Foto: Yamini Benites

Demétrio Moreira e Gabriela Seixa: AFRONTA - sobre negritude e universidade

Representatividade racial vai além da política de cotas nas universidades públicas, como atesta a experiência do grupo AFRONTA, criado na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os alunos Demétrio Moreira e Gabriela Seixa relatam a formação do movimento, que propõe o debate sobre a negritude no ambiente universitário. 

 

AFRONTA - Desestabilizando uma faculdade de comunicação

Quando pensamos em ensino superior no Brasil, é natural associarmos uma imagem de espaços embranquecidos de classe média, como as propagandas de cursinhos particulares espalhadas nos outdoors das cidades.

Desde 2001, foram implementadas no Brasil as políticas de cotas dentro das universidades públicas; como ocorreu nos EUA, hoje a maioria das universidades federais brasileiras possui essa ação afirmativa a fim de minimizar as diversas diferenças pela oportunidade de acesso ao ensino superior. 

Este ano (2016), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, após muita pressão do movimento negro juntamente com os mais diversos movimentos sociais, instituiu 50% (cinquenta por cento) de acesso ao ensino superior público por meio de cotas, divididas entre cotas raciais e sociais.  

Assim como em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, no Rio Grande do Sul os corpos negros e não-brancos começam a chegar nesse espaço de “luz”, antes acessado por apenas uma parte da população.  No processo dos variados “choques” – culturais, sociais, educacionais – aos quais os alunos negros e não-brancos são submetidos, fica apenas a constatação dos que vivem a realidade de ser cotista: a universidade não está preparada para receber estudantes negros/as, pois é formada por e para um ideal eurocêntrico. 

Como pauta da atual agenda pública, o debate em torno das cotas raciais é revisitado sempre com as mais diversas opiniões, perturbando o privilégio daqueles que são contra e provocando a defesa daqueles que acessam as cotas para um ensino de qualidade e gratuito. 

Tradicionalmente na UFRGS, os cursos semestrais recebem por ano duas turmas de calouros: 1º e 2º semestre, dividindo-os entre não-cotistas (1º semestre) e cotistas (2ºsemestre). Nesse sentido, é comum ver os poucos grupos de estudantes negros reunidos pelo campus da universidade formado nos ritos iniciais como os trotes, festas, grupos virtuais e etc. A forma desse ingresso na Universidade é feita em uma nítida delimitação do lugar dessas diferentes identidades (negros, indígenas, pobres), reproduzindo a lógica do acesso ao espaço como nas antigas Casas-Grandes dos Senhores, onde era permitida a entrada de uma minoria negra e somente pela porta dos fundos, no caso os cotistas do 2ºsemestre.

Nas atividades organizadas pelos alunos ou diretórios, notou-se a falta de representatividade para com os alunos negros livre de discursos partidários e que contemplasse o debate racial em todas suas esferas. No ano de 2014 foi criado o GRITARAM-ME NEGRA primeira agenda de atividades negras dentro da FABICO elaborada em conjunto com diversos diretórios acadêmicos no mês de novembro, com chamada principal para a Marcha Contra o Genocídio da População Negra. 

Com a mudança da organização e o desejo de tornar o evento um projeto que se estendesse ao longo dos anos dentro da faculdade, o AFRONTA surgiu em 2015 como um movimento “afropensante” que propôs atividades que dessem maior visibilidade à cultura negra ocorrendo dentro da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação: exposição de fotos virtuais, exposição no foto-varal, oficina de música, feira preta, show de hip-hop, além das mesas de debate sobre feminismo negro, saúde da população negra, violência e genocídio da juventude negra e relatos de vivência. 

O “Nós por nós” concretizou-se quando os recursos, convidados e espaços foram geridos pelos próprios estudantes interessados, sem o apoio da direção da unidade. Os cinco alunos responsáveis pela organização do AFRONTA, além da falta de recursos tiveram que lidar também com a falta de interesse dos colegas, estes futuros comunicadores, mas que não estão preparados e tão pouco interessados na realidade em que nós, negras e negros estamos inseridos, tanto na sociedade quanto na universidade.          

Hoje, na FABICO/UFRGS, não existem professores negros, tampouco cadeiras que contemplem a negritude como instrumento de reflexão na Comunicação Social.   O AFRONTA nasce para fazer barulho, afrontar, provocar e reafirmar a negritude em um espaço sem representatividade racial para aqueles que estão presentes, e para os que estão por vir. 

Demétrio Moreira e Gabriela Seixas
Estudantes do 6º semestre de Relações Públicas (FABICO/ UFRGS)

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08Março201618:22
OBCOMP

Tainá,
O grupo mantém perfil no Facebook: https://www.facebook.com/AfrontaFabico/?fref=nf

22Fevereiro201612:40
Tainá de Oliveira Piñeiro

Muito boa a iniciativa, principalmente num espaço tão embranquecido como o meio acadêmico da UFRGS. Onde o grupo divulga atividades e interações? Tô interessada.

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