenda pública brasileira desde 2016.

No terceiro capítulo, Debates – são identificados diferentes públicos, instituições, redes e grupos sociais mobilizados em torno de temas vitais e controversos que podem acionar debates e deliberações que envolvem a opinião pública, os media e o Estado. O quarto capítulo, Instituições – reflete sobre as práticas da comunicação pública e as disputas das narrativas que envolvem o debate possível, marcando a contradição do discurso publicitário com o do Estado sobre objetos culturais e a propaganda institucional das empresas, por exemplo. No quinto capítulo, Porto Alegre, a Experiência – foram reunidos textos, testemunhos, resultados de pesquisas, teses e dissertações que refletem as experiências de comunicação governamental do município, desenvolvidas no período da Administração Popular, o governo da Frente Popular liderada pelo Partido dos Trabalhadores entre 1989 a 2004. Neste capítulo, são analisados os sistemas de comunicação diferenciados, as estratégias e o funcionamento do monitoramento do Rádio, programa de Televisão, jornal impresso Porto Alegre Agora e a primeira experiência de Internet e o Orçamento Participativo.

Talvez um livro com esse escopo e com essa variedade de pesquisas ancoradas em múltiplas epistemes, com perguntas conceituais e recortes analíticos ao mesmo tempo simples e variados, seja pioneiro no campo da Comunicação e estes sejam os primeiros pesquisadores a traçar um retrato da comunicação pública associada às políticas públicas brasileiras com um foco em incentivos e na utilização de dados e uso intenso das análises para testar suas hipóteses, resultando em um compêndio importante para os estudos da área da Comunicação Pública e Política no país. Ele também deveria ser leitura obrigatória para qualquer pessoa interessada em entender sobre as relações da comunicação – inclusive com dispositivos interacionais - política e sociedade, em processo avançado de midiatização com a expansão da circulação de informações.

REFERÊNCIA: WEBER, M. H.; COELHO, M. P.; LOCATELLI, C. (Orgs.). Comunicação Pública: práticas e pesquisa. Porto Alegre: Insular, 2017.

Para ler ou baixar o livro gratuitamente, clique aqui

 

Maria das Graças Pinto Coelho
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia. Natal – RN, Brasil.

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