Rayane Lacerda e Francisco dos Santos: Comunicação e Imaginário no Brasil, uma obra que consolida o percurso do grupo Imaginalis

Para comemorar os 11 anos de atuação do Imaginalis – Grupo de estudos sobre comunicação e imaginário (CNPq/UFRGS), fundado por Ana Taís Martins Portanova Barros, acaba de ser publicado o livro Comunicação e Imaginário no Brasil: Contribuições do grupo Imaginalis (2008-2019). A obra, que tem acesso gratuito, foi lançada durante a edição de 2019 dos “Encontros com o Imaginário”, atividade tradicionalmente realizada pelo grupo de pesquisa e que, este ano, contou com a participação do vice-líder do grupo, o filósofo francês Jean-Jacques Wunenburger (Université Jean Moulin Lyon 3, França). Wunenburger esteve no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS para o lançamento do livro e para ministrar o seminário L’Imaginaire, Méthodes, Langages et Fonctions. Neste texto exclusivo para o Observatório da Comunicação Pública, Rayane Lacerda e Francisco dos Santos, integrantes do Imaginalis, apresentam a obra capítulo a capítulo e apontam sua contribuição para o campo de pesquisa da Comunicação.


O livro-coletânea Comunicação e Imaginário no Brasil: Contribuições do grupo Imaginalis (2008-2019), organizado por Anelise Angeli De Carli e Ana Taís Martins Portanova Barros, reúne 11 capítulos com autoria de membros atuais e egressos do grupo de pesquisa que discutem fenômenos e produtos comunicacionais e culturais a partir das suas dimensões simbólicas, arquetípicas e míticas. O Imaginalis é um dos grupos de pesquisa pioneiros no Brasil a trabalhar na interface dos estudos da Comunicação com a perspectiva arquetipológica da teoria do imaginário, tendo como base principal a vertente durandiana, mas considerando também orientações teóricas de Gaston Bachelard, Mircea Eliade, Carl Gustav Jung dentre outros.

O primeiro capítulo, de autoria de Jean-Jacques Wunenburger, analisa a origem e o subsolo simbólico das imagens, apresentando uma terceira possibilidade para pensar o que seriam elas para além das formas convencionais de explicação como o conceito e a representação visual. Em A árvore de imagens, o autor propõe a metáfora da árvore para mostrar a existência de três diferentes níveis de imagens: a imageria, o imaginário e o imaginal. 

Ana Taís Martins Portanova Barros, em Comunicação e Imaginário: uma heurística, indica as principais noções da teoria que tornam os estudos do imaginário capazes de também analisar produções comunicacionais. Além de propor um debate entre os diferentes autores referenciais da perspectiva, o segundo capítulo também aborda questões metodológicas e as consequências epistemológicas de alguns termos bastante disseminados como símbolo e imagem simbólica.

O terceiro capítulo, El ojo de Dios: conectados y vigiados, de Eduardo Vizer e Helenice Carvalho, tem como pano de fundo o desenvolvimento das tecnologias de  comunicação e informação, especialmente em relação aos vínculos dos sujeitos com os aparelhos de captação e transmissão de imagens. Amparado pelo paradigma da complexidade mas também pelos estudos do imaginário, o trabalho faz um paralelo entre o uso das câmeras em nossa cultura e o olhar do Deus criador sobre os homens.

Diferenças imagéticas: técnica e símbolo no contexto comunicacional, escrito em conjunto por Eduardo Portanova Barros, Anelise De Carli e Danilo Fantinel, distingue imagem técnica e imagem simbólica, noções que não carregam necessariamente uma proximidade. Ao preocupar-se com essa diferenciação, o quarto capítulo apresenta argumentos de autores como Edgar Morin, a partir do seu “paradigma da complexidade”, e Gaston Bachelard, com os seus escritos sobre a imaginação material. Ana Taís Martins Portanova Barros e Aline Duvoisin seguem a mesma linha exploratória no capítulo seguinte, intitulado Acerca do valor simbólico das imagens técnicas, no qual discutem os limites que a imagem técnica é capaz de impor à catalisação da imagem simbólica.

No sexto capítulo, Da selfie ao mito, Anelise De Carli e Renata Lohmann discorrem acerca das práticas contemporâneas de um tipo específico de autorretrato, a selfie. A reflexão se ancora nas discussões acerca da concepção de imagem desde seu contexto mítico até as percepções contemporâneas, bem como o entendimento sobre a relação do ser humano consigo mesmo, suas projeções e concepções de nível psicológico e antropológico.

A dicotomia entre sagrado e profano, expressa a partir de nossa cultura cercada pelas telas e imagens, sustenta o cenário do capítulo Telas, portais para profanações e sacralizações, de Ana Taís Martins Portanova Barros e Michel de Oliveira. A partir de uma reflexão sobre as relações das imagens e com o sagrado e a produção cultural contemporânea, os autores estudam a manifestação dos mitos gregos em um produto cinematográfico hollywoodiano. 

Imaginário e propaganda: de que imagens estamos falando? é o título do oitavo capítulo, assinado por Francisco dos Santos e Annelena Silva da Luz. Neste texto, o foco está no campo da Publicidade, que usualmente se utiliza de símbolos e narrativas míticas em seus produtos. Problematizando os sinônimos do termo “imagem”, os autores discutem o cenário midiático atual e as mudanças mercadológicas, propondo possíveis resultados dessas práticas para o nível simbólico da sociedade.
Andriolli de Brites da Costa assina o capítulo Imagens de um jornalismo sem jornalistas: a reportagem algorítmica à luz da Teoria do Imaginário. Ao observar o campo da produção jornalística cada vez mais povoado pelas tecnologias digitais, o autor discute as questões simbólicas envolvendo o uso de algoritmos e robôs para a redação de textos em grandes veículos de imprensa.

No capítulo dez, denominado Do documentário histórico ao imaginário antropológico do regime militar brasileiro: uma leitura simbólica sobre o golpe de 1964, voltamos com Danilo Fantinel e Eduardo Portanova Barros, agora analisando aspectos de um contexto histórico brasileiro com grande impacto social, político e cultural e com pronunciadas origens simbólicas. Além disso, o texto aborda os ecos cinematográficos desse acontecimento. 

No último e 11º capítulo, Rayane Lacerda e Ana Taís Martins Portanova Barros discutem as possibilidades poéticas nas imagens técnicas de Cláudia Andujar, fotógrafa que ficou conhecida pelo seu trabalho junto ao povo Yanomami. Abordando contextos da narrativa fotográfica, das questões ambientais e da luta indígena, o texto intitulado A poética de Cláudia Andujar: um paralelo político-ambiental entre arte, fotografia e natureza faz uma análise de quatro fotografias com a intenção de explorar o olhar feminino.

Por fim, o livro mostra as possibilidades plurais de abordagem a partir da perspectiva do imaginário. Ao tratar o imaginário não somente como uma temática, mas também como um ponto de vista, os trabalhos do grupo Imaginalis, ao longo da última década, ajudam a redimensionar os objetos de pesquisa do campo da Comunicação, contribuindo para o avanço tanto dos estudos do simbólico quando dos fenômenos comunicacionais.

 

REFERÊNCIA: DE CARLI, Anelise Angeli; BARROS, Ana Taís Martins Portanova (Orgs). Comunicação e Imaginário no Brasil: Contribuições do grupo Imaginalis (2008-2019). Porto Alegre: Editora Imaginalis, 2019.

Para fazer download gratuito da obra, clique aqui.

 

Francisco dos Santos 
Doutor e Mestre em Comunicação e Informação, Bacharel em Publicidade e Propaganda pela UFRGS. Professor e Coordenador do Núcleo de Publicidade e Propaganda da Agência Experimental da Faculdade de Comunicação Social do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter) em Porto Alegre. 

Rayane Lacerda
Mestranda em Comunicação pela UFRGS e Bacharela em Jornalismo pela UFPel.

 

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