Marlise Brenol: O público e o privado no jornalismo do Vortex

Nesse texto exclusivo para o Observatório da Comunicação Pública, a jornalista e doutora em Comunicação e Informação Marlise Brenol analisa as circunstâncias que envolvem o anúncio do fechamento da redação do veículo de iniciativa digital Vortex em São Paulo e a demissão de 11 jornalistas da equipe de jornalismo de dados ocorridos em dezembro de 2019, pouco mais de seis meses depois da sua criação. Brenol aponta conflitos entre interesse público e interesses privados no financiamento da iniciativa, inicialmente não declarado no manifesto de criação. Para a autora, enquanto Vortex se apresentou com roupa pós-moderna, exprime uma mentalidade é pré-industrial, pois o discurso da transparência esbarra na opacidade do seu modelo de negócio.  

 

Na primeira semana de dezembro de 2019 houve o anúncio do fechamento da redação do Vortex em São Paulo. Diretor-geral e fundador, Diego Escosteguy anunciou a demissão de 11 jornalistas da equipe de jornalismo de dados. O veículo de iniciativa digital foi inaugurado em maio com a promessa de “uma nova imprensa para um novo Brasil”, plantando esperança de “um modelo inovador”. Alguns meses depois, o veículo surpreende com a falta de transparência sobre a origem do financiamento inicial da redação da Vortex e provoca um mal-estar no mercado de comunicação colhendo demissões e desconfiança. 

Os veículos de comunicação antes da era industrial do século XX estiveram vinculados a comerciantes e políticos. Os jornais publicavam aquilo que os mercantes queriam vender ou anunciar, bem como negociavam espaços para partidos políticos publicarem as suas “notícias”. Antes da profissionalização do jornalista, os redatores escreviam para quem pagava pelo texto. O texto em si deixou de ser um produto à venda com a industrialização e a profissionalização, sendo a mídia um jogo de poder e os espaços de interrupção do jornalismo e do entretenimento comprados ao custo da lógica da oferta e da demanda. Os redatores passaram a vislumbrar que o interesse do comerciante e do político nem sempre era o interesse público e do público. O potencial de audiência criava uma nova dinâmica que separava interesses: do Estado, do público, do anunciante, do dono do jornal. A penny press, imprensa barata e de ampla circulação, o rádio e a televisão criaram a escala de alcance das notícias estabelecendo o que hoje chamamos de comunicação de massa. O rádio e a televisão, como veículos de penetração nos lares, implementaram as operações na lógica que separa o interesse da audiência e o interesse do anunciante. Era um período em que havia escassez de canais para publicar “notícias” e veicular “propaganda”, e as duas formas de comunicação foram separadas em blocos de conteúdo e de comerciais, reservando ainda espaços para entretenimento e educação. Nesse tempo, criaram-se nas universidades as faculdades de jornalismo, as quais formavam profissionais jornalistas com responsabilidade ética com as premissas de interesse público, do humanismo, da fiscalização do poder.

É o legado da profissionalização do jornalismo industrial que é acionado pelo jornalista Diego Escosteguy e pelo Vortex Media ao afirmar que o veículo “alia independência, imparcialidade, rigor, espírito crítico e equilíbrio na busca dos fatos de interesse público com transparência radical de métodos e intenções”. A Vortex se insere em um cenário no qual existe uma abundância informativa e comunicativa, no qual as marcas e corporações não tem como única opção de comunicação a compra de espaços comerciais em veículos jornalísticos. Aquelas corporações que compram publicidade e anúncios acreditam no ecossistema de comunicação, se associam aos valores sociais e democráticos de uma empresa de mídia. A Vortex se apresentou com roupa pós-moderna, mas mentalidade pré-industrial. Traz o discurso da transparência no sentido de se deixar ver em métodos e intenções, porém se mostra opaca no modelo de transparência do negócio. Assume premissas que são da mídia de massa como financiamento por assinaturas e “aceitar anúncios de empresas privadas” desde que sem influência no editorial. Inova talvez no bloqueio de anúncios de órgãos públicos, o que para um veículo jornalístico é um contrassenso, pois não permite à comunicação de Estado ocupar o seu lugar de fala pago no espaço no qual o Estado é sistematicamente falado em pautas editoriais. Independente do mérito do equilíbrio editorial do ponto e contraponto, há uma arrogância que fere a natureza democrática da imprensa livre.

O fato é que havia investidores por trás da Vortex Media, inclusive investidores estrangeiros, e essa informação não estava no texto do Manifesto, nem no texto de apresentação da equipe e tampouco nos termos de uso e privacidade da iniciativa digital. Esse “detalhe” de dimensão absolutamente privada de uma iniciativa dita de interesse público esteve na opacidade do discurso de comunicação do novo veículo. O diretor e fundador do jornal se viu obrigado a expor o “detalhe” publicamente diante da repercussão negativa das demissões nas mídias sociais, com um post de um dos funcionários demitidos no Twitter.

Em resposta, Diego Escosteguy, também pelo Twitter, afirma que a empresa dele teve uma “divergência com investidores estrangeiros” sobre a qual ele não poderia fornecer explicações em função de uma cláusula de confidencialidade. Na conversa pública na mídia social, o jornalista ainda explicou que a empresa dele está registrada na Flórida. A operação em Brasília segue com uma nuvem de desconfiança pairando sobre a Vortex Media. 

O nosso tempo tem desafios importantes para a comunicação pública diante da diluição de discursos em espaços digitais, excesso de informação, de conteúdo, de comunicação. Justamente nesse cenário, o jornalismo de qualidade efetivamente transparente e relevante para o seu público tende a se destacar. Pode parecer um discurso ingênuo e apaixonado, mas ele está baseado na observação da nossa experiência. Portanto, para encerrar esse texto com um sopro de esperança, quero ilustrar com uma experiência digital que completa uma década nos Estados Unidos. O veículo foi constituído com a crença de que o bom jornalismo tem suporte da comunidade na qual está inserido. A equipe produz jornalismo de interesse público e busca apoio de marcas que acreditam no valor do produto, no potencial do debate público. Esse é o modelo do Texas Tribune. No portal do veículo de cunho local está aberta a planilha com os nomes e as quantias de todos os membros (assinantes), doadores (pessoas físicas que doam quantias mais altas que a assinatura) e patrocinadores corporativos.

O Texas Tribune funciona em outro contexto, outro país, outra cultura e, principalmente, outra realidade econômica. Independente dessa fórmula ter condições de ser repetida no Brasil, o jornal é um espelho da transparência em financiamento. Quem lê e assina o jornal sabe quem mantém o negócio, em que condições e pode até supor com que interesses.  É um jogo de poder com regras claras. Por certo, o Texas Tribune pode ser acusado de conflito de interesse em relação a patrocinadores, mas não poderá ser acusado de esconder o jogo. 

 

Marlise Viegas Brenol 
Jornalista. Doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do grupo de pesquisa Núcleo de Comunicação Pública e Política (Nucop). 

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